Sangue quente.
18 Lembranças ruins!
Notas iniciais
Ian estava preste a ser estuprado, ou melhor, estava prestes a ser desmascarado, pois quando eles levantassem a sai de seu vestido e lhe tirasse sua roupa íntima, eles perceberiam que ele é homem e isso imediatamente nos ferraria!
—“NÃO... NÃO, POR FAVOR, ME DEIXEM EM PAZ!” Ian tentava lutar com seus captures, mas era inútil, ele era mais fraco que um vampiro e ali eram dois lhe segurando!
Os gritos de Ian me trouxeram memórias terríveis! As lembranças daquela maldita festa voltaram com tudo em minha mente, eu podia ver os rostos dos Condes em cima de mim, eu podia ouvir os risos maldosos e os gemidos nojentos, eu podia ouvir a minha própria voz gritando por socorro, exatamente como Ian estava fazendo agora, eu podia me lembrar da dor!
Meu corpo queria colapsar nesse momento, eu podia sentir cada musculo tremer, parecia que meu coração queria abrir um buraco em meu peito e fugir, eu estava com medo, muito medo, eu não queria passar por isso de novo, mas pelo Ian...
Pelo Ian eu faria qualquer coisa!... Eu sei que jamais irei me perdoar pro não tê-lo salvo daquela maldita rinha do Conde Leon!... Por isso eu não posso mais ficar parado e deixar que as coisas ruins aconteçam com ele! Eu não posso mais fugir e me esconder com medo... eu preciso proteger o Ian que é fraco, eu preciso ser forte por ele, eu preciso agir... pelo Ian!
—“Deixem ela em paz e façam o que quiser comigo!” Falei em alto e bom tom baixando a cabeça e desejando a morte!
Houve um minuto de silêncio onde todos me encaram, até Ian parou de gritar para me olhar com uma expressão de choque.
—“Que fofo da sua parte se oferece, mas a gente curte mulher! Quem sabe se sua esposa não der conta, a gente termina com você!” O primeiro soldado riu malignamente e se ajoelhou entre as pernas de Ian que voltou a lutar e a gritar.
Ele separou as pernas de Ian, nesse momento eu estava preste a reagir, mesmo tendo uma arma perigosamente apontada para minha cabeça que era um lugar onde se eu fosse ferido com tais metais seria fatal, quando de repente uma voz forte e grossa falou!
—“O que está havendo aqui?” Um outro Jeep parou ao nosso lado e um vampiro alto, forte e musculoso saiu de dentro do Jeep com graça olhando para todos com fúria!
—“Capitão Ethan!” Um dos soldados exclamou e rapidamente todos os soldados estavam em formação de sentido diante dele, largando Ian!
Levantei-me e corri para acudir Ian! Eu o peguei em meus braços, ele tremia e chorava violentamente, o ajudei a se levantar e me afastei um pouco dos soldados.
—“Eu fiz uma pergunta soldado!” O Capitão falou com tom de voz duro de comando.
—“Senhor! Nós recebemos autorização do governo para estuprar todas as mulheres da resistência ou que estejam de algum modo envolvidas com os terroristas, Senhor!” Um dos soldados respondeu muito nervoso.
—“Eu sei muito bem dessa autorização soldado, mas me diga... essa mulher que vejo aqui, não parece estar envolvida em nenhum ato terrorista ou anarquista! O que ela estava fazendo para vocês agirem assim?” O Capitão lançou um olhar duro para seus homens.
Os homens ficaram em silêncio.
—“Eu fiz uma pergunta!” O Capitão bateu na cara de um dos soldados com as costas da mão.
—“Aparentemente ela não estava fazendo nada de errado, Senhor!” Um dos soldados respondeu.
—“Vocês iram engraxar as botas do batalhão inteiro e se eu os vir causando problemas de novo... serão vocês que iram ser estuprados pelo resto do batalhão inteiro! Estão entendendo?” O Capitão perguntou com uma voz dura.
—“SIM, SENHOR!” Os quatro soldados responderam em posição de sentido.
—“Ótimo! Agora deem o fora da minha frente!” O Capitão ordenou e os quatro soldados embarcaram no Jeep e voltaram para a grande fila de carros do exercito que não parava mais de passar.
O Capitão se virou para nós e veio em nossa direção, abracei forte Ian que chorava em desespero, o corpo dele tremia todo.
—“Algum problema no carro? Porque pararam?” O Capitão nos encarou.
—“Minha esposa precisava esticar as pernas, ela sente muita dor nas costas!” Respondi o encarando de volta.
—“Entendo...” O Capitão examinou Ian.
—“Um passo à frente minha senhora!” Ele ordenou ao Ian e fiquei relutante em solta-lo pra permitir que ele o obedecesse!
—“Querem ser presos pro desacato à autoridade?” O Capitão lançou um olhar duro a nós e Ian me largou ainda tremulo e chorando, ele deu um passo à frente como o ordenado e ficou parado na frente do Capitão com a cabeça abaixada.
O Capitão se aproximou dele e o pegou pelo braço o fazendo virar de costas para si, ele levou uma das mãos à barriga de Ian e o puxou contra si, quando as costas de Ian presaram em seu peito ele pressionou forte a barriga de Ian.
Ian gritou de dor e contorceu o rosto de agonia, uma raiva tomou conta de mim, antes que eu pudesse me conter, peguei a mão do Capitão com força e a puxei para longe da barriga de Ian, então com a outra mão peguei Ian e o trouxe para os meus braços.
Afastei-me um passo do Capitão e lhe lancei um olhar assassino, antes que me desse conta eu já estava rosnando pra ele.
—“Eu poderia prendê-lo por rosnar pra mim assim!” O Capitão sorriu cruelmente pra mim.
—“Você estava machucando minha esposa e filho, queria que eu ficasse parado?” Respondi fervendo de raiva, sentia algo novo crescer em mim, um desejo de estraçalhar esse exercito inteiro me dominava.
—“Eu precisava ter certeza que essa barriga não era falsa, muitas mulheres se disfarçam de grávidas para esconder contrabando na barriga e em tempos como esse eu deveria averiguar, afinal vocês poderia estar escondendo munição para os terroristas!” O Capitão respondeu com calma.
—“Poderia ter averiguado de outra forma... não precisava machucá-la dessa forma!” Rosnei novamente para o Capitão quando Ian fraquejou e quase caiu no chão, por sorte eu estava com os braços em volta dele e o apoiei com cuidado.
—“Eu realmente poderia te prender por esse comportamento, você está respondendo a um oficial! Mas... você só está protegendo sua cria e esposa... então vou deixar essa passar!” Ele me olhou com intensidade.
—“Tome! Um pedido de desculpas formal pelo comportamento de meus homens e pelo exame abusivo em sua esposa!” Ele retirou de dentro de uma pasta que carregava consigo, uma bolsa de sangue humano e me entregou.
—“Dê para a sua esposa... ela me parece muito pálida, acho que não vai sobreviver ao prato!” O Capitão virou as costas pra mim e marchou de volta para o seu Jeep, assim que ele entrou no carro, o mesmo deu a partida e se uniu ao fim do comboio.
Suspirei, finalmente aquilo acabou, escapamos dessa por pouco!
Ian gemeu e seu corpo amoleceu em meus braços, rapidamente o peguei no colo e o levei para o carro, deitei o banco do carona e o coloquei com cuidado ali, ele estava mesmo muito pálido.
—“Dói Seph!” Ele reclamou passando as mãos pela barriga e se contorcendo.
—“Calma, respira e ponha as pernas pra cima!” Peguei os pés dele e coloquei-os em cima do painel do carro.
Abri a bolsa de sangue e tomei um gole, eu tinha que ter certeza de que aquilo não estava envenenado ou coisa do tipo! Mas na verdade estava bom, muito bom realmente! Parece que o governo ainda tem humanos de qualidade, posso sentir que esse sangue veio de um humano saudável! Com apenas um gole eu me senti revigorado, passei o resto da bolsa a Ian, ele bebeu quase tudo e parou de gemer!
—“Melhor?” Perguntei tocando em sua testa, ele estava suado, mas parecia estar se recuperando agora.
—“Acho que sim!” Ian suspirou ainda deitado no banco, ele fechou os olhos e se deixou relaxar e melhorar.
Sentei na beirada do banco com ele e o observei melhorar lentamente, ao poucos uma cor rosada tomou conta de seus lábios e bochechas, ele até esquentou um pouquinho!
De repente ele abriu os olhos e me encarou com um brilho estranho.
—“Você ia... se colocar no meu lugar... você ia se deixar ser ferido por eles no meu lugar?” Ian soluçou.
—“Ninguém toca nas minhas coisas! Só eu posso te machucar!” Falei tentado recuperar um pouco de minha imagem de filho da puta, não queria ninguém achando que sou fraco e sentimental ou coisa do tipo!
—“Eu te amo!” Ian falou e eu senti meu corpo congelar e meu coração apertar de uma forma um tanto dolorosa.
Olhei para Ian, ele estava corado, mas me olhava com... com o que? Será devoção? Não pode ser amor, essas besteiras não existem!
Eu me senti envergonhando pelo olhar que ele estava me dando, eu não sei mesmo reagir a algo assim, nunca me disseram algo tão gay e brega quanto isso!
—“Cala a boca Ian, deixa de ser tão gay!” Desviei o olhar e fingi interesse em umas pedrinhas da beirada do asfalto.
Ian se sentou e me abraçou, havia calor nesse abraço, era meloso e irritante, dava vontade de atirar Ian longe, mas estranhamente eu não conseguia afasta-lo de mim.
—“Vejo que você não consegue lidar com essa palavra, então eu vou adaptar pra você!... Você pode me comer à vontade a hora e na posição que quiser!” Ian falou me dando um beijo no ombro.
—“Ah... melhorou! Porque não disse isso antes?” Me virei e abracei Ian o fazendo deitar de novo no banco.
—“Menos agora!” Disse Ian tentando me afastar de cima dele.
—“Pensei que você tinha dito que eu podia te comer a qualquer hora!” Falei já beijando seu pescoço.
—“É, mas não logo depois que quase fui estuprado, não ferre com a minha cabeça, por favor!” Ian pediu e eu suspirei irritado, caramba eu estou em chamas, quando Ian finalmente me deixar comê-lo, ele vai pagar caro por toda essa abstinência que eu estou passando agora!
—“Seph, eu e Pedro achamos um lugar interessante!” James retornou com Pedro nos braços, pelo visto eles foram longe e nem perceberam o perigo que nós dois passamos... menos mal, conhecendo o meu pai, ele não ficaria parado e quieto vendo um batalhão nos estuprar!
James acabou me contando que ao passear com Pedro ele encontrou uma cabana abandonada, ela estava em péssimas condições, mas pelo menos era segura e escondida no meio da floresta.
Eu por minha vez contei que eu e Ian vimos um comboio do exercito passando em direção à próxima cidade, não contei pra ele sobre o que passamos, isso já é passado e ficar revivendo não é bom, sem falar que não serviria de nada deixar James enfurecido com aqueles homens.
Depois de concordamos que não deveríamos ir pra cidade e que precisávamos descasar, decidimos fazer o seguinte, íamos esconde o carro em um lugar onde quem passassem na estrada não visse e não achasse estranho um carro abandonado por ali assim! Então eu iria para a cabana com Ian e Pedro, enquanto James seguiria a pé para a cidade e entraria sem ser visto pra então comprar suprimentos como comida, água e outros materiais de necessidade básica humana.
Antes de James partir, Ian deu a ele o restante da bolsa de sangue, havia lhe sobrado só um gole de sangue, mas isso era o suficiente para recuperar as forças de James por hora!
Segui Pedro até a tal cabana, ela realmente estava bem escondida e era toda feita de madeira, ela tinha um aspecto de estar se degradando com o longo tempo abandonada, a madeira parecia podre em alguns lugares, os pregos aparentes eram laranja de tanta ferrugem! Me perguntei se ela aguentaria essa noite ou se desabaria em nossa cabeça.
A porta estava trancada, mas eu a forcei e o trinque quebrou com facilidade! Entramos e nos deparamos com o local mais empoeirado do mundo, havia teias de aranha em todo teto e isso dava a impressão de haver uma nuvem branca sobre as nossas cabeças, o chão rangia assustadoramente e as paredes de madeira tinham alguns buracos onde animais selvagens estravam para fazer ninho!
A casa era bem pequena e possuía só uma sala com um sofá quase sem espuma e completamente rasgado, um quarto com uma cama cujo colchão mais parecia um cobertor de tão fino que estava e uma cozinha com um fogão a lenha, o que me levava a crer que esse lugar era uma casa de caça de um humano há muitos anos atrás, não havia banheiro, talvez tivesse uma casinha lá fora com uma fossa, sei lá!
Pedro foi se senta no sofá e largou no chão as poucas sacolas que havia conseguido carregar, larguei no chão também as bolsas que eu havia trazido e Ian as sacolas que ele trouxe, Ian por sinal havia recuperado a sua força graças ao sangue que bebeu, ele parecia um pouco mais revigorado agora!
Sentamos e esperamos James voltar, cada minuto que passava era mais um minuto em que nos olhávamos pensando o pior!
Por fim, James voltou trazendo mais um monte de sacolas, ele as largou no chão e suspirou cansado.
—“Aquela cidade está um caos! O exercito está tomando conta de tudo!” James fez uma careta e achei melhor não perguntar o que estava acontecendo.
—“Acho que trouxe tudo que precisávamos no momento! E... ah, Ian... comprei uma coisinha para o bebê, tome!” James passou a ele uma sacola onde tinha um embrulho de presente.
—“Posso abrir ou você quer que o bebê abra quando tiver tal capacidade?” Ian perguntou sorrindo.
—“Abra! Quero saber se gostou, comprei com o meu dinheiro, não usei o dinheiro que o Seph me deu pra fazer compras, então é meu presente!” James sorriu e eu lhe lancei um olhar que dizia ainda bem que você não gastou o MEU dinheiro com um presente pra essa criaturinha!
—“Oh! Não sei se posso aceitar!” Ian ficou tímido.
—“Por favor, aceite! Eu vou ficar muito feliz!” James lhe lançou um sorriso fraco e Ian me lançou um olhar que implorava pra eu deixa-lo aceitar o presente e não criar casos com ciúmes, eu suspirei e dei de ombros, como se dissesse abra logo essa merda!
—“Então obrigado!” Ian sorriu para James e abriu a embalagem sem se preocupar de rasgar o papel de presente!
Assim que ele se livrou do papel colorido, ele se deparou com uma caixa de tamanho médio, ele abriu e seus olhos brilharam.
—“Ooooh, que amor!” A caixa tinha muita coisa, mas Ian primeiro tirou de lá algo minúsculo e examinou com carinho!
—“Seph toma um! Vamos ficar cada um com um pé pra dar sorte!” Ian me passou algo tão pequeno que bufei.
—“James, tá querendo matar a criaturinha engasgado antes mesmo da coisinha fazer um ano de vida é? Porque comprou um chaveiro pra ele?” Perguntei segurando o objeto pela fitinha amarela que possuía.
—“Não Seph, isso não é um chaveiro! É um sapatinho de bebê!” James riu.
—“Você está de brincadeira comigo! Só cabe um dedo meu dentro desse negócio!” Reclamei enfiando o meu dedo indicado dentro do tal sapatinho que era feito de lá branca com uma fitinha amarela, ficava folgado no meu dedo, mas com certeza não caberia no pé de um bebê!
—“Esse sapatinho vai servir perfeitamente, Seph!” James riu indo mexer nas sacolas que trouxera!
Olhei pasmo para aquele negócio, não podia ser verdade... a criaturinha não podia vir ao mundo tão pequeno assim, isso era cruel! Como ele iria se proteger de.... de tudo! ORA tudo parece perigoso para algo tão pequeno assim!... Não, não pode mesmo ser verdade, eu me lembro de já ter vistos bebês... mas... Ah MERDA, acho que nunca vi um recém-nascido, todos os bebês que eu vi já sabiam andar, então eram grandes!
—“Olha Seph... que fofo!” Ian me passou uma camiseta, ela era branca com detalhes em verde, mas o chocante era o tamanho de novo, se eu colocasse sobre a palma de minha mão aberta, as pontas dos meus dedos apareciam, era muito pequeno... DROGA, como é que eu vou cuidar de algo tão pequeno? Como vou conseguir pegar essa coisinha?
Sentei-me no sofá sentindo minhas pernas tremerem, acho que só agora a realidade batia em minha porta, eu ia ser responsável por uma outra vida... a vida de um alguém extremamente dependente de mim e que sem meus cuidados morreria fácil!
James dizia algo sobre ter comprado tudo em cores unissex por não saber o sexo do bebê, mas eu parei de escutar quando todos começaram a babar em cima das várias roupas minúsculas que haviam dentro da caixa, larguei a camiseta dentro da caixa e fui me deitar na cama do quarto em frente, em minhas mãos ainda estava o pequeno sapatinho!
...
Ian...
Seph foi se deitar com uma expressão estranha, ele parecia preocupado, será que estava pensando em alguma coisa ruim? Será que ele acha que a gente não vai conseguir chegar na casa de campo dele?
Fiquei nervoso, mas tentei me acalmar, já passei por estresses o suficiente nesses últimos dias, eu deveria relaxar e deixar Seph tomar conta das coisas e também deixar o Seph cuidar de mim, afinal, ele acaba de demonstrar o quanto me ama!
Ele se ofereceu para ser estuprado no meu lugar... e isso foi a maior prova de amor que ele poderia ter me dado! Eu sei que Seph jamais vai ser capaz de dizer palavras como eu te amo pra mim, mas eu não ligo, porque ações valem mais do que palavras!
E graças a isso agora eu não tenho mais medo de deixar bem claro que eu o amo! Eu quero cuidar dele e ficar com ele pra sempre! Ou pelo menos, pelo tempo que um mestiço pode viver! O que é bastante comparado com um humano, então não me preocupo com isso agora!
James e Pedro olhavam as roupinhas uma a uma, eles estavam se derretendo pela fofura das peças!
Deixei os dois ali babando e namorando as roupinhas e fui até o quarto ver o que Seph tinha, ele estava quieto demais e olhava pro teto distraído, isso não era o normal dele.
Subi na cama e me ajoelhei ao lado dele, a cama era muito dura e desconfortável, fora que fedia a coisa velha e mofada, mas não me importei, era melhor estar ali no meio de coisas velhas e fedidas do que cercado por soldados de novo!
—“Seph!” Chamei fazendo um carinho no cabelo dele, ele pareceu sair um pouco de seus pensamentos e me olhou cansado.
Sua mão foi direto pra minha barriga, ele alisou o local com cuidado e eu tranquei a respiração, era raro ver Seph interagir de modo positivo com a criaturinha.
A expressão dele era séria e pensativa, eu queria poder ler a mente dele, o que será que estava passando por essa cabeça dura dele?
—“O que foi Seph?” Perguntei começando a ficar preocupado, Seph parecia perdido e até um pouco preocupado e assustado.
—“Nada!” Disse ele se movendo na cama e indo apoiar a cabeça em meus joelhos, sua orelha ficou encostado na minha barriga.
Acariciei os cabelos dele com carinho e ele fechou os olhos, acho que algo afligia a sua mente e ele não queria me falar.
—“Seph, o que há de errado? Você sabe que pode dividir tudo comigo, não sabe?” Perguntei ainda fazendo uma caricia em seus cabelos sedosos.
—“Eu estou bem Ian, já falei!” Seph se sentou na cama e revirou os olhos pra mim.
Ele não me convenceu, mas não iria perturbá-lo, se ele não queria se abrir comigo agora, então talvez ele se abrisse no futuro!
—“Porque você e o humano não dividem essa cama? Eu vou dividir o sofá com James!” Disse Seph me largando sozinho na cama, ele parecia distante!
...
Seph...
James preparou macarrão instantâneo para Ian e Pedro, os dois pareciam não gostar muito daquilo, mas era a única coisa que tínhamos no momento, principalmente pelo fato de não estragar e por ser fácil de fazer!
Ian e Pedro comeram e foram dormir juntos na cama, eu e James nos sentamos no sofá e suspiramos ao mesmo tempo, isso acabou arrancando um sorriso fraco de ambos.
—“Faz tempo né meu filho?” James se recostou no sofá e olhou para o teto com uma expressão saudosistas!
—“Faz tempo que o que? Que não paramos pra conversar assim? Ou que não ficamos num lixo como esse?” Perguntei sério.
—“As duas coisas... tenho saudade da época em que vivíamos em baixo da ponte!” James riu.
—“Você tem saudade daquilo? Você gostava de passar fome e frio é isso?” Lancei um olhar incrédulo pra ele.
—“Não, disso eu não tenho saudades! Mas... pelo menos naquela época você me chamava de pai e conversava comigo como se fossemos amigos... nunca entendi porque do dia pra noite você passou a me odiar!” James suspirou tristemente.
—“Eu não passei a te odiar... eu... eu só precisava de alguém pra culpar pelo o que me aconteceu, pois é mais fácil culpar os outros do que a si mesmo!” Respondi olhando para o chão.
—“O que te aconteceu meu filho? Porque você não me conta como sempre me contou quando erámos parceiros em um mundo frio e cruel!” James se virou pra mim e me olhou com esperança.
—“O mundo não deixou de ser frio e cruel... e nunca vai deixar de ser! Mesmo que eu tenha todo o dinheiro, poder e conforto do mundo... ainda vai existir gente cruel no mundo querendo me destruir!” Esse pensamento me fazia pensar na criaturinha, que tipo de crueldades ele vai ter enfrentar pela frente?
—“Mas também sempre vai ter gente querendo te amar e proteger!” James segurou minha mão e me olhou com carinho! E eu realmente senti saudade do que tínhamos antes, quando erámos amigos e lutávamos juntos pra sobreviver.
Fiz algo que não fazia há décadas com ele, o abracei forte! Senti que ele ficou surpreso, mas logo suas mãos me rodearam também... ah, como eu senti falta disso!
—“Eles me machucaram tanto...” Comecei a falar ainda abraçado nele, não queria olhar em seu rosto, eu estava muito envergonhando pelo o que me aconteceu.
—“Quem? Onde? Como?” Ele me perguntou assustado me apertando mais forte.
—“Aquela noite na minha primeira festa de gala... você lembra que eu estava entusiasmado, pois essa era a primeira vez que eu recebia um convite dos Condes ao qual queria me enturmar? Eu acreditei que finalmente eles estavam me aceitado como um igual a eles... mas era tudo uma farsa!” Eu até hoje quero me bater por ter sido tão estupido e inocente!
—“Eu lembro filho... você estava feliz, mas depois daquela noite você mudou tanto!” A voz de James estava angustiada.
Eu não queria continuar contando, eu tinha tanta vergonha e nojo de mim mesmo, demorei séculos pra me recuperar de tudo aquilo e ainda hoje eu me odeio pelo o que me aconteceu, sempre vem em minha mente que a culpa foi minha, se eu fosse mais esperto e forte, aquilo não teria acontecido comigo! Eu passei anos torturando meus escravos pra extravasar um pouco desse ódio de mim mesmo, achei que se outros sofressem como eu sofri, eu me sentiria melhor, mas não adiantou!
—“Continua filho, eu estou aqui com você!” James passou as mãos em minhas costas, tentando me dar apoio pra continuar, mas isso só me fazia me sentir mais miserável e eu odiava isso, eu gosto de ser um filho da puta! Desse jeito eu não preciso ficar com vergonha ou com dó dos outros!
Não sei o que me deu, mas eu tomei coragem e continuei mesmo sentido um fraco.
—“Não era uma festa! Era uma reunião de Condes, feita pra humilhar, espancar, estuprar e matar um idiota pobretão que achava que podia entrar pra alta sociedade!” Respondi escondendo o meu rosto no ombro dele.
Senti James ficar tenso com o que eu disse, seu corpo inteiro começou a tremer e eu ouvi um rosnado furioso vibra de seu peito.
—“Desgraçados filhos da puta!” James se levantou e correu pra fora de casa, por um minuto pensei que ele ia de atrás desses Condes que fizeram isso comigo, mas ele só queria ir extravasar a fúria em uma pobre árvore e gritar xingamentos sem acordar Ian e Pedro!
Fui até ele e me encostei-me a uma árvore para assisti-lo destruir a vegetação local, estranhamente a fúria dele me acalmava.
—“Quantos?” James me perguntou furioso enquanto socava uma árvore.
—“E isso importa?” Perguntei dando de ombros, eu estava me sentido calmo e entorpecido, que estranho! Sempre achei que me sentiria humilhando e derrotado ao contar isso ao meu próprio pai!
—“Importa pra mim!” James estava preste a derrubar a árvore.
—“Eram vinte e cinco!” Respondi sem me abalar.
—“Porque nunca me contou?” James agora estava de joelhos no chão com a cabeça e os punhos apoiados na árvore que antes estava espancado.
—“Primeiro... porque eu sabia que você ia pirar e ia querer ir atrás de todos eles pra matá-los ou coisa do tipo!” Falei sem emoção alguma.
—“É... eu ia mesmo matar esse merdas!” James resmungou.
—“Eu sei! E isso ia ser pior, porque você ia acabar sendo mandando pra cadeia e eu ia me culpar ainda mais!” Rebati pra ele e ele ficou calado.
—“E segundo... eu não te contei, porque passei a te culpar por tudo aquilo!” Baixei a cabeça ao falar isso.
—“Mas por quê?” James se virou pra mim, seus olhos estavam cheios de lágrimas, virei o rosto, eu não queria encara-lo agora.
—“Por que... eu nasci na merda! Porque eu era seu filho e não filho de um Conde! Se eu fosse filho de alguém já rico, eles iam me aceitar!” Me virei de costas para James.
—“Me desculpa filho!... Você acha que eu nunca me odiei por não ter conseguido te dar uma vida digna? Você acha que eu nunca me senti mal por ver você passar fome na rua comigo? Como você acha que eu me sentia quando você tremia de frio em meus braços quando era apenas uma criança? Eu me sentia um merda, um lixo... por isso nunca reclamei do modo que você passou a me tratar, porque eu achei que merecia... eu merecia ser odiado por você!” James agora chorava e soluçava alto.
—“Não... você não merecia... pelo menos você não me abandonou! Pelo menos você ficou ao meu lado e cuidou de mim, mesmo não tendo condições nem de cuidar de si mesmo!” Falei isso ainda de costas pra ele, eu ODEIO falar essas merdas sentimentais!
—“Você ainda odeia a sua mãe, não é?” James suspirou.
—“Não quero falar disso!” Dei de ombros novamente, eu odiava a minha mãe, afinal ela nos deixou na rua da amargura, levou tudo que meu pai tinha e casou-se de novo com um cara rico! Qual foi a minha alegria ao descobrir que o cara rico faliu e eu enriqueci? Qual foi o gosto da doce vingança que eu senti ao ignora-la e deixa-la na rua quando ela me procurou pedindo ajuda? Foi a melhor de todas! É claro que James não sabia que ela havia voltado pedindo ajuda, se não o coração de manteiga dele ia derreter e ele ia aceitar aquela mulher nojenta de volta!
—“Eles iam te matar mesmo?” James me perguntou olhando assustado as próprias mãos!
—“Sim! Mas por sorte os idiotas convidaram o Sr. Shadowy, quando ele chegou na tal festa e viu tudo aquilo... ele botou os Condes pra correr com o rabinho entre as pernas e me salvou!” Dei de ombros como se isso não tivesse sido grande coisa.
—“Agora entendo porque você vive falando de dívida com ele! E sinceramente, agora eu tenho uma com ele!” James se levantou decidido.
—“Vou cuidar de Ian como se ele fosse meu filho também!” James estufou o peito pra dizer isso e eu quase cai na gargalhada.
—“Ah, por favor, não adote o Ian, não quero trepar e procriar com o meu irmão!” Ri dessa piada, nem posso acreditar que finalmente contei tudo para meu pai e ainda estou rindo ao em vez de morrer de vergonha!
James sorriu pra mim, mas então voltou a ficar sério.
—“Você está com Ian só porque ele é filho do Sr. Shadowy?” James me perguntou pensativo.
—“Não!... Quando eu descobrir que ele era filho do Sr. Shadowy, eu fiquei meio mexido sim e passei a trata-lo... diferente! Mas... o que sinto pelo Ian, foi ele que conquistou com aquele jeito teimoso, corajoso e idiota de ser!” Respondi com um sorriso bobo nos lábios.
James sorriu pra mim e fez uma cara de aaah... eu sabia que você estava apaixonadinho!
Eu já ia mandar ele catar coquinho quando Ian e Pedro gritaram, eu e James corremos juntos de volta pra cabana a toda a velocidade e acabamos entalados na porta!
Quando finalmente conseguimos passar e entramos na cabana, Ian correu para os meus braços e Pedro para os braços de James.
—“O que foi?” Perguntei assustado.
—“Um bicho! Tinha um bicho no nosso quarto!” Ian choramingou nos meus braços e apontou para o quarto.
James entrou no quarto bancando o corajoso e voltou minutos depois rindo.
—“Era só um guaxinim acho que ele veio roubar a comida de vocês!” James gargalhou.
—“Ele foi embora?” Ian perguntou assustado.
—“Sim, foi!” James limpava as lágrimas de riso.
Ian e Pedro suspiraram aliviados e eu pude sentir a criaturinha espernear, acho que ele estava querendo dar um sermão em Ian por ter lhe assustado e francamente, eu também queria dar um sermão em Ian! Mas suspirei aliviado! Afinal, estava tudo bem e isso era raro nessa nossa vida de fugitivos! Eu ia aproveitar isso por enquanto, pois eu sei que logo, passaremos por muitas provações!
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