Sangue Obediente
6 Capítulo 5
O expediente foi normal, embora tenha sido moldado por um tédio que me deu um sono danado. E foi assim, nesse ritmo sem graça, até o final da tarde.
Após o trabalho, fui puxado por Carlos para uma bebida num barzinho que ficava perto da empresa. Era um lugar habitual; íamos sempre que tínhamos um tempo.
Eu não queria ir beber logo na segunda-feira. Na verdade, estava planejando ir direto pra casa. Tinha algumas coisas para perguntar à dona Lurdes. No entanto, Carlos evocou a promessa do outro dia sobre pagar uma bebida pra mim, então não tive como negar.
O barzinho em questão ficava na rua atrás do prédio da empresa. Não era o tipo de barzinho com fachada toda descascada, com um monte de bêbado escorado na porta falando um monte de asneira.
Era um lugar bem ajeitado, com música ao vivo, cadeiras e mesas de madeira e atendentes uniformizados. Eu gostava de frequentar o lugar; tinha um ar aconchegante.
No final de semana o lugar lotava; nos dias da semana, a movimentação era razoável.
Entramos e pegamos a mesa de canto. Quando íamos para lá, sempre dávamos um jeito de ficar na mesma mesa, perto de um vaso com lírios-da-paz.
Carlos pediu uma garrafa da cerveja de sempre e, enquanto esperávamos, comentou:
— Ultimamente você tá com a cabeça nas nuvens, cara. Aconteceu alguma coisa?
Esperei o garçom colocar a garrafa e os copos em cima da mesa. Quando o cara saiu, falei meio que para mim mesmo:
— Acho que sou o cara mais azarado do mundo. Por que aquele cara foi se mudar logo pra perto do meu apartamento? E por que eu tive o azar de passar perto daquele beco...
Olhei para Carlos. Ele me encarava com uma expressão confusa.
— Do que você está falando? Não tô entendendo é nada. — E, dito isso, soltou uma risada espirituosa.
Fiquei sem graça com a reação dele, mas não me irritei. Como eu havia dito antes, era difícil ficar bravo com aquele cara.
Nesse meio-tempo, Carlos abriu a garrafa. Encheu um copo para si e outro para mim.
— Toma, cara. — Passou o copo para mim. — Bebe um gole pra molhar a garganta.
Olhei para a cerveja; ela olhou para mim. Bebi num gole só.
— Vai com calma — ele pediu. — Ainda é segunda-feira, cara.
Eu precisava beber para continuar aquela conversa. Coloquei o copo vazio em cima da mesa e o enchi até a metade.
— Você acredita em vampiros? Quero dizer, você acha que eles estão por aí fingindo que são humanos? — perguntei de repente.
Carlos ficou olhando para mim, sem entender o contexto daquela pergunta. Para ele, esse assunto com certeza soava aleatório demais.
Bebi um pouco da cerveja sem olhar para o meu amigo. Talvez ele achasse que eu estivesse pirando. Lá no fundo, eu também meio que achava isso.
— Eu não faço ideia do porquê de você estar me perguntando isso, mas, cara, é tudo ficção. Vampiros só existem em filmes, livros, desenhos e músicas de rock.
Era um pensamento bem trivial, mas eu poderia dizer que o mesmo tinha muito mais sentido do que dizer que vampiros existiam. Carlos estava certo. E eu me senti um idiota por abordar o assunto.
— Por que você veio com esse assunto? Andou vendo filmes demais e acha que o chefe é um vampiro?
Ele riu, e eu também. Logicamente, a piada foi mais engraçada para ele do que para mim.
— Esquece, cara. Falei isso só por falar mesmo. Sempre achei esse assunto interessante, mas como vai a sua família? Estão todos bem?
Era melhor trilhar por assuntos comuns, pensei com desânimo...
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Carlos me deixou na porta do condomínio umas dez da noite, mais ou menos. Lembro de ter olhado para o meu relógio depois de descer do carro.
Minhas pernas estavam um pouco bambas; minha mente parecia funcionar em marcha lenta. Parecia que eu flutuava a alguns centímetros do chão, como um balão...
Entrei no saguão do condomínio e vi que o local estava vazio. Na salinha ao fundo do balcão, uma música dos anos 80 tocava baixinho no rádio. Acho que era Like a Virgin...
Eu não queria chamar a atenção da dona Lurdes, por isso tentei ser o mais silencioso possível, mas é aquela história: quando você quer ser discreto, sempre acontece alguma coisa, seja algo que cai da sua mão ou a coisa mais ridícula — como tropeçar nos próprios cadarços.
Bem, no meu caso, foi o celular que caiu da minha mão e fez um baita barulho no chão.
No mesmo instante, a cabeça de dona Lurdes surgiu na porta da salinha.
— Ah, é você. — Falou de um jeito neutro.
Abaixei para pegar o celular. Só esperava que a tela não tivesse trincado. Bem, tive sorte dessa vez. Na hora de levantar, quase caí pra trás.
— Você bebeu? — escutei ela perguntar.
— Só um pouquinho. Saí com o Carlos depois do trabalho.
Minha madrinha foi para perto do balcão.
— Filho, você nem consegue se equilibrar direito. Quase bateu a bunda no chão. Não acho que foi só um tiquinho que você bebeu, não.
Dei de ombros. Eu estava sóbrio, embora parecesse o contrário.
— É melhor você subir e descansar. Amanhã você vai acordar com uma dor de cabeça danada.
Ela estava certa, mas eu queria continuar ali. Como uma planta. Uma planta com cheiro de cerveja.
— Escuta, o cara do 17... a senhora já falou com ele? — perguntei de repente.
— 17? — Ela coçou a cabeça, pensativa. — Ah, você está falando do homem bonito que mora no seu andar? Falei com ele algumas vezes. Ele é muito educado, todo cavalheiro, mas sinto que ele não é muito de conversa... Por que está perguntando?
Precisava de uma resposta razoável e que não soasse estranha. Contudo, minha mente parecia incapaz de pensar em algo que fosse minimamente razoável.
— Eu nunca falei com ele... Digo, ele mora do meu lado e nunca nos falamos. Por isso perguntei. — Respondi aos tropeços.
Dona Lurdes concordou com a cabeça e, em seguida, comentou:
— Na verdade, esse inquilino é um pouco excêntrico. Quando chegou aqui, ele foi logo perguntando quantas janelas havia no apartamento e para qual lado as janelas do quarto estavam voltadas. Expliquei direitinho, até levei ele pra dar uma olhada.
— Há estranhos pra tudo — falei, dando corda.
— Com certeza, meu filho. — E, num cochicho: — Só lembro que ele ficou muito satisfeito com o apartamento e disse que, se tivesse alguma encomenda ou aviso, que o dessem só depois das cinco.
Coloquei o cotovelo no balcão.
— Por quê? — perguntei com interesse.
Senti uma pontada sutil bem acima do meu olho esquerdo.
Não sei se começou a doer por conta de toda aquela informação ou se era da bebida mesmo. Estava com um puta enjoo.
— Ele disse que era por conta do trabalho.
Essa desculpa era muito plausível, na verdade.
— Falou que era professor, trabalhava durante a tarde em casa e que não queria ser incomodado.
Essa também era bastante plausível.
Fiquei ali parado durante uns bons minutos, sem falar nada. Não havia mais conteúdo para a conversa. E era bom. Eu estava cansado.
Dona Lurdes foi fazer suas coisas na salinha ao lado. Pediu que eu tomasse cuidado com as escadas. O elevador estava quebrado e só seria consertado na sexta-feira.
Depois de subir, aos trancos, os dois lances de escada, meu enjoo havia me feito parar umas duas vezes no meio do caminho, mas não cheguei a vomitar, embora me subisse à garganta um gosto desagradável de bile.
Já em casa, corri para o banheiro e vomitei na privada metade do meu estômago.
Puxei a descarga a muito custo. Minhas pernas ainda não estavam cem por cento firmes. Fiquei por ali mesmo, sentado no canto entre a pia e a privada.
Ergui os olhos para o teto, ainda me sentindo enjoado, fora do ar...
Então, uma sensação ruim me assaltou de súbito.
Como se a casca de uma ferida ...
Tivesse sido reaberta bruscamente...
Num único puxão.
Parecia que me faltava algo...
Algo importante.
Que eu não conseguia nomear ainda.
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