Sangue quente.
28 O fim?
Notas iniciais
Sephiron...
Corri o mais rápido que pude, sempre rebocando Ian pela mão, graças a isso, eu tinha que levar em consideração a velocidade que Ian conseguia acompanhar, então não estávamos seguindo em uma velocidade rápida o suficiente para o meu gosto.
Atrás de nós ainda era possível ouvir explosões e gritos. O chão vibrava com os impactos, as árvores ao nosso redor tremiam perdendo as suas folhar, animais corriam de seus esconderijos em pânico. E mesmo longe da cidade, ainda podíamos sentir a devastação, eu só rezava para que James e Pedro tivesse conseguido escapar.
E se eu nunca mais os visse? Não! Eu não posso pensar isso, eu tenho que pensar positivo agora. Eu sei que eles estão bem, eu sei que eles conseguiram. Eu vou me encontrar com eles em minha casa de campo, eu com certeza vou vê-los de novo!
Ian estava ficando mais lento, ele respirava pesadamente e sua mão na minha estava ficando suada, ele estava chegando ao seu limite, mas eu não podia parar ainda. Corríamos o risco de ainda sermos atingidos a essa distância do bombardeio.
A criaturinha nos meus braços ainda não dava sinal de vida, o sangue que escorria dela não cessava, isso não era normal. Eu estava começando a ficar preocupado, será que ela não tinha a capacidade de se curar? Ou será que ela estava fraca por ter ficado um tempo sem beber sangue, por causa de seus dentes que estavam nascendo?
Meu corpo também não estava legal, a dor no meu peito e rosto estava ficando pior e não passava... isso nunca me aconteceu! Eu sempre me recuperei rápido de machucados. Mas dessa vez não eram simples machucados, eram queimaduras, e eu não sabia as extensão delas em meu corpo... isso podia ser um problema.
Droga! Eu sabia que o império estava bombardeando as cidades sem motivo algum, eu ouvi isso no rádio... Então porque eu nos deixei ficar tanto tempo em uma cidade? Devíamos ter continuado acampando, estaríamos cansados e imundos, mas estaríamos seguros e juntos.
Segui correndo até o chão parar de vibrar, quando achei que já estávamos longe o suficiente, parei e olhei melhor para a criaturinha. Ela estava desacordada, sua respiração era superficial e seus batimentos cardíacos eram fracos, em seu abdômen havia um grande pedaço de metal retorcido... Oh não, deve ter atingindo um pulmão ou algum órgão vital.
—“Ela t-tá b-bem?” Ian se aproximou para olha-la, ele estava tremendo, chorando e arfando ao mesmo tempo, o pânico queria tomar conta dele, e ver a criaturinha naquele estado o deixava pior.
Larguei a criaturinha no chão fofo e úmido da floresta e rasguei sua blusa. Examinei melhor o metal e para o meu desespero, percebi que era uma mistura de irídio e platina... Eu não acredito... aqueles miseráveis fizeram suas bombas com esses metais?... Drogas! Eles com certeza queriam garanti a morte dos atingidos. Acho que uma bomba comum não causaria tanto dano a um vampiro, se ele conseguisse fugir do fogo é claro. E acho que uma bomba nuclear não era uma opção para o império, pois levaria anos para recuperar o terreno atingido.
Olhei com mais atenção o ferimento da criaturinha, parecia que o metal estava causando dano aos tecidos atingidos, impedindo-os de se cicatrizar e causando uma mancha negra no local... Ah não, isso significa que ela não é imune a esse metal!
Tomei a decisão de retirar imediatamente o estilhaço do peito dela, mesmo não tendo os materiais corretos para tal procedimento, e sem ter algo para me ajudar a estancar a hemorragia que viria a seguir.
Eu sabia que se eu não fizesse nada, ela ia morrer, infelizmente já tínhamos perdido muito tempo em nossa fuga e a deixamos ter muito contanto com o metal... as chances dela estavam diminuindo.
Respirei fundo, segurei a ponta do metal que estava pra fora do peito dela e senti o mental queimar a minha mão, a dor era excruciante... droga! Se essa era a dor que ela estava sentido... eu não queria nem imaginar.
Resistindo a dor, eu puxei devagar o metal, ele não parava de sair, isso era ruim... significava que ele estava profundamente cravado dentro dela.
Ian ao meu lado só sabia chorar e tremer, eu não sabia se ia conseguir alguma ajuda dele nesse estado, ele estava em choque.
Finalmente tirei o enorme pedaço de metal do abdômen dela, o sangue jorrou e começou a vazar imensamente. Joguei aquele pedaço de mental longe e fiz pressão na ferida, na tentativa de diminuir o volume de sangue que ela estava perdendo, o choro de Ian ficou mais desesperado.
A criaturinha estava ficando gelada, mas eu não ia desistir, minha mão estava se recuperando do contato com o metal, então ela também podia se recuperar.
—“Ian... faça pressão aqui, eu necessito das mãos livres.” Ordenei e Ian ficou parado no mesmo lugar tremendo.
—“Ian... acorda e vem me ajudar.” Chamei novamente, mas ele realmente estava em choque.
—“IAN MEXA-SE E FAÇA ALGO OU ELA VAI MORRER!” Gritei para ele e Ian pulou apavorado, mas ao menos ele voltou para o presente e fez o que eu pedi.
Enquanto Ian impedia o sangramento. Eu fiz um corte em meu pulso e o coloquei na pequena boca dela, mas ela não bebeu. Ela não estava nem engolindo por reflexo, desse jeito ela não teria forças para curar o ferimento.
De repente ela parou de respirar e seu coração parou de bater, ouve um segundo de silêncio entre Ian e eu, antes de Ian começar a gritar e chorar desesperadamente. Meu corpo gelou, acho que meu sangue congelou nas veias. Pensamentos ruins começaram a vir na minha mente, assim como da vez em que tive medo de perdê-la para o fogo.
O desespero tomou conta de mim, mas eu não podia deixar isso acontecer, rapidamente afastei Ian de cima dela, ele queria pega-la no colo e abraça-la, mas eu o empurrei para longe.
Tampei o nariz dela e sobrei em sua boca, depois fiz uma massagem cardíaca nela, eu nunca havia feito isso antes, eu só tinha lido isso em livros até agora, então eu não sabia se estava fazendo certo, mas o instinto me impelia a isso.
Repeti o processo por cinco vezes freneticamente, mas ela não estava respondendo, ela estava ficando mais gelada e azulada.
—“Seph... acabou, ela...” Ian chorava desesperado ao meu lado, suas mãos estavam cobertas de sangue, sua expressão desolada e agoniada.
—“Não! Cala a boca Ian... eu digo quando acabou.” Voltei a fazer massagem cardíaca nela, com mais força e urgência, eu sabia que se usasse muita força, eu ia acabar quebrando os ossos do tórax dela, mas eu estava desesperado, eu não estava conseguindo me controlar.
O sangue no peito dela parou de brotar, não havia mais pressão sanguínea para expulsar o sangue de seu corpo, não havia mais vida nela, mas segui fazendo a massagem e respiração boca a boca, no entanto nada acontecia.
—“Já chega Seph... por favor, pare.” Ian se colocou em minhas costas e me abraçou, ele tentou me afastar dela, mas eu não queria desistir agora, eu não podia desistir.
—“PARA SEPH, ELA SE FOI.” Ian tentou me puxar de cima dela novamente.
—“NÃO! ELA NÃO FOI A LUGAR ALGUM, ELA ESTÁ BEM AQUI... ELA ESTÁ AQUI... VOCÊ NÃO VÊ IAN?” Minhas mãos não paravam de fazer massagem no peito dela, mas nenhum sinal, nem mesmo uma leve batida de coração.
—“Ah... Seph!” Ian conseguiu finalmente me afastar de cima dela, eu queria continuar, mas minhas forças se acabaram junto com minhas esperanças, Ian me abraçou forte, o choro dele estava incontrolável, ele precisava de mim nesse momento. Finalmente me dei por vencido, finalmente aceitei o que havia acontecido e abandonei a criatur... o corpo de minha filha. Me virei e abracei Ian de volta, deixei que ele chorasse em meus braços. Ele estava chorando histericamente, eu senti as lágrimas rolarem em meu rosto também, e isso era uma surpresa para mim, eu estava chorando... sim, eu estava chorando e não tinha vergonha de admitir.
O corpo minúsculo dela estava ali, largado no chão, sozinho e gelado... não! Ela não pode ficar ali, ela vai ficar com frio!
Peguei o corpo gelado e semirrígido da criaturinha, olhei em volta procurando um bom lugar para me aconchegar com ela, eu tinha que esquenta-la... ela devia estar com frio. Achei um bom lugar e fui me sentar lá, me encostei contra um tronco de árvore e Ian veio se juntar a mim, deixei a criaturinha entre nós dois e abracei Ian mais forte. Assim ficamos por um tempo, eu não sabia dizer por quanto tempo, mas Ian não parava de chorar, eu queria consola-lo, mas não tinha forças, meu corpo doía, mas eu não ligava.
Tudo que eu conseguia pensar agora era que eu havia falhado, eu não fui capaz de proteger a minha própria cria... eu achei que ela fosse forte o suficiente para se cuidar e acabei me descuidando, eu a perdi... e isso não era justo, ela era tão pequena... ela recém estava descobrindo o mundo, ela nem chegou a provar as coisas boas da vida. Eu sou mesmo um fracasso como pai... como filho e como parceiro, deixei Ian perder o outro bebê, deixei Sophia se ferir e morrer, deixei James e Pedro para trás e deixei Ian sofrer.
Acho que uma hora inteira se passou, e seguíamos ali, sentados e abraçados debaixo da árvore, com o pequeno corpo entre nós. De repente um som entre uns arbustos a nossa direita chamou a minha atenção.
Um soldado armando com um lança chamas apareceu, ele nos olhou por um momento, e então se virou e gritou.
—“ACHEI MAIS FUGITIVOS AQUI.” O soldado voltou a se virar para nós e mais dois soldados vampiros surgiram, eles também estavam armados com lança chamas, eles nos cercaram e nos olharam.
—“Devemos seguir mesmo essa ordem?” Perguntou um dos soldados, ele parecia desconfortável com isso.
—“Você ouviu o nosso superior, devemos caçar os que fugiram do bombardeio e incinerar.” Respondeu o primeiro soldado.
Ian se aconchegou mais a mim, eu o abracei mais forte, eu não sabia dizer se eu ainda tinha o poder que o pai do Ian me deu para lutar com esses soldados, mas eu não me importava mais, acho que era melhor assim, morreríamos juntos bem aqui, nós três.
—“Mas... olha pra eles... eles não são terroristas como estão nos dizendo, eles são apenas uma família... eles tem um bebê, por favor, vamos fingir que não os vimos.” O soldado desconfortável pediu.
Os outros dois lhe lançaram um olhar irritado.
—“Agora você vai ficar com peninha de todos os terroristas que você encontrar? Você sabe que o nosso superior já desconfia de você, ele acha que você está mancomunado com eles.” O soldado do meio apontou um dedo na cara do soldado incomodado.
—“É... você já deixou três deles fugirem na última missão.” O primeiro soldado rebateu também.
—“Mas eram crianças!” O soldado incomodado que agora eu podia ler o nome na farda, se chamava J. Connor.
—“Não existe idade definida pra ser um bandido, você ouviu as ordem, devemos incinerar a todos.” Disse o primeiro soldado.
—“... Não!” O soldado Connor se aprumou e endireitou a postura, parecia que ele havia tomado coragem para peitar os outros agora.
—“Eu não vou compactuar mais com isso, já faz tempo que eu vejo que há alguma coisa errada nisso que estamos fazendo. Me diz o que os cidadãos daquela cidade fizeram para o império? Pelo que eu sabia, nada!” Connor retirou a mochila de suas costa que carregava o tanque do lança chamas, ele se livrou do equipamento e se colocou na nossa frente.
—“Está questionando nossos superiores?” Perguntou o primeiro soldado.
—“Estou! E eu não vou fazer isso... eu desisto!” Connor se virou de costas para os outros soldados e sorriu para nós.
—“Vocês estão bem? Não se preocupem, não vou machuca-los.” Disse Connor com um sorriso simpático, ele nos estendeu a mão. Connor parecia jovem e tinha um cabelo castanho bem curto, seu corpo era atlético e ele tinha uma expressão inocente e sonhadora, fiquei tentado a estender a minha mão de volta, mas de que me adiantaria isso? Nada traria a criaturinha de volta.
—“Você está desertando? É isso?” Perguntou o segundo soldado.
—“Sim eu...” Connor só teve tempo de dizer essas palavras, pois recebeu dois jatos de fogo nas costas, ele foi queimado pelos lança chamas dos dois soldados remanescentes, Connor caiu no chão aos berros em agonia e rolou, esperneou e se debateu por vários minutos antes de finalmente morrer, senti dó do jovem soldado, mas eu não podia fazer nada por ele. Ian se agarrou mais forte em mim, seu choro ficou mais desesperado, o abracei com igual força, não podia negar que estava com medo, eu sabia que ia doer, o meu peito queimado já estava doendo muito mesmo... imaginar essa dor pelo corpo todo... era apavorante.
—“Malditos desertores... que bom que as ordens são de acabar com eles também.” Disse o primeiro soldado rindo do corpo carbonizado de Connor.
—“Sim, agora vamos acabar com isso.” Disse o segundo soldado nos olhando com um desejo sádico.
Respirei fundo e fiz um último carinho em Ian, não podia acreditar que tudo ia acabar assim.
—“Eu te amo Seph.” Ian cochichou pra mim, seu rosto estava enfiado em meu pescoço, ele estava tremendo de medo, mas assim como eu, ele não estava a fim de lutar por sua própria vida.
—“Também te amo... Obrigado por tudo que você me deu.” Consegui dizer.
Fechei os olhos e esperei pela dor, mas de repente algo se mexeu entre Ian e eu. Em um segundo o corpo gelado da criaturinha estava entre nós, no outro ela estava grudada no pescoço do primeiro soldado.
—“AAAAAH... O QUE É ISSO?” O primeiro soldado gritou assustado, no meio do desespero ele disparou o lança chamas e acabou queimando uma árvore ao nosso lado.
A criaturinha rosnou e soltou o pescoço do primeiro soldado. Ela então atacou o segundo, o cara nem teve tempo de reagir, ele estava olhando pasmo para o primeiro soldado e quando percebeu que ela havia pulado pra cima dele, já era tarde mais.
A criaturinha o mordeu também, ele tentou segura-la, mas ela foi mais rápida e se esquivou, ela deu uma cambalhota no ar, chutou a cara dele e então pulou de volta para os meus braços rosnando para os soldados, ela se colocou na nossa frente de forma protetora.
—“Mas que merda foi essa? Essa coisa me mordeu... você viu isso?” Disse o primeiro soldado com a mão cobrindo uma ferida aberta em seu pescoço.
—“Que coisa é essa? Nenhum bebê vampiro seria capaz de fazer algo assim.” Respondeu o segundo soldado pasmo.
—“Acho que vamos subir de patente... acabamos de encontrar uma mina de ouro.” O primeiro soldado sorriu e olhou para a criaturinha com cobiça, o segundo soldado o imitou.
Os soldados começaram a se aproximar de nós, os olhos faiscando para ela, eles iam tentar pegar a criaturinha, agora eu estava determinado a lutar e aparentemente Ian também ia reagir. Mas então, ambos os soldados pararam no lugar.
—“O... que?” O segundo soldado falou tremendo da cabeça aos pés. Ian e eu nos entreolhamos.
O primeiro soldado começou a espumar pela boca e a ficar roxo, logo após o mesmo aconteceu com o segundo, seus olhos se esbugalharam, suas veias saltaram na pele, ambos caíram no chão e começaram a ter convulsões, o sangue saiu de duas orelhas, narizes e bocas, não demorou muito e ambos estavam mortos no chão.
Ouve um minuto de silêncio no lugar, eu não sabia se ria e festejava pela criaturinha estar viva, se desmaiava de choque, ou se gritava de medo. Ian parecia estar sofrendo do mesmo.
—“O que foi... isso?” Ian conseguiu perguntar.
—“A-acho que ela... é venenosa.” Olhei pasmo para a criaturinha que estava entre nos observando distraidamente os corpos no chão.
—“Mas ela... já me mordeu antes... porque eu não morri assim também?” Ian olhou o próprio dedo, isso era verdade, assim que a criaturinha ganhou presas, ela mordeu Ian.
—“Tem duas opções, ou os mestiços são imunes... ou ela não injetou veneno em você.” Eu não tinha como ter certeza disso, um monte de fatores poderiam estar agindo agora, talvez eu nunca viesse a descobrir o que aconteceu aqui, mas acreditei que talvez ela só tenha aprendido a usar o seu veneno agora.
Ian estava chocado, olhando para a criaturinha, mas aos poucos o choque deu lugar ao sentimento de alegria quando ele percebeu que ela estava viva.
—“Ah... SOPHIA, VOCÊ TÁ VIVA... VOCÊ TÁ BEM! EU NÃO ACREDITO!” Ian a abraçou e a examinou, ela não tinha mais um ferimento no abdômen, nem mesmo uma simples cicatriz, ela estava novinha em folha.
Examinei-a também, sua pele parecia mais fria... não sei se era porque ela tinha acabado de voltar dos mortos, talvez fosse por esse motivo mesmo. A pele dela também parecia meio azulada ainda.
—“Seph... não estou sentindo o coração dela!” Ian me olhou apavorado. Toquei no peito dela, e, por um minuto inteiro eu não senti nada, nenhum pulso, mas então seu coração deu uma única batida e parou novamente por um minuto inteiro... O que é isso? O que está acontecendo. Ela tá bem ou não?
A íris dela também estava mudando de cor, antes era violeta claro, agora estava aos poucos ficando vermelho vivo como os meus olhos são.
—“Ela... tá bem Seph? Ela vai ficar bem... ou...” Ian estava em pânico. Busquei na minha mente teorias do que estava acontecendo.
—“Será que... o lado humano dela morreu... e agora só temos o lado vampiro?” Isso fazia sentido, talvez a íris dela fosse violeta, porque era a mistura do meu vermelho com o prateado do Ian, talvez até o batimento cardíaco dela tenha mudado, pois não havia mais a necessidade dela oxigenar os órgãos semi-humanos.
—“Você acha... que agora ela será uma bebê vampira normal? Será que ela não vai mais evoluir na velocidade em que estava evoluindo?” Ian perguntou isso nervoso, seu olhos examinavam cada pedacinho dela.
—“Não sei... e ainda é cedo pra tirar conclusões... mas não podemos ficar parados aqui pensando, temos que nos mover antes que outros soldados apareçam.” Olhei ao redor preocupado, não queria arriscar e ter de colocar a criaturinha em perigo novamente.
—“Tem razão.” Ian concordou rapidamente, ele também olhou ao redor.
Nos levantamos, a criaturinha estava nos meus braços quietinha, ela sorriu pra mim, dentro de sua boca havia apenas quatro presas fininhas e afiadas. Sorri de volta pra ela, mas então o sorriso dela sumiu e ela me olhou com mais atenção, sua pequena mãozinha alisou a minha bochecha esquerda, doeu e eu estremeci. A criaturinha começou a chorar.
—“Que foi Sophia? Você tá bem?” Ian se aproximou rápido para olha-la.
—“Ela está bem... só acho que meu novo rosto a assustou.” Falei depressivamente e levei a minha mão ao meu rosto. Da minha sobrancelha esquerda, passando pelo meu olho, cobrindo minha bochecha, indo até meu pescoço e então peito, havia uma queimadura terrível, eu sabia que mesmo tendo sobrevivido à explosão e ao fogo, agora eu teria pra sempre essa enorme cicatriz no peito e rosto. O fogo era mesmo algo perigo para um vampiro, era a única coisa capaz de deixar cicatrizes... eu agora seria uma aberração.
Ian tentou olhar direito para o meu rosto pela primeira vez desde que fugimos da casa destruída onde estávamos. Virei o rosto, eu não queria que ele me visse agora, eu estava horroroso, ele ia me deixar... ele não ia mais me amar.
Ian segurou minha cabeça e virou-a em sua direção para me examinar. Fechei meus olhos, eu não queria ver a expressão de repulsa dele por mim agora.
—“Ah... Seph...” O tom na voz de Ian me fez ter medo... havia pesar em sua voz, mas pesar por que? Porque ele estava com pena de mim? Ou porque eu não era mais do jeito que ele queria? Ele ia me dizer adeus agora? Ia ter nojo de me beijar?
De repente algo quente e úmido tocou meu rosto dolorido, senti a respiração de Ian, e soube então que eram os lábios dele... ele estava beijando meu rosto feio? Abri meus olhos e o vi bem perto de mim. Havia uma tristeza em seu olhar, mas não havia repulsa ou nojo.
—“Você não me acha uma aberração?” Perguntei sentindo medo de sua resposta.
—“Seph... eu te amo, não estou com você por sua aparência.” Ian fez um carinho em meu rosto dolorido, sua expressão triste mudou para um fraco sorriso, me enchi de esperança.
—“Está comigo porque então? Pela minha doce personalidade?” Consegui brincar com isso, só porque Ian estava me aceitado, mesmo eu sabendo que estava horroroso.
—“Vish... tem razão, sua personalidade é terrível... você tem manias grotescas... e um jeito de ser monstruoso... alguém me explica porque me apaixonei por você?” Ian falou pensativo, mas eu sabia que ele estava brincado... e isso me deixa mais animado, isso provava que ele não ligava para a minha aparecia.
—“Deve ser porque eu sou bom de cama.” Me vangloriei todo contente.
—“É... deve ser por isso mesmo... mas seu pinto ainda é menor do que eu gostaria que fosse.” Ian fez uma careta enquanto olhava pra baixo e tapava os ouvidos da criaturinha também.
—“Ha, ha, ha... que engraçadinho... Ele não é pequeno e mesmo que fosse, todos sabem que o que vale não é o tamanho e sim o tempo que ele dura. E do tempo você não pode reclamar, não é mesmo Ian?” Estreitei os olhos pra ele e fiquei tentado a mostrar pra ele o meu pinto pequeno... mas isso poderia levar algumas horas e não tínhamos tempo pra isso agora.
—“Não sei dessas coisas pervertidas ai.” Ian fez cara de santo e sorriu, fiquei com vontade de rir junto, mas meu animo não estava bom.
—“Acho que agora nós dois combinamos não é mesmo? Você tem uma cor diferente no seu rosto do lado esquerdo, e eu agora tenho uma cicatriz... estamos quase iguais.” Sorri pra ele, mas queria mesmo era gritar... para um vampiro, a aparência é tudo, eu nunca mais teria meu lugar na sociedade... nem mesmo entre os pobres, agora eu seria um excluído total.
—“Falando sério Seph... não está tão feio quanto você imagina... e mesmo que estivesse, eu não ligaria e eu nunca te abandonaria desse jeito depois de tudo que já passamos juntos. Eu não ligo para aparências.” Ian pareceu perceber o meu estado de espirito e falou isso sério. Ele me fez um carinho meigo na bochecha ferida. Até mesmo a criaturinha estava tentando me animar, ela estava se aconchegando a mim e não estava mais chorando, ela estava me olhando preocupada, então eu soube que ela não chorou porque se assustou com minha cara feia, mas sim porque ficou triste e preocupada comigo.
Abracei a criaturinha e dei um selinho em Ian, não sei o que estava acontecendo comigo, mas meu coração estava acelerado por ouvir isso dele e sentir a preocupação dela... me senti estranhamente acolhido e protegido, não sei explicar, mas era como se um calor me envolvesse. Seja lá que sentimento era esse, eu estava gostando dele.
—“Cadê vovô e Pedro?” Sophia falou uma frase inteira perfeitamente, isso séria mais um motivo para sorrirmos e comemorar, mas então o peso da pergunta dela caiu sobre nós.
Os olhos de Ian encheram de lágrimas e uma pedra caiu dentro do meu estômago.
Olhamos pra trás na direção da cidade, com a franca esperança de que eles surgissem em meio à mata a qualquer momento, mas será que eles conseguiram sair da casa como nós? Eles ainda estavam lá nos procurando em meio aos escombros? Eles correram para a floresta? Eles foram encontrados por soldado com lança chamas como a gente? Eles estão vivos ou mortos? Todas essas perguntas passaram em uma fração de segundo em minha mente.
Ian me olhou, ele esperava eu me pronunciar sobre isso... eu não sabia o que dizer, não podíamos voltar para procura-los... o certo seria seguir em frente e esperar para encontrá-los em minha casa de campo... sim, eu sei que vou rever o meu pai. Aquele momento não pode ter sido o nosso último juntos... eu o estapeei e o chamei de velho burro... não! Com certeza ainda vamos nos encontrar de novo, pois como dizem, a esperança é a última que morre.
—“Eles estão bem criaturinha... eles só... foram por um caminho diferente... a gente vai encontrar eles em algum lugar... eu juro.” Falei isso mais como uma prese e um pedido a alguma divindade do que como uma promessa.
—“Verdade papai?” A criaturinha fez beicinho pra mim.
—“V-verd...” Tentei falar, mas uma bola de tênis se alojou na minha garganta... que sentimento horrível! Tentei afastar isso e me concentrei para falar.
“Verdade” Falei com minha voz um tanto estranha, eu parecia fanho... que bizarro.
Ela sorriu e se aconchegou a mim, a abracei e olhei com pesar para Ian, eu podia estar mentido pra ela agora... será que ela me perdoaria? Ela vai confiar em mim novamente se eu estiver errado? Eu esperava que sim.
—“Vamos?” Perguntei para Ian, ele se olhou, ele ainda estava ferido, alguns pequenos pedaços de estilhaços da bomba estavam cravados em vários lugares de seu corpo, não era nada fatal, mas se não cuidássemos disso agora... eu não sei o que aconteceria, não sei o que esses metais podem fazer em um mestiço.
—“Tenho que cuidar de você... mas não podemos ficar aqui parados sem proteção...” Olhei em volta, nos estamos no meio de uma clareira, o perigo poderia vir de todos os lados.
—“Deixa comigo papai” A criaturinha se ofereceu para ajudar, mas eu não ia permitir isso, eu nunca mais vou deixa-la correr riscos.
—“Não criaturinha... você é pequena demais, fique quietinha e não faça nada perigoso.” Falei sério e ela me olhos de cara emburrada.
—“Eu posso lutar papai!” Ela insistiu.
—“Não... nem comece com isso.” Bati o pé, eu não vou cometer mais nenhum erro que possa levar a morte dela, eu nunca mais vou desgrudar os olhos dela.
—“Então eles podem lutar por mim!” A criaturinha falou isso com confiança, a principio eu não entendi nada, mas então ela se virou no meu colo e encarou os corpos dos dois soldados que morreram envenenados, os olhos dela brilharam em um prateado forte e de repente, como se estivéssemos vendo um filme de zumbi muito assustador, os dois soldados se levantaram do chão.
A cena era simplesmente aterradora, os vampiros estavam mortos e pelo visto o veneno da criaturinha causava uma necrose nos corpos, pois o lugar da mordida dela já estava entrando em estado de decomposição avançada. Mas os corpos estavam se mexendo sozinhos. Suas bocas estavam abertas, os olhos opacos e com as pálpebras caídas, dando a eles um ar cansado, seus braços estavam inutilizados, suspensos de qualquer jeito, mas suas pernas eram arrastadas e firmadas uma de cada vez, desse jeito, eles davam pequenos passos e se locomoviam devagar.
Ian e eu ficamos olhando de boca aberta. A criaturinha fez os dois zumbis andarem em torno de nós, a uns metros de distância... eles fizeram um circulo de vigilância, cada um de lado, assim enquanto um cuidava da nossa direita, o outro cuidava da nossa esquerda.
Olhei para a criaturinha, ela estava fazendo uma cara de concentrada, seus olhos pareciam não ver o que estava na frente dela, ela parecia em transe.
Fiquei preocupado come ela... e se isso lhe causasse algum dano? Mas depois de ver que ela estava bem, a larguei sentada no chão cuidadosamente e ela não moveu um musculo, isso era de longe a coisa mais assustadora e incrível que ela já fez... ela era capaz de controlar vampiros mortos... imagina se ela fizesse um exercito de mortos? Que coisa legal!
Ian sentou em um troco e manteve os olhos na criaturinha enquanto eu retirava aquelas coisas dele, ele parecia muito preocupado com ela também, mas não a impediu de fazer esses corpos de marionete.
Comecei a tirar com cuidado os estilhaços, Ian gemia de dor vez ou outra, mas não reclamou e nem me pediu para parar quando doeu.
Quinze minutos depois, eu já havia retirado todos os estilhaços de Ian e ele conseguiu se regenerar com facilidade, bom, agora finalmente podíamos seguir viagem. Mas acho que não devemos mais ficar em terra firme, pelo que eu entendi... as cidades estão sendo bombardeada e os fugitivos que se embrenharam na floresta viraram alvos de soldados... mas eu não ouvi nada sobre ataques em água... acho que Ian vai gostar do nosso próximo destino.
Peguei a criaturinha no colo, mas ela continuava em transe, ela estava dura, parecia uma estátua, não sabia como tira-la disso... será que eu podia tira-la disso sem causar dano? Ou eu não devia acorda-la desse transe? Com um pouco de medo, eu resolvi agir.
—“Hei criaturinha.” Dei uma sacudida nela, ela despertou desse transe e os zumbis desabaram.
—“Tudo bem?” Perguntei a ela. Ela parecia exausta, ela se aconchegou em mim e deitou nos meus braços, captei que ela queria dormi, então não a perturbei.
Ian e eu começamos a andar, devo dizer que a coisa estava indo mais rápido, agora que não havia mais carga pesada para carregarmos. Como várias mochilas, com roupas, cabanas e... dinheiro... PUTA QUE PARIU! MEU DINHEIRO JÁ ERA!
Como vamos sobreviver agora? Calma, eu sei que eu ainda tenho muito dinheiro em minha casa de campo... o problema é como vou chegar à essa casa sem dinheiro nenhum... vamos ficar usando essas roupas esfarrapadas e sem barracas para descansar?... Ferrou tudo!
A cada quinze minutos eu examinava a criaturinha, eu estava com medo que ela caísse morta do nada, mas aos poucos ela foi ficando mais quente em meus braços, sua cor foi deixando de ser azulada e ela voltou a seu tom albino natural, suas bochechas ficaram rosadas quando seu coração voltou a bater normalmente. Eu não estava com coragem de perturbá-la, mas eu queria ver se sua íris voltou a ser violeta... acho que minha teoria estava errada, ela ainda tem a sua parte humana, mas então porque ela ficou assim?
Seguimos andando até o amanhecer, agora faltava pouco para chegarmos na minha surpresa para o Ian, eu estava fazendo um esforço para não pensar em James e Pedro... eu ainda tinha fé de encontrá-los por ai... acho que não irei acreditar que eles morreram... é difícil de acreditar nisso quando você não pode ver um corpo para esfregar na sua cara que aquilo é verdade.
Ian estava ficando cansado, mas insisti em seguirmos andando, eu queria ver a cara dele quando visse para onde estávamos indo.
Depois de mais uma hora de caminhada, eu comecei a ouvir o som ao longe, dei uma olhada em Ian, ele ainda não estava ouvido... acho que os ouvidos dele não são tão aguçados quantos os meus, mas os da criaturinha são.
—“Que barulho é esse papai?” A criaturinha despertou e sentou no meu colo curiosa, para a minha alegria os seus olhos haviam voltado a ficar da cor violeta, ela parecia normal... quer dizer, normal para o padrão dela... eu acho que ela está bem, ela vai viver!
—“Que barulho?” Ian perguntou assustado.
—“Calma... você já vai ouvi.” Dei um sorrisinho pra ele. Ian me olhou desconfiado, mas seguiu andando. Não demorou muito e a expressão de Ian ficou confusa.
—“O que é isso Seph? Que barulho assustador é esse?” Ian se agarrou em mim.
—“Você logo descobrirá.” Respondi com confiança e a criaturinha começou a ficar agitada no meu colo, ela queria descobrir e logo do que se tratava isso. Ian parecia tão ansioso quanto ela, mas ao contrário da criaturinha que queria ir na direção do som, Ian parecia querer correr na direção contrária ao do som.
Finalmente passamos pelas últimas árvores e pisamos em uma areia fofa. A nossa frente se estendia o tão sonhando mar, que o Ian tanto queria conhecer. O som que eles estavam ouvindo era das ondas quebrando na costa da praia.
Olhei para Ian, os olhos dele estavam brilhando, a boca estava escancarada, ele parecia incrédulo. A criaturinha deu um gritinho e se agitou no meu colo, pelo visto ela era outra apaixonada por mar agora... ela teve a quem puxar.
—“Eu disse que te levaria para conhecer o mar, não disse Ian?” Perguntei de uma forma presunçosa.
—“Seph... é lindo! É mais bonito que na minha imaginação... obrigado!” Ian se aproximou de mim e eu passei um braço em volta dele. O lugar era mesmo lindo... eu poderia viver aqui sem problemas, eu poderia foder o Ian na areia e no mar... tá ai algo que eu quero experimentar depois.
—“Seph... O que estamos fazendo aqui? Acho que você não me trouxe até aqui só para realizar o meu sonho, não é mesmo?” Ele me olhou desconfiado.
Olhei em volta e avistei ao longe uma pequena vila, perfeito! Era isso que eu precisava para montar um plano de ação.
—“Acho que devemos ir até aquela vila de pescadores...” Apontei para a nossa direita. Lá longe havia umas casinhas precárias e vários píeres.
—“E lá a gente poderia alugar um... bem, alugar não! Não temos dinheiro... reformulando a frase. Nós devemos ir até lá e então roubar um barco para seguirmos nossa viagem pelo mar... assim não vamos mais ser bombardeados ou encurralados por soldados, sem falar que chegaremos em um dia... isso se conseguirmos um barco a motor.” Contei o meu plano cheio de mim, eu sabia que estava tomando a melhor decisão.
—“Roubar?... isso é errado, mas eu também acho que seguir pelo mar seja a nossa melhor opção.” Ian falou pensativo.
—“Certo ou errado, não podemos mais correr riscos como aquele.” Olhei para a criaturinha, eu prometi a mim mesmo que nunca mais a colocaria me perigo, agora eu seria um pai superprotetor, ela que se cuide comigo agora, pois eu vou ficar chato de verdade.
—“Tem razão!... Você sabe navegar?” Ian me olhou sério.
—“Não muito bem... Na verdade... Não!” Respondi começando a perceber um furo no meu plano.
—“Lascou.” Respondeu Ian revirando os olhos.
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