Sangue quente.
48 Sepultura de família.
Notas iniciais
Leonard...
Quando o relógio estava marcando exatamente meia noite, os homens de Kiel começaram a se preparar em seus postos, aguardando o momento de agir.
Nesse instante meu coração acelerou tanto que parecia retumbar dentro dos meus ouvidos, minhas mãos chegavam a latejar com a pressão do sangue. Eu sabia que agora só faltavam cinco minutos para que tudo começasse.
-“Não tenha medo... Fique perto de mim, eu vou te proteger.” O Sr. Cicatriz aparentemente percebeu o meu nervosismo e prometeu me proteger com uma expressão que transbordava confiança.
—“O-obrigado...” Cheguei mais perto dele e me senti um pouco mais confiante, mas mesmo assim era impossível erradicar o medo por completo, afinal eu já sabia qual era o nível de poder do nosso inimigo, eu já senti sua fúria na pele.
Eu não podia negar que estava com medo, afinal eu só tinha uma certeza essa noite... Se Sophia falhar, ninguém aqui sairá vivo dessa batalha.
Meia noite e cinco chegou mais rápido do que eu esperava. Os homens do Sr. Cicatriz pularam o muro e invadiram a mansão de Uriel por todos os lados, silenciando o inimigo que montava guarda do lado de fora.
Logo depois os tiros começaram, dei um pulo, esse era o sinal para começarmos a agir.
—“Vamos?” Sr. Cicatriz colocou a mão no meu ombro.
—“S-sim...” Tremi, mas consegui fazer minhas pernas se moverem.
Segui o Sr. Cicatriz e ele por sua vez foi logo atrás do Sr. Grifh. Ambos possuíam uma pistola com balas de irídio e platina em mãos e uma bolsa recheada com armas e munições nas costas.
E eu só possuía um pedaço de papel, onde estava desenhado um mapa... Droga, eu nunca me senti tão fraco, inútil e despido na vida, eu não possuo nenhum meio de defesa... eu não passo de um peso morto.
Mesmo com esse pensamento pessimista, eu mantive a cabeça erguida e segui meus companheiros.
Atravessamos a rua com passos largos, eu quase tive que correr para me manter próximo a eles.
Passamos pelos portões onde os corpos de quatro guardas jaziam no chão frio de concreto.
Tentei não olhar para os corpos, mas a curiosidade falou mais alto. Mesmo tentando me segurar, eu olhei.
Quando eu encarei os corpos, eu não pude deixar de pensar que talvez... hoje à noite eu posso acabar como eles.
Comecei a me sentir péssimo, se eu pudesse vomitar agora, assim eu faria. Meus pulmões exigiam mais oxigênio do que eu realmente podia consumir.
Senti como se estivesse me afogando no ar... Pânico, medo e desespero tomaram conta de mim, mas não deixei de me mover.
Dentro da imensa mansão, havia mais e mais corpos, alguns dos inimigos e outros dos nossos aliados, isso me fez sentir pior.
Tá certo que eu sabia que muitos dos nossos companheiros morreriam essa noite... E eu sei que não deveria me chocar tanto, pois já vi outros corpos lá fora... Mas ver os corpos dos caras que eu conheci agora há pouco sem vida no chão... e ver os corpos dos caras que eu não conheço e considero inimigo... é algo completamente diferente.
Isso torna tudo mais chocante e verídico... Pois é vendo gente do seu lado morrendo, que você percebe que seu lado não é imortal e imbatível... mesmo sendo o lado certo.
Minha cabeça começou a girar, parecia que as paredes estavam se movendo para o lado.
Acabei caindo no chão, minha cabeça não parava de girar, parecia que eu tinha brincado de ficar rodando como um peão por meia hora.
Disparos ecoaram acima da minha cabeça e uma mão forte me puxou pelo braço. Quando dei por mim, eu estava grudado contra a parede, sendo prensado e protegido pelo corpo do Sr. Cicatriz.
Estávamos em uma encruzilhada, onde dois corredores se encontravam. O Sr. Cicatriz e seu amigo estavam usava a parede como barreira de proteção contras as balas que voam na nossa direção.
—“Você está bem garoto?” Perguntou o Sr. Cicatriz que me olhou assustado, procurando por ferimentos enquanto o Sr. Grifh disparava contras os soldados.
—“Hmm... sim...” Respondi isso, mas na verdade eu me sentia mesmo muito mal.
—“Chefe... me de cobertura, eu vou correr para o outro lado.” Grifh gritou para o Sr. Cicatriz.
—“Pode deixar comigo... vai!” Sr. Cicatriz me largou e tomou o posto de Grifh, disparando sem parar para que Grifh pudesse atravessar o corredor e se proteger na parede oposta que levava a mais um longo corredor na nossa frente.
Tranquei a respiração quando vi o Grifh correr em meio aos disparos e suspirei aliviado quando ele chegou do outro lado.
—“Ok... agora é a vez do Senhor.” Grifh gritou e começou a disparar para que o Sr. Cicatriz pudesse atravessar.
—“Vamos garoto” Ele me estendeu a mão, a segurei com medo, minhas pernas estavam moles, eu mal conseguia controla-las.
—“N-não... eu não c-consigo...” Larguei a mão dele como um covarde, pois eu sabia que se eu atravessasse agora, eu iria cair e levar um tiro, minhas pernas estavam fracas demais... e se eu fosse junto com o Sr. Cicatriz, eu iria atrasá-lo e ele acabaria ferido junto comigo.
—“Eu te ajudo, vamos!” Sr. Cicatriz tentou me ajudar, mas me desvencilhei dele.
—“Não! Eu só vou te atrapalhar... vai você sozinho... eu vou ficar aqui.” Tentei me desvencilhar dele novamente.
Não me entenda mal, não é que eu esteja com medo de morrer, afinal eu já vim aqui preparado para morrer, eu aceitei esse risco quando aceitei a missão. Na verdade eu não estou com medo por mim, mas sim pelos outros, pois eu sei que se eu cair, um deles vai tentar me ajudar e vai acabar se ferindo por minha causa.
—“QUE MERDA VOCÊS ESTÃO FAZENDO AÍ? VENHAM LOGO!” Grifh nos olhou irritado, ele já tinha gastado dois pentes contra os inimigos, sem acertar nenhum tiro, pois eles estavam usando objetos de decoração do corredor como barricada.
—“Vamos garoto...” Sr. Cicatriz novamente tentou me pegar.
—“Não...” Dei um passo atrás e afastei a mão dele.
—“Eu não vou te deixar pra trás, eles vão te matar...” Sr. Cicatriz começou a ficar sem paciência comigo, ele me encarou com convicção e quando eu dei por mim, ele já tinha me pego no colo. Me debati, mas ele me ignorou e começou a correr para o outro lado.
Para a nossa sorte, bem nesse momento alguns aliados do Sr. Cicatriz surgiram e começaram a trocar tiros com os soldados, aumentando a nossa cobertura.
—“Vocês estão bem?” Grifh nos olhou preocupado quando nos unimos a ele.
—“Sim... e você garoto?” Sr. Cicatriz novamente me examinou.
—“S-sim... me desculpe...” Baixei a cabeça envergonhando. Atrás de mim os companheiros do Sr. Cicatriz guerreavam para segurar nossos inimigos e nos proteger.
—“Tudo bem... vamos seguir, não podemos parar agora.” Pensei que eu ia levar um esporro do Sr. Cicatriz por atrapalhar a missão, mas ele apenas me deu um tapinha no ombro e focou na continuidade da mesma.
Dessa vez o Sr. Cicatriz segurou minha mão e me rebocou atrás dele, graças a isso, eu consegui continuar, mesmo com as minhas pernas tremendo tanto que mal me mantinham em pé.
—“Pra onde agora garoto?” Grifh que ia à frente me olhou quando chegamos a uma bifurcação.
—“Ah... esquer NÃO... direita...” Olhei rapidamente no mapa que a Sophia desenhou pra mim.
Grifh foi dobrar a direita mas...
Baaang
—“AAARGH...” Grifh gritou e caiu no chão quando alguém que estava nos esperando no final do corredor atirou.
—“Merda!” Sr. Cicatriz o pegou pelos braços e o puxou para fora do campo de visão do inimigo.
—“Ugh...” Grifh gemeu de dor enquanto segurava o ombro direito e se sentava no chão, usando a parede como encosto, o sangue jorrava.
—“Garoto... examine, veja se a bala passou direto ou se ficou alojada, eu vou dar cobertura enquanto isso.” Sr. Cicatriz me passou diretamente uma missão, me olhando firmemente como se confiasse em mim, me senti mais importante e seguro quando ele começou a atirar contra o inimigo.
—“D-deixe me ver...” Me virei para Grifh tentando manter a compostura, afinal eu tinha que honrar a confiança que o Sr. Cicatriz depositou em mim.
Afastei a mão de Grifh do seu ombro e dei uma olhada, havia um buraco fundo e sangrento, era horripilante e grotesco.
Bem lá no fundo tinha algo que parecia de metal, esse objeto estava tornando a carne vermelha e sangrenta ao seu redor em carne negra e gosmenta... Droga! Era uma bala de irídio e platina.
—“A b-bala ainda tá dentro... tá envenenando ele...” Olhei em desespero para o Sr. Cicatriz que estava concentrado em nos dar cobertura.
—“Consegue tirar? Você tem dedos pequenos...” Ele perguntou sem nem me olhar, a troca de tiros continuava.
—“V-vou tentar.” Estremeci só de imaginar o que eu teria de fazer a seguir.
—“D-desculpa...” Olhei assustado para Grifh, ele apenas tentou sorrir pra mim.
Tomando coragem enfiei meu dedo indicador e o dedão dentro da carne que agora estava negra mesmo, o cheiro já era desagradável.
—“AAAARGH... AHHH...” Grifh gritou alto, por um minuto o meu instituo me fez querer afastar a mão, para aliviar a dor dele, mas eu sabia que não podia, a vida dele dependia da minha persistência e coragem, então enfiei meus dedos mais fundo e tentei não entrar em pânico com os gritos dele.
Foi difícil alcançar a bala, pois Grifh não parava de se debater, mas finalmente consegui, meus dedos encostaram em algo duro e quente que instantaneamente queimou minha pele.
Puxei o objeto de dentro dele e taquei fora imediatamente, meus dedos só tiveram contanto com aquela bala por uns poucos segundos, mas isso já foi o suficiente para me envenenar também. As pontas dos meus dedos estavam negros e dormentes.
Droga... eu já tenho problemas com as minhas mãos por ter mergulhado elas no fogo da lareira aquela vez, imagina agora.
—“Tudo bem?” Perguntei nervoso ao Grifh... se eu fiz algo errado, ele vai morrer por minha causa.
—“S-sim... não é isso que vai me derrubar.” Ele me deu um sorriso metido antes de fazer pressão no ombro ferido.
—“Consegue andar?” Sr. Cicatriz lançou ao amigo um olhar preocupado.
—“Quero ver você me impedir.” Grifh deu um sorriso malandro quando se apoiou na parede para levantar.
—“Droga! Desculpa garoto, esqueci que o contato direto e sem proteção com esses metais causavam danos à pele... sinto muito.” Sr. Cicatriz fez uma careta culpada quando me viu examinando meus dedos machucados.
—“Tudo bem... eu não ligo.” Dei de ombros, isso não ia me matar nem nada, mas ia doer por um tempo.
Não tínhamos tempo para fazer um curativo no ombro de Grifh, precisávamos seguir em frente, então o Sr. Cicatriz junto com o Sr. Grifh conseguiram derrubar o atirador que não parava de disparar contra nós e finalmente conseguimos seguir o nosso caminho.
Cada novo corredor era mais um momento de tensão, mas finalmente chegamos a uma longa escadaria em espiral.
—“Eu vou na frente, o menino fica no meio e você cobre a retaguarda.” Sr. Cicatriz ditou a formação.
Descemos assim como ele disse, fomos devagar, cada degrau era mais um momento de tensão a parte.
Mais corpos foram caindo no chão à medida que avançávamos. Por sorte os corpos eram dos inimigos e não os nossos.
—“Parem...” Sr. Cicatriz cochichou e ergue a mão, ficamos estáticos.
—“Senhor?” Grifh questionou a situação.
—“Chegamos... estou vendo a porta do laboratório, tem quatro guardas guardando a entrada.” Sr. Cicatriz explicou calmamente.
—“Vamos agir...” Grifh engatilhou a arma e lançou um olhar decidido ao outro.
Tapei os ouvidos e rezei para que ambos não fossem atingidos, eles pularam da escada e abriram fogo contra os guardas. As balas voaram em todas as direções, mas eu estava protegido no meu posto.
Demorou apenas uns segundos, mas pra mim foi uma eternidade.
—“Vamos.” Grifh me chamou quando tudo acabou, passamos pelos guardas mortos e entramos no laboratório frio e asséptico.
—“MUITO BEM... TODOS NO CHÃO, NO CHÃO AGORA... SEM GRACINHAS...” Sr. Cicatriz entrou no laboratório portando duas armas grandes e de múltiplos disparos consecutivos, ele rendeu os cientistas como se fosse um daqueles assaltantes de banco que você vê nos filmes antigos.
—“MOVAM UM MÚSCULO E EU JURO QUE METO BALA EM VOCÊS.” Grifh também entrou no jogo e apontou mais uma arma grande contras os vampiros de jaleco que se deitaram no chão em pânico.
Estávamos em sala cheia de mesas, computadores, equipamentos, macas e o pior... mais de cinquenta gaiolas com mestiços presos.
—“QUEM TEM AS CHAVES DAS GIAOLAS? É VOCÊ? ME PASSE A CHAVE DAS GAIOLAS, AGORA!” Sr. Cicatriz procurou entre os cientistas e acabou indo em direção a um que tinha o jaleco diferente, ele parecia o chefão ali. Sr. Cicatriz então o chutou e o cientistas por sua vez meteu as mãos nos bolsos desesperadamente e atirou um molho de chave para ele.
Sr. Cicatriz abriu três gaiolas, os mestiços ali dentro se recusaram a sair, como se temessem o mundo fora da gaiola, talvez eles já estivessem acostumados a passar por testes horríveis fora das gaiolas e por isso tinham medo e preferiam ficar naquele espaço ínfimo.
Mas o Sr. Cicatriz com calma e tranquilidade conseguiu convencê-los a sair, parecia que ele já tinha muita experiência com mestiços ariscos, ele sabia como se portar para deixa-los calmos.
Não demorou muito e esses três mestiços tomaram coragem para sair dessas gaiolas minúsculas, eles saíram delas trêmulos e assustadiços. O espaço em que ele estavam confinados era minúsculo mesmo e graças a isso os coitados estavam em uma posição muito desconfortável, o tempo todo agachados e corcundas, eles praticamente se arrastaram pra fora das gaiolas sem conseguir esticar as pernas.
—“Malditos...” Sr. Cicatriz olhou com raiva para os cientistas.
—“Estão há tanto tempo assim que nem conseguem ficar eretos.” Grifh estremeceu ao examinar de perto um dos mestiços recém-liberto.
—“VOCÊ... É VOCÊ MESMO... ENTRE AQUI... ENTRE AQUI AGORA.” O Sr. Cicatriz puxou um dos vampiros de jaleco e o espremeu dentro da gaiola, fechando o cadeado logo em seguida.
—“Agora vocês vão provar um pouco do seu próprio remédio.” A voz do Sr. Cicatriz estava diferente, tinha um tom ácido quando ele olhou com ódio para os cientistas.
—“Grifh, siga em frente e reviste todas as outras salas, quero garantir que vamos salvar a todos... Eu vou demorar um pouco aqui.” Sr. Cicatriz lançou um olhar significativo ao Grifh.
—“Ok... Hey Garoto... venha comigo, vou te acompanhar até o lugar onde seu irmãozinho está.” Grifh me chamou e saiu correndo na frente, com as armas em posição.
—“T-tá bem...” Corri atrás dele.
Corremos em meio às várias gaiolas com mestiços e fiz questão de pisar na mão de um ou outro vampiro de jaleco que estava rendido e deitado no chão.
Seguindo o mapa da Sophia e cheguemos a uma sala branca e limpa, cheia de mesas com computadores grandes, no fim dessa sala tinha uma porta de segurança máxima, a porta estava fechada e possuía uma tranca com botões e uma tela para inserir um código.
—“Vou te deixar aqui e seguir em frente... temos um cronograma muito apertado, se não tirarmos os mestiços daqui antes da batalha do zumbi versos o imperador começar...” Ele ficou tenso só de pensar.
—“Eu sei... eu sei...” Confirmei com a cabeça.
—“Tome... não se preocupe, você vai conseguir fazer isso sozinho.” Grifh me passou uma pistola prateada, era um objeto assustador, pesado e gelado.
—“Ah... eu não sei como usar isso...” Fiz menção de que ia devolver a arma a ele.
—“Está destravado, é só puxar o gatilho, então cuidado... ok?” Grifh não a pegou de volta e me ensinou o que fazer.
—“Ok...” Tremi ao estudar o objeto mortal em minhas mãos.
Grifh seguiu seu caminho, invadindo outras salas, me deixando completamente sozinho.
Olhei em volta tentando pensar em um modo de destrancar a trava com códigos, pois atrás dessa porta estava o meu objetivo... de acordo com o mapa da Sophia.
Olhando em volta acabei encontrando um desses vampiros cientistas embaixo de uma mesa de escritório, ele estava tremendo de medo.
—“Você...” Apontei a arma pra ele, estranhamente eu não gaguejei e nem demostrei insegurança... estranho, eu pensei que eu ia ficar com medo de manipular uma arma e ameaçar alguém, mas pelo visto isso me deixou mais corajoso... ou quem sabe eu só esteja mais corajoso porque estou perto do meu objetivo.
—“N-não p-por favor.” O vampiro tremeu de medo e se encolheu, parecia que ele ia urinar na calça.
—“Me diga o código e eu não te farei nada.” Falei firme.
—“N-não posso...” Ele tremeu mais ainda.
—“Vou contar até três... se não me disser o código, eu vou atirar na sua perna... e pode apostar que isso vai ser muito ruim... eu tenho balas de irídio e platina aqui. Você vai demorar a morrer e vai doer muito.” Ameacei sério e não pude deixar de me surpreender comigo mesmo.
—“Espere, por favor...” O vampiro me implorou com as mãos unidas como se rezasse por ajuda.
—“1” Comecei a contar e apontei a arma na perna do cara.
—“N-não...” Ele tentou inutilmente encolher mais as pernas para protegê-las.
—“2” Comecei a apertar de leve o gatilho.
—“É 354867...” O vampiro falou rapidamente, em claro desespero.
—“Se estiver metido, eu volto e atiro no seu pinto.” O alertei com um tom de voz firme.
—“Eu juro... eu juro que é isso.” Agora o vampiro realmente se mijou todo.
Ignorando-o, fui até o painel e digitei os números, para a minha surpresa, a porta abriu... Uaauu, eu consegui, eu meti medo em um cara adulto e consegui uma informação, cara me sinto como um espião que aparece nesses filmes antigos.
Entrei na sala e dei de cara com dois vampiros vestidos com roupas azuis, eles estavam usando avental, touca e máscara, eles tinham bisturis e outros equipamentos bizarros em mãos, tudo isso coberto de sangue, parecia que eles estavam operando alguém.
Apontei a arma pra eles e eles imediatamente ergueram as mãos pra cima, em rendição.
—“Não se mexam... quero que me digam onde está o bebê.” Os encarei firmemente.
Os homens nada disseram, mas apontaram com a cabeça a maca ensanguentada atrás deles.
—“...” A surpresa e o choque de finalmente perceber que esses caras estavam fazendo alguma coisa ruim com Sebastian me deixou lívido e sem palavras.
Um dos caras deve ter percebido o meu momento de fraqueza e decidiu pular em cima de mim, no choque puxei o gatilho e o acertei em cheio. Ele caiu no chão e o sangue vazou de sua barriga, fazendo um circulo ao seu redor.
Fiquei um segundo olhando para o corpo, eu não acredito... eu matei alguém... eu não queria, mas ele me atacou... eu... eu... eu sou um assassino.
O segundo cara recuou assustado, percebendo que eu não estava brincado. Me recompus e pulei por cima do corpo, indo direto até a maca.
Subi na escadinha e encarei Sebastian.
Ele estava amarrado na maca, com o peito aberto, como se estivessem fazendo uma autopsia nele, examinando seus órgãos internos, mas o mais chocante é que ele estava vivo e consciente.
—“Ugh... Leo? Não... é só mais uma alucinação... só pode ser isso.” Sua voz soou muito fraca, mas ele ainda conseguiu sorrir.
Um ódio inexplicável me inflamou, uma raiva que eu não sabia de onde vinha tomou conta de mim. Virei-me na direção do segundo vampiro, que agora se encontrava no cantinho da sala, tremendo apavorado e atirei nele deliberadamente.
Ele caiu no chão, mas não parei de atirar, mesmo com ele morto, eu segui atirando até esvaziar o cartucho de balas nele.
Quando a raiva apaziguou um pouco, me virei para Sebastian novamente.
—“Hey! Pirralho de merda... te proíbo de morrer, isso é uma ordem!” O encarei com fúria, não sei porque, mas agora eu estava com raiva dele.
—“Leo?” Os olhos dele se arregalaram pra mim, acho que finalmente ele percebeu que eu estava aqui de verdade, afinal de contas a ordem que dei era séria e devia estar forçando-o a me obedecer... e claramente nenhuma alucinação minha teria tal efeito sobre ele.
—“Surpreso em ver?” O encarei com um sorriso convencido.
—“...” A expressão dele era de incredulidade... pelo visto ele realmente não esperava me ver de novo.
—“Merda... sabe o quanto eu quero te dar uma surra agora? Isso é tudo culpa sua... Se você tivesse nos esperado, isso não teria acontecido...” O encarei com raiva quando comecei a soltar seus pulsos e tornozelos da maca, fiz isso devagar, pois ele estava muito ferido e parecia que qualquer movimento ia acabar matando-o.
—“Eu sei... desculpa...” Ele falou bem fraquinho, parecia estar quase caindo no sono.
—“Não tem desculpa... você me irrita... eu quero te bater com um gato morto até ele miar de novo.” Eu não estava brincando, eu juro que se ele estivesse bem agora, eu ia encher ele de tapas... tô nem aí que ele é apenas um bebê.
—“...” Sebastian só piscou cansando pra mim.
—“Quero te bater por toda a eternidade...” Rosnei pra ele... Droga, porque ele está tão quieto? Eu quero que ele rebata o que eu estou dizendo, quero que me xingue, quero me fale coisas ruins... qualquer coisa, mas quero que ele mostre que ainda está aí.
—“Leo... tá doendo... quero colo...” Ele pediu erguendo os braços e fazendo um beicinho.
—“...” Isso me pegou desprevenido, eu não esperava por algo assim, droga... Esse maldito sabe me desarmar, minha raiva foi completamente embora, não tinha como manter esse sentimento por ele, não quando ele agia carente e fofinho assim.
Procurei no meio dos equipamentos médicos alguma coisa que pudesse me ajudar a manter o peito dele fechado e protegido para que ele pudesse supor a fuga.
Achei ataduras e improvisei como pude. Agora eu só precisava leva-lo até a sede dos rebeldes e dar a ele sangue, lá tinha vários mestiços, então logo esse ferimento fecharia, não é? Eu espero que sim.
Finalmente o peguei no colo como ele pediu, ele gemeu de dor, mas se segurou no meu pescoço com força. Seu corpo tremia muito, provavelmente ele estava entrando em choque.
—“Hey... qual o problema?” Questionei quando ele fungou.
—“E-eu f-fiz besteira... e-eu pensei que fosse morrer... tive tanto medo... P-pensei que nunca mais fosse te ver... fiquei triste com isso...” Senti algo molhado e quente molhar minha camisa... ele tá chorando? Ah, não... isso não! Não admito que o poderoso e metido Sebastian chore como um fraco.
—“Ah, pare com essa merda... está me assustando... desde quando o grande Sebastian fala coisas tão idiotas? Desde quando aquele monstrinho chato chora? Você parece uma menininha, acho que o tempo que você ficou se fingindo de Sophia afetou seus miolos.” Falei com rispidez.
—“Hehe... babaca...” Ele gemeu essa palavra pra mim com um sorriso maldoso, foi algo simples, mas já serviu para me acalmar, afinal, aí estava o Seby que eu conhecia... e no fundo até gostava.
—“Agora sim... esse é o Seby que eu conheço... Agora vamos dar o fora daqui.” Devagarinho, tentando não fazer movimentos bruscos, eu desci da escadinha com Sebastian agarrado em mim com suas poucas forças. Eu tinha que lentamente andar de volta até o Sr. Cicatriz, ele me ajudaria agora.
Mas quando eu estava quase no meu destino, algo segurou o meu pé e puxou com força, caí por cima de Sebastian e algo pulou em cima de mim. Só tive tempo de lagar o seby e rolar para encarar o meu atacante.
Mãos fortes fizeram a volta no meu pescoço e começou a me estrangular.
Demorei um momento para consegui me situar no meio do caos e ver quem estava me atacado. Era o cara que eu forcei a me dar o código de segurança, ele saiu de baixo da mesa e resolveu agir... maldito!
Comecei a tentar socar e chutar o vampiro que estava em cima de mim, me enforcando lentamente. Às vezes minhas mãos conseguiam acertar e aranhar algo, mas acho que eu não estava conseguindo feri-lo pra valer.
Minha visão estava ficando turva, meus pulmões queimavam... maldita hora que eu fui descarregar aquela arma em um cara morto, ela seria útil agora.
—Cof.. cof... Seby... arf...” Eu queria gritar pra ele fugir, nem que fosse se arrastando, mas ele tinha que chegar até o Sr. Cicatriz, lá ele estaria à salvo.
De repente as mãos que antes estavam me sufocando, me largaram, o vampiro na minha frente se afastou de cima de mim cambaleante e arfante, vez ou outra um gemido escapava de seus lábios.
Demorei para perceber que Sebastian estava em suas costas, mordendo seu pescoço, o vampiro lutava contra ele, puxando seus cabelos, aranhando o que alcançava do corpo já ferido de Sebastian.
Uma luta violenta entre eles se desenrolou ali, o vampiro em desespero para tirar Seby de suas costas se jogou contra as paredes, fazendo questão de esmagar Seby contra todo objeto duro que tinha ao seu redor, um rastro de sangue fresco era deixado nesses móveis, Seby estava sangrando muito mesmo.
Assim que recuperei o folego, eu fui pra cima também, me agarrei na perna do sujeito e mordi sua sobrecoxa com todas as minhas forças.
—“AAAAAAH... SEUS MERDAS...” Ele gritou em fúria e minha cabeça zuniu quando um soco quase afundou o meu crânio, mas eu não o soltei, eu segui tentando de tudo para derruba-lo no chão.
Movido pelo desespero, eu soquei sua virilha com tudo, o vampiro arfou e finalmente caiu no chão, Sebastian o soltou e tombou no chão sem forças, eu não parei pra ver se ele estava bem, eu subi em cima do vampiro caído e segui socando tudo que alcancei.
Infelizmente, eu era fraco demais para desmaia-lo com meus golpes, mas por obra do acaso, o vampiro se debateu tentando se defender e acabou esbarando na mesa, o que causou um desequilíbrio nos objetos que estava sobre ela. Então um dos pesados gabinetes de computador caiu em cima de sua cabeça, esmagando-a, o sangue jorrou na minha cara.
—“Q-que... cof cof... merda!” Sai de cima do corpo nojento daquele vampiro e olhei para Sebastian, ele estava caído no chão, sua respiração era arfante, o nariz e a boca estavam sangrando, assim como o ferimento em seu peito que agora vertia sangue encharcando as ataduras outrora limpas.
—“Seby...” Me arrastei até ele, minha cabeça latejava de dor, as coisas estavam dobradas na minha frente.
—“Desculpe... eu tentei ajudar... mas não consegui envenena-lo... estou sem presas...” Sebastian se desculpou com um tom de voz muito fraco, quase não consegui ouvir.
Mas quando meu cérebro captou o que ele disse, meu coração parou. Ele disse que está sem presas? Isso quer dizer que aqueles cientistas as arrancaram? Pior... isso quer dizer que ele vai... morrer?
—“Sebastian... o que eu posso fazer pra te ajudar?” Quase implorei a ele, algo ruim apertava o meu peito e fazia meus olhos arderem.
—“E-está chorando?” Os olhos nublados de Sebastian se arregalaram quando uma das minhas lágrimas me traiu e pingou no rosto dele.
—“N-não... é que aquele cara me socou pra valer... tá doendo, é só por isso...” Tentei limpar com a manga da camisa, mas não adiantou.
—“Você... gosta de mim... tanto assim?” Sebastian me encarou perdido por um momento.
—“Gosto nada... você é irritante e malvado... você merece... merece que...” Eu não sabia dizer o que ele merecia.
—“Mentiroso... Você gosta de mim sim.” Um sorriso safado se formou nos lábios feridos dele.
—“P-para de rir... isso é sério, você vai morrer!” Ai, como eu queria socar a cara prepotente dele... como ele consegue me irritar tanto?
—“Não consigo parar de rir... você parece um idiota, chorando desse jeito por mim...” Seby realmente começou a rir, era um riso fraco, quase sem ar, mas era uma risada de qualquer forma.
—“E o que você espera que eu faça? Quer que eu ria disso?... Eu... eu não vou com a sua cara, mas não quero que você morra.” Agora minhas lágrimas realmente não paravam... que vergonha!
—“Que bebê chorão...” Seby ergueu sua mão e passou o dedo indicado na minha bochecha, limpando a lágrima.
—“Eu não sou bebê chorão!” Dei um tapa na mão dele e a afastei de mim.
—“Leo... depois de tudo o que fiz pra você... você ainda é capaz de derramar lágrimas por mim... por quê?” Sebastian agora realmente estava me olhando com atenção, como se tentasse ler a minha mente.
—“...” Eu não sabia o que dizer, pois eu realmente não entedia como eu podia sentir algo bom por ele, até agora ele só fez coisas para me ferir... com poucas exceções, é claro.
—“Heh... e depois eu é que sou a menininha aqui... Vamos, pare de chorar, eu vou ficar bem...” Seby riu de mim de novo e tentou mudar de assunto... eu percebi que ele tentou mudar de assunto mesmo tendo sido ele quem entrou no mesmo... talvez nem ele tenha a capacidade de entender esses sentimentos ainda.
—“Vai nada... suas presas...” Bufei pra ele, eu sei que ele vai morrer, não adiante ele mentir para me acalmar, eu sei que sem presas ele vai... o Sr. Cicatriz me disse o que acontece.
—“Não se preocupe, eu posso fazer presas novas... eu não sou um simples mestiço e também não sou um vampiro qualquer... esqueceu disso?” Seby bufou pra mim.
—“V-verdade?” O encarei para ter certeza de que ele não estava mentido.
—“Sabe... eu gostaria de ter uma câmera aqui comigo... seria legal ter filmado essa cena pra mostrar pra todo mundo depois... Eu teria a prova definitiva que você é um chorão e que gosta de mim... AIII.” Ele fez beicinho quando eu dei um peteleco na testa dele, como um verdadeiro irmão mais velho.
—“Miserável...” Rosnei pra ele dando mais um cascudo nele.
—“Poxa... que malvado... batendo em um ferido... vou contar pro meus pais... você vai ver só...” Ele respondeu exatamente como um irmão mais novo responderia.
—“Conta, eu te desafio, duvido que alguém acredite em você agora, depois de tudo que você fez... Mas agora chega disso, temos que ir nos unir ao Sr. Cicatriz, eu vou te tirar desse lugar e te levar para o esconderijo dos rebeldes, lá você vai se recuperar.” O peguei no colo de novo.
—“N-não... L-Leo... me... leve... até...Sophia... preciso... ajudar...” Ele falou de modo sofrido quando mexi nele.
—“Não diga besteiras... o que você vai fazer nesse estado? Você só vai atrapalha-la. Deixa-a se virar sozinha, ela tem um plano.” Falei firme, eu não ia deixar ele se meter nessa briga, não desse jeito.
—“N-não... sozinha, ela não vai... conseguir...” Ele se debateu em meus braços, tentando fugir.
—“Tenha um pouco de fé nela...” O ignorei e segui andando.
—“Por favor, Leo... me leve até ela... ela precisa de mim... somos uma dubla... somos a lança e o escudo...” Ele me olhou sério, havia algo oculto em seu olhar.
—“...” O olhei pensativo, mas todos os meus sentidos me alertavam que eu não deveria obedece-lo.
—“Por favor...” Seby implorou.
Droga... o que eu faço?
...
Sephiron...
Invadi a mansão de Uriel com o zumbi de Shadowy me guiando pelos corredores, ele ia à frente, bancando o nosso escudo, levando tiros para nos proteger. Eu só rezava para que Sophia não fosse capaz de sentir dor quando o corpo de Shadowy era ferido.
O zumbi controlado por Sophia era implacável, mas ele não estava matando ninguém, ele apenas desmaiava os guardas por onde passávamos. Era inacreditável a velocidade que ele podia se mover e a cada segundo a velocidade só aumentava, acho que Sophia estava se acostumando mais e mais a controla-lo.
Eu o seguia de perto com o corpo mole de Sophia nos braços, mas mantinha uma distância segura para evitar que fossemos feridos pelos ataques dos soldados, no entanto Sophia não podia ficar muito longe dele, ela precisava ficar num raio de pelo menos cinco metros do corpo de Shadowy e aos poucos o diâmetro desse raio aumentava um pouco. Acho que ela estava se adaptando aos poucos a essa habilidade.
No entanto o fato dela ainda precisar ficar muito perto do corpo de Shadowy era uma notícia ruim para nós dois, pois teríamos de ficar muito próximos da batalha entre Uriel e o Shadowy zumbi. As chances de nos ferirem aumentavam drasticamente.
Sem falar que se Uriel descobrisse que bastava ele acerta Sophia para tirá-la da concentração e do controle de Shadowy e... tudo acabaria.
Meu único trabalho era protegê-la, acontecesse o que acontecesse.
Eu estava feliz por ela confiar em mim dessa forma, ao ponto de deixar seu corpo desprotegido em minhas mãos, mas também estava preocupado com isso, pois eu não tinha como enfrentar Uriel caso tivesse que impedi-lo de machucar a Sophia.
Estávamos rapidamente avançando, nossos inimigos nem sequer nos atrasavam, estávamos a cada segundo mais próximos, eu quase podia sentir a presença de Ian no ar... só mais um pouquinho e ele estaria em meus braços novamente.
Finalmente chegamos ao quarto onde Ian estava de acordo com as informações que a Sophia recolheu com sua visão especial.
O zumbi de Shadowy derrubou a porta grossa de madeira maciça como se ela fosse feita de papelão. Invadimos o quarto bem decorado e espaçoso.
A cena que vi a seguir me deu ânsia.
Do outro lado do quarto, sobre a cama, Uriel se movia freneticamente sobre Ian, que estava com seus braços amarrados pra cima e presos na cabeceira da cama.
Enquanto Ian detinha uma expressão de pura dor e horror, Uriel tinha uma expressão de puro prazer que logo se transformou em choque quando ele olhou para trás pra ver quem tinha invadido o seu quarto.
—“Shad?... Querido... é você?... Ah, Shad pensei que você tivesse morrido.” Uriel saiu de cima de Ian e o deixou ferido sobre a cama.
—“...” Observei a cena que se desenrolava na minha frente em silêncio, Uriel praticamente correu para abraçar Shadowy, eu queria fazer o mesmo com Ian, mas precisava manter a distância.
—“Amor... o que fizeram com você?” Uriel apalpou o corpo em decomposição na sua frente, sua expressão ao ver o amado nesse estado era a mesma expressão que Ian possuía quando estava sendo estuprado agora há pouco... dor e horror.
Uriel se aproximou de Shadowy como se fosse beija-lo, mas o zumbi reagiu e socou a cara de Uriel com força o suficiente para o mesmo cair no chão com a mandíbula quebrada, agora seu queixo balançava livremente de forma grotesca.
Uriel porem não se deixou abalar por isso e colocou sua mandíbula no lugar antes de levantar novamente e olhar melhor para Shadowy.
—“Amor... é você mesmo? Porque fez isso?” Uriel o olhou com uma expressão ferida e magoada.
O zumbi partiu pra cima de Uriel e começou a tentar fatia-lo, Uriel só tentava detê-lo, sem nunca atacar ou revidar.
—“Seph...” A voz fraca de Ian me chamou com um tom tristonho, por um instante desviei meus olhos da batalha para olha-lo.
Ian seguia preso sobre a cama, ele estava sangrando um pouco, as lágrimas brilhando em seus olhos marejados, ele tentava se livrar das amarras para vir até mim. Meu coração implorava para correr até ele e tira-lo dali, mas Sophia havia me avisado para não fazer isso, seria arriscado passar por Shadowy e Uriel agora.
O zumbi de Shadowy seguia atacando e perfurando vários pontos do corpo de Uriel que nem reagia, parecia que ele não queria bater no parceiro.
—“Shad pare... por favor, querido volte a si... volte pra mim...” Uriel tentava segurar os pulsos de Shadowy, tentava força-lo a parar, como se ele fosse uma criança dando um ataque de birra.
Em outra ocasião eu até sentiria pena de Uriel, tentando chamar o amante morto de volta desse jeito, mas ele era um monstro e merecia sofrer assim.
Demorou um tempo, mas Uriel percebeu que Shadowy estava mesmo morto e a única coisa que o mantinha de pé era o poder da Sophia, ele nos lançou um olhar assassino, pude senti meu sangue congelar nas veias, ele estava uma fera.
—“Malditos... malditos... MAAALDITOOOOS.” O berro de raiva de Uriel fez as paredes vibrarem, ele olhou pra mim como se eu fosse a escória do mundo, o desejo de me matar estava claro no brilho dos olhos dele.
—“...” Recuei um passo, o zumbi de Shadowy se colocou na frente de Uriel, barrando sua chegada até mim, acho que a Sophia percebeu que ele estava enfurecido e que pretendia nos atacar.
—“Você tirou ele de mim... você me deixou SOZINHO...” O corpo de Uriel tremia de ódio, ele quase espumava como um cão com raiva.
—“...” Estremeci com o grito visceral que ele deu, o ódio na sua voz parecia transbordar veneno.
—“Eu vou me vingar... você tirou o amor da minha vida de mim... então eu vou fazer o mesmo com você.” Uriel falou isso olhando diretamente nos meus olhos antes de se virar e encarar Ian.
Ian seguia preso e indefeso sobre a cama, ele não teria chances.
—“Não...” Entrei em pânico, ele ia atacar Ian, ele ia matá-lo na minha frente.
—“IAN...” Meu coração queria sair pela boca quando Uriel subiu na cama e o pegou pelo tornozelo.
—“AAAGH...” Ian gritou em agonia quando ouvi o som de osso se quebrando, Uriel estava apertando tanto seu tornozelo, que ele quebrou como se fosse um graveto.
Uriel deixou as unhas de sua mão livre se alongar e mirou no peito de Ian, ele ia mata-lo, mas o zumbi de Shadowy também subiu na cama e agarrou Uriel por trás, segurando seus braços, tentando afasta-los de Ian.
Uriel resistiu e seguiu tentando alcançar Ian com suas garras afiadas, Ian se debateu em agonia e desespero.
O zumbi monstruoso lutou veemente tentando puxar Uriel para longe de Ian, mas Uriel não largava a perna de Ian e seguia focando na tentativa de atravessar o peito dele com suas garras.
—“SEEEPH...” Ian gritou por mim, os olhos assustados cheios de lágrimas vendo aquele monstro em cima de si, tentando alcança-lo de todas as formas e se aproximando mais a cada segundo.
Eu sei que Sophia disse pra mim não me aproximar, eu sei que ela disse pra não fazer nada idiota, mas eu não podia ficar aqui parado desse jeito, não quando Ian estava preste a morrer.
Larguei o corpo adormecido de Sophia no chão, onde ela estaria dentro das proximidades para comandar Shadowy, mas ao mesmo tempo longe para ficar segura de qualquer ataque. E então corri até a cama.
—“Seph... socorro... por favor...” Ian me implorou por ajuda com um olhar apavorado.
Uriel e Shadowy estavam praticando um cabo de guerra, enquanto Uriel lutava com todas as forças para ir pra cima de Ian, Shadowy o puxava na direção contrária, tentando tira-lo de cima da cama.
Comecei a desamarrar as mãos de Ian, ele estava gelado e trêmulo, eu tinha que dar um jeito de tira-lo de perto desses monstros, essa situação não deveria fazer bem a ele.
—“AAARGH...” Uriel rosnou de raiva e frustração, então fez mais força, arrastando Shadowy consigo, agora ele estava perto de ferir Ian.
Em um momento de puro desespero, eu me atirei na frente de Ian na esperança de protegê-lo, eu nem liguei ou pensei no resto. Amontei em cima de Ian, ficando de quatro sobre ele e usando minhas costas para protegê-lo do ataque.
—“SEPH, NÃO...” Os olhos bicolores de Ian me encaravam apavorados, eu podia ver o horror estampado neles quando o sangue começou a escorrer de mim, pingando e manchando o corpo pálido dele. As garras de Uriel atravessaram o meu corpo como se eu fosse feito de manteiga.
—“Seph... Seph... ugh...” Ian se debateu em baixo de mim aos prantos, lutando para se soltar e me abraçar.
—“Shhh... tá tudo bem...” Tentei sorri pra ele mesmo com a dor terrível que eu sentia atravessando as minhas costas e chegando até o meu abdômen.
—“Seph... saí dai... por favor...” Ian me implorou, seus olhos agora transbordavam lágrimas como nunca, eu podia ver cada detalhe de seu belo rosto, essa era uma bela última visão... ficaria congelado na minha retina até que meu corpo finalmente parasse de trabalhar.
Em minhas costas, Uriel e Shadowy seguiam lutando, Uriel queria me estraçalhar, mas Shadowy segurava seus pulsos e impedia que a mão de Uriel fizesse qualquer movimento dentro de mim.
Meu corpo todo tremia e ardia, merda... acho que as garras dele também tem veneno, então de uma forma ou de outra... eu vou morrer mesmo.
—“Ian... eu... te amo... sinto muito por tudo de ruim que já lhe fiz... eu...” Toda a minha vida miserável começou a passar diante dos meus olhos e a única coisa que eu conseguia pensar nesse momento era que eu cometi muitos erros... Eu errei tanto com o meu pai... eu errei mais ainda com Ian, eu só queria uma chance de me desculpar por tudo... Infelizmente eu nunca teria essa chance com meu pai, mas com o Ian eu ainda tinha uma chance... agora era a minha última chance com ele.
—“Não, não, não, não, não, não... não diga essas coisas, por favor, não me deixa... eu não vou consegui sozinho... não nesse mundo... por favor, eu te imploro... não faz isso comigo.” Ian estava chorando tanto, que quase se afogava com seus soluços.
—“Shhh... tá tudo bem... eu sei que você vai conseguir... você é forte...” Fiz um carrinho em seu rosto molhado, meu corpo agora estava ficando pesado, eu não queria esmagar o Ian, mas não podia sair de cima dele agora, eu precisava protegê-lo e seguiria fazendo isso mesmo depois de morto... meu corpo seria um escudo pra ele, até o final.
—“Não... eu não sou forte... eu sou apenas um mestiço... lembra o que você me disse quando tentei fugir de você no seu antigo jardim durante aquela caçada sobre a luz da lua? Você disse que eu não duraria um minuto lá fora... então, por favor... não me deixe...” Ian implorou chorando com uma criancinha, isso quebrava o meu coração... esse foi outro erro que cometi com Ian, eu fiz ele acreditar que era fraco.
—“Eu não te conhecia direito naquela época... eu pensava que você fosse apenas um brinquedo frágil... mas agora eu sei a verdade... você consegue Ian... você é forte...” Ao poucos fui largando o meu peso sobre ele, perdendo as forças.
—“Não... não... eu não sou!” Ian seguia tentando se soltar para me abraçar.
—“Ian... cuida bem das crianç...” Tentei falar, mas ele me interrompeu.
—“NÃO... por favor, para de falar isso... PARA...” Ian implorou em meio aos berros.
—“Ian... eu te amo de verdade...” Forcei isso a sair dos meus lábios.
Ian finalmente conseguiu soltar seus braços, mas não me abraçou como eu estava esperando, ele esticou o braço esquerdo, como se quisesse alcançar Uriel atrás de mim, a raiva estava estampada no rosto de Ian quando ele atacou Uriel que berrou de raiva, senti o sangue dele respingar nas minhas costas... Ian o feriu? Como?
De repente algo surgiu ao meu lado como um relâmpago, atacando com todas as forças Uriel e Shadowy, que foram arremessados para o outro lado do quarto, mal pude ver o que aconteceu.
—“S-Sebastian?” Ian encarrou o bebê ferido e sangrento ao nosso lado, ele arfava e mal conseguia se manter de pé, mas mesmo assim manteve uma pose de ataque e proteção ao nosso lado.
—“F-filho... você...” O olhei incrédulo, ele estava mesmo muito machucado, mas permanecia em pé, nos protegendo.
—“Leo... vem logo...” Sebastian ordenou olhando na direção onde eu tinha deixado a Sophia.
—“Tô indo...” Leonard surgiu ao nosso lado também, com Sophia no colo.
Então uma bolha de proteção se formou ao nosso redor, uma daquelas bolhas que o Sebastian podia fazer e dessa vez estávamos todos dentro, todos seguros e a salvo.
—“Sophia... não sei se pode me ouvir, mas está tudo bem, vou manter todos a salvo, então não tenha medo de causar um estrago... todos os mestiços e rebeldes já foram evacuados, então... pode derrubar esse lugar.” Sebastian falou firmemente, olhando para Sophia que parecia estar dormindo tranquilamente.
O corpo de Sophia se remexeu, ela gemeu e de repente o zumbi lá fora soltou um grito de guerra de apavorar. Era como ver um daqueles monstros de filme de terror, era um berro animalesco.
Logo após esse berro, o zumbi foi pra cima de Uriel com tudo, o chão tremeu, o teto ruiu, os móveis tombaram enquanto Shadowy dava a maior surra em Uriel.
—“Ugh...” Gemi de dor quando senti o veneno se espalhar mais ainda pelo meu corpo, Ian me olhou assustado e preocupado.
—“Aqui... beba Pai... você vai ficar melhor.” Sebastian me ofereceu o pulso.
—“N-não... você já está muito fraco e...” Reneguei o convite dele, afinal ele estava com cara de ia desmaiar sem sangue a qualquer momento. E nós precisávamos dele consciente para manter essa bolha ativa.
—“Não se preocupe com isso agora, só beba um pouco, meu sangue será um antídoto para o veneno de Uriel, afinal de contas, Sophia e eu evoluímos nossos corpos para suportar o veneno desses monstros, criamos anticorpos, isso vai te ajudar, vamos, nós precisamos de você, Pai.” Sebastian falou com convicção, seu olhar me dizia que ele não ia desistir de me fazer beber.
Acabei aceitando e bebi um pouco, não foi muito, pois eu temia que Sebastian enfraquecesse mais e perdesse o controle do escudo, mas esse pouco sangue que bebi serviu para me aliviar um pouco a dor.
Acho que o antídoto demoraria a fazer efeito, mas pelo menos agora eu não corria mais risco de morrer.
As forças voltaram um pouco, então me sentei como pude dentro daquela bolha que era até aconchegante e peguei Ian nos braços, ignorei a luta terrível que se desenrolava lá fora, tudo ao nosso redor não passa de escombros agora.
O braço esquerdo de Ian parecia uma lâmina, mas estava voltando ao normal lentamente... Foi com isso que ele atacou Uriel? O que está acontecendo aqui? Como ele fez isso? Bem, não importa... o que importa é que ele estava bem.
—“Ian... senti tanto a sua falta amor...” O abracei forte, tentando ignorar os urros dos monstros que batalhavam lá fora, atravessando paredes grossas como se fossem feitas de isopor.
—“Ah, Seph... eu pensei que você fosse morrer... eu pensei que eu nunca mais fosse te ver... eu tive tanto medo...” Ian me abraçou de volta, seu corpo estava mais pesado, acho que ele estava tendo uma boa alimentação pelo menos, mas eu ainda podia sentir cheiro de sangue em seu corpo, isso era prova de que ele estava sendo maltratado ao ponto de sangrar.
—“Pronto, pronto, já passou... tá tudo bem, agora nós vamos voltar pra casa e vamos ser felizes para todo o sempre... eu, você, Leonard, Sophia, Sebastian e esses três aí dentro de você... pode apostar.” Passei minha mão sobre a barriga de Ian, ela já era um pouquinho proeminente, mas parecia mais uma gordurinha localizada.
—“Seph... eu tive tanto medo... ele... ele me machucou tanto...” Ian tremeu e chorou ao se encolher mais no meu colo, o aconcheguei para tentar acalma-lo e usei o lençol para enrola-lo e aquecê-lo.
—“Shhh... não, não fale disso agora.” Eu tinha que distraí-lo dessa loucura, eu tinha que fazê-lo se sentir bem.
—“Ugh...” Sebastian gemeu e caiu de joelhos ao nosso lado, o escudo deu uma enfraquecida, mas logo voltou ao normal.
—“Seby?” Leonard olhou para Sebastian preocupado.
—“Tá tudo bem Leo... eu consigo.” Sebastian o tranquilizou, mas sua voz demonstrava o esforço que ele estava fazendo, sem falar do suor que agora brotava do seu corpo ferido.
Sophia era outra que gemia de leve nos braços de Leonard... os gêmeos estavam sofrendo tanto para nos proteger... eu queria poder fazer algo para ajudar... Droga! Sou um inútil, sou um péssimo pai... EU deveria estar protegendo eles e não eles a mim.
Uriel agora estava vencendo o zumbi, pois como Shadowy já estava morto, seu corpo não se regenerava mais e isso estava dando ao Uriel uma clara vantagem.
Quando Uriel perdeu um braço, logo outro nasceu, mas quando o mesmo aconteceu com Shadowy... Sophia perdeu uma arma.
Meu medo voltou com tudo, pois se Shadowy zumbi perdesse, Sophia teria de ir lá fora brigar no mano a mano com Uriel e se ela perdesse... morreríamos todos aqui.
Uriel estava enfurecido, acho que o fato dele ter de destruir o corpo de seu amado para finalmente dar a ele seu descanso, estava deixando Uriel mais desejoso por nos torturar lenta e dolorosamente até a morte.
Merda... Shadowy agora não tinha mais os dois braços e uma das pernas, ele ia perder... Sophia ia ter de lutar... Não, não, não... tudo menos isso, não temos mais chances.
—“Sophia... no laboratório, tem coisas que você pode usar...” Sebastian falou fazendo esforço para manter o escudo em torno de nós.
O que ele quis dizer com isso? O que tinha lá? Seja lá o que for... agora estávamos ficando sem saída, Uriel estava preste a dar o golpe final em Shadowy.
Mas nesse mesmo instante, um som assustador reverberou pelo chão quando centenas de criaturas deformadas quebraram o chão e se arrastaram pra cima de Uriel, segurando-o como podiam.
—“O quê? Você?... NÃO... NÃO, ME SOLTEM... ME SOLTEM...” Uriel olhou em choque para aquelas criaturas bizarras que saiam cada vez mais e mais do chão, eram tantos. Uriel conseguiu arrancar uns de seu corpo e tacar longe, mas havia muito deles.
Em um instante, o corpo de Uriel estava completamente coberto de criaturas que se agarravam nele, trepando em seu corpo, se amontoado uns por cima do outros. Eles pareciam pequenos demônios vindos diretamente do inferno para levar Uriel com eles de volta para as profundezas do submundo.
—“O que são essas coisas?” Eu não estava entendo o que estava acontecendo.
—“Os bebês que ele matou... os filhos dele...” Ian arregalou os olhos para as criaturas, antes de esconder o rosto em meu peito e começar a chorar de novo.
—“Quando fui levado para o laboratório, eu os vi, tinha centenas de tubos de vidro com essas coisas dentro... Então pensei que Sophia poderia controla-los, já que eles estão mortos como o Shadowy, mas eu não tinha certeza se a Sophia conseguiria comandar mais de um deles em uma única vez.” Sebastian explicou tudo enquanto mantinha um olhar preocupado sobre Sophia, o nariz dela agora sangrava um pouco e seu rosto se contorcia de dor, provavelmente controlar tantos de uma vez só era desgastante demais pra ela.
—“Que filho da puta... os próprios filhos... como ele pode?” O choque me arrebatou quando finalmente entendi o que eram aquelas coisinhas que tentavam matar Uriel a todo custo.
—“...” Ian se enrolou mais em meus braços e todos fizeram cara de asco para Uriel, ele era mesmo um monstro.
Agora Uriel estava totalmente imobilizado pelos filhos zumbis, os bebês cadáveres usavam suas pequenas garrinhas para abrir a pele dele e procurar em seu interior os órgãos vitais, acho que a Sophia estava procurando aquele órgão que matou Shadowy.
Foi uma cena horripilante, Uriel berrava ao ponto das veias saltarem em seu pescoço, ele espumava pela boca enquanto se debatia na esperança de fugir daquelas coisas, isso parecia uma pequena vingança daqueles bebês.
O que estava acontecendo na minha frente era uma cena de terror, mas ao mesmo tempo até que tinha lá sua beleza também, Uriel estava ao lado de Shadowy, o amor da vida dele, eles finalmente estavam juntos e logo Uriel iria se encontrar com ele lá na próxima vida, sendo levado pelos próprios filhos... quem sabe todos eles se encontrariam agora no outro mundo.
Agora os pequenos bebês cobriram por completo o corpo de Shadowy e de Uriel.
Uriel percebendo o fim se aproximar, tentou se mover desesperadamente, mas não para revidar contra os bebês e se salvar da morte... e sim para se abraçar em Shadowy.
Seu último esforço fora para ficar colado ao amado... Talvez ele realmente o amasse... talvez no fundo essas criaturas demoníacas tivessem sentimentos no fim das contas.
O chão ruiu e eles foram engolidos por completo pelo buraco que se formou, sendo sepultados todos juntos, com uma família unida.
Os minutos passaram, o silêncio nos devorava, não sabíamos o que estava acontecendo lá embaixo, nos escombros.
De repente Sophia voltou ao seu corpo em um pulo e olhou ao redor, todos nós a olhamos em expectativa.
—“Acabou... eles se foram...” Ela suspirou cansada, sua respiração não passavam de arfadas desesperadas.
Em meio à emoção, eu tomei todos nos braços e os apertei forte junto ao peito.
—“Ai... eu ainda estou machucado... me larga...” Sebastian tentou fugir do abraço com desculpas esfarrapadas.
—“Tô nem aí” Sorri ao impedi-lo de fugir, hoje ninguém se salvaria do meu amor.
—“Seph...” Ian se agarrou mais forte em mim.
—“Shhh... acabou... finalmente acabou, eu cumpri o que prometi... estamos todos vivos e vamos recomeçar... vamos ser felizes.” Enchi o rosto de Ian de beijos enquanto Leonard, Sophia e Sebastian tentavam fugir desse momento meloso.
Mas eu os mantive grudados em mim e assim eu os manteria para sempre.
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