Sangue quente.

34 Casa de campo.


Notas iniciais
Era para esse capítulo ter saído no sábado passado, mas fiquei com uma dor de cabeça terrível e não consegui escrever e nem revisar, sendo assim meu cronograma de postagem atrasou completamente... Me desculpem! T-T Boa leitura.

Sephiron...

O meu sono estava tão agradável, eu me sentia quente, envolvido e acolhido. Meu sonho tinha sido bom e relaxante, mas agora eu estava acordando lentamente... e eu não queria acordar, eu estava com medo de abrir meus olhos e enfrentar a cruel possibilidade do Ian não fazer mais parte da minha vida.

Eu estava fingindo que tudo ia ficar bem. Eu estava mentindo para a criaturinha, porque não queria culpá-la, eu não queria magoá-la, mas a verdade era que Ian estava mal. Aqueles arranhões no peito dele estavam necrosando e a respiração dele não estava normal.

Agora eu estava com medo de abrir meus olhos e me deparar com o corpo dele frio e duro ao meu lado.

Eu não sei o que eu faria se ele se fosse para sempre. Eu não sei se eu passaria a odiar a criaturinha depois disso... Eu não sei como eu iria continuar sem o Ian.

Minha antiga vida... a vida que eu tinha antes do Ian se foi... E eu acho que nunca mais serei aquele cara de novo. Nunca mais terei um escravo, nunca mais serei um rico metido que se acha o dono do mundo... Nunca mais usarei os outros para me distrair da raiva que sinto do meu passado.

Tudo que eu sou agora... é por causa do Ian. Eu joguei tudo fora por ele... meu status, meu poder, minha casa, meu dinheiro... minha segurança... minha beleza, eu me despojei de tudo e fiquei completamente nu diante do desconhecido... E isso era tão assustador, mas valia a pena... Tudo porque ele estava ao meu lado. Mas se ele se for, o quê restará? O quê eu farei? Que sentido terá a vida?

Será que serei forte o suficiente para continuar vivo pela Criaturinha? Mesmo depois de saber que perdi minha razão de viver por culpa dela?

Razão de viver... quando foi que o Ian deixou de ser meu bichinho de estimação e se tornou algo tão importante assim na minha vida? Quando foi que ele se tornou o centro de tudo? Porque todo o resto parece vazio e sem graça sem ele?

Eu nem percebi, mas aos poucos eu caí na armadilha dele. Aos poucos ele foi ocupando um espaço vazio dentro de mim.

Imagino-me chegando à minha casa de campo sem o Ian. Aquele lugar seria tão... frio, gigante e sem graça. O quê eu faria lá sem ele? Passaria o dia inteiro sentando diante da TV vendo o mundo acabar? Eu teria ânimo de cuidar das crianças?

Crianças... é verdade! Agora temos o moleque também, Ian o trouxe para nossas vidas. De novo Ian está mudando a minha vida e como sempre isso era algo assustador para mim... Assim como foi assustador imaginar ter um bebê com ele. E como todo o resto em que me meti por ele também, mas... agora eu já aprendi que todas as mudanças que ele trás pra mim, são coisas boas, eu só tenho que me acostumar.

Essa seria a última mudança de Ian na minha vida? Recuso-me a pensar nisso.

Agora estou imaginando ao contrário... Imagino-me chegando em casa com Ian vivo. De repete aquela casa que antes me parecia fria, grande e sem graça se torna o meu playground.

Consigo me imaginar estreando cada cômodos da casa com um sexo selvagem e quente. Consigo imaginar a alegria de Ian ao entrar pela primeira vez na minha biblioteca. O ânimo que ele teria em escolher o quarto das crianças e decora-lo.

Consigo imaginar uma nova caçada sobre a luz do luar no meu enorme jardim. Jardim esse que deve estar muito selvagem sem um jardineiro cuidando dele há... quando tempo mesmo eu não visito essa casa? Uns trinta ou cinquentas anos? Nossa esse jardim deve ter invadido a casa.

Com um suspiro consternado eu abri meus olhos para encarar a realidade.

Ian estava ao meu lado, mas seu rosto não estava pálido, na verdade estava bem rosado. Sua respiração não estava mais fraca e descompassada, ela parecia relaxada e normal. Toquei sua bochecha, ela estava morna e não fria como era o meu medo.

Será que eu estou sonhando?

Passei a mão pelo peito de Ian, não havia mais ferimentos, nem mesmo uma única cicatriz para provar que havia machucados ali outrora. O cheiro de carne podre continuava, mas não era de Ian que esse odor emanava e sim de suas ataduras sujas de sangue seco.

—“Ian?” Chamei lhe fazendo um carinho na bochecha. A respiração dele ficou mais profunda, ele estava acordando.

—“Hmm?” Ele resmungou em meio ao sono.

—“Ian... você está bem?” Me abracei forte nele, eu ainda achava que estava sonhando, mas ia aproveitar ao máximo essa alucinação.

—“Ai... Seph... Para, eu estou com sono.” Ele resmungou grogue de sono e tentou me empurrar para longe dele.

Beijei-o com vontade, se isso era um sonho feliz, então eu ia aproveitar sem reclamar.

Ele primeiro tentou me afastar de cima dele, resmungando que queria dormir, mas logo meus beijos o fizeram se entregar aos poucos.

—“Ian... te quero.” Disse puxando ele para mais perto. Ian gemeu com vontade e se aproximou mais. Tentei enfiar minha mão dentro das calças dele, eu queria sentir a ereção dele contra a minha.

De repente algo macio foi atirado contra nós dois. Era um travesseiro.

—“Quê...” Olhei com raiva em volta, por pouco não fuzilei com os olhos o garoto emburrado ao nosso lado.

—“Querem para com isso? Vocês não têm noção mesmo! Estão se agarrando na minha frente desse jeito... E eu sou apenas uma criança que já passou por poucas e boas nessa vida, eu já estou traumatizado o suficiente para uma vida eterna sem ter que ver vocês fazendo essas nojeiras... então parem.” O moleque reclamou de joelhos em seu colchão, seus cabelos dourados estavam uma bagunça e seu rosto estava um pouco amassado.

—“Ora seu...” Eu taquei o travesseiro nele de volta, Ian sorriu.

—“Garoto... quando você tiver idade o suficiente para transar, eu juro que vou dar um jeito de estragar todas as suas chances. Vai ser um belo castigo pra você depois de me atrapalhar hoje.” Sorri maldosamente para o garoto emburrado. Ele simplesmente deu de ombros como se não se importasse, acho que ele não sabe o que é transar.

—“Eu to nem aí... eu não quero mesmo ficar me esfregando com outra pessoa e trocando saliva desse jeito nojento aí.” O moleque retrucou antes de voltar a se deitar. E isso confirmava que ele não sabia o que era transar... que alívio.

—“Bem... um dia você vai querer fazer isso, mas eu vou estar lá para apagar o seu fogo. Você vai morrer virgem.” Resmunguei pra ele, sinceramente eu ainda não gosto desse novo filho que o Ian arranjou pra gente... será que é errado tentar joga-lo no mar e torcer para um tubarão comê-lo logo no seu primeiro dia na família? Acho que sim... talvez eu deva esperar uns três dias antes de mata-lo.

—“Coitado Seph.” Ian ficou com pena dele.

—“Coitado? Você diz isso agora, mas espere só daqui a uns cem anos quando ele for um adulto e a Criaturinha for a única menina em um raio de dez metros dele... Pior ainda, a Criaturinha vai ser uma adolescente com os hormônios a flor da pele... Puta que pariu, ela vai ser uma adolescente demoníaca com tantos poderes e hormônios mexendo com a cabeça dela... ferrou!” Eu só consigo pensar que ela sendo um bebê já é assustadora e poderosa, imagina sendo uma adolescente rebelde?!

—“Nesse caso Seph... é melhor você deixar que ela se relacione... É claro, se você quiser continuar com sua cabeça em cima do pescoço.” Ian deu um risinho debochado.

—“Você fala isso agora, mas aposto que vai ficar super protetor quando ela começar a querer namorar.” Retruquei.

—“Sinceramente eu vou é ficar com pena do namorado dela... Se ele fizer alguma coisa para irritá-la... é bem capaz dela comê-lo vivo.” Ian riu mais alto.

—“Gosto dessa possibilidade.” Cara, agora estou bem mais tranquilo com o futuro.

—“Espera... cadê a Sophia?” Ian paralisou ao perceber que ela não estava entre nós.

—“Sophia?” Ian chamou se levantando da cama e me deixando sozinho nesse estado de... quero transar... Droga! Levantei-me também, ela não estava no quarto.

Aproveitei que Ian estava se mexendo para examina-lo, ele parecia bem, não havia nenhum tipo de efeito colateral.

Saímos da cabine procurando pela Criaturinha, o moleque nem se mexeu. Ian estava preste a entrar em pânico quando a encontramos sentada na beirada da Popa do navio. Ela estava de costas para nós, olhando ao longe. Ian suspirou aliviado e foi até lá, o segui de perto.

—“Sophia... o quê você está fazendo aí sozinha?” Ian se aproximou dela com um sorriso alegre, mas a criaturinha o ignorou, ela estava olhando o nascer do sol como se fosse a primeira vez que visse isso.

—“Bonito né?” Ian suspirou olhando o nascer do sol também.

A criaturinha olhou para Ian, mas seu olhar não era doce e inocente como sempre, era um olhar cheio de um desejo sínico por sangue. Um calafrio passou por minha espinha e até o Ian parecia estar com medo, ele chegou a dar um passo atrás.

Mas de repente ela lhe deu um sorriso frio e voltou a olhar o nascer do sol sem dizer nada, ela simplesmente ignorou a existência de Ian.

Ian deu mais uns passos atrás e me olhou nervoso. Fui até ele e o abracei, então dei mais uns passos atrás com ele em meus braços. Eu não sei dizer ao certo, mas estou com medo... parece que estou diante de um predador perigoso... há alguma coisa no ar.

—“O que ouve com ela?... Ela parece tão fria e distante.” Ian estremeceu em meus braços, mas seu olhar preocupado e “maternal” não a deixava nem por um instante.

—“Acho que ela só... está preocupada com alguma coisa... Talvez ela se culpe por ter te ferido... Ou coisa do tipo... Dê um tempo a ela.” Tentei tranquiliza-lo, mas na minha mente tudo que eu conseguia pensar era que eu deveria correr para longe dela. Meus instintos gritavam para manter uma distância segura dela.

—“Eu posso ouvir vocês, sabia? Na verdade eu posso ler a mente de vocês também.” A criaturinha falou isso com um tom de voz frio e assustador, um tremor passo pelo meu corpo.

Ian me olhou nervoso antes de tentar se aproximar dela de novo, mas dessa vez eu o segurei firme... Se ela enlouqueceu de novo, eu não vou repetir o mesmo erro, eu não vou deixar Ian se aproximar dela novamente.

—“Você está certo... P-Papai.” Ela respondeu isso com uma risada assustadora, sem nunca se virar para nos olhar diretamente. Por um momento eu pensei que ela estava me dando um aviso oculto, do tipo... Isso mesmo, não deixe Ian perto de mim... mas porque ela me avisaria isso?

—“Eu estou certo no quê?” Perguntei desconfiado.

—“Eu estava mesmo preocupado com o hosped... Tata.” Ela seguiu falando sem nos olhar, sua atenção parecia totalmente voltada para o sol nascente.

—“Eu fiquei tão preocupado com ele... eu realmente me culpei pelos ferimentos dele, tanto que eu... até doei uma parcela do meu poder para curá-lo. Vê como ele está bem agora?” A criaturinha finalmente virou a cabeça para nos olhar diretamente. Ela sorriu para Ian e apontou para seu peito que antes estava muito ferido e agora estava completamente curado.

—“Sophia... você me curou?... Oh, querida!” Ian saiu do meu abraço e foi até ela para abraça-la, me tranquilizei. Agora eu sabia que não estava sonhando, Ian estava vivo e bem, ele não corria mais o risco de perecer para os ferimentos.

—“Eu estou um pouco cansado... usei muito do meu poder. Por isso devo ficar... estranho, nos próximos dias.” A criaturinha disse isso com um tom de voz realmente cansando. E realmente ela parecia um pouco pálida... talvez fosse isso mesmo, acho que eu estava imaginando coisas.

—“Ah... entendo. Obrigado por ter me curado querida, eu te amo.” Ian deu beijo no topo da cabeça dela.

Não quis dizer nada, mas eu ainda estava me sentido errado perto dela... Parecia que eu estava diante de alguém totalmente estranho pra mim, como se ela fosse outra pessoa, mas acho que era só a minha impressão. Ela devia mesmo estar cansada e se ela foi capaz de doar uma parcela de seu poder de cura para o Ian, então ela seguia sendo a Criaturinha que eu tanto amo.

—“Vem Ian... vamos tomar um banho... E criaturinha, não fique muito perto da beirada, você pode cair.” Puxei Ian de volta aos meus braços e lancei um sorriso para a Criaturinha antes de arrastar o Ian para o banheiro comigo, eu queria tirar aquelas ataduras fedidas dele. Deixei a criaturinha curtindo o sol, ela parecia interessada naquilo, como se fosse mesmo a primeira vez que visse aquilo.

...

Monstro...

Foi por pouco, eu quase matei o hospedeiro. Eu estava aqui tranquilamente explorando toda essa novidade ao meu redor, que quase perdi o controle quando a voz irritante dele surgiu ao meu lado.

E eles quase perceberam que eu estou diferente... posso ler nas mentes deles, tenho que tomar mais cuidado e manter a atenção sobre os pensamentos deles. Principalmente nos pensamentos do progenitor, ele consegue pressentir meu desejo de matar. Ele chegou perto de perceber que sou realmente outra pessoa e não mais a doce Sophia... ele é esperto, talvez ele tenha que ser a primeira vítima... espero não ficar sozinho com ele.

Já o hospedeiro... Hahahaha esse idiota nem desconfia, tudo que ele faz é se preocupar comigo, ou melhor, com a Sophia. Ele até põem os meus desejos acima do próprio bem estar... ele é estranho, devo estudá-lo... Ele me lembra da Sophia. Será que quando eu for matá-lo, ele vai se entregar de bom grado a mim como ela fez?

Droga... tenho que me lembrar de que agora devo chamar o progenitor de Papai e o hospedeiro de Tata... Sophia era mesmo muito retardada para ter dado nomes tão idiotas aos nossos criadores. Eu teria sido mais prático, eles se chamariam vítima um e vítima dois.

Se eu tivesse nascido no lugar da Sophia, eu teria matado o hospedeiro no parto, teria rompido ele de dentro pra fora, lhe causando o máximo de dor. E depois teria devorado o progenitor, assim que saísse do meu casulo. Mas Sophia não... Ela preferiu sofrer dentro do hospedeiro, tentando sair dele de uma forma natural sem machuca-lo e depois se alimentou do progenitor sem mata-lo... que tola.

Ainda não entendo porque ela os poupou tanto... mas devo agradece-la, agora tenho escravos para cuidar de mim enquanto esse corpo idiota se recupera.

...

Sephiron...

Depois que Ian tomou banho, eu pedi para que o moleque levar o navio para o mais perto da costa possível. Ele assim o fez e ancoramos por lá, pegamos um bote para irmos até a praia.

A criaturinha dormiu nos braços de Ian durante o trajeto, já o moleque ficou animado por finalmente se livrar dessa vida marítima.

Andamos pela praia em direção a minha casa, estávamos muito perto agora. Desbravamos a floresta selvagem. Eu ia à frente, guiando a todos tranquilamente. Ian vinha atrás de mim, ninando a criaturinha com carinho. E o moleque vinha saltitando feliz logo atrás, ele ficou caçando insetos e pequenos animais pelo caminho. Acho que se a criaturinha estive bem, ela estaria caçando com ele... Ou provavelmente estaria chateada com ele por estar machucando os animais.

Estávamos cada segundo mais perto de casa, agora meu coração começava acelerar com a possibilidade de encontrar meu pai e Pedro lá. Se eles conseguiram fugir do bombardeio... a essa altura eles já teriam chegando em casa, não é?

A esperança encheu o meu peito, apurei meus passos, atravessei as últimas samambaias e finalmente pisei no gramado descuidado na frente da minha casa.

—“Chegamos.” Nossa... essa palavra era deliciosa. Nós passamos uma eternidade tentando chegar aqui.

—“É essa a sua casa? Devíamos ter ficado no navio.” O moleque torceu o nariz para o casarão.

Tá admito que a casa estava um pouco descuidada e cheia de trepadeiras cobrindo as paredes e janelas, mas com um pouco de cuidado e trabalho, ela ia ficar ótima.

—“Adorei! Finalmente estamos em casa... finalmente estamos a salvo.” Disse Ian encostando-se em mim, o abracei.

—“Hei criaturinha, acorda... veja o seu novo lar.” A chamei fazendo um carinho em sua cabeça.

Ela se remexeu nos braços de Ian antes de empurrar a minha mão para longe dela e resmungar.

—“Estou cansado, me deixe em paz praga.” Ela disse irritada e tentou voltar a dormir.

—“Alguém está de mau humor... deve ser o cansaço.” Ian a defendeu, eu já ia replicar com ela pelo modo como falou comigo, mas me controlei. Seja lá o que ela fez para salvar o Ian... deve ter sido demais pra ela. Ela deve estar se sentindo mal, não sei.

—“Tudo bem... Vamos entrar rápido, talvez eles já tenham chegado.” Corri para a porta.

—“Seph...” Ouvi a voz de Ian nas minhas costas, ele parecia apreensivo, mas não liguei, simplesmente fui até a porta, ela estava trancada, mas havia uma chave reserva escondida nos canteiros de flores ao lado da porta. A peguei e abrir.

Meu coração estava batendo velozmente, a ansiedade tomava conta de tudo, entrei na casa.

—“Pai, chegamos.” Gritei para o cômodo escuro e... foi aí que tudo desandou.

Não havia sinal algum de que alguém tivesse entrando nessa casa nos últimos anos. Ela estava empoeirada, cheia de lençóis amarelados pelo tempo cobrindo os móveis, teias de aranha e cheiro de mofo.

Eles não conseguiram... eles não vão chegar, não é?

...

Ian...

Assim que Seph correu para dentro de casa animado, meu coração apertou, eu não sabia que ele ainda tinha esperanças de encontrar seu pai vivo. Eu até nutria um pouco dessa esperança, mas não acreditava na possibilidade de vê-los novamente.

—“Segura ela pra mim?” Passei Sophia para os braços de Leonard, ele a pegou meio sem jeito, mas era forte o suficiente para sustenta-la.

Fui detrás do Seph, entrei na casa velha e abandonada. Ela estava feia e descuidada, mas eu podia ver o glamour que ela outrora teve.

Seph estava de joelhos no centro da sala, o ambiente estava escuro, mas eu podia ver que ele estava meio encolhido, seu corpo dava alguns espasmos vez ou outra... ele estava soluçando?

—“Seph?” Chamei e me aproximei aos poucos.

—“Eles não vão voltar... né Ian?” A voz dele soava meio engasgada.

—“Bem... eles podem ter encontrado alguma adversidade no caminho e podem ter se atrasado um pouco...” Tentei falar com esperança, afinal isso podia ser verdade... Né?

—“Não... Isso não é verdade, eles morreram... eu sei que morrerem.” Os soluços dele ficaram mais forte, me aproximei mais e coloquei a mão em suas costas, ele tremia muito.

—“Seph... a esperança é a última que morre. Aposto que eles estão...” Tentei anima-lo, mas ele me interrompeu.

—“Até quando eu vou ter que nutrir essa falsa esperança de que eles estão bem? Até quando? Não, eu não aguento mais fingir. Eu tenho que aceitar de uma vez... talvez doa menos.” Ele tapou o rosto com as mãos e se deixou chorar. Eu não aguentava vê-lo assim, ele parecia tão vulnerável... Geralmente eu sou o vulnerável e ele é o forte.

—“Ah Seph... eu sinto muito.” O abracei e para minha surpresa ele se aconchegou no meu abraço, ele não parecia mais o poderoso vampiro cheio de si, agora ele parecia alguém fraco e destruído, ele parecia ser alguém que precisava ser cuidado. Isso era tão surreal, nunca imaginei que Seph se deixaria mostrar esse lado.

O aconcheguei melhor em meu abraço. Era estranho que ele coubesse assim no meu abraço, geralmente sou eu fico dentro dos braços dele... Ele estava mesmo parecendo muito pequeno.

—“Eu fui um monstro com ele... eu o tratei tão mal. Eu briguei com ele no nosso último momento juntos...” Seph soluçou em meio ao choro.

—“Shh... não diga essas coisas. Tente se lembrar dos bons momentos... esqueça daquela briga, eu aposto que ele te perdoou por aquilo.” O aninhei melhor em meus braços e praticamente o ninei.

—“Porque ele me perdoaria? Eu fui tão...” Seph se agrediu puxando os próprios cabelos com violência. Fiz o possível para pará-lo.

—“Você só estava querendo protegê-lo Seph, ele sabia disso.” Tentei acalma-lo.

—“Eu queria poder voltar no tempo e mudar tudo... eu não devia ter transformado ele no meu servo por vingança... aquilo nem foi culpa dele.” Seph agora tentava arranhar o próprio rosto, novamente afastei as mãos dele.

—“Eu sei, eu sei...” Eu não sabia o que dizer, nada do que eu dissesse o faria se sentir melhor sobre os erros de seu passado.

—“Ele continuou do meu lado... mesmo eu fazendo todas aquelas monstruosidades.” Agora Seph chorava pra valer, acho que eu devia deixa-lo desabafar, ele precisava por isso pra fora.

—“Seph, ele continuava do seu lado, porque ele era seu pai. Ele te amava independente do que você fazia, ele te perdoava sempre. Então ele com certeza te perdoou no fim, eu te garanto.” Fiz um carinho nele e tentei ao menos fazê-lo se perdoar um pouco.

—“Isso não é justo...” Ele soluçou.

—“Eu sei.” Isso era verdade, James e Pedro eram dois inocentes no meio daquela guerra, como todos os civis pegos no meio dessa encruzilhada... isso tinha que acabar.

...

Monstro...

O moleque me carregou para dentro da casa, aquele lugar fedia e era feio, mas eu não estava podendo reclamar no momento, pelo menos era um teto sobre nossas cabeças.

Estava havendo uma comoção dentro da casa. O idiota do progenitor estava chorando feito um condenado e o hospedeiro estava lhe dando afeto... nunca vou entender essas besteiras sentimentais.

Aparentemente eles estavam tristes pela confirmação de que nunca mais veriam dois membros da família... Hahahaha se eles soubessem que perderam algo mais precioso do que um escravo e um velho... eles estariam em cacos. Estou louco para contar pra eles em detalhes como foi que arranquei a preciosa filhinha do seio deles... Eles vão ficar arrasados.

Assim que eu me recuperar, eu vou mostrar pra eles como a matei, depois vou torturá-los aos poucos antes de matá-los. Vai ser divertido.

O moleque imprestável que estava me carregando parecia desconfortável ao olhar para os dois chorões. Acho que ele não estava muito familiarizado com adultos chorando, assim como eu. Ou talvez ele simplesmente não conseguisse lidar com o pensamento de que o progenitor era um ser tão fraco assim.

O moleque me lançava olhadelas nervosas... Eu poderia ler a mente do moleque pra saber o que se passava na mente dele, mas acho que isso é uma perda de tempo e energia. Ele não representa perigo pra mim.

Muito tempo depois, os criadores pararam com essa frescura de chorar por mortos cujo corpo já esfriou há tempos e resolveram fazer algo de útil.

Eles foram limpar os quartos para que tivéssemos um lugar para dormir. Os criadores ficaram com o quarto principal e eu fui destinado a dividir o quarto ao lado com o moleque imprestável.

Havia duas camas no meu quarto e um guarda roupa. Era chato e entediante, mas acredito que a Sophia gostaria dele.

Deitei na cama para descansar meu corpo dolorido e deixei meus escravos trabalhar para deixar aquele lugar habitável. Em pouco tempo já era possível tomar um banho em uma banheira chique.

Muitas das coisas ao meu redor eram novidades pra mim, mas tentei não agir com curiosidade, pois se o objeto em questão já tivesse sido descoberto pela Sophia antes, eles poderiam desconfiar de mim por estar impressionado com um objeto já descoberto.

A noite aos poucos foi chegando, agora boa parte da casa estava limpa, Sophia teria se amarrado nesse lugar, ela ficaria tão feliz de finalmente chegar em casa e ter um quarto com pertences só dela... Porque eu não consigo para de pensar nela e nas coisas que ela iria gostar?

Os criadores foram dormir, eles estavam exaustos pelo trabalho, o moleque até os ajudou a limpar a casa, mas o hospedeiro não deixou ele se esforçar muito.

Eu passei o dia descansado, meu corpo estava aos poucos se recuperando, eu já me sentia bem o suficiente para andar e testar a minha força. Acho que eu vou esperar todos dormirem para dar uma volta lá fora e matar algum animal pequeno.

Quando todos dormiram, eu saí de fininho do quarto e fui lá pra fora, o jardim gigantesco nos fundos da casa era cheio de animais selvagens, eu podia fareja-los e até vê-los com facilidade.

Eu estava na calçada do quintal, louco para me divertir um pouco quando...

—“Sei que você não é mais a monstinha.” A voz chata do moleque soou atrás de mim, me surpreendendo.

—“O quê?” Me virei para encarar a presença que só agora eu havia percebido... Merda! Eu devo estar mesmo muito fraco, não consigo nem mesmo sentir a aproximação sorrateira de alguém inútil como esse moleque.

—“Sabe é engraçado... Eu tive pouco tempo para conhecê-la, mas sei que não é mais ela aí dentro, não é?” O moleque sorriu prepotente e se aproximou de mim.

—“Como descobriu?” Eu sei que cometi alguns deslizes, mas não tivemos tempo o suficiente para alguém me analisar tão profundamente, né? E além do mais... porque justo esse garoto que mal conhecia a Sophia ia perceber a diferença? Faria mais sentido os pais dela notar algo.

—“Bem... primeiro, você trocou seu gênero da noite pro dia.” Ele chegou mais perto.

—“Como é que é?” Não entendi o que ele quis dizer com isso.

—“Sophia usava palavras no feminino... apesar dela não ter muita noção de gênero. Mas ela falava coisas como... Estou cansada, mas agora você diz estou cansado.” O garoto me explicou o meu erro.

—“Verdade... muito perceptivo da sua parte, mas creio que não seja só por isso, não é?” Ri impressionado, esse garoto percebeu um erro que aparentemente nem o Progenitor que está mais desconfiado de mim notou. Droga... eu subestimei esse moleque, acho que foi pelo fato de eu acreditar que ele não conhecia muito a Sophia. Eu simplesmente o ignorei como possível perigo para o meu disfarce... que deslize da minha parte.

—“Não sei... acho que é porque você olha pra tudo como se fosse devorar. E além do mais, você nem ficou abatida pela morte do seu avô... Eu estava com você no colo e podia sentir o desprezo que emanava de você... isso me deixou incomodado.” Ele me observou como se pudesse ver dentro de mim, isso me incomodava. Então era isso que ele estava pensando quando me olhava daquele jeito? Interessante... vamos brincar um pouco então.

—“Ah é verdade... acho que a Sophia choraria com aquele momento... Ou talvez até se abraçaria aos criadores para conforta-los pela dor da perda... Realmente eu não fui muito bom no meu papel.” Droga, eu devia ter fingido me importar com aqueles vermes, mas é difícil fingir emoções que não entendo.

—“Então eu estou certo?... Você não é mais ela?” Ele perguntou surpreso.

—“Quem sabe você esteja certo, mas acho que existe algo a mais por detrás disso pra você ter percebido a diferença.” Não é possível que só por esses deslizes ele tenha percebido.

—“Sei lá... eu me sentia... ligado a ela, mas desde ontem à noite estou me sentido estranho perto de você.” Ele se remexeu inquieto.

—“Ah... agora que você falou isso, eu me lembrei de um detalhe... HUHUHUH” Ah Sophia, obrigado por esse presente, você foi tão tola, tenho que gargalhar disso.

—“Do quê você está rindo?” Ele me olhou mais inquieto ainda, mas reparei que ele estava me circulando como se fosse me atacar.

—“Você fez um pacto de sangue com ela, não é?” Tentei abafar o som da minha risada, odiaria se os ouvidos potentes do progenitor o acordassem.

—“Se está se referindo ao fato de termos bebido o sangue um do outro... sim, eu bebi o sangue dela e ela bebeu o meu, mas o quê isso tem de mais? Todos os vampiros fazem isso.” Ele deu de ombros.

—“É... mas isso é meio diferente para... será que posso dizer para a minha espécie? Bem que seja... Isso é diferente para alguém como eu e ela.” Ri das idiotices que a Sophia cometeu em vida, de todas elas... essa foi de longe a mais imbecil.

—“Como assim?” Ele estreitou os olhos pra mim.

—“Moleque você fez um pacto de sangue com ela... o que significa que você deveria servir a ela.” Sophia aprisionou esse pobre garoto a ela, aposto que ela choraria ao saber do terrível destino ao qual condenou esse garoto.

—“...” Ele me olhou nervoso agora.

—“Hahahahahaha....” Ri imaginando Sophia aqui. Como ela iria se odiar... Ah, cara... se eu tivesse percebido isso antes, eu poderia ter zoado mais a mente dela com isso, ia ser tão divertido. E o pior é que agora eu sei da história triste da vida desse garoto... e isso só torna o que eu irei fazer a ele mais cruel e divertido.

—“Qual é a graça?” Ele rosnou pra mim.

—“Você queria fugir dessa vidinha de escravo, mas acabou se prendendo a esse destino sem querer.” Nossa eu queria muito ver a expressão da Sophia agora, ela transformou o garoto em seu eterno escravo... isso ia arrasar tanto ela.

—“Não acredito nas suas palavras idiotas.” Ele bufou pra mim.

—“Verdade? Mas você a obedeceu... mesmo contra a sua vontade, não se lembra? Quando ela te mandou calar a boca e você não conseguiu falar por uns minutos, você não se lembra desses momentos estranhos entre vocês dois?” O engraçado era que a Sophia também não entedia porque quando ela falava de modo mais imperativo com ele, ele a obedecia sem contestar.

—“...” O garoto arregalou os olhos pra mim e deu um passo atrás.

—“Sabe o que é melhor?” Meu sorriso cresceu.

—“Não... o quê?” Ele tremeu.

—“Tecnicamente agora... você é meu escravo.” Meu olhar se tornou cruel para cima dele, comecei a planejar as terríveis formas que o torturaria agora.

—“Uma ova que eu vou ser escravo de um bebê remelento como você... Eu vou contar para o Sr. Ian e para o feioso a verdade sobre você... eles vão dar um jeito em você.” Ele me ameaçou cheio de si.

—“Parado” Ordenei quando ele estava prestes a correr para falar com os meus criadores.

Ele tentou se mexer, mas não conseguiu, pude ver cada musculo dele lutar pela liberdade e isso causava um leve tremor em seu corpo.

—“Ora, ora... isso realmente funciona. Eu sinceramente não estava esperando que isso fosse dar certo.” Tá certo que o meu corpo é o mesmo que o da Sophia, mas tecnicamente foi ela quem fez o pacto.

—“Me deixe ir... ou eu vou gritar.” Ele ameaçou quando me aproximei dele.

—“Sabe garoto... agradeça a falecida Sophia que você seja agora meu escravo, pois caso contrário, eu teria que te matar agora.” Sorri cruelmente pra ele... mas ele realmente teve sorte, eu teriam mesmo que matar ele para manter meu segredo, mas isso não será mais necessário.

—“O quê?” Ele tentou se remexer, mas era impossível.

—“Isso mesmo, você descobriu a verdade sobre mim, mas eu ainda preciso dos criadores vivos para me alimentar e me cuidar, por isso eu não poderia deixar você viver para contar a eles o que descobriu, mas... agora você deve me obedecer, então posso impedir que você conte a verdade pra eles e te manter vivo. Isso não ótimo?” Perguntei com um falso sorriso carismático.

—“Vai pro inferno.” Ele me cuspiu na minha cara, a raiva me dominou, mas consegui me controlar.

—“Hahaha... Você não devia ter feito isso... Você vai sofrer agora.” Lhe lancei um olhar assassino, ele estremeceu de medo, mas seguiu me encarando com coragem.

—“Você está proibido de tentar falar, escrever, ou sinalizar de alguma forma a verdade sobre mim.” Dei a ordem, agora ele não poderia avisar aos outros sobre mim.

—“Merda...” Ele rosnou entre dentes.

—“Ah, não fique chateado... logo terei poder suficiente para mata-los, mas se você se comportar... quem sabe eu te deixe viver como meu escravo pela eternidade.” Sorri animadamente pra ele.

—“Eu não quero ser seu escravo pela eternidade... Eu quero ficar com o Sr. Ian, eu vou proteger o Sr. Ian de você... seu... seu... monstro nojento.” Ele me olhou com raiva.

—“HAHAHAHA vai ser tão divertido te amolar pela eternidade garoto.” Gargalhei imaginando ele tendo que beijar o chão em que piso. Ele rosnou pra mim.

—“E pelo visto você gosta mesmo do hospedeiro... acho que vou matá-lo na sua frente, que tal?” Ri das inúmeras possibilidades de tortura que se abria na minha frente, esse garoto ia desejar a morte mais que tudo logo, logo.

—“E-eu... vou te impedir.” Ele se remexeu, mas ainda estava preso na minha ordem de ficar parado, por isso nada aconteceu.

—“Hahahaha... Você vai me impedir? Bem garoto, já que eu vou ter que ficar preso aqui mais um tempo... acho que eu vou passar esse tempo me divertido um pouco com você.” Ri maldosamente pra ele.

—“C-como assim?” Ele me olhou nervoso.

—“Irei fazer da sua vida um inferno.” Ele estremeceu sobre o olhar assustador que lhe lancei. Coitado, ele nem podia sonhar o que eu pretendia fazer com ele.

Notas finais
Pobre Leonard... por culpa da Sophia ele está preso nas garras desse monstro. O que esse monstro fará com ele? Será que Leonard será capaz de proteger e avisar ao Ian? Não percam no próximo capítulo.