Dona Lurdes estava certa, acordei com uma dor de cabeça danada. Na verdade, parecia que havia um sino tocando dentro da minha cabeça, que não parava mesmo quando eu fechava os olhos. Pelo menos, não havia acordado atrasado. Acordei umas sete da manhã, e meu humor estava péssimo.

Meu dia na empresa foi um saco. A supervisora ficou no meu pé o expediente inteiro; mal eu me movia para fazer qualquer coisa, a mulher já me olhava de cara fechada.

Não estava com paciência para picuinhas. Fiz o meu trabalho ignorando as olhadelas dela e, no final de tudo, mal havia me dado conta da hora do almoço.

O Carlos estava de folga nesse dia, então almocei com alguns colegas de trabalho num restaurante self-service que ficava a umas duas quadras da empresa. Normalmente, Carlos e eu comemos juntos no restaurante de comida caseira que ficava um pouco longe do trabalho. Íamos no carro dele.

Seguimos a pé mesmo, debaixo de um sol de 28 graus. Não estava muito a fim de comer, mas, como não queria fazer desfeita para os meus colegas, acabei indo mesmo assim.

Foi um almoço descontraído. Minha dor de cabeça até havia passado um pouco, e meu mau humor havia dado uma melhorada. No final do dia, tudo o que eu estava sentindo de ruim havia passado.

Voltei para casa assobiando “O Astronauta de Mármore”. Na esquina de casa, minha canção murchou subitamente.

Dante estava saindo do prédio.

Maleta na mão.

Usava colete preto por cima de uma camiseta social branca dobrada na altura dos cotovelos e calças sociais da mesma cor.

Estava bem elegante, na verdade. Talvez fosse com toda essa elegância que o cara atraía suas vítimas.

Dante seguiu pela calçada à direita, o que era, digamos, incomum. Na última vez em que eu o tinha espionado, ele havia atravessado a rua, porque esse era justamente o caminho para a faculdade. Por que diabos ele estava indo para um caminho completamente diferente agora?

Esperei ele dar uns vinte passos, depois atravessei a rua e comecei a segui-lo. Era a primeira vez que eu seguia alguém, mas fazer isso me trouxe uma espécie de déjà-vu que não sei de onde veio.

Eu estava com medo?

Meu coração pulsava a mais de noventa batidas dentro do peito; no entanto, todo esse medo não vinha sozinho. Havia um quê de adrenalina percorrendo o meu corpo, e eu não queria admitir isso.

O cara virou o quarteirão, e eu fui atrás tentando parecer o mais comum dos pedestres, embora às vezes perdesse um pouco da minha paciência com pessoas extremamente lentas que estavam à minha frente e brecavam toda a calçada.

Quase o perco de vista por causa desses imprevistos.

Tive que desviar, bater em alguns ombros e praticamente correr para chegar ao fim da esquina.

Por sorte, cheguei a tempo de ver o sujeito passar pela porta de um café que ficava do outro lado da rua.

Le Petit Café, o nome do lugar.

Confesso que é a primeira vez que bato os olhos neste estabelecimento.

Esperei uns dez minutos mais ou menos, depois atravessei a rua, segui até o café e empurrei a porta.

O guizo acima da porta tocou simultaneamente quando eu a empurrei.

Alguns olhares se voltaram para mim. Abaixei os olhos de imediato e, por um momento, tive vontade de sair correndo, mas tomei coragem e saí de perto da porta à procura de uma mesa.

O café estava lotado.

Os clientes vestiam-se bem e pareciam ser de classe média alta.

Fiquei um pouco sem jeito, pois eu ainda estava com a roupa de trabalho, a mochila nas costas e todo suado.

Bem, na verdade, esse lugar não era um espaço adequado para mim ou para qualquer outra pessoa que trabalhasse oito horas por dia recebendo ordens dos outros.

Me senti desconfortável, ah, mas que se dane! Esta era a coisa menos importante para mim naquele momento.

Continuei a andar entre as mesas lotadas, desviando das cadeiras, dos pés das pessoas e me desculpando ocasionalmente por bater o cotovelo na cabeça de alguns clientes.

Parei subitamente.

Ele estava de costas em uma mesa ao fundo do estabelecimento, perto de uma janela de madeira com samambaias penduradas na parede.

Dante estava sozinho numa mesa para dois. Talvez estivesse esperando por alguém? Talvez uma namorada? De acordo com toda a minha bagagem cultural de filmes cults, vampiros têm vítimas, e não namoradas.

Droga! Provavelmente ele está caçando...

Como as únicas mesas desocupadas eram as que ficavam em volta dele, optei por puxar uma cadeira perto do balcão e ficar por ali mesmo, espiando discretamente os movimentos do cara.

— O senhor vai querer alguma coisa?

Olhei para frente e me deparei com uma mocinha parda de avental preto e lenço da mesma cor na cabeça.

Peguei o cardápio e fiquei chocado com o valor das bebidas. A única coisa baratinha para o meu bolso era a água com gás.

Eu detestava água com gás.

Pedi uma mesmo assim, já que não poderia ficar ali de mãos abanando sem comprar nada.

Fiquei de olho nele o tempo todo, embora tentasse disfarçar algumas vezes. Peguei a água com gás, bebi um gole e olhei as horas no meu relógio.

Quase sete e meia.

O que diabos ele estava esperando?

O cara não tirou os olhos da janela e tampouco tocou na xícara que a garçonete havia colocado à sua mesa há pouco.

Obviamente, um vampiro não tomaria cappuccino, uma bebida consumida por humanos...

Eu estava me sentindo em banho-maria!

Eu já estava ficando puto com a situação. Pensava mesmo em ir até aquela mesa e questionar o que diabos ele estava fazendo ali.

Era uma loucura sem tamanho, eu sei. Era como colocar a cabeça na guilhotina e esperar que a morte não viesse.

Droga!

Realmente eu não queria bancar o idiota, porque de fato seria muita idiotice da minha parte ir até aquele cara e...

Eu estava tão imerso que não percebi quando ela chegou e se sentou diante de Dante.

Amassei a garrafinha pet sem perceber, e algumas gotas de água respingaram na minha calça. A atendente atrás do balcão disse alguma coisa, ao que eu respondi uma bobagem qualquer que nem me recordo direito.

Ela saiu de perto, e eu fiquei ali sentado, olhando para a mesa, agora ocupada por duas pessoas.

A mulher que se sentou diante de Dante era uma senhora alta, de postura elegante, cabelos loiros amarrados num coque, olhos azuis vítreos e rosto comprimido.

Ela tinha uma expressão austera no rosto, marcada por rugas ao lado dos olhos e no canto dos lábios. A senhora parecia ter uns cinquenta anos mais ou menos. E parecia zangada. Tive um pouco de medo dela, devo confessar.

Tentei não olhar tanto para eles, mas, sempre que desviava os olhos, algo me puxava novamente para esses dois. Eu simplesmente não conseguia olhar para qualquer outra coisa que não fosse eles!

Estava me sentindo torturado.

Impelido.

Manipulado.

Peguei a garrafinha em cima do balcão. Virei todo o conteúdo garganta abaixo. Ainda estava com sede.

Amassei a garrafinha.

Olhei para eles.

Apurei os ouvidos de imediato; no entanto, havia outras vozes, outras conversas, outras pessoas...

— Por que me chamou para um lugar desses? Seria mais adequado se fôssemos para um local menos... barulhento.

— Me poupe de suas convenções. Não viemos aqui discutir meras banalidades — a mulher falou de um jeito amargo. — Ou você acha que o assunto em questão é uma banalidade?

Dante voltou os olhos para a janela.

— Você sabe que não. — Ele respondeu de modo incisivo.

— Dante, você não deveria estar aqui. É como dar um tiro no pé, como os humanos dizem.

— Desde quando a senhora usa ditados humanos para me aconselhar? — Tive a impressão de que ele sorria enquanto falava.

— Quer que eu fale sobre os humanos? Eu não me acho tão entendedora. Você talvez possa falar mais deles do que eu.

Havia tanta ironia naquela conversa que tive ânsias de vômito.

— Um vínculo é algo eterno, a senhora sabe disso. Não pode ser quebrado. Ou negociado. Eu simplesmente não poderia abandonar...

— Você fez o que tinha de fazer — a mulher logo explicou. — E retornou porque resistir nunca foi o seu ponto forte.

— Essa não é a questão.

Havia uma nota de irritação na sua voz.

— Então qual é a questão?

Forcei minha audição.

— Senão a sua... por humanos... particular.

As palavras daquela mulher saíram picadas. Nem se eu tivesse uma super audição poderia entender o que ela dizia.

— Você acha que eu não te vi aí?

Dei um pulo da cadeira.

— Parece que suas habilidades de enfiar o nariz onde não é chamado pioram um pouco...

Era como se uma voz masculina estivesse sussurrando ao pé do meu ouvido.

A atendente me olhou com estranheza. Para disfarçar, disse que já queria fechar a conta. Nesse meio-tempo, olhei para a mesa que ambos ocupavam. Não havia ninguém ali. A mesa estava completamente vazia. As duas cadeiras, desocupadas.

O que estava acontecendo?!

Dei o dinheiro para a mulher enquanto olhava para todos os lados possíveis daquele café. Eu estava delirando? Não era possível! Eu sei o que vi!

— Escuta — falei para a mulher atrás do balcão — aquela mesa ali não estava ocupada antes? — E apontei para a mesa em questão.

Ela me olhou com cara de paisagem, então entendi que minha pergunta foi um tanto estranha. Talvez ela estivesse pensando que eu a estava paquerando? Deixei para lá, peguei o troco e saí do café.

Fiquei parado do lado de fora do estabelecimento, olhando para os pedestres que passavam.

Nenhuma anormalidade.


Enfiei as mãos no bolso e segui pela calçada.


Minha cabeça parecia que ia explodir.


Fui andando meio a esmo.


Fiquei pensando na fala daquela mulher:


“Senão a sua... por humanos... particular.”


Parecia um disco arranhado.


Atravessei a rua meio que sem olhar.


Um erro bobo.


Escutei uma buzina histérica.


Impaciente.


Olhei para o farol bem na minha cara.


Era uma luz amarela que incomodava a vista.


Coloquei as palmas na frente dos olhos.


As rodas deslizaram raspando o asfalto.


Foi um som metálico.


Um eco seco na rua, com cheiro de pneu queimado.


Notas finais
Este capítulo era para ter sido postado no sábado, mas tive alguns problemas na minha conta e não consegui postar no dia combinado . Livro de hoje: Perdidos na Noite, James Leo Herlihy boa leitura e até a próxima 😊