Sangue quente.
27 Tensão.
Notas iniciais
Sephiron...
Observar James agarrado ao Pedro daquele jeito... me dava um estranho aperto no peito, eu não gostava disso, tem que ter uma forma de fazer esse aperto passar.
Resolvi voltar para o quarto e ficar ao lado da criaturinha, se ela tivesse alguma mudança em seu estado, para melhor ou para pior... eu estaria lá, para ajudar Ian.
Quando cheguei ao quarto Ian estava tentando ninar a criaturinha que estava dando um chilique, ela estava furiosa. Ela chutava, batia, rosnava e chorava ao mesmo tempo.
—“Ela está irritada.” Disse Ian tentando segura-la da melhor forma possível, mas ela estava se debatendo com tudo.
—“Cadê o mordedor dela?” Perguntei vendo que ela estava tentando morder o Ian.
—“Em um acesso de raiva, ela atirou ele longe.” Explicou Ian, apontando com a cabeça o mordedor no chão.
—“Pega ela pra mim? Eu vou lá higienizar isso.” Ian me passou ela e eu a peguei com dificuldade, ela estava se mexendo muito e ainda por cima era muito pequena e frágil, eu não podia aperta-la, ou ia acabar machucando-a.
A criaturinha me chutou, me estapeou e tentou me morder. Para acalma-la, enfiei meu dedo em sua boca e massageei sua gengiva. Ela parou de se debater e ficou quietinha. Esses dentes deviam estar incomodando muito mesmo ela.
Me sentei na cama e fiquei massageando-a, logo ela relaxou o suficiente para pegar no sono.
Ian voltou com o mordedor, mas ao ver que ela estava calma e dormindo, ele suspirou aliviado e tocou na testa dela.
—“Ela ainda está quente... o que a gente faz?” Perguntou Ian com certo desespero em sua voz.
—“Não sei.” Respondi me sentido um impotente... devia ser assim que James estava se sentindo.
—“Ela não quis nem comer... estou preocupado.” Ian me olhou como se eu tivesse o poder de estalar os dedos e resolver o problema.
—“Por hora vamos deixa-la dormir... quem sabe isso a ajuda a melhorar.” Falei esperançoso.
Ian suspirou, mas concordou, as horas seguintes foram de pura tensão, tanto pela criaturinha quanto pelo Pedro, James continuava a insistir em ir, e eu seguia proibindo ele de ir.
Se ele fosse pego... com certeza iriam executar ele na mesmo hora. Isso se não o torturarem antes para descobrir onde ele esconde seu humano. De que nos adiantaria mandar James pra morte? Ele estava melhor aqui... onde podia cuidar de Pedro, mantendo ele aquecido e confortável.
Um dia inteiro se passou... agora tínhamos o problema da falta de comida, eu estava tentado em ir na floresta caçar, mas tinha medo de voltar e descobrir que James aproveitou a minha ausência para fugir. E eu também tinha medo de mandar James ir caçar, porque eu temia que ele fosse ao mercado negro ao em vez da floresta.
A noite ainda estava no seu inicio quando voltei a ter uma discussão com James na sala, ele queria ir de qualquer jeito, e eu não sabia como fazer a realidade entrar na cabeça dura dele... francamente, eu sou tão cabeça dura assim também? Droga! Como o Ian me aguenta?
A criaturinha não havia comido durante o dia anterior e isso era muito preocupante, ela costumava comer de duas em duas horas. Ian estava aos frangalhos por ela.
Voltei para o quarto depois de uma acalorada discussão que tive com James. Ian estava sentado na cama olhando para a criaturinha, ela estava sentada no meio da cama roendo o mordedor. Paralisei ao vê-la, pela primeira vez se apoiando sozinha assim, ela nunca havia sentando antes... uaaau, essa evolução foi do nada.
—“Ela se sentou assim sozinha.” Ian sorriu pra mim e eu me animei um pouco, se ela estava conseguindo arranjar forças para se equilibrar assim... então ela não devia estar tão mal.
Quando ela me viu na entrada do quarto, ela mordeu o mordedor e segurou-o com a boca como se fosse um cachorrinho e veio engatinhando em minha direção a toda velocidade. Ela engatinhou até a beirada da cama, e, se eu não fosse um vampiro ágil, ela teria caído de cabeça no chão. A segurei quase no último instante.
—“Criaturinha... isso foi muito perigoso, não faça mais isso.” Falei tentando controlar o tom da minha voz, eu quase gritei e ralhei com ela.
Ela aproveitou que estava sentada em meu colo e se livrou do mordedor, para então atacar meu pescoço com vontade, se ela já tivesse dentes, ela teria sido certeira e teria pego a minha veia carótida... boa menina! Já sabe como matar... estou muito orgulhoso.
-“Está com fome criaturinha?” Tentei afasta-la de meu pescoço, mas ela grudou que nem carrapato.
Levei meu pulso à boca e mordi, quando ela sentiu o cheiro de sangue no ar, ela soltou meu pescoço e atacou meu pulso... Nunca a vi tão faminta! Também pudera, ela ficou um dia inteiro sem comer, mas ela seguia um pouco quente... droga, o perigo ainda não passou.
Depois que ela bebeu até se satisfazer, ela colocou o mordedor de novo na boca e se inclinou para o chão... entendi na hora que ela queria descer e explorar sozinha a casa, agora que ela sabia engatinhar. A coloquei no chão e ela foi explorar a sala.
Eu e Ian a seguíamos de perto, era engraçado vê-la engatinhando por ai, ela ainda fazia isso de um jeitinho atrapalhado e engraçadinho, mas estava ficando cada vez mais rápida e firme.
James surgiu do quarto dele, acho que ele ia recomeçar a discutir comigo, mas quando ele viu a criaturinha engatinhando no chão da sala, ele paralisou e ficou dividido entre elogia-la, ou brigar comigo.
A criaturinha estava indo muito bem em sua primeira exploração, Ian se encostou em mim e eu o abracei, não sei que sentimento era esse que eu estava sentido, mas estar ali, com Ian nos braços vendo nossa criar ir buscar sua independência fazia meu ego inchar.
De repente a criaturinha engatinhou até uma mesinha onde havia um abajur, ela pegou o fio do abajur, cuspiu o mordedor e colocou o fio na boca.
Eu, Ian e James a pegamos juntos no mesmo instante. Meu coração quase saiu pela minha boca.
—“Fica de olho nessa miúda, Seph.” James pegou o abajur e enrolou o fio nele, antes de coloca-lo em lugar alto e seguro.
—“Ora... você também estava por perto, vê se fica de olho também.” Rebati pra ele.
—“Querem para de brigar na frente dela?” Pediu Ian zangando, ele a tomou dos meus braços e foi para o quarto fazendo caretas para nós dois.
Encarei James, as coisas estavam ficando quentes entre nós... estávamos muito perto de brigar pra valer mesmo, mas eu não queria isso, eu sabia que ele estava nervoso pelo Pedro, mas eu não estava conseguindo lidar com essa teimosia dele sem me irritar.
James me olhou como se quisesse se desculpa comigo e ao mesmo tempo brigar. Acabamos discutindo novamente sobre ele ir ao mercado negro, eu mantive o meu posto e ele seguiu teimando.
Depois de quase xinga-lo, eu desisti de bater papo com ele e fui para o quarto. Ian estava lá, tentando fazer a criaturinha ficar quieta sobre a cama, ela não queria saber de deitar, ela queria engatinhar por ai.
Fiquei encostado no batente da porta, olhando pra eles. Ian tinha um sorrisinho contente no rosto ao ver a criaturinha se virar de barriga pra baixo e sair engatinhando de novo, mas ele voltava a pega-la e a coloca-la deitada de barriga pra cima no meio da cama, e, novamente ela se virava e saia engatinhando.
Ian estava quase gargalhando disso, mas logo sua expressão ficou amuada ao ver a minha expressão pra baixo.
—“O que houve?” Ian perguntou preocupado comigo.
—“Nada não... só estou pensando nas nossas opções.” Falei tentando melhorar a minha expressão.
Sentei-me na cama e puxei Ian para os meus braços... e se fosse ele morrendo? Eu iria ficar aqui parado? Ou iria atrás de uma promessa de cura em uma clara armadilha? Com certeza a segunda opção, sem falar que ainda tinha a febre da criaturinha.
Larguei Ian e olhei em seus olhos.
—“Como está a febre dela?” Perguntei sério.
—“Eu não sei... deixa eu ver... CADÊ ELA?” Ian se desvencilhou de meus braços e começou a procura-la embaixo dos travesseiros e cobertores, ela não estava em cima da cama.
—“O que?” Me assustei e rapidamente contornei a cama procurando por ela, por sorte ela não estava estatelada no chão por ter caído da cama, mas por azar, ela não estava em lugar nenhum.
A criaturinha não estava no chão do quarto e nem embaixo da cama, corremos em disparada para a sala, mas ela também não estava lá. Invadimos o quarto de James e Pedro, os dois estavam abraçados, o rosto pálido de Pedro estava vermelho e inchando de lágrimas.
—“Vocês viram a Sophia?” Ian perguntou desesperado.
—“O que? Não, por quê? O que houve?” Perguntou James largando Pedro e ficando de pé.
—“Ela sumiu bem de baixo de nossos narizes e não conseguimos encontra-la.” Ian explicou enquanto olhava embaixo da cama deles.
—“Ai meu Drácula.” James correu para nos ajudar a procura-la.
Começamos a procurar por toda a parte, mas nem sinal dela, ela não estava em nenhum cômodo da casa, e nós olhamos tudo umas duas vezes.
—“Será que ela saiu? A porta tá trancada? E a janela?” James perguntou isso e eu imediatamente testei as trancas, estava tudo fechando, não tinha como ela ter fugido pra rua... tinha?
—“Vocês tem certeza que olharam direito no quarto de vocês?” James perguntou fazendo menção de ir procurar lá de novo.
—“Sim, nós procuramos lá... ela não pode ter se escondido embaixo de uma almofada.” Ian argumentou isso, mas acabou olhando embaixo da almofada do sofá mesmo assim.
De repente um risinho conhecido chamou a nossa atenção, a criaturinha estava na sala conosco, mas não estávamos vendo ela.
—“Cadê ela?” Ian perguntou olhando para todos os lados, voltamos a procura-la na sala, olhamos atrás do sofá e da estante da televisão.
Algo molhado caiu na minha cabeça, era o mordedor dela, olhei para cima e quase tive um ataque do coração, ela estava engatinhando no teto. Ouve um minuto de silêncio enquanto James, Ian e eu encarávamos boquiabertos o teto.
—“SOPHIA... COMO VOCÊ CHEGOU AI EM CIMA?” Ian quase arrancou os cabelos.
A criaturinha apenas gargalhou e seguiu engatinhando no teto de cabeça pra baixo como se estivesse engatinhando sobre o chão normalmente.
—“Como a gente pega ela agora?” James perguntou, Ian me lançou um olhar assustado e em uma fração de segundo enquanto eu devolvia o olhar pra eles... ela sumiu novamente, em um momento ela estava no teto e no outro não estava mais lá.
—“...” Outro minuto de silêncio ocorreu antes de entramos em pânico novamente.
—“Cadê ela agora?” James olhou para todos os lados em desespero.
—“SOPHIAAAA” Ian chamou apavorado, todos estávamos com medo de que ela caísse de cabeça no chão, ou mordesse algo que não devia novamente.
—“Tata” Ouvimos a voz dela a nossa direita, quando nos viramos para olhar, ela estava sentada no sofá batendo palmas e gargalhando.
Ian correu para segura-la e impedir que ela sumisse novamente.
—“Como ela fez isso?” Ian perguntou, mas não sei dizer se foi uma pergunta pra mim, ou se foi uma pergunta pra si mesmo, mas resolvi responder por via das duvidas.
—“Não sei... em um minuto ela estava lá e depois estava aqui... isso é assustador!” Me arrepiei de leve.
—“Nunca mais faça isso Sophia... você me assustou e quase me matou do coração.” Ian fez cara feia para a criaturinha, mas ela parecia não ligar pra isso no momento.
Ian disse que ela o assustou e eu disse o mesmo, mas quando eu disse que ela me assustou, eu não me referi ao fato de ter medo de perdê-la por ai, como Ian devia estar sentido... bem, na verdade tem isso também. Mas na realidade o meu medo é mais pelo fato de que ela ou é muito rápida, ou pode se teletransportar e isso é a prova de que ela é um predador muito melhor que um vampiro... muito melhor mesmo!
—“Vampiros podem andar no teto? Já vi filmes antigos, dá época em que os humanos os produziam... neles, vocês podiam fazer isso.” Ian perguntou isso pra mim interessado.
—“Só nos filmes e fantasias Ian!... Não podemos fazer isso na vida real.” Revirei os olhos pra ele.
—“A febre dela passou, pelo menos isso AAI... ela me mordeu!” Ian mostrou o dedo ferido.
—“As presas já nasceram?” Me admirei, achei que isso ia levar um tempo. Isso é um grande avanço e em tão pouco tempo.
—“COF... COF... La encontraron? Necesitan ayuda? Cof... cof...” Pedro apareceu na porta do quarto dele tossindo forte e se agarrando no batente da porta como podia, ele ofereceu ajuda para procurar Sophia, mas aparentemente suas forças se acabaram e ele caiu. No entanto James foi mais rápido e o segurou antes que ele tocasse no chão e se machucasse.
—“Já chega... eu vou ao mercado negro, vocês querendo ou não.” James bateu o pé. Ele segurou Pedro nos braços e me encarou decidido.
—“No... por favor... cof cof...” Pedro se abraçou mais forte em James.
—“Já falamos sobre isso... você não vai e ponto.” Bati o pé de volta, ele só iria sair dessa casa, por cima do meu cadáver.
—“Você não manda em mim Seph.” James me olhou ensandecido e Pedro se encolheu em seus braços, acho que essa era a primeira vez que ele via James tão zangado e exaltado desse jeito... E eu só o vi assim nesse estado, naquela vez em que ele achou que eu havia espancado Ian para fazê-lo perder o outro bebê.
—“Deixa de ser cabeça dura, eu estou tentando te manter seguro.” Falei isso dando um passo à frente e sentido o meu sangue ferver.
—“Não preciso de sua proteção... sei me cuidar.” James também deu um passo à frente, seus olhos estavam brilhando de raiva.
—“Você vai acabar preso e Pedro vai morrer de desgosto.” Apontei para humano nos braços de James, o garoto parecia mais doente por nos ver discutir assim. E a criaturinha olhava de um para o outro assustada, já o Ian parecia tão pasmo com o que acontecia, que estava congelado no lugar.
—“Mas eu não vou ficar aqui sentado vendo-o morrer.” James rebateu erguendo o queixo pra mim.
—“ENTÃO PREFERE FICAR SENTADO NA CADEIA SE PERGUNTADO SE ELE JÁ MORREU?” Perdi totalmente o controle e comecei a gritar a plenos pulmões com ele. A criaturinha pulou com susto que dei nela ao gritar, ela se encolheu nos braços de Ian.
—“BOM... PELO MENOS EU VOU TER TENTADO SALVÁ-LO.” James respondeu com um tom de voz idêntico ao meu.
—“Parem com isso, por favor.” Ian tentou me puxou pela camisa para longe de James, nem tinha reparado que eu estava cara a cara com James, esmagando Pedro entre nos e também que estávamos perto de sair no braço.
—“Não se meta Ian... pega a criaturinha e o Pedro e sai de perto.” Ordenei isso a ele, porque estava prevendo que íamos acabar lutando... estávamos muito exaltados e isso para um vampiro é algo difícil de se controlar. Na melhor das hipóteses, nós dois íamos nos mutilar em uma briga destrutiva... Na pior das hipóteses, lutaríamos até a morte.
—“VOCÊ NÃO MUDOU NADA SEPH... CONTINUA O MESMO FILHO DA PUTA DE SEMPRE. VOCÊ NEM LIGA SE ELE VAI MORRER OU VIVER, PRA VOCÊ ELE NÃO PASSA DE UM SIMPLES HUMANO E... PELO VISTO VOCÊ NÃO LIGA MESMO PARA A SUA FILHA TAMBÉM, POIS VOCÊ PREFERIU DEIXA-LA SOFRENDO COM A FEBRE E IRRITAÇÃO AO EM VEZ DE PROCURAR UM RÉMEDIO PRA ELA.” James me jogou tudo isso na cara e meu sangue foi parar na cabeça, acabei esbofeteando o rosto dele com todas as minhas forças... minha mão latejou.
—“Larga o humano em um lugar seguro.” Consegui falar me controlando, mas eu já estava prestes a pular em cima dele. Ele me olhou com ódio, sua bochecha esquerda estava vermelha pelo tapa que levou.
—“Eu vou te arrebentar na porrada seu velho BURRO... NÃO TÁ VENDO QUE EU ESTOU FAZENDO ISSO PRA TE PROTEGER DE UM PERIGO IMINENTE?” Eu gritei pra ele com tanta raiva, que estava sentido minhas presas se alongarem em um desejo frenético por estraçalhar algo, e pelo visto o mesmo acontecia com ele. A criaturinha chorava desesperada agora, ela sentia o perigo e a tensão que pairava sobre nos naquele cômodo. Ian tentava me puxava para longe de James como podia, mas ele também estava segurando a criaturinha ao mesmo tempo, então ele não estava conseguindo me parar. Pedro tentava inutilmente chamar a atenção de James para si e fazê-lo esquecer da briga.
Nesse momento a criaturinha parou de chorar e começou a rosnar para o teto, esse era um rosnado alto que eu nunca tinha a ouvido emitir antes, seus olhos estavam com um estranho brilho e ela estava olhando para algo além do teto... será que ela tem visão de raio-X também?
—“O que ouve Sophia?” Ian perguntou calmamente, a criaturinha seguia olhando para o teto rosnando, foi ai que ouvimos o som de aviões passando sobre a nossa casa.
Foi tudo tão rápido, a expressão da criaturinha se tornou assustada, ela parou de olhar para o teto e sua mão pequena se agarrou a minha camisa.
—“Papa...” Foi tudo que ela disse antes do...
BOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOM
Uma explosão enorme jogou a todos em direções opostas, senti o fogo da explosão queimar meu peito e rosto, ouvi o grito dos outros e tudo ficou negro.
...
Ian...
Quando senti o impacto da explosão me jogando contra a parede da sala, me abracei mais forte em Sophia e tentei protegê-la das chamas da explosão. Mas quando me choquei com tudo na parede dura, senti como se meu crânio se rachasse em dois, minha visão ficou turva e eu perdi a noção do que acontecia ao meu redor. Meu corpo doía e eu queria simplesmente desistir e dormir. Mas então Sophia se remexeu em meus braços e chorou desesperada, era um choro de pura agonia, reuni todas as forças para me manter acordado e olhar para ela, e para o meu desespero, ela estava sangrando... e sagrando muito mesmo.
Meu coração quase parou... um estilhaço da bomba jogada em nós havia se ficado em seu abdômen, o desespero de vê-la gravemente ferida liberou a adrenalina que eu precisava para me levantar e lutar por nossas vidas.
Olhei em volta... o caos reinava no que antes era a sala de estar da casa e que agora eram ruinas em chamas, nada era reconhecível, o local parecia maior e tinha escombros do teto impedindo minha passagem para o lado em que eu julgava que James e Pedro estavam, no céu escuro mais aviões davam rasantes na cidade e despejavam bombas, a gritaria dos vizinhos era ensurdecedora.
Sophia gritava como nunca, ela devia estar com muita dor, eu não sabia o que fazer... eu precisava do Seph... cadê o Seph? Será que eu nunca mais vou vê-lo? Por favor, Deus... tudo menos isso... por favor.
Comecei a andar entres os escombros e labaredas de fogo, estava muito difícil de me locomover, o chão estava atulhado de escombros.
—SEEEEEEPH... JAAAAAAAAMES... PEDROOOOOO... ALGUÉM, POR FAVOR, SOCORRO.” Gritei a plenos pulmões, mas não houve resposta.
Eu nem reparei que também estava muito ferido, alguns estilhaços da bomba também pegaram em mim, eu estava sangrando... mas isso não era nada, eu ia viver... TODOS íamos viver e nos reencontrar, eu tinha certeza disso.
Sophia berrava cada vez mais alto, sua agonia era palpável, eu estava morrendo de medo por ela, eu queria fazer algo, mas eu não sabia o que fazer. Tropecei em algo mole, quando me virei pra ver, o meu coração quase parou de novo.
Seph estava no chão desacordado... ou talvez morto... não, eu não quero pensar nisso... mas ele estava tão mal, havia queimaduras feias por seu peito e rosto... e eu sei que queimadura é algo perigoso para vampiros... às vezes é até fatal.
Abaixei-me rezando por um milagre, toquei em Seph, ele não estava se mexendo... e nem respirando... ah, não, não, não meu Deus... por favor, eu preciso de uma ajuda, por favor, não leva o Seph... eu preciso dele!
—“SEPH... ACORDA, POR FAVOR... SEEEEPH... NÃO ME DEIXA DESSE JEITO, A SOPHIA PRECISA DE VOCÊ, EU PRECISO DE VOCÊ... ACORDA, POR FAVOR.” Sacodi o corpo inerte dele com todas as minhas forças com meu braço livre, a criaturinha parou de chorar bruscamente e todo o meu mundo congelou e desabou. Isso não podia ser verdade... isso era um pesadelo... só podia ser um pesadelo.
Reuni coragem para olhar a Sophia, ela estava mole nos meus braços, os olhos fechados, a cabeça pendida para trás, a boca entreaberta vertendo sangue, o ferimento no abdômen também sangrava... era uma das imagens mais grotescas que eu já vi, me voltei para Seph em desespero e comecei a socar o peito dele com a minha mão livre.
—“SEPH... ACORDA... A... SOPHIA... VAI... MORRER... DESSE... JEITO.” Soquei o peito dele entre uma palavra e outra. De repente o corpo de Seph deu um solavanco e ele puxou uma lufada de ar.
—“SEPH!” Pulei nos braços dele e o abracei desesperado.
—“Ian... o que tá acontecendo? Onde estou... porque meu corpo tá doendo tanto?” Seph se agarrou em mim, eu podia sentir o corpo dele tremer inteiro, talvez ele estivesse entrando em choque pela dor.
—“Seph... a Sophia... por favor, me ajuda.” Olhei para Sophia em meus braços e os olhos de Seph seguiram o meu olhar, ele ficou estático por um momento, mas finalmente Seph retornou a realidade.
Ele pegou Sophia dos meus braços com urgência e olhou desesperado ao redor.
—“Temos que sair daqui... e cuidar dela. Cadê os outros?” Seph me perguntou trêmulo.
—“Não sei.” Respondi entre lágrimas.
Ele olhou em volta mais desesperado ainda, mas então seus olhos se voltaram para Sophia novamente, dava pra ver que um dilema surgia em sua mente.
—“Não podemos... procurar pelos outros agora... temos que... tira-la daqui e cuidar disso.” Seph me disse isso com um pesar na voz, o corpo ferido dele tremia mais forte agora.
—“Vamos abandonar James e Pedro? Não!” Olhei em volta desesperado, eu tinha que acha-los, eles podiam estar presos nos escombros agora mesmo, eles podiam estar precisando de ajuda.
—“Ian... é necessário, cada minuto aqui... é um minuto a menos pra ela. Eles estão bem, eles vão ficar bem e... nós vamos encontrar eles na minha casa. James sabe onde a casa fica, eu mostrei pra ele no mapa... ele vai nos encontrar lá.” Seph disse isso e eu pude ver que ele estava tentando acreditar e se segurar nessa esperança, para poder continuar.
Concordei com ele, e resolvi acreditar em suas palavras também. Seph se colocou de pé e gemeu de dor, ele estava muito queimado e seus ferimentos não estavam curando, na verdade nem os meus estavam, e para piorar estávamos ainda cercados de escombros e fogo, mas segui Seph que ia à frente e logo conseguimos sair daquele inferno que antes era uma casa confortável, para entrar em outro inferno.
Os muitos vampiros da cidade corriam em ziguezague na rua, seus corpos em chamas. No chão alguns membros jaziam em poças de saguem. Gritos, berros e pedidos de socorro viam de todos os lados, novas explosões eram ouvidas em todos os lugares a todo o momento.
Seph me pegou pela mão e correu comigo para a floresta, lá era a nossa única chance.
...
James...
Quando eu ouvi o barulho da explosão sobre nossas cabeças no telhado da casa, eu me virei e usei meu corpo de escudo para Pedro, foi tudo tão rápido, mas pude ver Ian com a Sophia nos braços sendo jogados longe no mesmo instante em que senti a dor de várias lâminas se ficando em minhas costas. A bomba havia jogando muitos estilhaços em minha direção, senti uns dez pedaços de metal retorcido se enfiar em meu corpo, as minhas forças se acabaram, mas fiz um esforço para cobrir Pedro e impedir que algo lhe atingisse.
Caímos no chão e o caos tomou conta de tudo ao nosso redor, nada mais era reconhecível, não havia mais sofá na bela sala, somente uma bola de fogo.
Pedro gemeu embaixo de mim e eu consegui reunir forças para rolar de cima dele... e então eu senti. Um dos estilhaços havia passado de raspão em meu coração... isso complicava as coisas para mim, já que eu não estava muito bem alimentado, eu ia demorar o dobro do tempo para me curar. Eu tinha que me mover e sair desse lugar, mas se me esforçasse agora, teria uma hemorragia maior e morreria.
Mas eu precisava salvar Pedro... eu precisava me mover... mesmo que eu fosse morrer, eu precisa salvá-lo. Tentei me levantar para pegá-lo nos braços e correr, mas quando tentei me mover nada aconteceu... acho que um dos estilhaços feriu minha coluna... estou paralisado e como estou demorando muito para me curar... Droga! Não vai dar tempo, não vou me curar a tempo de sair daqui, esse fogo, vai me consumir antes. Nem se eu beber o sangue de Pedro agora, eu não me recuperei a tempo.
—“Pedro... Pedro, me escute... saia daqui, corre, vai procurar o Seph e o Ian.” Ordenei a Pedro que estava aos poucos reagindo e se movendo ao meu lado, ele não havia se ferido, ainda bem!
—“Cof... cof... Pero ¿qué pasa con usted?” Ele me perguntou Mas e você?
—“N-não ligue pra isso... você tem que ir.” Sorri pra ele, nesse momento ouvi a voz de Ian chamando do outro lado dos escombros, se Pedro corresse, ele poderia contornar esses entulhos e achar Ian.
—“Vai logo Pedro.” Pedi novamente.
—“No... Yo no voy a ninguna parte sin ti.” Ele disse que não ia a nenhum lugar sem mim, e ao dizer isso ele se sentou sobre os calcanhares ao meu lado e segurou minha mão, uma pontada de tristeza tomou conta do meu coração quando eu percebi que não podia sentir a macies de sua mão na minha.
—“Deixa de ser teimoso e sai daqui... eu não tenho mais salvação... eu vou morrer, sai daqui agora.” Eu queria poder empurrá-lo pra longe, mas meu corpo não reagia.
—“No!” Pedro se abraçou a mim.
—“PEDRO SAI DAQUI... SE SALVE, POR FAVOR.” Gritar com ele era tudo que eu podia fazer no momento.
—“Sin ti, no quiero vivir.” Ele disse que não queria viver sem mim. Ele me abraçou mais forte, mas novamente eu não senti nada... me doía pensar que eu não iria mais poder senti-lo me tocar.
—“Pedro, para com essa frescura... sai daqui, anda logo, você ainda tem uma chance, mas eu não posso nem andar para sair daqui agora.” Tentei me mover de novo, mas minha coluna não estava curando rápido o suficiente.
—“Así que te llevo.” Ele disse que vai me carregar.
—“Não seja idiota Pedro... você não vai conseguir.” Tentei me desvencilhar dele, mas era impossível de me mexer. Pedro se pões nas minhas costas, me sentou e passou os braços por debaixo de minhas axilas, então começou a me puxar, me arrastando no chão e ganhando uns poucos centímetros de progresso em nossa fuga por vez... desse jeito ele não ia conseguir.
—“Não Pedro, pare, você não vai conseguir sair daqui a tempo, as chamas vão consumir tudo antes que você chegue até a saída, me deixe e vá.” Comecei a sentir as lágrimas tomarem conta de meus olhos, ele estava doente e fraco, mas não queria me deixar.
—“Nunca cof... cof...” Pedro seguiu me arrastando, seu progresso lento estava causando dor a ele, mas mesmo assim... ele não me soltava.
—“Pedro... não faça isso, por favor.” Agora sim minhas lágrimas caiam em cascatas de meus olhos.
—“Este mundo no es bueno para los humanos... sin ti no tengo ninguna posibilidad... yo te quiero... Prefiero morir a su lado.” Ele disse que esse mundo não é bom para humanos, que sem mim ele não tinha chances e disse que me amava e preferia morrer ao meu lado. As lágrimas se intensificaram e rolaram pelo meu rosto... o que ele disse era verdade, sem mim ao lado dele... o que ia ser dele? Eu não queria morrer.
Eu não posso morrer! Eu quero ver minha neta crescer, quero ver o Seph descobrir a cada dia mais o que é amor de verdade ao lado de Ian e principalmente... eu quero tornar a curta vida de Pedro a mais feliz possível... eu o amo tanto!
Seph... eu não acredito que nosso último momento juntos foi brigando... não! Eu não quero que esse seja a última lembrança dele de mim... eu disse coisas ruins pra ele, eu não pensava aquilo realmente... eu o amo tanto, ele sempre foi meu orgulho, mesmo quando ele me maltratou e mandou que eu sacrificasse aqueles pobres humanos... eu sempre amei ele e sempre vou amar.
Pedro seguia me arrastando, ele arfava pesadamente e eu podia sentir que ele estava sofrendo muito.
—“Pedro... eu te amo.” Me confessei pra ele, pois se caso eu morresse, eu não queria cometer com ele o mesmo erro que cometi com Seph.
—“Yo sé!” Eu sei, ele me disse, quase sorri com sua resposta. Cheguei até a torcer que ele conseguisse me tirar daqui, mas ele estava tão fraco que eu sabia que era impossível.
Os aviões voltarão a dar um rasante sobre nossas cabeças, jogando mais bombas. Uma delas caiu bem perto da gente, mas não explodiu, eu e Pedro olhamos pra ela e uma certeza tomou conta de mim... ela ia explodi, e logo, não tínhamos mais tempo.
—“Pedro... um último beijo... por favor... e depois vá embora, por favor.” Implorei a ele, eu ia morrer... isso já estava certo, mas ele ia seguir em frente, ele ia ser feliz, eu tinha certeza disso!
Pedro chorando finalmente desistiu de me carregar, ele me encostou contra o restante de uma parede e sentou em meu colo, passando os braços em torno de meu pescoço.
—“Eu... vou... ficar... com você!” Pedro disse isso em minha língua, primeiro me surpreendi, pois ele havia aprendido a minha língua, mas depois os significados de suas palavras me atingiram.
—“Não...” Eu tentei falar, mas ele tapou meus lábios com um dedo e sorriu consternado.
Olhei seu lindo rosto, ele estava calmo e sereno... parecia que ele estava pronto para esse momento... talvez ele estive mesmo pronto, afinal ele encarou a morte tantas vezes nesses últimos dias, que devia ter se preparado mentalmente para o fim.
O único sinal de tristeza em sua feição, eram suas lágrimas que teimavam em escorrer por suas bochechas rosadas, consegui tomar o controle de meus braços novamente e o abracei, mas minhas pernas seguiam inertes.
—“Yo sabía que iba a morir... Simplemente no pensé que vendrías conmigo... Quería que usted vivesse para siempre.” Ele disse o seguinte... Eu sabia que eu ia morrer... Só não pensei que você viria comigo... Eu queria que você vivesse para sempre.
Alisei seu rosto com carinho e rezei para o tempo congelar nesse momento, eu não podia acreditar que ele desistiu de viver para ficar ao meu lado em minha morte... e ele ainda tinha uma chance de viver.
—“Pedro... por quê? Isso é suicídio... você podia aproveitar a sua curta vida... porque desistir de tudo... para ficar comigo?” Perguntei chocado com isso, eu não esperava que ele fosse me dar tamanha prova de amor... Droga! Porque eu tinha que encontra o amor de minha vida tão tarde? Porque tivemos tão pouco tempo juntos? Foi uma brincadeira de mau gosto de Deus? Ou foi um presente? Prefiro acreditar na segunda opção.
—“Por quê? Ora... porque eu te amo!” Ele disse isso em minha língua novamente... eu estava tão orgulhoso dele... mas eu nem terei a chance de desfrutar esse seu aprendizado, tantas coisas legais que poderíamos fazer com isso.
—“Eu também te amo... para todo o sempre.” Respondi deixando minhas lágrimas rolarem mais, meus últimos pensamentos em Seph e sua pequena família, eu só torcia para que eles ficassem bem e que logo aumentassem sua prole e fossem felizes... eu só ficava triste por não poder estar ao lado deles nesse árduo caminho que os aguarda.
—“Vamos juntos!” Disse Pedro com um fraco sorriso.
—“E ficaremos para sempre juntos.” Prometi.
Nossos lábios se tocaram e uma leve caricia... em um último e doce beijo.
BOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOM
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