Sangue Obediente
5 Capítulo 4
Estratégia inteligente? Eu não tinha uma estratégia inteligente, na verdade não consegui pensar em nada inteligente durante todo o tempo em que estive ali. A única coisa que pensei de fato era que teria de esperar um momento propício para escapar daquele quarto. Mas esse momento nunca chegava. Eu estava ficando desesperado!
Após vestir o robe, o cara não saiu do quarto um instante que fosse! Na realidade, ele pegou um livro sei lá onde (o meu campo de visão era bem limitado) e deitou na cama. Fiquei olhando para ele e para as horas do meu celular a intervalos mínimos. Se ele hipoteticamente queria me irritar e me fazer perder o controle aos poucos, o cara estava conseguindo isso com excelência.
De repente, eram dez horas, onze horas, meia-noite, e Dante estava lá na cama, virando páginas e mais páginas do seu livro. Quando deu meia-noite e meia, eu já mal conseguia espiá-lo sem bocejar ou cair um pouco de lado por conta do sono. Depois de um tempo, eu nem conseguia ficar de olhos abertos! Eu estava lutando contra o sono e, no momento, eu era um péssimo lutador.
Abri os olhos na força do ódio, dei um bocejo mudo, continuei a espiar. Súbito, num virar de uma página do livro, ele ergueu os olhos e olhou diretamente para mim.
Esse gesto fez com que uma gota de suor escorresse pelas minhas costas .
Seu par de íris estava vermelho como da vez em que eu as vi no beco, enquanto ele sugava o pescoço da garota anônima, e um fato importante era que sua expressão agora beirava a hostilidade.
Eu estava ferrado! Ferrado-ferrado-ferrado!
Desesperado, procurei com as mãos suadas o cabide sob os meus pés, quando o encontrei, não tive tempo de apanhá-lo. Foi em questão de segundos. A porta foi escancarada, arrancada com violência das dobradiças, e, no segundo seguinte, lá estava ele, com a porta na mão, me encarando.
Tentei parecer gentil, sorri o meu melhor sorriso de anos, desses sorrisos que alguém dá quando quer uma cerveja de graça, mas não deu certo.
O cara jogou a porta para escanteio e, sem um pingo de simpatia, me pegou pela gola da camisa e me arrancou do meu esconderijo.
— Olha, me desculpa por entrar na sua casa, cara... — comecei a falar. Minha voz saiu trêmula, medrosa, me envergonhei por estar sendo covarde depois de tudo que tinha feito para chegar até ali.
O sujeito não disse nada, apenas me puxou para mais perto e apertou com mais força os dedos sobre a gola da minha camisa, então fiquei quieto e olhei para baixo: meus pés não tocavam mais o chão. Se quisesse, poderia balançá-los no ar.
— Eu não sou ladrão. Pode olhar nos meus bolsos se quiser — justifiquei. Ficar a quase dez centímetros do chão já estava me dando náuseas.
— Moro aqui do lado, sou o seu...
— Está satisfeito? — ele perguntou de repente, ignorando tudo o que eu havia dito.
Ele tinha a voz bem humana, na verdade.
— Está satisfeito... — repetiu. — Com o que encontrou?
Não soube o que responder, na verdade acredito que fosse o tipo de pergunta que não precisasse de resposta.
Diante da minha falta de argumentos, ele sorriu com seus dentes de vampiro visivelmente afiados, pois sabia que eu era um idiota que havia caído bem no seu colo sem esforço algum; seguidamente , largou o meu colarinho e, com uma agilidade sobre-humana, me abraçou com força, como se quisesse quebrar os meus ossos.
Chutei, me contorci, xinguei, mordi a ponta da sua orelha, mas nenhum dos meus gestos parecia eficiente para fazer com que ele me soltasse.
Semicerrei os olhos, pois estava cansado e envergonhado por ser tão fraco, e então senti seu hálito gelado sobre o meu pescoço. Mordi os lábios com medo da morte que me espreitava...
— Por que demorou tanto tempo para vir? Eu teria aberto a minha porta para que entrasse. Você não precisava passar por tudo isso.
Escutei nitidamente dentro da minha mente. Era uma voz intrusiva, estranhamente atenciosa , que não poderia ser a voz da minha própria consciência. Desviei o pescoço para o lado direito, numa tentativa fútil de escapar daquelas presas.
Eu estava sendo tão covarde! Um menino estúpido que simplesmente olhou demais para o abismo...
Sinceramente, estava esperando pelo pior, pois é assim que acontece nos filmes. Por via das dúvidas, tentei me safar dele. Me contorci. Chutei. Gritei. Xinguei. Tentei barganhar. No entanto, lutar contra aquela criatura parecia um ato inútil...
Dante era irredutível como uma rocha.
Minhas forças estavam no limite.
O vampiro puxou delicadamente os cabelos da minha nuca.
Então ele foi se aproximando furtivamente...
Eu sentia sua presença crescendo sobre mim como uma sombra densa, poderosa...
Fechei os olhos de vez, já prevendo o pior. A dor já me atingiu sem nem existir ainda!
E furtivamente senti seus lábios gelados...
... pousarem macios...
... no meu pescoço.
E foi só isso.
Abri os olhos, porque tal gesto me pareceu estranho, no entanto me dei conta de que estava novamente encolhido dentro do guarda-roupa!
Tapei a boca para abafar minha respiração. Ainda estava no guarda-roupa. Ainda continuava ferrado.
Mais calmo, inclinei o corpo para frente e olhei pelas frestas. As cortinas do quarto estavam todas fechadas, não dava para ver nada! Usei a luz da lanterna pelas frestas, o que era bem arriscado, diga-se de passagem, e vi que não havia ninguém deitado na cama.
Cocei a cabeça, confuso.
O que significava tudo isso?
Com cuidado, abri o armário e saí do esconderijo. Meu corpo estava todo dolorido, minhas pernas levemente adormecidas. Todo quebrado e suado, comecei a andar até a saída do quarto, de vez em quando dava umas olhadas para o lado da cama.
Ela estava cuidadosamente feita, sem uma dobrinha que fosse no lençol.
Quando cheguei perto da porta, lancei novamente a luz da lanterna para a cama, só para conferir mesmo.
Nada. Nadinha mesmo.
Então coloquei meus dedos no local em que os lábios de Dante haviam tocado.
Por que ele tinha se prestado a isso?
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Fechei a porta do meu apartamento, passei a chave e conferi duas vezes para ver se realmente estava trancada. Uma coisa que um vampiro não poderia fazer era atravessar a porta, isso era atribuição só dos fantasmas.
Que conversa de doido, meu Deus! Dei um suspiro de alívio por estar novamente em casa, no entanto dizer que me sentia seguro aí já era piada. Quem está seguro quando se tem um vampiro de vizinho?
Por segurança, fechei todas as janelas existentes no apartamento, inclusive a do banheiro, que era uma janela basculante de 40 centímetros. Depois, quando tive um tempinho, olhei as horas no celular. Seis da manhã em ponto. Estava chocado. Havia passado a madrugada toda enfiado naquele armário!
Estava todo quebrado, por isso fui direto para a cama sem trocar de roupa. Quando acordei, menos de duas horas depois, me dei conta de duas coisas: 1) Eu não havia colocado o relógio para despertar. 2) Eu estava muito atrasado. Era 9:20 da manhã! Além disso, havia mais de dez ligações não atendidas! Eu estava muito, muito, muito ferrado!
Levantei desesperado, como se estivesse acordado no dia do juízo final; imediatamente, peguei os meus sapatos e minha mochila e corri aos tropeços para o banheiro. Devo ter ficado por lá menos de dez minutos. Depois peguei meu celular e saí de casa sem passar na cozinha para tomar o café.
Já na calçada, retornei a ligação da empresa. Levei uma bronca daquelas. Meus ouvidos estavam até doloridos. Fui chamado de irresponsável, de imaturo (nesse ponto até concordo um pouco) e ainda me acusaram de não vestir a camisa da empresa. Revirei os olhos nessa parte, devo confessar.
— Trate de pegar um Uber, coloca roda no pé, se vira, entendeu? Eu quero você aqui em menos de vinte minutos! — esbravejou meu chefe.
Eu ligava para aquele emprego, pois era a única fonte de renda que eu tinha no momento, com ele pagava minhas contas e vivia uma vida razoável. Essas eram as razões que me mantinham nele.
Se eu achasse um bilhete premiado na rua, já teria dado no pé faz tempo, mas como tudo comigo acontecia na base do esforço (era assim com a maioria das pessoas, creio), teria que juntar muito dinheiro, muito mesmo, se um dia quisesse ser milionário e sair de um emprego que pagava pouco.
Enfim, recebi toda a bronca com respostas monossilábicas, mas fiz o possível para parecer verdadeiramente arrependido do meu atraso. Acho que não deu muito certo, pois, antes de desligar a ligação, escutei a voz do meu chefe me chamando de filho da puta.
Encerrei a ligação antes que outros xingamentos endereçados a mim escapassem da boca estressada do meu chefe, em seguida guardei o celular na mochila enquanto corria apressado pela rua.
Não havia tempo para pensar se a carapuça servia em mim ou não.
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