No meu andar havia uma idosa que morava com a filha. Elas eram bem discretas, quase nunca saíam depois das sete, salvo nos dias de sábado, quando iam para o culto; um casal que sempre saía às sextas-feiras e voltava quase meia-noite; e o 17, que sempre saía antes das sete e voltava sei lá quando.

Bem, eu estava com sorte, pois era sexta-feira, e o segundo andar estava tão silencioso quanto uma igreja em dia de semana. Entrei no meu apartamento. Coloquei minha mochila em cima do sofá. Conferi as horas: quase sete.

Enquanto esperava alguma movimentação no apartamento ao lado, comi um pedaço de bolo guardado na geladeira, liguei a televisão nos noticiários e fiquei aguardando. A cada dez segundos, eu conferia o relógio, impaciente.

Só esperava que ele não descobrisse que a chave reserva dele havia desaparecido...

Escutei o barulho de uma fechadura sendo destrancada. Grudei a orelha na minha porta para escutar. Depois ouvi alguém fechando a porta e a trancando. Os passos que ecoaram pelo corredor eram de pés calçados com sapatos sociais...

Esperei uns dez segundos. Em seguida, fui para a janela da sala. O trânsito lá fora era constituído por fileiras de carros de cores variadas, e todos aguardavam a abertura do sinal.

Esporadicamente, algum motorista impaciente apertava a buzina; outras vezes, alguém soltava um palavrão desses que se ouvem em bares de esquina. Era no horário de pico, quando praticamente a cidade inteira deixava o trabalho, e todo o estresse da classe trabalhadora transparecia.

Fiquei olhando, atento, a avenida, me perguntando se o sujeito havia se perdido no meio do caminho ou se saiu sem ser visto. Que droga! Será que eu havia dado bobeira? Me debrucei sobre o parapeito e, de repente, o vi deixar o prédio.

Ele se vestia muito bem. Blazer casual preto e calças sociais da mesma cor. Carregava uma pasta-maleta de couro na mão.

Além de ser um vampiro, o sujeito era um gângster também?

Nunca o vi pessoalmente, tampouco sabia o nome dele. Na verdade, não tive coragem de perguntar para a dona Lurdes, pois de antemão já sabia que ela viria com um monte de perguntas.

Bem, o fato é que fiquei olhando enquanto ele atravessava a avenida. Depois, esperei mais uns cinco minutos e só então deixei o meu apartamento.

Como esperado, o corredor estava vazio e parcialmente silencioso. O único som que sobressaía era o da televisão no apartamento 16, no qual a filha e a mãe idosa moravam.

O casal do 18 não havia chegado do trabalho ainda. Provavelmente chegariam em dez minutos e, se o trânsito colaborasse, em quinze minutos, com atraso.

Peguei a chave do 17, girei na fechadura e entrei.

*********

Não acendi o interruptor; não seria ousado a esse ponto, na verdade. O fato é que usei a lanterna do celular e deixei o feixe de luz branca passear pelo cômodo aos poucos.

Era inacreditável. O apartamento dele era… normal. Normal demais para o meu gosto. Como qualquer outro daquele prédio.

Os móveis da sala eram do tipo modulado, e suas cores variavam de madeira avermelhada a um tom mais escuro. Um carpete ocupava o centro da sala, entre dois sofás marrons. Não havia nada de sobrenatural ali. Nada fora do lugar. Era tudo estranhamente ordinário.

A televisão — antiga, de tubo — descansava sobre uma estante pra lá de antiquada. O ar tinha cheiro de coisa velha, de lugar fechado mesmo, como um antiquário.

Havia um pouco de poeira também.

Meu nariz coçou. Espirrei sem querer.

Fiquei parado, esperando alguma reação externa. Nada aconteceu.

Passei a chave na porta e avancei com cuidado, como se temesse despertar os móveis da sala.

Enquanto bisbilhotava, inevitavelmente o feixe da minha lanterna focou o corredor ao fundo da sala. Não era necessário ser muito inteligente para saber que todos os outros cômodos estavam justamente naquele corredor.

A arquitetura dos apartamentos do condomínio era bem parecida, na verdade...

Segui para o corredor.

Foi quando senti algo passando atrás de mim.

Dei um sobressalto. O coração disparou seco dentro do peito. Não havia ninguém ali além de mim. Só os móveis. E o tecido pesado da cortina ondulando levemente.

A janela de correr estava entreaberta.

Então foi com isso que me assustei?

Vergonhoso.

Entrei no corredor me sentindo um tolo.

******

Havia três portas: duas à direita, uma à esquerda.

Testei a da esquerda. Abriu sem resistência.

Com a luz da lanterna, vi que se tratava do banheiro: pia, privada, box. Nada que eu não tivesse visto na minha própria casa. Fechei a porta e voltei-me para a outra parede.

A primeira porta estava trancada. Não insisti.

A segunda cedeu sem problemas. Vi os contornos dos móveis de um quarto e entrei.

Optei por não ligar o interruptor.

Com a luz da lanterna, vi uma cama de casal box e uma mesa de cabeceira ao lado. Na parede à esquerda, havia uma espécie de escrivaninha com cadeira e espelho. Sob a escrivaninha, havia alguns livros, cadernos e envelopes de papel pardo. Achei que ali era um bom lugar para xeretar.

Na parede paralela, um guarda-roupa enorme de casal, com seis portas. Como eu não era nenhum tipo de designer de interiores, fui direto ao ponto mais interessante do quarto.

Dei uma olhada rápida nos livros.

Eram, em sua maioria, de literatura.

Puxei a cadeira e sentei.

Isso era estranhamente familiar e incômodo. Por um breve instante, voltei aos velhos tempos de faculdade. Letras. Uns cinco anos atrás. Isso foi em outra época. Outra vida.

Folheei os cadernos.

Mapas conceituais sobre a literatura portuguesa, anotações sobre livros e planejamento de aulas. Fiquei um pouco chocado e entrei em negação.

Planejamento… de aulas?


Franzi a testa, incrédulo.


Isso não fazia sentido.


Esfreguei os olhos; eu estava enxergando muito bem, não havia erro.

Essa história não batia muito bem! Por que um vampiro planejaria aulas? Peguei um dos envelopes e retirei algumas folhas.

Meu olho bateu no cabeçalho da primeira delas:


Faculdade São Camilo.


O nome do morador do 17.


Dante Alencastro.


Sem querer, acabei recordando de Dante Alighieri. Os nomes tinham sonoridades parecidas, na verdade.

Soltei um riso seco, sem um pingo de humor.

Mas não era só isso.

O cara era professor de literatura.

Professor.


De.


Literatura.


Entendem?


Essa descoberta explodiu a minha mente!

Deixei os papéis um pouco de lado.

Um vampiro… dando aula?

Vampiros hipnotizam pessoas e conseguem dinheiro de graça. Pelo menos é assim nos filmes de Hollywood.

Um vampiro não precisa se dar ao trabalho de ser um CLT.

Se uma coisa dessas estava acontecendo atualmente, era porque a situação estava bem feia.

Não tenho ideia de quanto tempo fiquei ali.

Só sei que, de repente, escutei o som da chave girando na fechadura.

Entrei em pânico.

Meu corpo reagiu antes de mim.

Levantei num salto, o coração quase saindo pela boca.

Olhei para o relógio.


Quase nove da noite.


Esse não era o horário dele.


Era cedo.


Cedo demais.