Notas iniciais
Até domingo pessoal! Boa leitura!

Sephiron...

–“Hey gatinho, vamos acordar... você esta dormindo demais ultimamente!” Chamei Ian e ele gemeu irritado.

–“Só mais cinco minutinhos Seph!” Ele me pediu tapando a cara com um travesseiro.

–“Trousse pra você um belo filé!” Coloquei o prato sobre o criado-mudo dele, desde que descobri que ele é realmente filho do meu ídolo J. L. Shadowy, há uns três meses atrás, eu venho tratando ele muito bem, posso dizer que nunca tratei nada e nem ninguém desse modo, ele parece estar gostando disso e esta cada vez mais receptivo as minhas investidas, às vezes é até ele quem me instiga ao sexo agora, ele tenta me seduzir com seu jeitinho meigo de gatinho fofo.

Ian se sentou na cama e pegou o prato de filé, ele estava cozido e muito bem preparado, Ian me disse que ele gostava de comer carne cozida como sua mãe humana comia, ele podia comer a carne crua, mas como cresceu comendo comida humana, ele preferia assim, cozida e temperada, ele também gostava de comer ovos mexidos e entre outros alimentos humanos, por esse motivo eu contratei uma vampira especialista em preparar comida humana.

Ian gostava da comida dela, ele estava comendo muito ultimamente, tanto que estava ficando um pouco gordo, eu ia ter de fazê-lo se exercitar um pouco, para perder essa barriga que estava ganhando, talvez fosse melhor eu o levar lá pra fora e brincar de pega-pega de novo... ia ser divertido.

Ian comeu um pouco antes de fazer uma careta e rechaçar o filé quase inteiro, ele afastou o prato e voltou a se deitar segurando o estômago.

–“Hey... o que foi? Aquela nova cozinheira fez algo que você não gostou? Quer que eu a castigue?” Perguntei calmamente.

–“Não! Não a machuque... ela é boa, cozinha bem e é divertida!” Disse Ian ainda massageando o estômago.

–“Então qual é o problema!” Perguntei o vendo agir estranho, ele nunca deixava o prato vazio.

–“Não me sinto bem... é estranho... nunca fiquei doente na minha vida... não sei o que estou sentido, é uma sensação nova para mim!” Ele respondeu ainda fazendo uma careta, eu o olhei com mais atenção, pequenas gotículas de suor frio se formavam em sua testa, ele estava ficando pálido... e agora? O que eu faço? Não sei tratar de um mestiço e aquele maldito folheto do governo não ajuda em nada!

Ian pulou da cama e se agitou nervoso, dava pra ver a angustia em sua expressão, ele não sabia o que fazer, com certeza ele nunca sentiu o que estava sentido agora, quando me aproximei dele na tentativa de acalmá-lo e levá-lo de volta pra cama, ele se curvou para frente vomitou, sei o que é vomitar, pois já vi os humanos fazendo isso, mas eu nunca vomitei e não sei se um vampiro pode fazer isso, qual deve ser a sensação? Deve ser ruim, pois os humanos parecem não gostar e Ian também não. Vou pedi para ele me descrever a sensação e o que acontece depois, quando ele estiver melhor é claro.

Ian entrou em desespero assustado, acho que isso era tão novo para ele que ele não sabia mesmo o que fazer, ele se agarrou em mim tremulo e mais assustado do que nunca.

–“Não gosto disso... faz parar!” Ele me pediu arfando.

–“Calma, acho que vai passar logo, pelo menos quando meus antigos humanos vomitavam, eles se recuperavam logo em seguida!” Tentei tranquiliza-lo.

Ele estremeceu nos meus braços e lançou um olhar para cama, o levei de volta a ela e ele se deitou gemendo de leve.

O que eu devia fazer? Existia algum remédio para mestiço? Duvido muito disso!

Ian dormiu encolhido abraçado ao estômago e eu fiquei ao lado dele, observando-o, acho que eu deveria chamar um médico para ele, mas será que existe algum médico que saiba cuidar de um mestiço? Será que os médicos que cuidam dos humanos sabem tratar um mestiço? Bem, eu não ia querer que nenhum dos antigos médicos que eu chamava para tratar meus escravos viesse aqui para tratar Ian, pois eles eram brutos em seus tratamentos e às vezes o humano ficava mais doente ainda depois da consulta, talvez fosse a terrível mania desses médicos de não esterilizar seus equipamentos ou até mesmo o fato deles não se importarem em anestesiar o humano para fazer alguma intervenção cirúrgica.

Uma meia hora depois Ian se acordou e parecia bem, ele até tentou comer o filé duro e frio que ainda estava sobre o seu criado-mudo, o proibi disso e mandei o filé de volta para cozinha, pedi para a cozinheira preparar algo que se devia dar aos humanos doentes.

Voltei com uma sopa de alguma coisa amarela, parecia nojento, na verdade parecia vômito, mas Ian comeu sem reclamar e chamou isso de sopa de batatas.

Ele parecia bem melhor, queria passear pela casa, me acalmei com isso. Eu agora costumava fazer um tour com ele por minha mansão. A gente desvenda um cômodo por vez, ele adorou a minha biblioteca, acho que deveria levá-lo lá mais vezes. Eu quase sempre me surpreendia com a cultura dele, era incrível pensar que eu era bem mais velho que ele, mas ele era o mais inteligente e conhecia mais coisas que eu.

O levei para passear pela casa enquanto minhas empregadas limpavam o vômito que ele deixou no chão do meu quarto.

Passamos por minha sala de estar e ele parou estarrecido, ele então me lançou um olhar irritado e furioso.

–“Foi você que matou ele?” Ian perguntou apontando para o tapete de pele de lobisomem no chão da minha sala.

Eu gostaria de dizer que sim, caçar um monstro desses devia ser a coisa mais incrível e poderosa do mundo, mas infelizmente eu nasci quando essa espécie já havia sido totalmente extinta.

–“Não, eu comprei de um Conde falido!” Respondi tranquilamente.

–“Tadinho... ele era apenas um filhote!” Disse Ian olhando com pesar para a pele do animal marrom aos seus pés.

–“Um filhote? Essa porra tem uns três metros de comprimento!” Arregalei os olhos para Ian.

–“Meu pai disse que eles chegavam a quase sete metros de comprimento, eram incrivelmente grandes e fortes, eles ficavam mais imponentes em pé sobre as patas traseiras, eram criaturas lindas... mas foram completamente caçados pelos vampiros. Eles foram exterminados, um pouco por que era divertido caça-los e um pouco porque tinham medo que eles se erguessem contra os vampiros!” Ian respondeu com uma voz triste e do nada começou a chorar.

–“Qual o seu problema?” Perguntei sem acreditar que ele estava chorando por uma espécie a muito extinta.

–“Não sei... não consigo me controlar... eu só quero chorar em paz, vê se me deixa quieto!” Ele respondeu zangado e eu ri da careta que ele fez para mim.

Passei um início de noite tranquila com ele na minha biblioteca, ele queria levar um monte de livros para o quarto, mas só permiti que ele levasse um por vez, se deixasse ele ia levar a biblioteca inteira para dentro do quarto.

Estava tudo indo às mil maravilhas, quando James, meu mordomo, se aproximou trazendo uma bandeja com um telefone.

–“O Conde Leon, Senhor!” James fez uma reverência para mim e lançou um olhar a Ian que acenou a cabeça para ele com um sorriso, Ian gostava de James e James parecia ter um vago interesse em Ian, talvez ele nunca tenha visto um mestiço antes e se surpreendeu com a inteligência e a elegância de Ian, eu não gostava disso, não queria James perto de Ian, na verdade eu não queria ninguém perto de Ian.

–“Conde Leon... ao que devo essa ligação?” Perguntei educadamente.

–“Ora Sephiron, eu sei que você comprou um mestiço aquela noite no leilão, não foi?” O Conde Leon perguntou sem rodeios e sem amabilidades, ele era assim mesmo quando queria algo que sabia que os outros não podiam negar.

–“Sim, comprei... porque a pergunta?” Perguntei começando a sentir um frio na barriga, disso não vinha boa coisa com certeza.

–“Pois o traga hoje as quatro da madrugada no meu galpão de estoques de escravos... traga bastante dinheiro também, vamos nós divertir muito essa noite e talvez você saia com os bolsos mais cheios de lá!” O Conde Leon parecia entusiasmado com isso.

–“Não tenho interesse em vender o meu escravo Conde Leon... com todo o respeito!” Respondi rapidamente.

–“Apenas venha... é uma ordem!” Disse Conde Leon antes de desligar a ligação na minha cara.

Ah merda! Realmente algo ruim vai acontecer, conheço o sadismo do Conde Leon o suficiente para saber que... Ian vai sofre essa noite, mas não posso me negar a ir, o Conde Leon é perigoso demais para se ter como inimigo.

Olhei para Ian, ele se divertia lendo o livro que pegou na minha biblioteca, Vinte Mil Léguas Submarinas de Júlio Verne. Já conheço Ian o suficiente para saber que seu maior sonho é conhecer o mar... estou com medo, acho que essa pode ser a última vez que vou vê-lo assim.

O relógio andava rápido hoje, queria faze-lo parar, mas logo já era hora de levar Ian para o velho galpão do Conde Leon, Ian pareceu animado em passear de carro e eu me senti traindo ele.

Nós costumávamos passar de carro agora, eu já havia levado ele para conhecer alguns lugares diferentes, como a noite em que o levei para ver as estrelas longe da cidade, elas brilhavam forte e eu admito que me diverti muito vendo os olhos de Ian brilharem ao ver aquilo pela primeira vez na vida.

Ele olhou as casas passarem pela janela, sua felicidade me dava um estranho aperto na garganta, merda, que sensação ruim é essa? Essa sensação de estrangulamento esta me matando!

–“Onde vamos?” Ele perguntou contente, esperando obviamente passear em algum lugar novo para ele, droga... droga... droga.

O abracei mais forte do que planejava e ele gemeu.

–“Me perdoe!” Pedi já sabendo que Ian ia sofre muito e logo.

–“Tudo bem, não doeu tanto assim!” Ele se referiu ao meu abraço apertado e se aconchegou mais em mim e meu coração doeu, nunca senti isso antes, acho que estou morrendo ou coisa do tipo.

Ah merda, merda, merda... não quero isso, eu gosto do Ian, ele é meu doce gatinho! E o fato dele se aconchegar a mim e aceitar o meu carinho... me causava aquele estrangulamento irritante de novo.

Chegamos ao galpão velho, havia muitos outros carros estacionados lá... a não... isso significa que todos os ricos com dinheiro sobrando estavam aqui essa noite... isso não era boa coisa, ao mesmo tempo que eu me preocupava por Ian, as lembranças daquela maldita festa tentaram voltar a minha mente.

–“Ian... tire suas roupas e coloque essa coleira, não fale com ninguém, se quiser falar comigo cochiche disfarçadamente!” Atirei a coleira com uma corrente na ponta. Eu tinha de ser cuidadoso, se os outros vampiros descobrissem que Ian sabia falar, não sei o que aconteceria com ele.

–“Porque isso?” Ian me olhou desconfiado.

–“Me perdoe!” Respondi simplesmente, ele me olhou novamente sem entender, mas no fim ele me obedecer... DROGA, ele já confiava em mim o suficiente para seguir as minhas ordens e eu ia trai-lo essa noite... eu ia jogá-lo no meio de monstros que querem vê-lo sofrer e morrer.

Entramos no galpão, eu ia na frente puxando a corrente e Ian ia logo atrás olhando para tudo a sua volta com curiosidade.

O barulho de gritaria de apostas chegavam aos meus ouvidos, o frio na minha barriga aumentou e uma incontrolável vontade de abraçar o Ian e protege-lo se instalou em meu peito.

Quando entramos no local das gritarias, senti-me afundar em medo, havia uma grande gaiola de metal no centro do galpão, em volta da gaiola havia fileiras e mais fileiras de cadeiras de veludo vermelho, nelas estavam sentados todos os vampiros que ainda tinha grana nos bolso para esbanjar, eles gritavam e torciam com taças de sangue em suas mãos.

No centro dentro da gaiola cujo chão arenoso já estava quase totalmente coberto de sangue, dois mestiços se digladiavam, era a coisa mais brutal que eu já vi, eles estavam se arrancando pedaços a mordidas enquanto tentavam matar um ao outro. Ah, não... isso é uma rinha de mestiços... eu já tinha visto rinhas de humanos, já havia apostado nisso e me divertido muito, eu já havia perdido dois humanos em uma rinha dessas, a regra era a seguinte... dois entram, mas apenas um sai! E não acaba até que um deles mate o outro e se eles se recusam a se matar, os dois são sacrificados!

Se eu soubesse que era isso... o que eu poderia ter feito para salvar Ian? Nada... se me negasse a trazer Ian para cá teria Conde Leon como inimigo e seria questão de tempo até que ele atirasse sua vingança sobre nós dois e ia ser bem pior que isso com certeza!

A luta dentro da gaiola estava ficando bem mais sangrenta e mortal, toda vez que os mestiços perdiam o interesse na luta, água quente era jogada neles para instigá-los a voltar a lutar, podia ouvir o barulho da água fervente queimando a pele deles, podia ouvir o gemido de dor e os rosnados que se seguiam quando eles partiam um para cima do outro de novo, um deles perdeu uma orelha em uma mordida do outro, finalmente eu estava vendo para o que servia aqueles dentes com serrinhas e era algo assustador.

Ian se encostou tremulo em mim, olhei para ele e sua expressão extremamente assustada me fazia querer correr com ele dali.

–“Não... por favor, não faça isso comigo! Por favor, Sephiron... eu tenho sido um bom bichinho de estimação, não tenho?” Ian me lançou um olhar cheio de lágrimas e pedidos de piedade.

Eu o ignorei, não havia nada que eu pudesse dizer para ele nesse momento.

–“Por favor, Sephiron, por favor... eu deixo você me bater... eu... eu aceito brincar de pega-pega com você todas as noites... eu faço o que você quiser... você pode voltar a fazer aquelas coisas sádicas comigo... você pode colocar quantas bolinha de metal quiser dentro de mim... mas por favor, não me faça lutar contra alguém da minha espécie!” Ian chorou encostando a testa contra o meu ombro, seu pedido me fazia sentir um forte aperto no coração, ele estava tão grudado em mim que eu podia sentir o calos de seu corpo emanando, será que essa é a última vez que eu vou sentir isso?

–“Ian... eu não posso fazer nada... eles vão fazer algo pior com nós se eu me recusar a isso, eu sinto muito!” Quando disse isso me senti assinando a sentença de morte de Ian.

Ele chorou mais forte e se aconchegou mais em mim como se quisesse se fundir ao meu corpo, senti seu peito firme e seu coração acelerado, sua barriga um pouco protuberante por comer demais e pela falta de exercícios, senti suas pernas bambas, MERDA, ele não vai sobreviver a isso, olhei o final da luta dos outros dois mestiços, um deles arrancou a jugular do outro em uma mordida, o outro agonizou uns minutos antes de morrer enquanto a plateia ia a loucura com o sangue que jorrava.

Fechei os olhos, não queria imaginar algo assim acontecendo com Ian.

–“Sephiron, você veio... que bom! Bem na hora, é a vez do seu mestiço!” O Conde Leon se aproximou com um sorriso contente, ele estava bem mais gordo do que eu me lembrava, ele trazia de arrasto pela coleira dois mestiços tão exaustos que pareciam prestes a cair mortos no chão, as pernas deles tremia como se não suportasse mais o próprio peso deles, eles olhavam sem ver, suas pupilas dilatadas marcavam seus olhos desfocados, um arrepio passou pela minha pele com tal imagem... e se o Ian tivesse sido comprado pelo Conde? Ele estaria assim agora?

–“Espécie interessante essa não? Quando descobri o quão forte eles eram é claro que a ideia de colocar eles pra brigar me veio à minha mente e quer saber? O governo esta pensando em tornar isso um esporte legalizado!” Conde Leon sorriu para mim enquanto dava um puxão na coleira de um de seus mestiços, ele fez um corte no pescoço do mestiço com sua unha afiada e quando o sangue começou a vazar ele colocou sua taça de bebida na ferida e a encheu, o mestiço mal reagia e Ian se agarrava em mim mais assustado do que nunca.

Queria dizer que não queria deixar Ian ir, mas não podia... me sinto um MERDA IMPOTENTE! Dois vampiros servos vieram e levaram Ian do meu lado, senti seus dedos segurarem minha mão e retribui o aperto... mas logo soltei como um covarde.

Ian me lançou um olhar traído antes de se deixar ser levado pelos vampiros servos, um deles retirou a coleira de Ian e a me entregou, a segurei como se fosse a única coisa que me restava de Ian agora.

Ian foi levado para dentro da gaiola, MERDA, ele ia lutar contra um mestiço bem maior que ele e com certeza muito mais velho e que já havia sobrevivido a outras brigas, seu corpo era cheio de cicatrizes de pedaços faltando, ai não, isso significa que Ian pode sim ficar com alguma cicatriz, se ele sobreviver a isso é claro!

–“Não vai apostar?” Perguntou Conde Leon ao beber toda a taça de sangue de uma só vez e voltou a encher usando o segundo mestiço.

Entreguei para ele uma boa quantia de dinheiro e disse que queria apostar em Ian é claro, mas eu não queria apostar, não queria fazer isso com ele, mas se eu não entrasse no jogo desse vampiro gordo, não quero nem pensar no que aconteceria! Conde Leon se afastou contando o dinheiro com um sorriso cruel e puxou seus mestiços com ele, um deles caiu e Conde Leon o chutou até ele se levantar de novo.

Dentro da gaiola o mestiço adversário de Ian partiu para cima dele com claro desejo de matar.

O que eu faço? O que eu faço? Alguém me diga O QUE EU FAÇO?

Notas finais
E agora? Ian correr perigo e Sephiron não sabe o que fazer, o que irá acontecer? Não percam no próximo capítulo!