Sangue por Sangue
5 Por toda a eternidade
Era o dia. O famigerado dia. Giovani suava frio. Ele sequer se lembrava da última vez que tinha sentido medo, e aquilo só fazia o seu pânico aumentar. E se ela o recusasse? E se Julian mudasse de ideia, e fosse contra o pedido? O que ele iria fazer? Bom, ele já tinha um plano: ia fugir. Para ele, parecia um ótimo plano b passar o resto da sua eternidade fugindo com vergonha.
Julian não sabia do plano b, mas ria todas as vezes que olhava para o amigo como se soubesse. Ele tentava não parecer ansioso, afinal, o homem que era seu amigo há mais de um século ia confessar seu amor para sua única irmã, adotiva, é claro. Dalila para ele era um anjo que havia descido dos céus para alegrar a sua triste vida sem fim, e a ideia de seu único amigo de verdade estar perdidamente apaixonado por ela não parecia ruim, e realmente não era, afinal, ele confiava em Giovani com os olhos vendados. Ele ia negar o ciúmes por toda a eternidade, estava disposto a isso. Se o dia dele ser enterrado a sete palmos da terra chegasse, ele iria continuar negando. Teimosia deveria ser o seu nome do meio.
Giovani andava em círculos, e Julian tomava um conhaque enquanto observava. Não podia negar que estava se divertindo, aquilo certamente era melhor que a televisão ou até mesmo a infinita internet. Julian havia acabado de descobrir um novo hobbie: ver Giovani se torturando, mas mesmo assim segurava a risada.
— Não é uma boa ideia — Giovani disse, parando de andar com os braços abertos, e virando bruscamente para o amigo que estava sentado em uma poltrona.
— Você estava convencido do contrário até trinta segundos atrás — Julian cruzou as pernas, e tomou um gole do conhaque — O que te fez mudar de ideia?
— Ela não é como nós — Giovani respondeu, fazendo a expressão de Julian mudar.
De fato, Dalila não era como eles. Julian e Giovani eram vampiros, e iriam viver para sempre, há não ser que alguém atingisse seus corações com uma estaca de madeira ou algo do tipo, mas a caça a vampiros tinha acabado no século passado, quando todos passaram a acreditar que eles não passavam de lendas. Dalila não era imortal, e nenhum dos dois tinham intenção de transformá-la, pois sabiam muito bem que a imortalidade só era bonita na ficção.
Julian levou o copo à boca, mas ele já estava vazio. Em uma demorada cerimônia, ele se levantou e caminhou até o bar.
— Não escolhemos quem amamos — Ele disse, se servindo de mais conhaque — Mas pelo menos ainda somos capazes de amar.
— Se isso era para ajudar, fique sabendo que não ajudou — Giovani cruzou os braços.
— Eu sei bem pelo que você está passando, eu amo a mesma garota, se lembra?
— Você a ama como se fosse sua irmã, eu não a vejo da mesma forma — Giovani lembrou.
— Ainda assim é amor, e quando ela partir, porque um dia ela vai, eu vou sofrer da mesma maneira que você — Julian ergueu o copo — O nome disso é consequência.
Giovani não respondeu, ele apenas abaixou a cabeça, pensativo.
— Você sabia que ela era mortal, porque não se afastou, se sabia que um dia iria sofrer por conta dela? — Giovani perguntou
Julian deu um gole no conhaque, e iniciou a sua dramática caminhada até a poltrona.
— A minha vida era extremamente infeliz antes de conhecer ela, então não consegui ficar longe — Ele respondeu — E eu tentei, muito, mas ela sempre aparecia e me fazia lembrar do porque eu amava tanto ela.
— É realmente muito bonito, mas tirando isso fica ofensivo, já que eu fazia parte da sua vida antes de você conhecer ela — Giovani brincou — Não levei nenhuma alegria para a sua vida?
— Não — Julian respondeu, fazendo Giovani fechar o rosto — Ah, mentira, ver você se torturando está me deixando realmente alegre.
Giovani continuou sério enquanto Julian ria.
— Mas, me responda uma coisa, Giovani — Julian disse, quando parou de rir — Se realmente a ama, porque vai esconder isso dela? Porque a mortalidade dela lhe parece um empecilho?
— Me parecia antes de você falar, agora parece só um detalhe pequeno — Giovani respondeu, e Julian ergueu o copo em resposta.
— Então pare de se torturar, e suba essas malditas escadas antes que eu te jogue sobre elas.
Giovani riu, e fez o que o amigo disse. A cada degrau seu coração batia mais rápido, e as suas mãos ficavam ainda mais trêmulas. O ar parecia estar acabando, e a água do seu corpo, simplesmente evaporando.
Ele estava com medo.
Dalila estava jogada no sofá da sala de estar com um livro nas mãos, sem sequer se importar em manter a postura. Giovani encostou no batente da porta e sorriu ao ver a moça completamente confortável ali.
— Quantas vezes eu tenho que te lembrar que você não mora aqui? — Ele disse, entrando na sala.
— E quantas vezes eu vou ter que te responder que eu não ligo para o que você acha? — Ela respondeu, e ele riu.
Ele se sentou ao lado dela, fazendo que ela se ajeitasse no sofá, fechando o livro e o encaramdo..
— O que você quer comigo desta vez? — Ela disse em tom de brincadeira, e ele levou alguns segundos para raciocinar.
— Nada demais — Ele respondeu, deitando no sofá, usando as pernas dela como apoio para a cabeça.
Dalila começou a passar os dedos pelos cabelos escuros de Giovani, que fechou os olhos com o toque. Os dedos seguiam pelo rosto e pelo pescoço, e se o rapaz fosse um gato, certamente ronronaria.
Ele abriu os olhos e a encontrou o admirando. Cada contorno, cada fio de cabelo, cada pequeno detalhe que apenas ela notaria que estava ali. Assim como ele, ela sentia o coração bater rápido, e lutava internamente para manter as mãos firmes. Nenhum dos dois imaginava o esforço que faziam para se manter calmos quando estavam perto um do outro.
— Não vai me dizer o que quer? — Ela perguntou.
— Você — Ele respondeu, fazendo-a rir — Isso não é uma piada.
Ela parou de rir, mas continuou a passar os dedos pelos cabelos dele.
— O que quer dizer com isso?
— Você sabe muito bem — Ele respondeu, se levantando.
Dalila respirou fundo, e em seguida se levantou. Giovani a seguia com os olhos, com medo do que ela faria em seguida.
— Odeio quando você e o Julian tentam bancar os misteriosos — Ela o encarou — Só quero que você seja claro comigo e me responda o que você quis dizer com isso.
Giovani sentiu a boca ficar seca.
— Você quer que eu seja claro com você? — Ele perguntou, e quando ela balançou a cabeça positivamente, ele se levantou — Eu fico sem ar quando estou perto de você, e toda vez que você me olha, não consigo deixar de notar o brilho em seus olhos, não consigo tirar os olhos de você em nenhum momento, porque…
Ele parou de falar, em completo pânico.
— Porque? — Ela pediu pra ele continuar.
— Porque eu amo você — Ele completou, observando ela perder a postura.
Ambos ficaram em silêncio por um tempo.
— O Julian…
— Sabe — Ele completou — Já faz semanas que ele me pertuba para me confessar a você.
— Ele me contaria esse tipo de coisa — Ela comentou.
— Queria que você soubesse por mim — Giovani explicou — E por mais ninguém.
— E o que você vai fazer agora? — Ela perguntou, se aproximando dele.
— Depende de você — Ele respondeu.
Delicadamente, ela passou os dedos pelo rosto dele, e ele fechou os olhos em reação ao toque. Ela se aproximou ainda mais, e ele pode sentir a sua respiração. O coração de Giovani estava acelerado, e ficou ainda mais quando ela o beijou.
— Então acho que você conseguiu o que queria de mim — Ela disse quando se afastou.
Ele tentou conter o sorriso, mas não conseguiu.
O medo foi embora, e junto com ele todas aquelas sensações que ele nunca havia tido. A única coisa que ele conseguia sentir naquele momento era felicidade, e talvez fosse a primeira vez que ele se sentia daquele jeito. Julian estava certo: valia a pena ter Dalila por perto, e agora, ele a tinha em seus braços, e quem sabe, talvez, por toda a eternidade.
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