O barulho fez Dalila recostar no sofá e inclinar a cabeça para trás, ela deu um sorriso quando viu Giovani encostado no batente da porta.

— Ah, é só você — Ela disse, fazendo ele sorrir e ir em direção ao sofá.

— Julian ligou — Ele disse, se ajeitando ao lado dela — Queria saber como estamos.

— E onde nós estamos, eu suponho — Ela completou, fazendo o sorriso dele desaparecer.

Alguns assassinatos misteriosos trouxeram o assunto de vampiros de volta para a grande mídia. Muitos não acreditavam, mas quando as câmeras de segurança do estacionamento de um supermercado mostraram um homem atacando uma mulher e bebendo o seu sangue, todos entraram em pânico. Uma família que durante séculos ficou conhecida como caçadores de vampiros voltou a ativa para a alegria de uns e desespero de outros, obrigando Giovani e Dalila, recém casados, fugirem para outra cidade, deixando Julian ir para outra direção.

— Sabe que isso foi ideia dele, eu também iria me sentir mais seguro se ele estivesse com a gente — Giovani respirou fundo — Mas acho que foi realmente uma boa ideia, se estivermos juntos é mais fácil de nos encontrarem.

— Acha que isso alguma hora vai acabar?

— Não — Ele respondeu — Nunca acabou e nunca vai acabar, nenhuma família caçadora parou de vez, e agora, finalmente eles voltaram a ser pagos e ovacionados por isso.

Dalila encostou a cabeça no peito de Giovani e ele a abraçou. Ela mexia delicadamente na aliança dourada no dedo enquanto ouvia as batidas do coração de seu marido, que podia fingir estar calmo, mas estava em completo desespero.

Dias se passaram e Julian raramente dava sinais de vida, para ele, quanto menos contato, menos chance de serem pegos. A preocupação de ambos os vampiros não era a sua própria segurança, mas sim da humana que convivia com eles, pois sabiam muito bem que os caçadores também a matariam, mesmo ela não sendo como eles.

Em uma noite chuvosa, batidas desesperadas na porta fez com que Giovani mandasse Dalila se esconder enquanto abria a porta, mas o alívio de ver que os donos das batidas eram Julian não durou muito.

— Eles te acharam — Julian disse, ofegante — Eu não sei como, mas te acharam, e acharam ela.

— Mas e você? — Giovani perguntou.

— Vão vir atrás de mim, mas estão vindo atrás de você primeiro, e vão fazer questão de te fazer assistir a morte dela — Julian agarrou Giovani pelos ombros — Vocês dois tem que fugir, e tem que ser agora.

Não havia tempo para conversas, e Giovani sabia exatamente o que fazer. Ele tirou Dalila do esconderijo e ambos correram para fora da casa, indo em direção ao bosque que havia perto. Eles corriam entre as árvores, fazendo o caminho que já haviam ensaiado.

A velha igreja feita de pedras não era visitada a séculos, ela era tão dentro da floresta que nem mesmo vândalos haviam a encontrado. A porta era pesada, mas para Giovani não era problema. O local já havia sido preparado pelo casal para emergências com lanternas e até mesmo comida. Acreditavam que ali estariam seguros.

— Era o Julian na porta? Eu ouvi a voz dele — Dalila disse enquanto acendia uma lanterna.

— Era — Giovani encostou na porta, encarando a mulher.

— Ele sabe desse lugar? Avisou ele? — Ela perguntou, iluminando ele.

— Não deu tempo — Ele respondeu.

O silêncio tomou conta do lugar, apenas a respiração de ambos podiam ser ouvidos. Até que tudo ficou completamente escuro.

Giovani começou a chamar por Dalila, mas a voz dela parecia cada vez mais distante. Ele tateava a parece para tentar encontrar uma lanterna, mas a igreja parecia estar vazia e maior. Dalila gritava por socorro e ele tentava desesperadamente encontra-la, mas não conseguia achar nem mesmo a porta que segundos que há segundos atrás estava encostado para abri-la e dar ao luar uma chance de iluminar a igreja. Ele não queria se desesperar, mas não conseguiu evitar. A cabeça de Giovani parecia estar girando, e de repente várias vozes começaram a falar ao mesmo tempo. Dalila ainda gritava por socorro, e ele ainda chamava por ela.

Ele fechou os olhos, e quando abriu estava em um salão decorado com rosas vermelhas. Giovani ficou confuso e olhou para as próprias mãos, e notou que estava usando terno. Uma voz familiar o fez olhar para trás, e ele viu Julian sorrindo enquanto segurava uma garrafa de vinho.

— É o seu casamento, temos que brindar! — Julian ergueu a garrafa em completa alegria.

— O que? — Foi tudo o que Giovani conseguiu dizer enquanto observava o amigo pegar duas taças no armário do bar.

— Que bicho te mordeu? Parece até que está perdido — Julian riu.

— Acho que é o nervosismo — Giovani disse, completamente confuso.

— Claro, é bem a sua cara isso — Julian disse enquanto servia o vinho — Ainda mais pelo que vai acontecer depois, é uma decisão muito importante.

— Que decisão?

Julian riu maliciosamente enquanto entregava uma das taças ao noivo. Giovani deu um gole, mas cuspiu no mesmo instante.

— É sangue — Ele bradou.

Julian gargalhou.

— E você por algum acaso não é um vampiro? — Julian continuava a rir.

— Fizemos um pacto, Julian, quando conhecemos a Dalila — Giovani rangeu

os dentes — Não iríamos mais tomar sangue humano.

Julian parou de rir e levantou sua taça até o rosto do amigo.

— E você, por algum acaso, compriu com a sua parte?

Giovani arregalou os olhos e observou o amigo secar a taça.

— O que vocês dois estão fazendo aqui? — A voz de Dalila fez Giovani se

virar instantaneamente — Eu preciso do meu noivo para me casar.

O noivo em questão sentiu o coração parar de bater ao ver a amada com o longo vestido branco. A boca secou e tudo o que ele conseguiu fazer foi sussurrar o nome dela.

Ela se aproximou dele e colocou as mãos sobre o seu peito, antes de lhe dar um beijo.

— Estou pronta para viver para sempre ao seu lado — Ela disse.

— Viver para sempre? — Ele repetiu, fazendo-a rir.

— É claro, você vai me transformar em vampira, ou então o Julian vai fazer — Ela o beijou de novo.

— Mas para te transformar, eu teria que…

— … me matar — Ela completou — E eu estou pronta para isso, quero que você me mate.

Giovani arregalou os olhos.

— Não posso fazer isso — Ele disse, e ela sorriu, tocando no rosto dele.

— Mas você já está fazendo isso — Ela disse.

Ele se afastou dela, vendo que o vestido branco estava manchado de sangue.

— Eu não mato, e nunca mataria você — Ele sentia o coração prestes a explodir.

— Não mata? E todas aquelas pessoas que você matou? — Ela disse — O cara no beco, a mulher no estacionamento do supermercado, eu.

— Eu não te matei — Giovani gritou.

— Você me matou, Giovani — Dalila começou a chorar — Você disse que nunca iria me machucar, mas me matou.

— Eu não fiz isso— Ele gritou novamente.

— Abra os olhos, meu amor — Dalila mostrou as mãos sujas de sangue — E veja o que você fez.

Tudo ficou escuro novamente, mas dessa vez tudo estava silencioso. Giovani sentia o coração bater rápido e a respiração ofegante, e tudo piorou quando ele sentiu o gosto de sangue em sua boca. Quando a visão voltou ao normal, ele viu as paredes de pedra sujas de sangue, e sem entender, ele olhou para seus braços.

Dalila já estava morta, mas em seu rosto o mesmo ainda estava estampado. O sangue ainda escorria do buraco que Giovani havia aberto em seu pescoço e encharcava todo o seu corpo. Giovani começou a gritar em desespero enquanto olhava o corpo sem vida da amada. Ele a abraçou, tentou chamar o seu nome e implorar por perdão, mas já havia mais nada que poderia ser feito.

Julian arrastou a porta de pedra e gritou por Giovani, e sentiu seu coração ser despedaçado ao ver o amigo com o corpo de sua irmã nos braços.

— O que aconteceu? — Julian disse sem conseguir conter as lágrimas.

— Eu a matei — Giovani disse entre os soluços — A matei, como todas aquelas pessoas.

— Então foi você? — Julian sentiu o ódio surgir.

— Eu não queria, mas matei — Giovani ainda acariciava o rosto sem vida da amada — Matei todos, e matei a Dalila.

Giovani começou a repetir que havia a matado enquanto Julian o observava.

— Você enlouqueceu — Julian disse, tirando uma adaga de dentro do casaco — Esse não é você.

Julian lentamente se aproximou do amigo e colocou a mão sobre seu ombro.

— Mas não posso deixar você machucar outra pessoa — Ele disse — Eu sinto muito.

Giovani agarrou Julian pelo pescoço, que gritou de raiva. Julian golpeou o braço do amigo com a adaga, conseguindo se soltar. Ambos trocavam golpes enquanto gritavam, despejando todo o ódio que sentiam.

— Eu nunca deveria ter deixado você se aproximar dela — Julian gritou — Você é um monstro.

— Você me transformou em um monstro — Giovani esbravejou — Mas era você que queria mata-la desde o primeiro momento que a viu, por isso fez aquele pacto estúpido.

— Eu a amava.

— Não, eu a amava — Giovani chorava — Por isso eu a matei, para que você não a matasse antes.

— Então espero que você esteja feliz — Julian disse antes de avançar contra Giovani.

Não havia perdão, não havia amor, tudo o que restou foi a morte. Julian acertou o coração de Giovani com a adaga, mas Giovani segurava o coração de Julian em sua mão. Ambos se encaravam, entendendo que aquele era o fim da jornada. Eles caíram no chão, e sentiram a morte chegar enquanto olhavam o corpo sem vida de Dalila diante deles, e morbidamente eles sorriam, pois sabiam que finalmente iriam passar a eternidade ao lado dela.

Para eles, o felizes para sempre.

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