Sangue Obediente
8 Capítulo 7
Estaquei no lugar. Sem reação.
A moto deslizou para um lado e o motociclista para o outro, rolando umas três vezes até terminar de costas no chão. Várias coisas que ele carregava consigo se espalharam pelo asfalto.
O trânsito parou num caos de pessoas se aproximando para ver o que estava acontecendo. Demorei alguns segundos para me desfazer do choque inicial e verificar se o motociclista estava bem.
Uma roda de curiosos o cercou. Pela fresta formada por pernas e braços, vi o homem se sentar no chão, meio desorientado, e retirar o capacete em seguida.
— Estou bem — falou aos que estavam por perto. — Não precisa chamar o resgate.
Fui até ele.
O cara me identificou no mesmo instante.
Massageando a cabeça, comentou:
— Ah, então é você que ficou parado no meio da pista?!Estava querendo morrer, por acaso?
Fiquei sem saber o que responder.
— Levanta a minha moto. Me deve isso, pelo menos.
Cumpri o que ele pediu. Desliguei a moto e a levantei, acionando o descanso lateral em seguida.
Depois fui recolher as coisas espalhadas pelo asfalto.
Peguei duas câmeras fotográficas.
Um bloco de anotações.
Um smartphone.
Conferi a tela. Ela havia trincado.
Droga!
Um estojo preto.
Uma carteira de couro.
E uma espada.
Uma espada?
Cocei a cabeça.
Por que raios o cara carregava um negócio desses dentro da mochila?
Com cuidado, a levantei do chão. Era um pouco pesada sob a proteção da bainha preta, de superfície lisa e aparência de couro.
Contemplei-a de relance.
Ela tinha detalhes metálicos na entrada e na ponta da bainha. Era muito bonita, na verdade, com acabamentos decorativos no encaixe e no pomo arredondado do cabo. Presa à bainha havia uma correia de couro marrom-escuro, fixada por duas presilhas douradas.
Coloquei tudo dentro da mochila, menos a espada. Não havia espaço suficiente para ela, então tive de levá-la na mão.
Tirei a moto do descanso e a conduzi até o dono.
Quando cheguei, o sujeito já estava de pé. A multidão havia se dispersado; pelo jeito, tinham se convencido de que ele estava bem.
Olhou para mim. Era engraçado, mas ele parecia muito com o David Kushner...
— Deixa no canto da calçada — pediu, sem parecer mandão.
Depois que estacionei a moto ali, olhei novamente para ele. Vinha na minha direção, mancando um pouco.
Já não havia ninguém o chateando com perguntas. O trânsito voltou ao normal e as pessoas seguiam pela calçada.
— Você me deve uma vida — resmungou.
Meio sem graça, falei completamente sem jeito :
— Obrigado. Você se arriscou...
Ele ergueu a mão.
Fiquei com a palavra na ponta da língua.
— Não precisa agradecer. Só não faça a besteira de ficar parado no meio da rua.
— Obrigado mesmo assim — insisti.
Ele não disse nada.
Olhei para a perna dele.
— Não é melhor ver como está essa perna?
O cara fez um "tsc" com os lábios e, em seguida, declarou:
— Isso não foi por causa do tombo que levei.
— Então se machucou com essa espada?
Ele franziu o cenho, sem entender. Por causa disso, seus olhos parecem um pouco menores por trás dos óculos quadrados.
Ofereci a espada para ele.
Aí a ficha caiu.
— Por que você carrega uma arma dessas na mochila? Se a polícia estivesse aqui, teria de se explicar.
Ele pegou a espada pelo cabo.
— Não sou um criminoso — disse em voz baixa. — É que eu...
De repente, pareceu constrangido.
Fiquei na expectativa.
— Bem... é que sou cosplayer. É isso.
Não questionei.
— É para um personagem. Por isso a espada.
Parecia justificável.
Quem era eu para investigar o cara?
— Quer que eu te leve para casa? Você não vai conseguir dirigir essa moto direito por causa da perna.
Ele pensou um pouco.
— Não precisa. Eu me viro.
Insisti.
— Olha, não é nada sério. Fica tranquilo, mas...
Ele olhou diretamente para mim.
— Quero o número do seu celular.
— Hã?
— Olha, não estou dando em cima de você. É só para o caso de eu ter quebrado alguma coisa e você precisar pagar.
Não me senti ofendido.
Tirei a carteira de dentro da mochila e ofereci algumas notas para ele.
O cara recusou.
Não fazia sentido.
— É para a tela do celular. Ela trincou.
Ele tirou o aparelho da mochila e conferiu os dois lados. Não pareceu chateado.
— Qual é o seu número?
— ...
Eu quase tinha matado o cara, e ele queria o número do meu celular?
Bem, ele não parecia um stalker.
Falei meu número.
— Qualquer coisa, te ligo — disse com muita naturalidade.
Ele deu uma olhada na moto para verificar se alguma coisa havia sido danificada na queda.
— Qual é o seu nome? — perguntou de repente, enquanto vistoriava as rodas.
Hesitei.
Ele parou o que estava fazendo e levantou os olhos para mim.
— É para colocar na minha lista de contatos. Acabei deixando como número desconhecido.
Se era para isso...
— É Erick — respondi.
— Parece que está tudo certo com ela. Agora é ver se vai ligar.
Nem parecia ter ouvido o que eu disse.
Subiu na moto com dificuldade, colocou o capacete e, em seguida, passou a alça da espada e a mochila pelas costas.
— Vou colocar seu nome nos meus contatos — disse enquanto girava a chave na ignição.
E foi embora como se nada tivesse acontecido.
Eu nem sabia o nome do cara.
Agora ele sabia o meu.
Que furada!
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