Sangue quente.
49 Traumas.
Notas iniciais

Sephiron...
Eu estava em um enorme campo, com uma mistura exótica de plantas e animais. O lugar tinha cara de fazenda, com plantações de trigo, soja, entre outros grãos e também possuía árvores frutíferas como as lindas macieiras e laranjeiras que estavam plantadas por toda parte. Lá também tinha animais de fazenda como ovelhas, cavalos, galinhas e porcos... diga-se de passagem que era impressionante ver esses bichos de perto.
Esse lugar era claramente uma fazenda, mas também tinha cara de floresta e jardim ao mesmo tempo. Alguns lugares tinham árvores densas que você só veria em florestas muito antigas. E alguns pontos era um verdadeiro jardim do Éden, com rosas, margaridas, petúnias e muitas, mas muitas hortênsias mesmo.
O lugar era muito lindo mesmo, tudo aquilo estava misturado de uma forma estranha e não natural, mas que deixava o lugar realmente belíssimo e raro.
Esse lugar era a fazenda de Kiel, que fez tudo isso em memória de Ren, seu amado mestiço que morreu. Kiel colocou aqui tudo o que queria mostrar ao Ren e isso só tornava o lugar ainda mais exótico, calmo e cheio de significado.
Atualmente essa fazenda é um refúgio de milhares de mestiços. Nem o próprio Kiel sabe mais quantos mestiços vivem soltos em sua fazenda, Kiel apenas os liberta e os deixa viver.
Mas é claro que Kiel não os abandonou a própria sorte. Ele tem plantações e animais na fazenda justamente para alimentar essa cambada. Sem falar que vários vampiros que foram salvos por Kiel na guerra, agora o apoiam e doam dinheiro ou comida para ajuda-lo a manter os mestiços.
Os mestiços por sua vez já estão aprendendo como as coisas funcionam na fazenda. Eles sabem que podem andar livremente por aí, mas que não podem passar da cerca, pois o mundo lá fora ainda é perigoso para um mestiço.
Às vezes algum vampiro louco invade a fazenda e tenta capturar um mestiço para se alimentar, mas é quase sempre detido pelos ex-guerrilheiros de Kiel, que agora trabalham aqui em prol da vida dos mestiços.
Os mestiços também já aprenderam que quando o sino toca é porque está na hora do rango. A comida é servida quatro vezes por dia e possui um cardápio variado ao qual Ian ajudou a montar.
Os mestiços recém-chegados acabam aprendendo o que se deve fazer com os mestiços que estão aqui há mais tempo.
Kiel também transformou os celeiros em alojamentos confortáveis para que os mestiços não durmam ao relento, mas a maioria deles prefere dormir do lado de fora mesmo, sobre grama, olhando as estrelas. Acho que é porque eles viveram a vida toda presos em laboratórios, eu também ia querer aproveitar a liberdade ao máximo se fosse eles.
E já que a fazenda de Kiel era enorme de grande, ele decidiu instalar em pontos estratégicos vários bebedouros, assim os mestiços que estavam começando a tomar coragem de ir mais longe, aproveitando os vários hectares de liberdade e explorando a natureza ao seu redor, não ficariam com sede.
Eu estava ajudando Kiel a instalar um bebedouro desses que mais parecia um barril de metal cortado ao meio.
—“Valeu novamente por nos deixar ficar aqui até a minha nova casa ficar pronta.” Sorri para Kiel enquanto o ajudava a descarregar um bebedouro da caminhonete.
—“Não precisa agradecer, estou feliz de ter você aqui comigo... Ver você com o Ian e seus filhos me faz imaginar como seria se Ren estivesse aqui comigo hoje.” A expressão de Kiel desmoronou um pouco, droga... eu o deixei triste, ele estava sorrindo e cantarolando agora há pouco.
—“...” Baixei a cabeça sem saber o que dizer. Fiquei me imaginando na mesma situação que ele, com o Ian morto e isso me deu calafrios. Não posso deixar de sentir empatia por Kiel... nós somos muito parecidos.
—“Mas sabe... vocês não precisam ir embora... vocês poderiam ficar aqui na fazenda comigo, poderiam me ajudar a tornar essa fazenda no lugar perfeito para receber mais e mais mestiços.” Kiel voltou a sorrir e me olhou cheio de esperanças.
—“Eu adoraria ajudar mas... eu quero ter minha própria casa e eu queria dar ao Ian um refúgio tranquilo próximo ao mar, entende?” Tentei dizer não da forma mais educada possível. Não é que eu não queira ficar aqui e ajudar... é que eu gostaria de ter um pouco de paz com Ian e as crianças em um lugar longe dessa loucura toda. Afinal, Ian precisa e merece ter um pouco de paz e tranquilidade agora. O coitado ainda tem pesadelos com Uriel, Ian está tão mau que eu não consigo nem pensar em tocar nele agora... até porque eu consigo entender o que ele está sentido, eu passei o mesmo naquela festa.
—“Entendo... O mar é para o seu mestiço como jardim era para o Ren... Eu compreendo e eu sei que você quer ter um pouco de privacidade com a sua família.” Kiel deu uma batidinha no meu ombro. Estranho o quanto nós dois já estávamos nos dando bem, estamos aqui há mais ou menos cinco semanas, mas parece muito mais tempo.
—“Bom, pelo menos minha nova casa é aqui perto e não lá do outro lado do país, então se precisar de mim... é só chamar.” Sorri pra ele deixando claro que eu estava falando sério, se alguma coisa acontecesse com esse lugar, eu não mediria esforços para ajudar.
E como eu disse, minha nova casa é aqui perto. Eu até pensei em voltar para a minha casa de campo e reconstruí-la, mas... Ian foi sequestrado lá, acho que aquele lugar não traria boas lembranças pra ninguém. Então preferi procurar um lugar novo e isolado, próximo ao mar, mas ao mesmo tempo perto de Kiel, que no momento é o único com quem posso contar caso Ian venha precisar de ajuda.
—“Pode deixar que eu vou te chamar sim... Bem, na verdade...” Kiel ficou sério e me olhou de forma estranha.
—“O quê?” O encarei de volta.
—“Estou pensando em me candidatar a presidente... estava pensando se você não quer ser o meu vice.” Kiel falou tão sério que por um minuto eu congelei no lugar, isso foi tão de repente... Nossa!
—“...” Eu realmente não sabia o que dizer, eu nunca almejei um cargo desses, eu nem sequer sonhei em estar em um cargo desses... sem falar que depois do trauma que passei por desejar ser um Conde, eu nunca mais desejei ser mais nada além de um simples investidor... que era algo que eu sempre fiz bem.
—“...” Kiel me olhava fixamente, esperando uma resposta. Mas eu não sabia mesmo o que fazer... Depois que Uriel morreu, o país pirou, tinha gente tentando se tornar o novo imperador na base da força e da grana, mas os planos deles foram por ralo à baixo quando o povo começou a se unir exigindo a volta da democracia.
—“Mas e o Grifh?” Questionei quando lembrei que Grifh era o homem de maior confiança de Kiel, eu estava acostumado a ver os dois sempre juntos, pareciam uma única entidade ou coisa do tipo.
—“Já perguntei pra ele, mas ele não quer se meter com esse povo corrupto da política, ele está mais feliz aqui, onde cuida de seres inocentes.” Kiel sorriu de leve ao falar de Grifh... será que esses dois estão juntos?... Não, Kiel ainda ama muito o falecido Ren para deixar Grifh entrar em seu coração dessa forma... Talvez os dois sejam mais como irmãos.
—“Entendo... mas...” Cocei a cabeça, estava começando a me sentido pressionado contra a parede.
—“Olha... eu tenho total apoio das classes baixas e médias da capital. E também fiquei sabendo que pelo país a fora eu sou tipo um herói da Tv... então eu tenho grandes chances de vencer. Os únicos que não me apoiam são os Condes, é claro... Tudo porque eu não sou nobre e ainda por cima quero acabar com esse status de Conde e banir a escravidão e as rinhas pra sempre.” Kiel falou de forma firme e assertiva.
—“Não nego que você tem muita chance de vencer... a maioria do povo é pobre e está cansando de ter gente do naipe dos Condes mandando nesse lugar, mas... eu não sei se quero fazer parte disso.” Dei um passo atrás, eu realmente não queria me meter em política, eu não sou o cara certo pra isso... eu não tenho a menor ideia do que eu faria nesse cargo... e se isso subisse a minha cabeça e eu voltasse a ser esnobe?
—“Porque não?” Kiel me questionou.
—“Eu não me vejo fazendo as decisões certas para mudar esse mundo... E na verdade eu queria ter uma vida sossegada com o Ian e as crianças... eu não quero morar na Capital... aquele lugar é um nojo.” Falei meus motivos pensando calmamente no que fazer.
—“Você não se vê fazendo as escolhas certas? Fala sério, você tomou todas as escolhas certas com Ian, você não arrancou as presas dele, você o protegeu e fugiu com ele, você...” Ele ia seguir falando, mas eu o interrompi.
—“Eu não tomei essas decisões por ser bom... eu só não arranquei as presas do Ian porque estava louco pra ir pra casa fode-lo de uma vez... E também eu queria sentir o perigo de ser mordido por ele... Entende? Não foi por pena ou por pensar no melhor pra ele... pare de me ver como um cara certo, pois eu não sou.” Falei meio irritado, odeio quando Kiel me coloca num pedestal, ele me vê como alguém que eu não sou.
—“Tá eu sei... mas eu também cometi erros na minha vida e também não sou o cara mais certo desse mundo. Eu também não sei se farei as escolhas certas pra mudar as coisas, mas... não existe uma fórmula para isso, vamos ter que arriscar e ver o que dá certo.” Kiel estufou o peito para dizer isso.
—“...” Fiquei em silêncio.
—“E Você não precisaria morar na capital, sua nova casa fica à uma hora de carro de lá, você só teria de aguentar ir e voltar todas as noites.” Kiel já estava com tudo planejado na sua cabeça, droga!
—“É mas... eu teria de deixar o Ian sozinho e...” Eu realmente não quero fazer parte disso... eu não quero ficar longe do Ian nunca mais... ir para a Capital todos as noites está fora de cogitação.
—“Você não quer mudar esse país? Você não quer dar ao Ian uma vida descente, onde ele possa sair na rua sozinho sem ser tratado como um animal que só serve como comida e diversão, hein?” Kiel agora estava ficando um pouco irritado.
—“Quero mas...” Senti meu estômago afunda.
—“Então faça algo... Pois ficar sentado em casa, aproveitando a vidinha em família não vai mudar nada.” Kiel rebateu firme.
—“...” Eu sei que ele está certo, mas eu tenho medo.
—“Apenas pense na proposta, ok?” Kiel respirou fundo para se acalmar.
—“Ok... mas... Você tem certeza de que quer irritar os Condes desse jeito? Você sabe que se você vencer e abolir a escravidão e apagar esse título de Conde da história... você vai criar muitos inimigos poderosos... você não sabe do que eles são capazes...” Por um minuto temi pela vida de Kiel e do pequeno Ren II.
—“Sim, eu sei...” Kiel ficou sério.
—“Não, não sabe...” Rebati de volta, Kiel tem que entender que os Condes são perigosos.
—“Você se refere à festa? É isso?” Kiel falou calmo, meu corpo gelou completamente quando ouvi isso sair da boca dele.
—“...” Abri a boca inúmeras vezes procurando as palavras certas, mas eu não conseguia verbalizar a pergunta... Como você sabe sobre aquilo? Quem te contou?... Droga, quem mais sabe sobre o que eu passei?
—“Eu passei pelo mesmo... acredite, isso quase me destruiu... mas eu não posso viver com medo deles pra sempre, eu tenho que enfrenta-los para impedir que eles façam isso de novo com outro desavisado por aí.” Kiel parecia tão corajoso falando isso... como ele conseguia?
—“Você... você também passou por aquilo?” Um baque me atingiu quando percebi que ele era realmente igual a mim, eu pensei que ele soubesse sobre mim por fofocas ou coisa do tipo e não porque ele também foi vítima.
—“...” Kiel baixou a cabeça com pesar.
—“E mesmo assim... você ainda quer seguir com essa ideia?... Tudo bem, eu entendo, mas eu não consigo, eu não posso...” Dei mais um passo atrás, eu ainda não consigo mexer com o passado.
—“Oh, pelo visto você ficou mais traumatizado do que eu com isso... Céus eu não esperava por essa.” O olhar de pena que Kiel dirigiu a mim quase me deu raiva, mas eu lembrei que ele sabia muito bem o que eu estava sentido, ele não estava apenas sendo hipócrita, ele estava sendo solidário. Se uma pessoa que nunca passou por isso me olhasse assim, eu não ia aguentar a vontade de gritar com essa pessoa.
—“Como pode não ter medo? Como você se livrou do medo?” O olhei em desespero, eu queria tanto vencer esse trauma, eu estava tentando fazer isso há tanto tempo.
—“Carregamos as mesmas marcas do passado Sephiron, viemos da sarjeta e almejamos mais do que podíamos ter... e assim como Ícaro, nós queimamos nossas asas de cera com o sol e caímos.” Kiel suspirou ao se encostar na picape.
—“...” O olhei sem entender muito bem do que ele falava... quem é Ícaro? Que asas de cera?
—“Mas eu não vou ficar caído no chão chorando como um fraco, eu vou me levantar e devolver na mesma moeda... Bem, quer dizer... não na mesma moeda propriamente dita... Não quero nem mesmo tocar em um Conde, mas... você entendeu.” Kiel estremeceu só de pensar na ideia.
—“Você é forte Kiel... eu ainda sou fraco... ainda tenho medo... Mas prometo que vou pensar na sua proposta.” Suspirei finalmente entendendo o que ele estava falando, eu não podia ficar no chão chorando, eu tinha que me levantar.
—“Assim eu espero... amigo.” Kiel colocou a mão no meu ombro e sorriu.
Depois de instalarmos mais dois bebedouros, voltamos para a casa de Kiel, ela ficava na entrada da fazenda e era enorme.
Assim que entramos na sala o caos se fez presente.
—“Me deixa pegar ele um pouco Tata, deixa, deixa...” Sophia corria em volta das pernas de Ian, saltando feito um coelho para tentar pegar o bebê que Ian segurava.
—“Sophia... para quieta menina, você está me deixando tonto...” Ian resmungou pra ela enquanto tentava acalmar Ren II, o filho de Kiel nos braços, o bebê estava aos berros e esperneava como se quisesse sair correndo por aí.
-“Ai... para...” Leonard reclamou quando Sebastian o beliscou, então ele o beliscou de volta. Os dois estavam sentados no sofá, lado a lado.
—“Ai... para você...” Sebastian esfregou o braço e devolveu o beliscão.
—“Ai... foi você que começou.” Leonard voltou a belisca-lo.
—“Vocês dois querem parar? Eu não quero saber quem começou, se eu tiver que ir aí apartar a briga de novo, eu juro que os dois vão levar.” Ian lançou um olhar assassino pra cima dos dois.
—“Kiel... por favor, me diga que você tem outro bebedouro daqueles pra instalar lá do outro lado do mundo.” Implorei a Kiel que também estava pálido ao meu lado ao ver a cena desastrosa que o esperava... acho que nenhum de nós dois tinha coragem de enfrentar aquele inferno na terra.
—“Eu adoraria te ajudar... mas eu odeio separar uma família tão bonita.” Kiel sorriu maldosamente pra mim.
—“Filho da puta...” Resmunguei pra ele.
—“Coitado de você... mas quem mandou não usar proteção?” Kiel me deu uma cotovelada de brincadeira e piscou pra mim com um sorriso safado.
—“Do que é que você está falando? Um deles é seu.” Apontei para o Ren nos braços de Ian, aquele bebê era uma sirene, não parava de berrar nunca.
—“Seph... que bom que você chegou... mata essas crianças, por favor...” Ian finalmente percebeu a minha presença e me olhou em desespero.
—“Eu não tenho chances contra esses monstrinhos.” Me rendi erguendo as mãos.
—“Papai, papai... você chegou... diz pro Tata me deixar pegar o bebê um pouco... eu não vou judiar dele, eu prometo.” Sophia correu na minha direção e escalou minhas roupas com facilidade, parecia uma macaquinha se dependurando em mim.
—“Você quase o esganou da última vez Sophia.” Ian rebateu pra ela.
—“Mas ele é tão fofinho e bonitinho... eu queria abraçar e apertar ele todinho.” Sophia se aproveitou que estava no meu colo para olhar Ren melhor. Apesar de Ren ser um ou dois meses mais novo que ela, ele parecia um bebê de verdade, ele ainda não falava e nem andava.
—“Você disse bonitinho? E disse que queria abraçar e apertar? Hmmm...” Leonard lançou um olhar safado pra ela antes de lançar um olhar cumplice ao Sebastian.
—“Sophia ama o Ren... Sophia ama o Ren...” Sebastian e Leonard começaram a cantar batendo palmas.
—“E você dois se gostam que eu sei... eu já vi os dois dormindo juntinho e de mãos dadas.” Sophia apontou pra eles e falou toda metida.
—“QUE MENTIRA!... Retire o disse peste.” Sebastian apontou de volta e ficou em pose de ataque... Ai meu Drácula... se esses dois se pegarem no pau como é que eu separo?
—“Eu dormindo com ele? Quando? Ah, sim... foi porque o Sebastian estava tendo um pesadelo e veio pedir socorro para o irmãozão mais velho aqui... fiquei com dó quando vi que ele estava chorando de medo.” Leonard falou isso com um sorriso bobo, estava na cara que ele queria irritar o Sebastian.
—“ISSO É MENTIRA... EU VOU TE MATAR!” Sebastian pulou em cima de Leonard, os dois caíram do sofá e rolaram no chão trocando tapas e puxões de cabelo.
—“Seph... faça alguma coisa!” Ian me olhou desesperado enquanto tentava separar Leonard e Sebastian com o pé e ninar Ren ao mesmo tempo.
—“O titio Kiel aqui disse que vai brincar com vocês lá fora.” Puxei Kiel pelo braço e o atirei aos lobos.
—“Eu disse o quê?” Kiel arregalou os olhos pra mim.
—“Quem quer aprender a montar em um cavalo pule em cima do Kiel agora.” Falei com um sorriso maldoso para Kiel, Sophia e Leonard imediatamente correram para segura-lo pelas pernas como dois carrapatos. No entanto Sebastian deu de ombros e ficou no seu lugar... ia ser mais difícil se livrar dele.
—“Traidor... eu te ajudei e te dei um teto...” Kiel me olhou com uma expressão verdadeiramente traída quando Sophia escalou seu corpo e se agarrou em seu pescoço. As crianças já gostavam muito dele e já eram íntimas o suficiente para se deixarem ficar no colo dele... bem, exceto o Sebastian, mas esse nem eu conseguia pegar no colo mesmo.
—“Desculpa Kiel... era eu ou você.” Sorri com maldade pra ele e lhe dei um tapinha no ombro.
Kiel saiu de casa resmungando, mas eu sabia que na verdade ele estava feliz em ser o titio da criançada.
Me virei para Sebastian, ele me encarou espertamente.
—“Você quer que eu saia... né?” Ele fez uma cara emburrada pra mim.
—“Você é esperto...” Sorri pra ele.
—“...” Ele saiu a passos calmos indo atrás de Kiel também.
—“Agora somos só eu e você...” Me aproximei de Ian, mas Ren berrou nos braços dele como se dissesse... Seu cego, eu ainda estou aqui!
—“Ah, é... ainda tem o babão... me dá ele aqui.” Estendi os braços para Ian e ele me passou o bebê sem preocupações.
Mas Ren era muito mole, diferente da Sophia e do Sebastian que se mantinham firmes mesmo sendo pequenos, era difícil de segura o Ren, parecia que ele era feito de pano... era estranho.
—“Ai Seph... segura a cabeça dele... apoie as costas melhor... não, assim não, você está fazendo tudo errado... puta merda! Me devolve ele...” Ian entrou em pânico quando viu o jeito que eu estava segurando o bebê gelatina... Droga, porque a cabeça dele não fica firme?
—“Já consegui, calma... tá tudo certo...” Dei um jeito de segurar aquele bebê sem as partes do corpo dele caírem.
—“...” Ian ficou em volta de mim, com a mão pronta para segura-lo caso eu o derrubasse.
—“Caramba Ian... tenha mais fé nas minhas habilidades de pai, eu sei o que eu estou fazendo.” Tá, na verdade eu não sei, mas o bebê ainda está respirando, então isso deve contar pra alguma coisa, né?
—“...” A expressão que Ian estava fazendo me dizia que eu estava fazendo tudo errado.
Levei o bebê geleia até o quarto de Grifh, ele estava arrumando algumas roupas.
—“O Kiel disse que é pra você cuidar dele.” Passei o geleia para Grifh que o segurou tão mal quanto eu.
—“O quê? Desde quando eu virei babá?” Grifh arregalou os olhos pra mim, o desespero era claro.
—“Sei lá, reclama com ele... vem Ian.” Dei de ombros para o Grifh e me mandei arrastando Ian comigo.
—“Mas...” Grifh olhou em volta procurando por uma ajuda divina, mas eu sumi antes que ele pudesse pedir ajuda pra gente.
Corri de lá rebocando Ian atrás de mim, para a minha surpresa, Ian segurava o riso, não resisti e me virei para olha-lo.
—“Que foi?” Ian se assustou quando virei de supetão e o encarei sério.
—“Faz tempo que não te vejo sorrindo.” Puxei o queixo dele pra cima para poder ver melhor a expressão dele. Na verdade ultimamente eu só via o Ian chorando, tremendo ou tendo calafrios, principalmente depois de acordar.
—“Para... seu idiota.” Ian tentou livrar seu queixo dos meus dedos, mas o sorriso permanecia nos seus lábios.
—“Idiota eu?” Sorri de volta ao prensa-lo contra a parede, a barriga sobressalente dele já nos atrapalhava um pouco.
Beijei Ian de leve e o peguei no colo, sem olhar direito o levei para o nosso quarto, não sei como eu consegui fazer isso sem errar o caminho.
Tranquei a porta para não sermos interrompidos. Aquela casa estava muito cheia e sempre tinha alguém com tempo de sobra pra encher o saco dos outros.
Larguei Ian com cuidado em cima da cama sem desgrudar nossos lábios, Ian estava retribuindo o beijo com vontade, isso era um sinal verde para que eu continuasse, mas segui devagar e aos poucos, tinha medo de destravar alguma memória ruim do Uriel durante nosso momento.
Com toques sem pressa, eu o alisei e o massageie todo. Com beijos quentes eu o despi lentamente.
Rolamos pela cama e Ian ficou em cima, agora era a vez dele de me despir, no entanto sua mão esquerda ainda tinha problemas de mobilidade, o que o fez perder uns cinco minutos com os botões da minha camisa. Tentei manter a paciência e deixa-lo fazer o trabalho por si só, pois tive medo que ele se chateasse com essa nova deficiência.
E além do mais eu queria que isso demorasse mesmo, queria que fosse devagar e romântico.
Ian finalmente conseguiu se livrar da minha camisa e logo partiu para o botão da calça.
—“Você está bem Ian?” Perguntei ao puxa-lo de volta ao colchão e pousar a minha mão sobre a barriga dele, tudo para deixar claro que eu estava me referindo também aos trigêmeos e não só na questão de estarmos preste a fazer sexo depois de ele ter passado semanas sendo violentado.
—“E-estou...” Ele suspirou e me sorriu, havia algumas lágrimas tentando fugir dos seus olhos, mas ele não parecia estar com medo ou coisa do tipo.
—“Ian... você é tão forte e corajoso...” O beijei novamente, deixando as minhas mãos passearem livremente por seu corpo, alisando seus pontos sensíveis e ouvido seus gemidos abafados quando eu encontrava esses pontos.
Me livrei da calça e da cueca e voltei a beijar Ian.
Minha língua passeava por sua boca, acariciando tudo, isso seria perfeito, se não fosse pelo frio no estômago que eu sentia sempre que percebia que umas das presas dele não estava mais lá. Ian gemia de dor quando eu encostava a língua no dente normal que nasceu para substituir a presa, mas isso já provava que mesmo nascendo um novo dente, o estrago feito era irreversível e causava uma dor que jamais passava.
Isso estava até atrapalhando a alimentação de Ian, mas de acordo com o que ele me disse, ele não corria risco de vida. Mesmo assim era difícil não se preocupar... só de imaginar a terrível dor que ele sofreu já me deixava arrepiado.
Segui beijando ele, dessa vez tentando não encostar minha língua no local e nosso beijo seguiu sem mais caretas de dor.
Ian estava me abraçando com seus braços e pernas, mantendo nossos corpos colados, me aceitando por completo. Como ele conseguia isso? Como ele podia ser tão corajoso, não só ele, mas o Kiel também... Droga, eu tenho que vencer esse medo também, eu tenho que seguir em frente e enfrentar os meus demônios.
Separei meus lábios dos dele e dei meus dedos para ele chupar. Ian os lambeu e umedeceu por completo.
Tirei meus dedos da boca dele, mas diferente do costume, eu não os levei até o meio das pernas de Ian, eu os levei ao meu traseiro.
—“Seph?” Ian arregalou os olhos pra mim.
—“Cala a boca... não fale comigo agora, isso é constrangedor.” Resmunguei irritado enquanto tentava enfiar um dedo dentro de mim mesmo.
A vergonha me tomava por completo agora, então escondi meu rosto no ombro de Ian e segui tentando fazer meu trabalho, no entanto era difícil, sem falar que doía um pouco.
Ian ficou em silêncio, mas não ficou parado, ele aproveitou que eu estava em cima dele, amontado nele e deixou suas mãos passearem livremente em minhas costas, enquanto sua língua brincava dentro da minha orelha... isso era de arrepiar.
Lentamente umas das mãos dele foi descendo e descendo até que chegou na minha nádega, congelei completamente, mas ele não se abateu por isso, sua mão afastou a minha e ele tomou o meu lugar, me alargando.
Escondi ainda mais meu rosto, isso era humilhante, vergonhoso, invasivo e assustador. Eu queria correr e fugir disso, mas não podia, afinal fui eu que comecei, eu que quis enfrentar esse medo... então eu tinha que ser firme e levar isso até o fim, se eu recuasse agora, meu medo venceria.
Estava muito difícil de relaxar, a pressão dos dedos do Ian só doíam, novamente tive vontade de parar tudo e inverter a situação, mas permaneci forte.
Memórias ruins começaram a voltar a minha mente, a ansiedade queria me dominar, o desespero já se fazia presente.
Eu estava morrendo de medo, mas foi aí que Ian cochichou no meu ouvido.
—“Eu te amo Seph... quando eu estava com medo com Uriel em cima de mim, era só eu pensar em você que eu me acalmava...” Ian suspirou no meu ouvido e me acariciou.
Nesse momento a maioria dos meus medos se foi. Me lembrei que eu estava com o Ian e que ele nunca faria nada para me machucar ou me humilhar... apesar de eu merecer por tudo que fiz com ele.
Suspirei e tentei relaxar, soltei o peso do meu corpo sobre Ian.
—“Seph... você está muito pesado... os bebês...” Ele gemeu e foi só aí que me lembrei desse pequeno detalhe.
Rapidamente rolei na cama deixando ele em cima de mim.
—“Melhor?” Questionei sem encara-lo, minha vergonha ainda era grande demais.
—“Sim... E você? Não tá sentindo nenhum incômodo? Pode pedir que eu paro.” Ele me falou isso com os dedos ainda dentro de mim e agora a situação estava mais humilhante, pois eu estava embaixo dele e tinha que separar as pernas.
—“Já pedi pra cala a boca... isso é terrível.” Cobri o rosto com braços, não queria encara-lo agora. Droga, o que é que eu estou fazendo? Eu sou claramente um ativo... E não tenho pretensões de mudar isso... NUNCA!
—“Posso continuar com isso? Mesmo?” Ian questionou meio inseguro quando o número de dedos aumentou.
—“Ian... CALA A BOCA... e acabe logo com isso...” Resmunguei pra ele. Droga, porque ele tinha que deixar tudo ainda mais difícil? Porque ele simplesmente não metia de uma vez acabava com isso logo?
O número de dedo de Ian aumentou novamente... Puta merda! É por algo assim que ele sempre passa? Merda, eu deveria ser mais compreensivo com ele, principalmente agora que ele passou por tantos traumas e está esperando trigêmeos.
—“Seph... olha pra mim...” Ian pediu ao tirar os dedos do meu interior e se acomodar mais perto de mim, com o nariz dele há centímetros do meu, se colocando entre as minhas pernas e fazendo-as se abrir ainda mais, de uma forma extremamente humilhante.
—“Não!” Rebati irritado, meu rosto estava pegando fogo, eu devia estar mais vermelho do que sangue agora.
—“Seph... por favor, olhe pra mim...” Ele pediu me dando um selinho.
Acabei caindo na maldita armadilha dele, levantei os braços que estavam cruzados sobre o meu rosto e o encarei, esperando ganhar um beijo quente para me distrair dessa situação constrangedora.
—“Eu só queria ver sua expressão quando eu fizesse isso...” Ian sorriu maldosamente diante de mim e nesse momento ele me penetrou.
—“Filho da puta!” Voltei a tapar o rosto, esse desgraçado me pegou... maldito... ah, quando for a minha vez ele vai pagar tanto... Que se foda o trauma dele, ele tá pedindo por isso... ele tá pedindo pro Seph sadomasoquista sair pra brincar.
—“Nossa... isso é bom...” Ian gemeu quando se instalou melhor dentro de mim.
—“Hmmm... não se acostume com isso... só estou fazendo por curiosidade... Essa é a sua primeira e última vez, então aproveite enquanto pode...” Rosnei as palavras entre os dentes trincados, a dor estava me fazendo lacrimejar... que vergonha!
—“Ah, eu vou aproveitar muito...” Ian ronronou ao falar isso... o filho da puta tá gostando mesmo... ah, como eu quero judiar dele depois disso.
—“Não exagere... lembre-se de que eu vou te devolver tudo na mesma moeda depois.” Retruquei pra ele, lembrando que serei imparcial no castigo dele.
—“Eu já estou acostumado com os seu lado sadomasoquista... Eu não me importo em ter sexo bruto... desde que seja com você.” Ian gemeu isso no meu ouvido, ainda sem se mover, acho que ele estava me dando tempo para acostumar e de fato... a dor estava aliviando.
—“Merda...” Resmunguei ao perceber que Ian estava falando sério, ele gostava de fazer coisas quentes e pesadas na cama... desde que fosse comigo, saber disso me excitava muito.
Joguei meus braços em volta do pescoço dele e o abracei.
—“Mexa-se logo... depois que você acabar, eu quero brincar um pouco também.” Cochichei no ouvido dele e mordisquei o lóbulo da orelha antes de esconder o rosto no ombro dele de novo.
Ian sorriu de leve, mas testou retroceder uma vez, gemi e ele parou.
—“Seph você...” Ian ficou todo preocupado, mas eu o interrompi.
—“Eu tô bem... eu tô bem... vai logo droga!” Quase gritei isso, a coisa já estava vergonhosa demais para ficar ouvido preocupações.
Ian então se afundou, tranquei a respiração, isso foi dolorido, mas nada comparado ao que aconteceu naquela festa... talvez na verdade nem doesse tanto assim, mas o meu medo estava tão enraizado que a minha mente já estava acreditando que isso era muito doloroso.
Tentei relaxar mais e me acostumar com os movimentos de Ian... ele era estabanado, não sabia mesmo fazer isso direito, ele era tão atrapalhado que estava me dando vontade de rir.
Com essa vontade crescente de rir eu consegui afastar as coisas ruins da minha mente e focar no atrapalhado mestiço sobre mim.
O perfume natural dele era aconchegante, um cheiro ao qual eu já estava habituado e que me causava arrepios quentes.
A pele dele estava começando a ficar suada pelo grande esforço, me rendi à curiosidade e o lambi para provar o sabor, Ian gemeu quando fiz isso.
Minhas mãos passearam pelas costas molhadas dele, sentido o calor. Ter o corpo dele sobre o meu não era ruim... não era nada ruim.
Procurei seus lábios, mantendo os olhos fechados, a vergonha ainda me impedia de ter contato visual com ele. Ian retribuiu meu beijo e acabou parando de se mexer. Ele realmente era inexperiente, não sabia beijar e seguir metendo... que engraçado.
Nosso beijo se aprofundou ainda mais e me deixei sentir a sensação de tê-lo dentro de mim... parecia errado, era eu que deveria estar dentro dele, Ian é o meu lar, mas devo admitir que apesar da sensação de tudo estar errado, eu não estou mais sentido dor, na verdade é até... diferente.
Ian parou de me beijar e voltou a se mexer, segui analisando a sensação de tê-lo dentro de mim. O movimento que me alargava e me repuxava era bizarro, mas causava uma sensação boa quando tocava em certo ponto.
A sensação boa crescia cada vez mais enquanto a velocidade de Ian ia tomando certa constância.
A sensação estava ficando mais intensa, cada vez mais... Não consigo entender o que estou sentido.
Tudo está ficando mais forte, o cheiro do Ian, o sabor, a sensação... eu não consigo mais... não dá.
Meu corpo contraiu involuntariamente, me abracei forte em Ian e deixei os tremores tomarem conta de mim.
—“Seph... você gozou?” A voz do Ian era incrédula.
—“...” Congelei, eu acho que realmente gozei e o pior é que...
—“Você gozou em apenas alguns minutos e sem estímulos no Seph júnior!” Ian disse tudo o que eu estava pensando, eu gozei sem ser tocado na frente, gozei apenas por estar sendo fodido... esse é cúmulo da vergonha!
—“CALA A BOCA... TE PROÍBO DE FALAR...” Tapei meu rosto, droga, droga, droga, droga... nunca fui tão humilhado, meu orgulho de ativo foi pelo ralo.
-“Hmmm... posso continuar? Eu ainda não acabei sabe...” Ian questionou meio sem graça... droga! Porque ele não broxa com essa situação constrangedora?
—“Eu vou te matar tanto...” Resmunguei entre as mãos.
Ian sufocou um riso que queria escapar e se concentrou em seguir com seus movimentos constantes que para o meu alívio logo começaram a acelerar mais e mais.
—“Nem pense em gozar dentro...” Resmunguei isso meio que tarde mais, Ian chegou ao clímax antes do fim dessa frase, aumentando a minha vergonha, mas Ian foi ao delírio e ao cansaço.
Depois que Ian gozou, ele desmoronou em cima de mim, tentando acalmar a respiração instável. O retirei de dentro de mim e rolei na cama com ele, colocando-o em baixo de mim.
Ian estava sonolento e cansando, ser o ativo cansa mesmo, mas ele que pensa que vai fugir de mim.
Separei suas pernas e lhe enfiei um dedo molhado.
—“Hey...” Ian acordou um pouco e me olhou zangado.
—“Nem adianta reclamar... eu avisei que ia me vingar, agora aguenta.” Falei firme enquanto o preparava para sofrer as consequências de brincar comigo daquele jeito.
—“Malvado...” Ian fez beicinho pra mim, mas não me afetei, tá na hora de mostrar pra ele quanto tempo posso ficar sem gozar. Ele vai ver... ele vai provar um pouco do Seph sádico.
...
Leonard...
Depois de passarmos o restante do dia brincando com o Sr. Cicatriz e os animais da fazenda, fomos todos dormir.
Meu quarto tinha duas camas de solteiro e eu dividia o mesmo com Sebastian, eu já estava acostumado a dormir no mesmo ambiente que aquele monstrinho, então não reclamei.
Adormeci rápido, estava exausto de tanto brincar, mas acabei acordando com um som que agora já me era familiar. Era uma fungada seguida de um gemido bem baixinho.
Virei-me na cama para encarar a outra cama de solteiro ao lado da minha, Sebastian estava lá, encolhido como uma bolinha embaixo das cobertas.
Suspirei cansado e saí da cama ainda sonolento. Com passos calmos fui até a cama dele, levantei as cobertas e entrei embaixo delas.
—“O o q-que você está fazendo?” Sebastian se afastou de mim o máximo que a cama permitia e escondeu o rosto embaixo das cobertas.
—“Você estava chorando de novo... acho que estava tendo outro pesadelo... não quer me contar sobre o que era?” Perguntei calmo, mas na verdade eu já desconfiava do que se tratava os pesadelos dele, ele vinha tendo esse sonhos ruins desde que voltou daquele laboratório.
—“E-eu não estava chorando não!” Ele rebateu irritado, Sebastian odeia quando eu o trato como fraco.
—“Ah, claro que não estava chorando... você só estava suando pelos olhos.” Zoei a teimosia dele e tentei tirar as cobertas de cima da cabeça dele.
—“Vai embora...” Ele resmungou mais alto e segurou mais forte as cobertas contra o rosto.
—“Você nunca me mandou embora antes, o que foi? Ficou com vergonha porque a Sophia nos pegou?” Questionei curioso, afinal desde que ele começou a ter pesadelos, eu sempre dei um jeito de ampara-lo, seja quando ele ia pra minha cama assustado ou quando eu ia pra cama dele para acalma-lo. Sebastian nunca reclamou ou me mandou embora, ele sempre suspirava e voltava a dormir agarrado em minha mão, mas desde hoje quando Sophia apontou um dedo pra gente e falou que nos viu juntos, eu percebi que Seby ficou distante de mim.
—“Cala a boca seu idiota.” Sebastian deu um tapa na minha mão que ainda tentava destapar a cabeça dele.
—“Ora vamos... se acalme e me conte o que foi.” Suspirei cansado.
—“Não” Ele virou de costas pra mim.
—“Como posso te ajudar se você não deixa?” Me aproximei mais.
—“Eu não pedi a sua ajuda!” A voz dele saiu abafada por casa do travesseiro que agora ele usava pra esconder o rosto.
—“Pediu sim, na primeira noite em que teve o pesadelo, foi você quem foi para debaixo das minhas cobertas... acho que isso é um claro pedido de ajuda.” O lembrei que foi ele quem começou com essa história de dormirmos juntos.
—“...” Ele se encolheu mais.
—“E então?” Insisti.
—“E-eu sonho com o laboratório... sonho com vampiros de máscaras e instrumentos assustadores... eles tentam me pegar e eu nunca consigo fugir porque eles cortaram as minhas asas e arrancaram as minhas presas... Pronto! É isso! Satisfeito agora?” Ele finalmente destapou o rosto e me encarou irritado. Ele não estava mais chorando, mas os olhos vermelhos e inchados provavam que antes ele estava sim.
Isso era meio chocante pra mim, por mais que eu desconfiasse que ele realmente chorasse, ainda assim era difícil de acreditar nisso, afinal Seby é um monstrinho malvado e irritante, essa coisa de chorar não combina com ele.
—“...” Ele me encarou sério, o rosto fechado e irritado.
—“...” Fiquei sem saber o que dizer por um momento, pois imaginar que ele sonhava com o laboratório e ter a confirmação de que isso estava acontecendo eram coisas bem diferentes, o que eu poderia fazer para ajuda-lo?
—“Tudo bem... já passou, já passou... você não vai mais voltar lá, nunca mais.” Dei palmadinhas no braço dele, tentando encontrar uma forma de conforta-lo.
—“Me solta...” Ele reclamou quando me abracei nele.
—“Não vou solta... não até você parar de chorar, seu bebê chorão.” Zombei um pouco dele, acho que deixa-lo bravo é o melhor jeito de fazê-lo esquecer o pesadelo.
—“Não estou chorando seu babaca.” Ele me olhou como se fosse arrancar as minhas tripas pela boca.
—“Sei...” Revirei os olhos para irrita-lo mais, isso parecia estar funcionado... eu só espero não acordar morto amanhã... ou melhor... não acordar amanhã.
—“...” Ele me olhou com uma raiva estrema por um minuto, realmente achei que ele ia me estraçalhar, mas então seu olhar suavizou.
—“Leonard...” Ele chamou mais calmo.
—“Sim?” O encarei surpreso.
—“Não conta pros outros... sobre isso.” Ele corou de leve e se aproximou mais.
Fiquei surpreso, mesmo depois de ficar super irritado, ele ainda quer dormir comigo? Acho que ele realmente está com medo... quem diria. Droga, eu debochei dele hoje de manhã quando Sophia veio mexer com a gente... ele deve tá chateado com isso.
—“Tudo bem... Desculpa ter zombando de você hoje, eu não vou mais comentar sobre isso com ninguém, eu juto.” Prometi sério.
—“Obrigado...” Ele suspirou cansando e se abraçou em mim antes de capotar no sono.
...
Sebastian...
Alguns meses depois nós nos mudamos para a nossa nova casa. Ela era legal, tinha um cheiro de madeira recém-cortada e ficava bem perto da floresta e do mar, eram lugares onde eu facilmente poderia sumir sem deixar pistas.
Na verdade eu já vinha pensando em desaparecer, eu estava a cada dia mais interessado em me perder pelo mundo a fora. A vida em família não me atraia em nada, por mais que agora eu estivesse aprendendo a gostar dos outros, eu ainda não me sentia parte da família.
A única coisa que me impedia de partir era o Leonard, que não desgrudava do meu pé, ele agora tinha um quarto próprio, assim como eu, mas vira e mexe, ele estava na minha cama comigo. Ele sempre dizia que era porque eu estava tendo um pesadelo, mas eu sabia que ele queria garantir que eu não ia fugir na calada da noite.
No fim das contas fui ficando, não sei por que, mas... eu queria ver no que isso ia dar antes de sumir.
Outra coisa que estava me deixando curioso ao ponto de querer ficar perto da minha família, era a experiência 1.
Eu admito que estava até com pena dele... eu sei como foi terrível passar pelas torturas de Uriel, afinal eu também passei por coisas inimagináveis, coisas que sempre irão me assombrar daqui pra frente, mas acho que com ele as coisas foram piores, pois ele era do tamanho de uma uva quando passou por tudo aquilo. E ele ainda carregou tudo nas costas sozinhos.
Ele sofreu muito... e ainda não tinha a mente preparada pra isso, mesmo ele sendo mais inteligente do que eu e a Sophia, ele ainda era muito imaturo para tudo aquilo. Sabe, ele tinha consciência do que acontecia com o Ian... ele presenciou tudo o que aconteceu com Ian.
Sem falar que ele se sacrificou para proteger os irmãos, ele os bloqueou e os poupou dos horrores.
E ele também fez de tudo para proteger o Ian do Uriel, ele doou metade de suas células para criar um braço novo para o Ian... graças a isso, Ian não ficou desmembrado e nem fraco, mas quanto a experiência 1... Bem, agora ele está muito... diferente.
Quando digo diferente, quero dizer que ele não é mais o mesmo... antigamente ele era sagaz e corajoso o suficiente para peitar o meu lado assassino, no entanto ultimamente ele anda meio... triste e depressivo... eu não sei explicar.
Ele está diferente, mas também não se corrompeu como eu. E é por isso que ainda estou aqui, eu quero ver se ele vai acabar indo pro mau caminho como eu fui... então talvez... sei lá, talvez eu possa ser útil nesse mundo e ajudar ele a voltar para o bem... sei lá.
Esses são os motivos que me prendem nesse lugar, nada mais.
Ah, é verdade, eu e Sophia... bem... a gente meio que... se odeia agora.
Parece que temos que ter um inimigo em comum para nos unirmos, mas quando não há perigo como agora... a nossa convivência se torna... como eu posso dizer? IMPOSSÍVEL!
Acho que é porque somos irmãos e opostos, sei lá... mas o lado patrícia dela me irrita.
O quarto dela é todo rosa, com enfeites de bailarina. Meu esporte favorito agora é invadir o quarto dela e destruir suas bonecas sem ser pego, o que é muito difícil, já que ela é esperta e vive em alerta... ela é assustadora quando entra em modo predador... mas bem, meu esporte favorito é destruir as bonecas dela... e depois colocar a culpa no Leonard, é claro, pois eu não quero morrer.
Seph e Ian seguem os mesmos chatos de sempre... sério, como eles podem ser os meus pais? Eles vivem melosos, se abraçando e sorrindo por aí... Como o típico casal feliz. Quero só ver quando a experiência 2 chegar, ele tem cara de ser o filho problema, sabe? Aquele que se mete em confusão.
O Tio Kiel vive aparecendo aqui em casa, para a alegria da Sophia que pega o coitado do Ren e não o solta mais. Pobre Ren... ele é quase um mestiço e sofre nas mãos daquela maníaca da Sophia, às vezes tenho vontade de salva-lo, mas aí eu me lembro que gosto de ver a desgraça alheia.
Os meses foram passando sem que eu pudesse perceber, admito que estava mais fácil viver em família aqui nessa nova casa. Acho que sem o número exorbitante de seres vivos por metro quadrado que era a fazenda do Kiel, a vida fica mais calma, raramente eu trombo com alguém, então posso ter os meus momentos de paz.
As coisas estavam indo bem, até que certa noite enquanto eu passeava sozinho na beira da praia, assistindo as ondas se chocarem contra a areia, Leonard apareceu do nada e veio correndo na minha direção.
—“O... puf... arf... Ian... arf... tá em... trabalho de parto...” Leonard tentava falar entre fungadas.
—“Legal... e daí?” Dei de ombros, isso ia acontecer em algum momento, né? Quer dizer uma hora aqueles três teriam que sair, então porque esse nervosismo todo?
—“E daí? Como assim e daí? Você não está preocupado? E se acontecer alguma coisa? Vamos voltar pra casa agora.” Leonard me pegou pela mão e me arrastou atrás dele.
—“Não... não quero...” Travei meus pés no chão, mas a areia fofa cedeu e eu fui de arrasto.
—“Vem...” Leonard apertou o passo.
—“Me solta!” Relutei, mas não teve jeito, ele me levou a força até em casa... Apesar dele ter o poder de me ordenar andar até lá sem reclamar, ele fez questão de me carregar à força... ele sempre acha uma desculpa pra me segurar... ele é o único que pode me pegar no colo, nem o Seph e o Ian podem fazer isso... me pergunto porque eu permito isso? Será que é por causa do pacto?
Quando entrei na porta da sala um berro ensurdecedor arrepiou todos os meus pelos.
Sophia andava de um lado para o outro na sala enquanto o Ren arriscava uns passos atrás dela, ele já sabia andar, mas muito mal. Sempre que ele via a Sophia, ele a seguia como um cãozinho bem treinado.
—“O Kiel já tá aí?” Leonard questionou a Sophia.
—“Ele já estava a caminho quando recebeu a notícia.” Sophia respondeu tremula.
—“...” Revirei os olhos, não sei pra que tanto nervosismo.
Sentei-me no sofá e aguardei, eu não estava com medo nem nada.
Leonard veio se sentar ao meu lado.
—“Tem outro sofá ali, sabia?” Apontei para o sofá de dois lugares de frente para o meu sofá, não havia necessidade dele sentar ao meu lado.
—“...” Leonard nada disse, ele na verdade estava lívido e tremia um pouco. Então o deixei ficar ao meu lado se era ali que ele se sentia mais seguro.
Sophia por outro lado não parava, ela estava me irritando, eu queria tacar algo na cabeça dela, mas acho que se eu tacasse o abajur, eu poderia acertar o Ren também... e eu admito que não quero machuca-lo, ele é bobão e inocente demais para se ter prazer em vê-lo chorar.
—“Sophia para quieta e vá se sentar.” Resmunguei pra ela.
—“Não consigo... eu estou com medo...” Ela me olhou apavorada.
—“Medo? Medo de quê? Deixa de ser boba.” Bufei pra ela.
—“Você não está com medo?” Ela me olhou melhor.
—“Eu? Pfff... não me faça rir.” Debochei da pergunta dela e me recostei no sofá de modo relaxado.
Outro berro altíssimo me fez pular, Ren começou a berrar com o medo e Sophia foi ampara-lo. Demorei um pouco para me recuperar do susto.
—“Sabe... para alguém que não está com medo... você está apertando os meus dedos bem forte.” Leonard me lançou um olhar malandro quando remexeu os dedos que eu estava apertando sem querer.
Os soltei assim que percebi e fiz menção de que ia me levantar para sentar no outro sofá, mas Leonard segurou minha mão e me manteve ali.
—“...” O olhei irritado, mas desisti de brigar quando vi que o sorriso zombeteiro dele sumiu e deu lugar ao puro medo.
Não sei quanto tempo passou, nem quantos berros ouvi, só sei que a cada minuto que passava eu sentia um leve frio na barriga, demorei a entender que isso era medo, sim, eu também estava compartilhando os sentimentos de todos aqui nessa sala.
Novos berros e um choro alto... isso significa que o primeiro nasceu? Não sei o que está acontecendo e tenho medo de espiar com minha supervisão.
Sophia ficou mais frenética e o coitado do Ren nem conseguia mais segui-la, Leonard tremia dos pés à cabeça.
Novos gritos e um novo choro... o segundo nasceu? Droga, porque ninguém vem nos avisar?
Sophia olhou pra cima, para além do teto, para o quarto onde tudo acontecia, fiquei tentando a fazer o mesmo, mas ela me impediu.
—“Não, não olhe!... Se não você e o Leo nunca vão ter filhos.” Sophia estremeceu e logo parou de olhar.
—“...” Por um minuto meu cérebro não registrou o que ela disse.
—“Espera o que você disse? Quem disse que eu ter... e com o Leo ainda por cima... Você tá maluca é? Qual o seu problema?... Quem disse que um dia eu pretendo passar por algo nojento assim?” A encarei com raiva.
—“Você sabe que pode, né?” Sophia me lançou um sorrisinho sinistro.
—“Eu vou te arrebentar...” Pulei em cima dela e começamos a trocar tapas e chutes enquanto rolávamos sobre o carpete.
—“Parem vocês dois!” Leonard se meteu no meio e Ren achando aquilo muito divertido veio se meter também.
Agora nós quatro estávamos no chão rolando embolados trocando empurrões, puxões e xingamentos quando o terceiro e último choro de bebê surgiu.
Congelamos em meio ao emaranhando de braços e pernas que era nós quatro, Ren era o único que seguia batendo palmas e rindo no meio da gente, pra ele aquilo era uma brincadeira e não uma briga.
Nos separamos rapidamente, Sophia me mostrando a língua e massageando o braço que eu torci e eu bufando esfregando a mordida que ela me deu, Leonard foi beliscado várias vezes, mas não demostrou dor em meio ao pânico.
Dois minutos depois Kiel surgiu exausto, mas sorrindo, ele então nos disse para subir.
Assim o fizemos, o quarto cheirava a sangue, mas Ian parecia bem com um sorriso bobo enquanto o Seph parecia prestes a desmaiar.
—“Venham mais perto... vejam os seus novos irmãos.” Disse Ian embalando algo nos braços.
Seph segurava os outros dois com uma cara de bobo sem igual.
—“Esse é o que nasceu primeiro.” Ian se inclinou pra frente e nos mostrou o que até então eu chamava de experiência 1.
Com cabelos acinzentados e olhos da mesma cor que combinavam muito bem com a pele clarinha, o filhote de cruz credo me encarou... Na minha opinião ele era a coisa mais feia do mundo, todo enrugado e mau encarado, mas todos fizeram um... oooh, que fofo!
—“Esse é Caspian... Ele não é lindo?” Ian o acariciou com todo o carinho.
—“Tá brincando? Esse bicho é feio... tem certeza que ele não nasceu antes do tempo?” Questionei e levei um murro na nuca do Leonard.
—“Me deixa pegar... deixa?” Sophia já foi subindo na cama e estendendo os braços. Ela é doida ou o quê? Ela tem quase o mesmo tamanho que essa coisa e quer pegar ele no colo?
—“Com uma irmã dessas você não vai sobreviver por muito tempo.” Resmunguei pra ele e para a minha surpresa ele me encarou. Na verdade ele só encarava a mim, mesmo com Sophia em cima dele querendo segura-lo, ele não tirava os olhos de mim.
—“Você se lembra de mim, né?... Vamos ter muito o que conversar.” Falei mentalmente com ele, Caspian suspirou e piscou cansando.
Sophia acabou conseguindo o que queria, Ian colocou Caspian nos braços dela com a condição de que ela ficasse quieta e em cima da cama.
Logo após Ian estendeu os braços na direção de Seph, pedindo o próximo bebê. Seph passou pra ele com certa dificuldade.
O próximo era aquele que eu chamava de experiência 2, ele tinha cabelos prateados e olhos vermelhos, sua pele era completamente albina e ele parecia maior que os outros. Assim que ele foi colocado nos braços de Ian, ele começou a se remexer, todo agitado.
—“Esse... vai se chamar James Pedro... em homenagem aos...” Seph fungou um pouco ao dizer isso.
—“Outro feioso... coitado...” Resmunguei olhando para o segundo filhote de Deus me livre.
—“Para com isso Seby.” Leonard reclamou.
—“Você diz isso agora... mas espera só, esse daí vai trazer muitos problemas pra nós.” Estreitei os olhos para o bebê parrudo, ele com certeza era o mais forte e quando adulto eu não terei chances contra ele.
O Babão não estava dando a mínima pra mim, na verdade parecia que ele estava com fome, muita fome mesmo e seu alvo era o Ian.
Por último Seph nos mostrou a experiência 3.
—“Essa se chama Izabel.” Ian revirou os olhos, acho que ele não gostava do nome, mas aceitou por causa do Seph.
Uma bebê de cabelos negros e pele clara foi colocada na minha frente, ela tinha olhos bicolores, assim como Ian. E de todos os irmãos dela, ela era a única verdadeiramente mestiça como Ian.
Ela não estava quieta como os outros e nem olhava espertamente para um de nós, na verdade, ela parecia com o Ren, babona e chorona.
Mas de todos os três, até que ela era fofinha.
—“Espera... é uma menina?” Sophia a encarou de forma assustadora... Coitada da Izabel, ela mal chegou e já tem uma inimiga pelo posto de princesa da casa.
E o pior é que ela não tem a menor chance.
Depois daquele dia, minha vida tranquila acabou, o inferno se instaurou naquela casa.
Sophia dava um show diário, tentando chamar a atenção e mantê-la sobre ela, mas ela tinha uma concorrente forte. Izabel por ser uma bebê que necessitava de leite, sangue e fraldas de duas em duas horas estava levando todos a loucura e desespero, Seph e Ian não dormiam mais por causa dela, que não parava de chorar nunca.
Os dois estavam acordados há vários dias diretos, seus cabelos bagunçados, seus olhos com olheiras, tudo isso provava que eles não estavam mais se aguentando em pé e pra completar Sophia resolveu regredi por ciúme, querendo ser tratada como bebê ela se atirava no chão e abria o berreiro.
Eu e Leonard éramos os únicos normais nessa casa agora.
—“Estou cogitando me castrar...” Disse Seph sonolento enquanto tentava acalmar Izabel nos braços e dar atenção a Sophia que tentava escalar suas pernas.
—“Por favor... faça isso logo...ou eu juro que vou cortar suas bolas enquanto você dorme.” Disse Ian que quase desmaiava de sono enquanto James Pedro se segurava no pescoço dele, tentando morde-lo mesmo sem ter dentes ainda.
Leonard estava bem de lado ultimamente, mas ele não ligava, ele gostava de bancar a babá e cuidar do Caspian, cuidar dele era realmente muito fácil. Ele nunca chorava, nunca esperneava e nunca... bem, ele nunca fazia nada, parecia uma das boneca da Sophia.
Me mantive no meio desse inferno porque queria ficar de olho em Caspian, ele parecia precisar de ajuda... ele parecia triste de verdade.
O único que arrancava alguma reação dele era o Ian, ele só sorria pra ele, acho que era porque ambos estavam ligados quando foram torturados por Uriel e por isso Caspian tinha um forte carinho por Ian.
Nossa família nunca foi tão grande... e tão chata, mas fazer o quê? Parece que estou preso aqui, com essa gentinha... mas por quanto tempo?
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