Sangue Obediente
4 Capítulo 3
Com as mãos trêmulas e o corpo tomado pelo medo, comecei a guardar as folhas dentro do envelope.
Apurei os ouvidos .
Ele estava no corredor .
Os passos dele se aproximando começaram a pulsar dentro dos meus ouvidos .
Olhei em volta à procura de uma fuga . Debaixo da cama ? Não havia lugar debaixo da cama para me esconder .
Os sapatos de Dante estacionaram perto da porta.
Voltei minha atenção para o guarda-roupa.
A maçaneta girou.
Corri rápido na direção do meu futuro esconderijo.
Em seguida a porta cedeu do outro lado .
Onde estava o meu celular ?
Apalpei os bolsos . Vazios.
Droga!
Lembrei então da escrivaninha e da minha xeretisse anterior.
Corri pra lá em dois tempos.
Onde eu estava com a cabeça para deixá-lo ali , num lugar tão nada cara como aquele ?
Estiquei o braço e peguei o aparelho .
A porta se abriu por completo .
E a do armário se fechou junto comigo .
***************
Que adrenalina meu Deus ! Pensei enquanto tapava a boca a fim de abafar minha respiração. O armário era apertado , atulhado de ternos , me embrenhei entre eles e me agachei com os olhos fitos nas frestas.
Dante ligou o interruptor e uma luz branca dessas que se irradiam das lâmpadas de Led iluminou todo o quarto .
Fiquei surpreendido.
À primeira vista , assim um pouco de longe , ele se assemelhava a um humano comum .
Seus cabelos eram castanhos escuros ondulados, as pontas cortadas na altura do queixo . Tudo em seu rosto era dentro do padrão. Na realidade, o cara se assemelhava a um desses modelos que desfilam em Paris .
Sua pela era pálida, mas não um tipo de pálido que faz a gente estranhar e se perguntar se o dito cujo é um fantasma ou um vampiro . Há muitas pessoas pálidas por aí e esse cara seria apenas uma delas.
Os olhos dele, como pude perceber, eram verdes, uma preciosidade que aproximadamente 2% da população mundial possuía . O engraçado é que ele não era uma pessoa e nunca estaria incluído nesses dados .
Além disso , ele era bem alto . Tenho 1.67 de altura . Se eu ficasse ao lado de Dante ficaria mais ou menos na altura dos ombros dele .
Fiquei na minha , mal conseguindo respirar direito . O armário em que eu estava era bem abafado . Estava ficando todo suado .
Comecei a avaliar se havia sido uma boa ideia entrar na casa desse sujeito para bancar o detetive …
Dante se afastou da porta , embora fosse relativamente alto sua postura ao andar era bem elegante . Ele colocou sua maleta sobre a cama e eu me inclinei um pouco mais para frente para espiar melhor , nesse meio tempo uma peça de roupa com cabide e tudo caiu bem cima da minha cabeça .
Ele ficou parado no mesmo lugar como se tivesse descoberto alguma coisa . Quase falei um palavrão, mas fechei a boca antes de verbalizar minha indignação.
Dante ficou mais ou menos um dez segundos parado , escutando …
E eu, dentro do armário, fechei os olhos e mesmo não sendo um cara muito religioso comecei a rezar mentalmente.
Então escutei os passos dele .
Abri os olhos .
O meu coração pulsava em meus ouvidos .
Será que ele as estava escutando ?
Ele saiu de onde estava e seguiu em direção ao compartimento em que eu permanecia escondido .
Instintivamente, peguei o cabide que havia caído bem na minha cabeça e esperei .
Era uma ideia muito estúpida pensar que eu teria alguma … chance.
Parou em frente ao armário em que tinha me escondido .
Apertei o cabide entre os dedos .
Se Dante abrisse o armário eu pularia em cima dele .
Ah, meu Deus… eu estava ferrado.
Ele , no entanto, puxou a porta ao lado da minha e deu meia volta , quando chegou perto da cama vi que segurava um robe preto .
Dante deixou o robe em cima da cama e depois começou a tirar o blazer , em seguida desabotoou os botões da camisa social , o cara fazia tudo isso numa tranquilidade que faria qualquer um dormir enquanto assistia toda essa papaguaiada , menos eu , é claro , já que o meu caso era de vida e morte.
De repente, ele estava com a parte de cima do corpo toda exposta . E como o cara era pálido Deus do céu! Parecia que havia esquecido de tomar sol por uns cem anos mais ou menos .
Ele era não apenas pálido , mas também relativamente forte, como um cara que frequenta razoavelmente a academia ; mas não um forte exagerado ou extravagante , mas do tipo que as pessoas ficam de olho quando o sujeito tira a camisa para se exibir.
Além disso , as veias do seu pescoço eram sobressalentes de um modo exagerado , sobrenatural .
Tive a impressão de que se eu ficasse bem ao lado dele sentiria muito frio , como se estivesse perto de um iceberg na Antártida.
O fato era que a situação estava ficando embaraçosa, como se eu estivesse assistindo stripe ao VIVO !
Ele se sentou na cama , tirou os sapatos ... As meias ... dobrou o blazer e a camisa social de um modo caprichoso e correto , depois dessa concluí que esse sujeito era no mínimo irritantemente perfeccionista.
Após todo esse ritual , Dante retirou o restante da roupa e as dobrou em cima da cama com o mesmo cuidado que tivera com as outras peças .
Muito bem , eu estava dentro de um armário espiando um cara nu que eu julgava ser um vampiro . O quarto não era meu , nem o apartamento, muito menos o armário. Se o que eu estava vivenciando fosse um delírio certamente já estava passando dos limites .
Dante permaneceu alguns segundos perto da cama , as costas voltadas para mim .
Como da primeira vez que ele entrou no quarto , ficou parado ali como uma dessas estátuas de mármore branco que encontramos nos jardins de casas antigas , tive a mesma impressão de antes :
Que ele estava escutando, sentindo sei lá o quê ... o fato era que olhar para ele me dava uma estranha sensação de familiaridade.
Depois de alguns segundos ele voltou ao seu normal , pegou o robe e o vestiu; consequentemente , me afundei no meu esconderijo , todo suado , morrendo de calor e com a camisa banhada de suor .
Se eu quisesse sair daquele armário teria de pensar em uma estratégia que me tirasse vivo dali , afinal eu entraria no trabalho às nove da manhã.
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