Sangue quente.
47 O plano de Sophia.
Notas iniciais
Sephiron...
Seguindo o pedido de Sophia e ignorando o meu instinto de sobrevivência, eu entrei no beco sujo e apertado. Rapidamente olhei em volta, tentando achar uma rota de fuga segura caso os nossos seguidores se mostrem hostis.
Mas infelizmente o beco realmente não possuía saída, sem falar que não havia obstáculos no caminho para usar como escudo. Olhando pelo lado estrategista, nós tínhamos tomado uma péssima decisão.
Eu sei que não preciso me preocupar com o ataque de um vampiro qualquer, pois Sophia já provou ser capaz de lidar com esses caras facilmente, mas agora é diferente... quer dizer, estamos na frente da casa do verdadeiro inimigo. Esse não é o melhor momento para entrar em confronto com um peixe pequeno, temos que nos poupar para a derradeira batalha e evitar chamar a atenção.
Leonard se abraçou na minha perna quando paramos no final do beco e nos viramos para encarar nossos seguidores, Sophia por outro lado se abrumou toda para encara-los.
Já eu me sentia como um ratinho encurralado no canto por dois gatos famintos e o pior é que eu estava com os meus filhos. Existe coisa pior do que se ver preso em um beco sem saída com as pessoas que você mais ama?
Os dois caras encapuzados pararam em uma distância segura e nos observavam em silêncio. Apesar deles não estarem demonstrando sinais de agressividade, eu ainda me sentia inquieto com a situação.
—“É ele mesmo senhor?” O cara com um manto de capuz marrom escuro cochichou pro outro, mas eu pude ouvir com perfeição.
—“Acho que sim... eu reconheceria esse cheiro em qualquer lugar, mesmo se ele estivesse usando um perfume para disfarçar seu odor natural.” Disse o outro cara, que estava usando um manto com capuz negro, a voz dele não me era estranha, mas eu não sabia dizer de onde eu o conhecia.
—“Quem é você e o que quer comigo?” Questionei em alto e bom som, meu medo crescia um pouco mais a cada segundo, eu tinha que pensar em uma forma de proteger meus filhos caso esses caras se mostrassem inimigos.
—“Já faz um tempo, né Sephiron?” O cara de capuz negro falou e meu coração parou... ele sabia o meu nome, então... ele realmente me conhecia?
—“...” Eu nada disse, apenas deixei meu cérebro trabalhar em uma forma de nos livrar desses caras sem problemas.
—“Fico feliz em saber que você ainda está vivo... mesmo depois de aparecer na televisão com um prêmio pela sua cabeça.” O cara do capuz negro falou com um tom de voz amigável.
Droga! Será que ele quer esse prêmio? Não... isso não fazia sentido. Não tem como esse cara ser um caçador de recompensas, afinal a televisão só mostrou o meu rosto... seria impossível me identificar agora, pois estou com o rosto desfigurado e coberto pelo capuz... E além do mais, ele me identificou pelo cheiro então... ele realmente deve me conhecer.
—“O que você quer? Quem é você?” Perguntei tentando reconhecer esse cara, mas ele também estava de capuz, sem falar que o vento não estava trazendo o cheiro dele pra nós, nesse caso não tinha como eu reconhecê-lo pelo cheiro como ele fez comigo.
O homem baixou o capuz e nos encarou. Ele tinha serias cicatrizes no rosto.
—“Sr. Cicatriz?” Leonard ficou animado de repente e soltou minha perna.
—“O conhece?” Sophia perguntou impressionada.
—“É claro... ele aparecia sempre na televisão... ele é tipo um super-herói.” Leonard logo relaxou, mas eu segui firme, pois eu não sabia se esse cara estava mesmo do nosso lado, afinal quem podia garantir que ele não estava sequestrando os mestiços pra fazer coisas ruins com eles?
—“Você realmente não se lembra de mim, né?... Também pudera, eu era bem diferente na época.” O Sr. Cicatriz rui animado e passou a mão pelo rosto marcado.
—“Desculpa, mas eu realmente nunca te vi na vida.” Com certeza eu não o conhecia, afinal no passado eu era diferente, eu era preconceituoso. Se eu tivesse conhecido esse cara no passado, com certeza eu o trataria como um mendigo... Hoje em dia, no entanto, é diferente, pois estou no mesmo barco que ele.
—“Lembra de um carinha metido a Deus da beleza que queria ser um Conde e por isso puxava o saco de todos?” O Sr. Cicatriz perguntou com um sorriso maior ainda, o que o deixava mais assustador do que amigável, pois uma de suas cicatrizes deixava seus dentes mais expostos do que deveriam ficar em um sorriso amigável.
—“...Kiel?” Esse nome me veio a mente quando pensei em puxa saco chato.
—“Ah... então você se lembra de mim, não é?” O Sr. Cicatriz, ou melhor, Kiel gargalhou animado.
—“É você mesmo? O que aconteceu com você?” O encarei apavorado, o que poderia ter acontecido com ele para que ele acabasse nesse estado?
—“É uma longa história... quem sabe um dia te conte.” Ele coçou a cabeça pensativo e manteve o sorriso amigável no rosto.
—“Conhece ele mesmo senhor Sephiron?” Leonard me olhou como se eu fosse o máximo por conhecer o herói da TV.
—“...” Nada respondi, eu ainda desconfiava dele, afinal nós não erámos lá muito amigos no passado.
—“Papai... ele não está mentido e é gente boa, posso ler na mente dele.” Sophia falou mais animada.
—“Papai?” Kiel arregalou os olhos e encarou Sophia com uma expressão completamente impressionada.
—“...” Fiquei quieto e segurei Sophia mais rente ao corpo.
—“Então você também já é pai? Quem diria...” Kiel ficou mais animado ainda, ele parecia mesmo o tipo de cara que se entusiasma pelo sucesso do amigo que não vê há anos.
—“Também?... Quer dizer que você...” O encarrei de volta, como ele conseguiu engravidar alguém com esse rosto?
—“Tenho um menino.” Ele falou todo cheio de orgulho, nesse momento acabei relaxando um pouco, afinal de contas é difícil encontrar um vampiro que tem orgulho e felicidade de ter um filho... Isso só prova que ele é gente boa mesmo.
—“O que você está fazendo aqui?” Questionei interessado.
—“Eu pergunto o mesmo.” Kiel rebateu com mesmo nível de interesse.
—“Bem...” Abri a boca pra falar, mas fui interrompido.
—“Esse não é o melhor lugar para bater esse tipo de papo.” Sophia nos olhou irritada ao dizer isso.
—“Tem razão... venham, nos sigam, temos um esconderijo aqui perto.” Kiel primeiro olhou impressionado para Sophia, mas logo vestiu o capuz de volta e nos deu as costas, indo para a saída do beco.
—“Devemos ir com eles?” Leonard me olhou sério.
—“...” E se fosse uma armadilha?
—“Vamos logo, ele quer ajudar e toda ajuda é bem vinda, não é?” Sophia rebateu decidida.
Acabei indo de atrás dos dois, andamos uma quadra e paramos na frente de uma casa velha e suja de três andares, acho que era um apartamento ou coisa do tipo. Kiel bateu na porta fazendo uma melodia estranha, acho que era um tipo de senha. A porta se abriu e ele entrou com seu companheiro logo atrás dele, hesitei por um momento, ainda temendo uma armadilha, mas um rápido olhar para Sophia me deu a coragem que eu precisava, então entrei também.
A casa estava quase vazia, quer dizer, vazia de móveis, pois de gente só faltava ter no teto. A casa era tão suja e precária por dentro quanto era por fora. O lugar quase não tinha iluminação, mas era possível enxergar bem.
Passamos por uma sala onde vários feridos estavam sendo tratados, a maioria tinha queimaduras horríveis.
—“Cidadãos da cidade... foram vítimas de bombardeios... Alguns também foram atacados pelos soldados com seus lança chamas.” Kiel explicou antes que qualquer um de nós pudesse perguntar.
O primeiro andar era quase uma ala hospitalar, todos os cômodos estavam ocupados por vampiros feridos.
Subimos as escadas, o segundo andar também estava lotado, mas não de vampiros feridos e sim por mestiços assustados e ariscos. A grande maioria estava encolhida e agrupada no cantinho da sala enquanto olhavam pra todos os lados em frenesi, como se a qualquer momento alguém fosse machuca-los.
Eu já ia questionar sobre eles quando Kiel me explicou.
—“Esses são os mestiços que meus companheiros da resistência resgataram de um caminhão de transporte ontem. Esses mestiços estavam sendo levados para a rinha desse fim de semana. Agora eu estou só aguardando a volta de um dos meus caminhões disfarçados para levá-los até a minha fazenda em segurança... Lá eles estarão livres.” Kiel sorriu animado.
Então era isso que ele estava fazendo com os mestiços que sequestrava? Interessante.
Passamos por outra sala, lá alguns vampiros separavam caixas de madeira usando luvas de proteção.
—“São rebeldes, estão organizando a munição letal.” Kiel me lançou um olhar estranho quando me disse isso, acho que ele estava esperando que eu contestasse sobre o uso de munição letal, mas na verdade eu pouco me importo se os caras do lado inimigo estão morrendo ou não... mesmo sendo inocentes.
—“Acha seguro contar isso pra eles?” O companheiro de Kiel questionou isso a ele com um tom de voz incomodado.
—“Está tudo bem...” Kiel falou firme e seu companheiro não contestou. Incrível, Kiel parece um líder e tanto.
—“Você é o líder da resistência?” Perguntei curioso.
—“Eu sou o líder desse grupo, somos a resistência da capital. Eu não sei como os rebeldes das cidades vizinhas estão lutando.” Kiel explicou e eu respirei fundo tentando me acalmar, pois eu quase comecei uma briga sem motivos com Kiel. Eu estava prestes a questiona-lo sobre o serviço merda que ele vinha fazendo no resto do país... Mas agora eu sei que ele só comanda essa região. Isso é ruim... pois prova que esse lado está separado e fragmentado... será que tempos chances de derrubar o sistema desse jeito?
—“Venha, vamos conversar em particular em meus aposentos.” Kiel abriu uma porta e me convidou para entrar, seu companheiro passou pela porta junto com ele.
Entramos todos em uma sala com uma maquete improvisada da mansão de Uriel.
—“Uaauuu... ficou perfeito, mas tem mais quartos e salas secretas na ala sul... e também tem um laboratório subterrâneo.” Sophia apontou para uma parte da maquete e começou a estuda-la com mais atenção.
—“Laboratório? Você não disse que era um calabouço?” A olhei inquieto, quer dizer que ela estava mentindo pra mim?
—“...” Sophia baixou a cabeça com uma expressão culpada.
—“Espera... como ela sabe disso tudo? Qual a idade dela?” Kiel estava pasmo, ele parecia um idiota que viu algo novo e sem explicação pela primeira vez... bem, não posso culpa-lo, não é?
—“Ela tem... Alguns meses... eu acho...” Dei de ombros como se não me importasse com isso, mas na verdade eu estava chateado por não ter ideia da data de nascimento dela, afinal quando ela nasceu estamos fugindo há meses e sem nenhum tipo de noção do tempo.
Sophia se debateu no meu colo para se desenrolar da manta e pulou dos meus braços com graça e leveza, Kiel correu para pega-la quando ela pulou do meu colo, acho que ele pensou que ela ia se quebrar no chão.
—“Mas... hein?” Ele paralisou no lugar quando Sophia pousou no chão como um passarinho, leve e cheio de graça.
—“Essa é Sophia... minha filha. Isso é tudo o que vou te falar sobre ela no momento.” Cruzei meus braços ao dizer isso, eu não estava a fim de sair por aí revelando o quão foda eram meus filhos.
—“Ah... Entendo...” Kiel falou meio abobado, ele ainda estava tentando entender como um bebê do tamanho da Sophia podia estar de pé, diante de seus olhos o encarando como se fosse uma adulta.
—“Eu sou Leonard... sou seu fã!” Leonard praticamente pulou em cima de Kiel e estendeu a mão para cumprimenta-lo.
—“...” Kiel apertou a mão dele completamente perdido, acho que cérebro dele ainda estava tentando processar toda a informação. O companheiro dele estava mudo no canto da sala.
—“Então... vamos direto ao assunto. O que vocês estavam fazendo na frente da mansão do imperador?” Kiel se recuperou do espanto me encarrou sério.
—“...” Devolvi o olhar sério, eu ainda estava com medo de contar tudo pra ele.
—“Conta pra ele, Papai... tá tudo bem.” Sophia falou tranquila enquanto brincava com os bonequinhos da maquete, pela primeira vez em tempos, ela parecia uma criança de verdade. Ela estava fazendo dois soldados se beijarem... onde ela aprendeu isso?
—“Tá bem eu conto... Ian, meu mestiç...não! Quero dizer... Ian, meu parceiro, foi sequestrado pelo Imperador e acredito que ele esteja sendo mantido como prisioneiro nessas instalações.” Apontei na maquete para alguns dos quartos que eu acreditava ser onde ele estava sendo mantido, Sophia confirmou com a cabeça, como para dizer que eu estava certo.
—“Seu parceiro? Ele é o mestiço duas peles que você comprou aquela noite?” Kiel me olhou melhor ao perguntar isso.
—“Que memória hein...” O olhei de volta impressionado.
—“Jamais esquecerei aquela noite...” De repente Kiel ficou abatido e baixou a cabeça.
—“...” O olhei melhor, tentando entender o que estava acontecendo com ele.
—“Espera... porque o imperador iria querer o seu mestiço? Ele tem milhares em seus laboratórios.” Kiel saiu daquele estado abatido e me olhou perdido.
—“...” Será que eu podia contar esse tipo de coisa pra ele?
—“Tata é diferente... é por isso que eu sou diferente também.” Sophia respondeu no meu lugar.
—“Diferente?” Kiel questionou sem entender.
—“Sophia...” Lancei a ela um olhar de advertência, eu não queria contar nada ao Kiel.
—“Tá tudo bem papai... não tem problema mostra isso pra ele e além do mais... vai ser divertido.” Ela piscou pra mim antes de descer da cadeira onde estava e desapareceu.
—“Mas... O QUÊ?!” Kiel deu um pulo quando ela surgiu ao seu lado puxando a barra do seu manto.
—“Isso é tudo que vamos contar a você... não leve a mal, mas é a segurança da minha família que está em jogo aqui, não quero ninguém se enchendo de ambições com as habilidades dos meus filhos.” O encarrei firmemente.
—“...” Kiel estava de olhos arregalados para Sophia que resolveu bancar a capetinha e começou a andar no teto só para deixa-lo mais neurótico ainda.
Admito que eu queria rir alto com a expressão que Kiel e seu companheiro estavam fazendo ao ver a Sophia fazendo coisas que fariam qualquer um chamar o exorcista.
—“E você... o que faz na frente da mansão do Imperador?” Questionei tranquilo, como se o que a Sophia estava fazendo fosse algo comum e corriqueiro no meu dia a dia.
—“E-eu estava estudando o lugar... estou fazendo isso há meses... quero me vingar daquele monstro.” Kiel finalmente deixou de acompanhar com os olhos o show que a Sophia estava dando no teto e se recompôs para falar sério e firme.
—“Vingança? O que o imperador fez a você?” Fiquei intrigado com isso.
—“Sente-se... é uma longa história.” Kiel apontou para uma das cadeiras em volta da mesa da maquete.
—“Prefiro ficar em pé mesmo.” Rebati, mas na verdade eu só não queria sentar porque me sentia mais alerta de pé, eu sentia que teria de correr a qualquer momento, afinal... eu ainda não confio cem per cento nesse grupo.
—“Sabe... naquela noite que você comprou o seu mestiço, eu também comprei um para chamar atenção do Conde Leon... só que... eu acabei fazendo uma merda colossal naquela noite.” Kiel começou a falar e sua expressão foi morrendo com cada palavra.
—“...” Fiquei quieto para escutar a história dele, Sophia desceu do teto e sentou na cadeira que me foi oferecida, ela parecia super interessada na história dele.
—“Mandei arrancar as presas do meu mestiço...” Kiel suspirou triste.
—“Ah... entendi.” Um arrepio passou na minha espinha, eu quase fiz o mesmo com Ian na noite em que o comprei.
—“Então você sabe o que acontece quando se arrancam as presas, não é?” Kiel agora estava tão arrasado que se sentou em uma cadeira livre.
—“Sei... um cara estudioso me contou.” Puxei outra cadeira e me sentei também, agora meus instintos estavam mais calmos e eu estava começando a me identificar com Kiel.
—“Eu me apaixonei pelo meu mestiço e... quando descobrir o que acontecia com essa espécie ao se retirar as presas... já era tarde demais, ele já estava morrendo e para piorar carregava um filho meu.” Kiel escondeu as mãos no rosto, completamente abalado.
—“Sinto muito...” Baixei a cabeça e senti pena dele, afinal eu podia entendê-lo, Ian não estava morto, mas esse tempo longe dele está quase me destruindo.
—“Mas eu não queria deixa-lo morrer... eu não queria que ele se fosse, então eu pedi ajuda para um médico, ele sabia muita coisa sobre os mestiços e me ajudou...” Kiel suspirou ao falar desse médico, era como se ele tivesse algum tipo de sentimento por ele.
—“Por acaso o nome desse médico era John?” Questionei.
—“Conhecia o Dr. John?” Kiel me olhou impressionado.
—“Mas é claro... foi ele o estudioso que me falou das presas... E ele salvou a vida de Ian e da Sophia após a merda que eu fiz ao coloca-los na rinha.” Baixei a cabeça envergonhado e senti o olhar de Sophia e Leonard em mim, isso só piorou a minha vergonha.
—“Caraca... como esse mundo é pequeno...” Kiel passou as mãos pela cabeça.
—“Eu que o diga...” Dei um sorriso fraco.
—“Continuando minha história... o Dr. John me ajudou a prolongar a vida de Ren, meu mestiço. Juntos trabalhamos para encontrar uma forma de não só manter o Ren vivo, mas também salvar o bebê.” Kiel seguiu falando com um misto de tristeza e alegria em sua voz.
—“...” Fiquei calado ouvido tudo, Sophia seguia me olhando intensamente.
—“No fim meu filho nasceu saudável... ele tem quase a mesma idade de sua filha agora, talvez ela seja só dois ou três meses mais velha que ele, mas meu filho ainda não sabe andar ou falar como no caso ela... Isso é normal para um bebê filho de vampiro e mestiço?” De repente Kiel ficou preocupado.
—“Seu filho com certeza tá bem... é a Sophia que é estranha.” Leonard o tranquilizou.
—“Vai te catar!” Sophia mostrou a língua para Leonard.
—“Bem... o que importa é que no final meu mestiço, o Ren... ele não sobreviveu, mas... meu filho está bem... Entrei pra resistência com John e passei a lutar ao lado dele, mas infelizmente um mês depois John foi capturado e executado.” Kiel fez uma careta de raiva para o boneco fantasiado de Uriel na maquete.
—“Eu fiquei sabendo... foi uma perda lamentável.” Baixei a cabeça novamente.
—“Sim, foi... mas o que me deixou mais puto, foi saber que o imperador se apossou das pesquisas que o Dr. John fez para ajudar Ren. Nesse exato momento o imperador está usando a pesquisa que foi criada para salvar meu filho, para torturar mestiços em seus laboratórios.” Kiel em um ataque de raiva pegou o boneco de Uriel e o jogou na parede.
—“...” Eu não sabia o que dizer nesse momento, eu estava enojado com isso.
—“Fiquei sabendo que graças às pesquisas de John, o imperador está conseguindo fazer os mestiços engravidarem em seu laboratório... e isso eu não posso suportar. Não posso ficar parado enquanto o trabalho nobre do Dr. John é usado dessa forma nojenta... Por isso estou aqui, para me vingar... vou fazer isso pelo John.” Kiel me olhou decidido, seu olhar era até assustador... então acho que ele realmente gostava muito do Dr. John. E eu aposto que se eu tivesse tido mais tempo com John, eu também gostaria dele tanto assim, afinal ele parecia ser um ótimo vampiro.
—“Então estamos do mesmo lado?” Kiel me encarou firme ao perguntar isso.
Respirei fundo e finalmente retirei meu capuz, revelando meu rosto marcado, Kiel ficou surpreso com isso, mas não liguei, devolvi o olhar intenso pra ele e estendi a mão.
—“Parece que sim.” Falei firme e mantive minha mão estendida, Kiel a apertou logo em seguida.
—“Então... qual é o plano?” Leonard se meteu na conversa.
—“Eu estava dando uma volta agora mesmo para fazer os preparativos finais, quando senti seu cheiro no ar.” Kiel explicou ao soltar a minha mão.
—“Significa que você tem o plano de atar logo?” Me entusiasmei com isso, por mim eu já estaria pulando no pescoço de Uriel agora mesmo.
—“Talvez ainda essa semana.” Kiel falou coçando o queixo e olhando a maquete.
—“Droga... eu queria agir hoje.” Bufei irritado.
—“Eu pretendia esperar para atacar mais adiante, mas recentemente o número de guardas na mansão diminuiu massivamente... então acho melhor atacarmos logo antes que os reforços cheguem.” Kiel apontou para um montinho de bonecos vestidos de soldados que estavam em uma caixa no chão, provavelmente eles tinham sido retirados da maquete há pouco tempo.
—“Provavelmente isso foi obra do meu filho...” Me arrepiei ao olhar a grande quantidade de bonecos na caixa, mas não por medo de Sebastian e sim por medo dele ter se machucado muito, afinal ele não voltou... ele foi capturado.
—“Filho? Quantos você tem?” Kiel me olhou exasperado.
—“Esse é adotado...” Apontei para o Leonard.
—“Sebastian é gêmeo da Sophia, ele acabou bancando o corajoso e veio sozinho na frente, acho que a diminuição de soldados na guarda é graças a ele, mas agora acredito que ele esteja preso em algum lugar... lá nos laboratórios.” Suspirei preocupado ao falar isso.
—“Oh...” Kiel parecia não saber o que dizer.
—“E Ian está esperando trigêmeos agora...” Sorri ao contar pra ele sobre isso, não sei por que agora me sinto mais confiante ao lado de Kiel.
—“Espera... está me dizendo que seu mestiço está grávido e é refém daquele monstro agora mesmo?” Kiel se levantou da cadeira em um pulo, a cadeira chegou a tombar pra trás.
—“Sim” Confirmei sério.
—“Estão vamos agir hoje mesmo... Grifh, avise aos outros.” Kiel fez um sinal para o seu companheiro, esse saiu da sala imediatamente.
—“O quê? Sério?” Fiquei de pé também.
—“Não vou ficar aqui sentando quando sei que alguém como Ren pode acabar do mesmo jeito...” Kiel estava determinado.
—“Ótimo então... atacaremos juntos.” Estendi novamente a mão pra ele.
—“Sim! Mas antes você não prefere mandar suas crianças para a minha fazenda?” Kiel apertou minha mão novamente, mas lançou um olhar preocupado para Leonard e Sophia.
—“Que nada... minha filha aqui tem um plano pra acabar com Uriel de uma vez por todas.” Sorriu para Sophia, mas ela parecia distante e pensativa.
—“...Ela é uma bebê, quer dizer, mesmo ela sendo... diferente, ela ainda é apenas uma bebê... está louco?” Kiel estava exasperado agora.
—“Não meu caro amigo... é você quem não sabe onde está se metendo. O imperador não é um qualquer... vai por mim.” Senti um arrepio na espinha ao imaginar o que teria acontecido com o grupo de rebeldes dessa casa se eles tivesse atacado Uriel antes de chegarmos para ajudar... com certeza Uriel os faria em pedacinhos em segundos.
—“...” Kiel ainda não parecia seguro de minhas palavras.
—“Acredite no Papai, Sr. Cicatriz... se você tem medo de minhas habilidades, então nem queira ver do que o Uriel é capaz.” Parece que finalmente Sophia voltou a si, ela saiu de seu devaneio e se colou de pé sobre a cadeira para nos encarar.
—“...” Kiel a olhou sem saber o que dizer.
—“Escutem bem, eu tenho um plano... Vou lhes contar os detalhes, quero que se preparem para a batalha hoje à noite.” Sophia falou firme e todos nos entreolhamos antes de ouvir seu plano.
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Leonard...
Admito que estou muito nervoso, na verdade estou quase tremendo de medo, mas não posso me deixar levar pelo medo agora, pois eu tenho uma missão e preciso cumprir, Sophia está contando comigo, ela me encarregou de algo muito importante.
A noite estava caindo e o horário de agir estava se aproximando, olhei pela milionésima vez o mapa que Sophia desenhou pra mim... essa guria é boa no desenho também... francamente que irritante, ela sabe fazer de tudo.
—“Tudo bem garoto?” O Sr. Cicatriz me olhou com um sorriso torto por causa da cicatriz que deformava um pouco a boca dele.
—“S-sim senhor...” Respondi prontamente. Eu estava ao lado dele na sala, esperando o momento de agir. Sophia iria com Sephiron salvar Ian e eu iria com o grupo do Sr. Cicatriz salvar o Sebastian e destruir o laboratório.
—“Garoto por mais que eu não concorde com uma criança no meio do campo de batalha... não esquenta... eu prometo que vou te proteger e manter sua retaguarda segura.” Disse o Sr. Cicatriz ao engatilhar uma pistola.
—“Obrigado Senhor...” Arrumei minha postura para demonstrar mais confiança.
O Sr. Cicatriz e seu companheiro que agora sei que se chama Grifh estavam enchendo algumas mochilas com cartuchos de munição.
—“Muito bem... escutem bem.” De repente o Sr. Cicatriz ficou de pé e subiu em uma caixa de madeira para se pronunciar aos seus companheiros. Todos os duzentos membros da resistência que se encontravam ali pararam para ouvir.
—“Quando o relógio marcar meia noite... quero que todos estejam em seus postos. Quando o relógio der meia noite e cinco, comecem a invadir, deixo os guardas com vocês. Estaremos contando com a liberação da área para agir.... conto com todos vocês.” Sr. Cicatriz recapitulou a parte do plano de Sophia que envolvia os rebeldes.
—“...” Todos os duzentos vampiros estufaram o peito e seguraram as armas em pose de ataque, nenhum deles tinha a expressão de medo, todos pareciam firmes apesar de saberem que provavelmente não voltariam.
—“Foi uma honra servir com vocês... mas hoje à noite, nossa guerra acaba.” Sr. Cicatriz ergueu a arma em um grito de guerra mudo.
Todos erguerem as armas em uma comemoração silenciosa, não podíamos gritar como queríamos fazer, afinal éramos praticamente vizinhos de Uriel.
Sephiron e Sophia sumiram antes da meia noite, eles iam agir sozinhos.
Meu único trabalho era invadir a mansão, entrar no laboratório, pegar Sebastian e levá-lo para um lugar seguro, que era base da resistência. Aqui ele teria cuidados e uma alimentação adequada para se recuperar.
Respirei fundo para me acalmar, tudo ia dar certo... Tudo tinha que dar certo.
...
Sephiron...
Voltei para o carro com Sophia, ela estava tensa, assim como eu, afinal o horário de agir se aproximava. Já era meia noite, então os homens de Kiel estavam se preparando em seus postos combinados, logo eles invadiriam.
Chegamos ao carro e aguardamos o tempo passar.
—“Você está bem Sophia?” Questionei sério ao ver que ela estava apática e abatida.
—“Vou ficar quando isso acabar...” Ela respondeu seca.
—“Não se esforce... tá bem? Eu nunca vou me perdoar se você...” Comecei a falar, mas ela me interrompeu.
—“Não... Eu tenho que me esforçar Papai. Eu vou dar tudo de mim, afinal isso é necessário para que tenhamos um futuro como família.” Sophia parecia decidida, mas também distante.
—“Tem razão...” Falei isso, mas ainda sentia que havia algo de errado.
—“Sophia... sei que tem algo te incomodando... fale, por favor.” A fiz me encarar, ela parecia mesmo aborrecida.
—“...” Ela tentou desviar o olhar.
—“Sophia...” Pedi com calma.
—“Quando eu e o maninho estávamos dentro do Tata... foi você que fez tudo aquilo acontecer? Toda aquela dor que resultou na destruição do verdadeiro corpo de Sebastian... foi por sua culpa?” Ela me olhou triste.
—“...” Ah, merda... ela quer saber da rinha que resultou no aborto... O que eu posso dizer? Foi mesmo minha culpa.
—“Sim... foi minha culpa, mas eu juro que não sabia... eu... eu... eu fiz tanta merda na vida e eu era um medroso... eu sei que nada do que eu diga será o suficiente para me desculpar... E eu sei que não há desculpas pra isso... mas... por favor, me perdoe.” Se eu pudesse me ajoelhar agora, eu o faria para implorar por perdão.
—“...” Sophia me olhou abatida.
—“Sophia eu...” Eu tinha que pensar em forma de explicar aquilo, mesmo eu sabendo que não havia explicação.
—“Tudo bem... eu te perdoou... até porque se aquilo não tivesse acontecido, eu teria nascido como um monstro.” Sophia me interrompeu e falou isso com uma expressão mais triste ainda.
—“O quê?” A encarei sem entender do que ela estava falando.
—“Não sei por que Sebastian se esqueceu disso... mas não foi ele que foi feito sem amor... fui eu.” As lágrimas dela pingaram em seu colo.
—“...” Eu realmente não estava entendo do que ela estava falando.
—“Eu era um monstro terrível e Sebastian era... ele era tão puro... eu o odiava... Quando aquilo aconteceu, Sebastian tentou salvar o Tata e acabou enfraquecendo, então eu aproveitei isso pra mata-lo... entende? Fui eu que causei a morte dele.” Sophia me olhou nos olhos ao confessar isso, suas lágrimas transbordavam como nunca agora.
—“Mas...” Fiquei perdido, eu não sabia o que dizer.
—“Eu queria poder... e ele tinha muito disso... então eu tentei absorver os poderes dele, mas ele sabia que eu iria me tornar um monstro terrível, então ele... ele foi esperto. Quando eu roubei os poderes dele, eu acabei absorvendo a essência dele também, foi tudo um plano dele... Ele queria me tornar boa e por causa disso acabamos misturados e eu me tornei o que sou hoje... mas no processo ele se corrompeu.” Sophia seguia falando e eu ia tentando acompanhar essa loucura toda.
—“Por algum motivo Sebastian não lembra mais da verdade, ele pensa que ele era o ser de puro ódio que existia no início, mas esse monstro na verdade... era eu.” Sophia baixou a cabeça e tentou se esconder do meu olhar.
—“...” O que eu podia dizer para animá-la agora? Como eu deveria agir com essa confissão?
—“Quando ele voltou e tentou tomar o controle do meu corpo... eu permiti, pois eu queria dar a ele a chance de viver e de lembrar que na verdade... ele era o mocinho, ele era o amado... e não eu...” Sophia parecia arrasada agora, isso me encheu de raiva.
—“Parem com essa besteira de amor e ódio... eu e o Ian não sabíamos que estávamos fazendo vocês, nós não tínhamos como escolher já naquele momento quem íamos amar e odiar, isso é ridículo!” Isso me irrita tanto, como esses dois podem pensar que eu e o Ian odiamos um deles?
—“...” Sophia me olhou surpresa com as minhas palavras.
—“Eu e Ian amamos vocês dois igualmente, assim como vamos amar os três novatos, sejam eles monstros... ou uma criatura superpoderosa ou um bebê simples, nós não ligamos, eles vão seguir sendo nossos filhos, entendeu?” Quase a chacoalhei ao falar isso.
—“... sim” Um brilho novo surgiu no olhar da Sophia, ótimo! Já está na hora desses dois deixarem isso pra trás e seguir em frente.
—“Então chega dessa besteira, ok? Quando se reunir com seu irmão, quero que deixem isso pra trás e foquem no agora.” Falei firme.
—“Você tem razão, Papai... farei isso.” Sophia limpou as lágrimas e se encheu de convicção.
—“Agora se foque na missão, temos que vencer hoje para que essa reunião aconteça, não é? Então foco e deixe essas coisas de lado... Agora vou te perguntar mais uma vez... Você está bem?” A encarei sério.
—“Sim, eu estou bem! Não se preocupe comigo Papai... vou focar na luta e ficarei bem... lembre-se em manter meu corpo protegido e o resto eu farei.” Sophia estufou o peito, agora eu pude sentir confiança.
—“Sim...” Confirmei com a cabeça, eu tinha que focar agora na minha parte da missão.
Meia noite e cinco chegou, agora eu podia ver alguns homens de Kiel pulando o muro em alguns pontos e invadindo a mansão de forma sorrateira. Os primeiros guardas foram pegos por trás e apagados sem o uso de arma, os rebeldes só poderiam abrir fogo dentro da mansão, para evitar que as portas se fechassem antes do tempo.
Meia noite e dez e o tiroteio lá dentro rolava solto. Nesse meio tempo pude ver Kiel indo com seu parceiro e com Leonard para entrada principal... espero que eles fiquem bem e que consigam salvar o meu filho.
—“É agora Papai...” Sophia ficou tensa no meu colo.
—“...” Respirei fundo, desci do carro, me dirigi para a traseira dele e abrir o porta-malas. Um cheiro terrível e insuportável de carne podre exalou do porta-malas e se espalhou pelo ar.
Estremeci só de imaginar como a nossa arma secreta deveria estar, afinal já estava apodrecendo ali há duas semanas.
—“Lá vou eu Papai... lembre-se do plano, não deixe seu desespero por salvar o Tata te atrapalhar.” Sophia falou sério.
—“Eu sei... eu sei.” Resmunguei de volta.
De repente Sophia amoleceu nos meus braços e um som estranho saiu do porta-malas, dei um passo atrás e mantive meus olhos no compartimento escuro. Uma mão que mais parecia uma garra pútrida saiu da escuridão e se segurou na lataria do carro, logo uma figura assustara ganhou vida e saiu do porta-malas.
Um cadáver se arrastou pra fora do carro fazendo um som bizarro. Tremi ao encarrar a figura que outrora fora imponente e até belo.
Agora na minha frente se encontrava o zumbi de Shadowy.
—“Quero só ver a cara de Uriel quando descobrir que vai lutar com isso...” Sorri para o zumbi que estava totalmente sobre o controle de Sophia.
Ela gemeu incomodada nos meus braços, acho que controlar aquele corpo era difícil e cansativo, mas era a nossa melhor arma.
Uma luta entre dois monstros está prestes a se desenrolar agora. Meu único trabalho será assistir enquanto protejo o corpo desprotegido de Sophia.
Aguente firme Ian... estou chegando.
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