Ana

Minha avó ensanguentada me olhava há metros de distância, suplicando que a salvasse. Meus pés patinavam sem sair do lugar quando tentava alcançá-la e minha voz não saía quando tentava gritar.
A sombra escura do garoto surgiu atrás dela, agora um pouco mais nítido, mas ainda borrada e irreconhecível.
Seu arpão (que agora identifiquei como uma lança) emitia uma aura prateada enquanto ele a apontava para a garganta dela.
Ele olhava pra mim como se me desafiasse a fazer alguma coisa e isso deixava a experiência ainda mais apavorante. Seu sorriso era lindo e demoníaco na mesma medida.
Logo em seguida veio a gargalhada.
Aterrorizante. Maligna. Infernal.

Acordei ensopada.
E frequência do pesadelo tinha aumentado. Lágrimas secas em meu rosto, testemunhas do meu desespero. O gosto amargo do luto estava difícil de engolir.
Seria esse o sentido da vida? Viver na entrega pelo outro, se comprometendo a levar conhecimento e educação pras pessoas, sem nem sonhar em enriquecer com isso; e morrer na escola em que passou a vida toda dando tudo de si?
A família toda juntava os pedaços para se recuperar. Vovó era muito querida. Querida por todos que a conheciam. Também por esse motivo, a polícia tinha dificuldades em estabelecer por que isso aconteceu com ela. Não havia suspeitos.
O dia amanheceu timidamente, o céu estava nublado.
Após me arrumar, sentei-me a mesa onde apenas Mônica e Mateus me acompanhavam para o café da manhã. Mônica parecia melhor, mais conformada pelo menos. Até Mateus que costumava levar tudo na brincadeira tinha sentido com tudo o que tinha acontecido, e hoje ele parecia mais abalado que sua irmã.
O enterro fora há dois dias e todos já se preparavam para voltar à São José.

Foi uma cerimônia solene, abarrotada de pessoas que queriam prestar suas homenagens. Funcionários de todas as áreas da escola, alunos, vizinhos e familiares.
Vovó estava com o rosto sereno, parecia até estar dormindo, coberta com flores brancas até o tronco, escondendo o buraco que a facada mortal deixara em seu peito.
Minha mãe e minhas tias fizeram um discurso emocionante, cada uma contando histórias antigas, algumas até engraçadas, que tiraram risos emocionados de todos que ali estavam.
Havia uma garota com cabelos vermelhos que a destacavam na multidão. O vento os fazia dançarem pelo ar como labaredas de fogo escuro. O batom realçava seus lábios em tons de pimenta, que davam a ela um ar sensual e poderoso. Sua pele clara em contraste com suas roupas pretas estavam coradas devido ao sol daquele fim de tarde.
Os óculos escuros escondiam seus olhos e ressaltavam as maçãs do rosto. Ela parecia emocionada, talvez até estivesse chorando, mas não era possível ver através das lentes escuras.
Ela estava acompanhada por um homem elegante vestido com um terno caro. Seus cabelos, cuidadosamente cortados, eram de um grisalho que jamais vi antes. Pareciam cinzas apagadas numa lareira aconchegante.
Ele, apesar de não se assemelhar a garota, abraçava-a num ar muito paternal. Ele olhava fixamente para o caixão, os olhos marejados de incredulidade.
Cutuquei tia Vera para perguntar quem eram eles. Ela me disse que vovó dava aulas particulares para a garota, a casa dela ficava a algumas quadras de distância. O nome dela era Maria. O homem, tio dela, era Emanuel.
Ao final da cerimônia, olhei novamente para os dois, pareciam recompostos. Eles se aproximaram do jazigo, onde o caixão já tinha sido içado.
Emanuel levava consigo um saquinho surrado. Ele murmurou algumas palavras ininteligíveis, que tiraram um sorriso de Maria, enquanto despejava o conteúdo do saquinho em cima do caixão. Parecia terra seca ou areia. Fizeram isso discretamente.
Eu fiquei observando-os enquanto iam embora. Maria olhou para mim, tirando os óculos delicadamente. Seus olhos escuros, eram de um tom de castanho-avermelhado, como dois rubis a me encarar em desafio. Então abriu um sorriso: ela sabia que estive observando-a por todo esse tempo.



Sam

Conhecer Sofia havia colocado certo ânimo em minha vida. Nos aproximamos muito nos últimos dias.
Almoçamos juntos durante todos os dias, conversando e rindo muito. Ela me contou sobre sua amiga que tinha ido pra São Paulo para o enterro da avó que havia sido morta. Me contou o quanto eram próximas e o quanto estava preocupada, e frustada por não poder acompanhá-la na viagem por conta do trabalho.
Quando não estávamos juntos no trabalho, nos comunicávamos através de mensagens por um aplicativo de celular. Sempre compartilhando momentos e risadas espontâneas.
Ela tinha se tornado a parte boa dos meus dias. Pra variar um pouco o inferno que era minha casa...

Era minha primeira folga, e senti certo vazio com a quebra da rotina.
O dia em casa foi o mesmo de sempre: acordei, briguei com meu pai; brigamos no café da manhã, no almoço e à tarde; dei minha opinião sobre a política no país, ele discordou — brigamos de novo.
Meu pai era uma pessoa extremamente conservadora, autoritária e machista. Suas opiniões sempre tinham que ser ouvidas como lei, suas vontades, atendidas prontamente. Qualquer coisa que fugisse disso era encarada como um insulto gravíssimo e punida com palavras violentas e medidas severas. Afinal, ele era O Homem da casa.
Meus dois irmãos mais velhos tinham saído de casa para viver suas vidas. Apenas eu, minha mãe e minha irmãzinha tínhamos ficado.
Minha mãe se desdobrava em mil cuidando da casa e da educação dos filhos, e ainda trabalhava como faxineira no hospital público da cidade. Meu emprego ajudaria na renda da família, já que o último trabalho do meu pai fora há sete anos, e ele não se esforçava o mínimo para conseguir o próximo.

Logo já havia anoitecido.
Sentei-me ao sofá da sala junto de meus familiares. Algum programa bobo de esportes passava na velha TV "de tubo", prendendo a atenção do meu pai como se sua vida dependesse disso. Minha mãe, com o rosto exausto, segurava Duda (minha irmãzinha) no colo enquanto ela dormia tranquilamente.
Ela também estava de folga, mas os afazeres de casa e a energia de Duda, cansavam-na tanto quanto seu trabalho no hospital.
Uma manchete na TV interrompeu o programa do meu pai, causando uma espécie de afronta nele. O repórter seguiu rapidamente com a notícia:

"Interrompemos a programação para transmitir algumas notícias de última hora: O corpo de uma jovem foi encontrado há alguns instantes num córrego na Zona Sul da cidade. A jovem de aproximadamente 20 anos estava nua e seu sangue foi totalmente drenado do corpo por métodos ainda não explicados até o momento. Já é o quarto caso registrado sob as mesmas circunstâncias. Suspeita-se que as mortes estejam sendo causadas por algum culto em rituais de magia negra. A polícia decretou toque de recolher às 20:00 a partir desta noite, em toda cidade, até segunda ordem. Qualquer cidadão encontrado na rua depois desse horário poderá ser conduzido a delegacia para prestar esclarecimentos.
Voltamos a nossa programação habitual e em caso de qualquer novidade, a transmissão poderá voltar a ser interrompida. Boa noite. "

— Quem quer saber o que acontece nesta cidade de merda?! — exclamou meu pai, indignado. — Essa garota teve o que mereceu. "Isso que dá", uma mulher ficar "caçando assunto" na rua à essa hora, quando deveria estar em casa lavando louça ou preparando o jantar. — bradou ele, cheio de si. A voz carregada de arrogância e desprezo.
Aquele mesmo desprezo no modo de tratar minha mãe, que não sei por que motivo se mantém submissa à ele, ou o mesmo desdém ao se referir a qualquer mulher. E isso me tira do sério.
Eu respirei fundo, prestes a protestar, mas meu celular tocou: era Sofia.



Ana

Mônica e eu vasculhamos a caixa toda que vovó havia me deixado. Não havia nada que parecesse importante ou valioso. Apenas velhas e estranhas quinquilharias, algumas inclusive, quebradas. Haviam: um par de óculos redondos sem lente, uma luva sem par, um colar de contas e sementes, um pedaço de corda fina, algumas fotos antigas de pessoas que jamais conheci, uma capa velha de seda cinza, moedas antigas, alguns vidros com pós e líquidos dentro, uma agenda velha e amarelada escrita numa língua estranha, entre outras coisas pequenas que não nos interessamos.
Vovó havia deixado um colar de ouro para Mônica, minhas tias diziam que ela jamais tirava-o — E eu fiquei com as bugigangas.

Meu celular tocou: era uma mensagem de Sofia.

"Amiga, como você está? Volta quando?Estou com saudades. Beijos."

Respondi a mensagem rapidamente enquanto Mônica esperava para conversarmos. Ela parecia um pouco impaciente:

— Pode falar, Mô.
— Estive pensando... — começou ela.
— Sobre? — indaguei.
— Sobre aquela tal de Maria e o tio dela. Tia Vera disse que vovó andava dando aulas particulares pra ela. Elas andavam bem próximas, antes da morte dela. Acho que vale a pena ir até ela e fazer algumas perguntas. E se ela sabe de algo que ajude a descobrir quem fez aquilo com a vovó? Seria a última chance que temos de ajudar a descobrir algo, afinal estamos quase de partida para São José.
— Mas a vovó apenas dava aulas a ela, Mônica. Isso não significa que elas eram tão próximas assim. — disse, mas sem muita certeza do fato em si.
— Receber aulas particulares, não. Mas ela foi até o velório. Algum tipo de sentimento ela devia ter pela vovó. — disse Mônica, levantando as mãos.
Ela tinha razão. Pensei no pior inclusive: e se ela e seu tio tivessem alguma coisa a ver com o crime? E se ELES tivessem cometido ou sido mandantes do crime, por algum motivo que desconhecíamos?
Esses pensamentos eu guardei apenas pra mim:

— Você pode ter razão. Vamos agora mesmo para lá. — respondi.

Peguei o carro da tia Vera emprestado e o endereço da casa de Maria. Eu e Mônica logo seguimos por entre as ruas movimentadas da cidade. Não era realmente tão longe da casa da minha avó.
Ao entrar na rua indicada pelo GPS como sendo a rua de casa, nos deparamos com uma calmaria inesperada. Era como se essa rua ficasse isenta de toda a agitação de São Paulo.
Passamos em frente a uma casa de remédios naturais onde uma grande faixa exibia o nome do local: Loja de Ervas da Tia Madá. Uma pequena placa na parde logo abaixo da faixa informava que os remédios naturais para emagrecimento estavam com 40% de desconto esta semana. Na entrada, uma mulher magra de cabelos grisalhos e óculos quadrados fumava um cigarro de palha. Suas roupas faziam com que parecesse uma cigana, com cores berrantes e totalmente destoantes. Parecia a dona do local.
Mais a frente, duas garotinhas batiam corda enquanto uma terceira pulava, cantando cantigas antigas que me lembraram minha infância.
Encontramos o endereço.
Descemos do carro e nos demos conta de que não tínhamos idéia do que falar. Mas seguimos em direção ao grande portão de ferro maciço que guardava entrada do que parecia uma mansão, rodeada por muros de concreto imensos. Havia um interfone ao lado do portão.
Mônica adiantou-se tocando o botão uma vez. Passaram-se alguns instantes e não houve nenhuma resposta.
Olhei ao redor, mas nem as garotinhas e nem a dona da loja de artigos naturais pareceram ao menos perceber a nossa presença. Algo soava extremamente estranho com esse lugar.
De repente, alguns chiados seguidos de uma voz clara e grave saíram do auto-falante do interfone:

— Quem é?
— Olá. Boa tarde! — começou Mônica. — Somos Mônica e Ana, netas da Elisa. Vimos vocês no velório e...
— Podem entrar. — interrompeu o homem que, aparentemente era Emanuel, com uma voz fria e calma. — Já vou abrir o portão.



Sam

Toda a raiva pelo que meu pai havia dito desapareceu num instante. Uma sensação de euforia se apoderou de mim violentamente, fazendo com que eu esquecesse de tudo a minha volta. Apenas o desejo desesperado de ouvir a voz dela permaneceu.
Era estranho perceber que mesmo em tão pouco tempo de convivência, ela me causava essa sensação de alívio e tranquilidade.
Saí de sala sem responder meu pai, que prosseguiu com seu discurso horroroso, e fui pro meu quarto. Algumas discussões não compensam o trabalho.
Atendi a chamada no quinto toque:

— Oi Sam! — disse ela.

"Será que esse tom foi de entusiasmo?"

— Oi Sofia! Tudo bem? — disse eu, com certo entusiasmo exagerado.

"Droga Sam! Se controle!"

— Tudo sim. Te atrapalhei em alguma coisa?
— Claro que não! — respondi. — Na verdade, você me poupou de uma discussão chata e sem conclusão.
— Seu pai outra vez... Acertei?
— É sempre ele...
— Está afim de sair? Conheço um lugar que vende o melhor lanche do mundo. A gente pode conversar e rir um pouco, para compensar o fato de não termos almoçado juntos hoje. — disse Sofia.
— Verdade. Mas... — eu me lembrei do toque de recolher que havia acabado de ver no noticiário.

"Mas eu queria tanto vê-la..."

— Mas...? — disse ela.
— Vi hoje no noticiário... sobre o toque de recolher e tals... — disse a ela, desanimado.
— Eu te busco aí e vamos no meu carro. Um pouco de contravenção não faz mal a ninguém. — algo na voz dela me deu a impressão de que ela realmente precisava sair.
— Tudo bem então. Quanto tempo? — perguntei enquanto tirava a camiseta, seguindo em direção ao guarda-roupas.
— Passo aí em 30 minutos, ok? — disse ela, a voz animada.
— Ok. — respondi.

"Vestir a camiseta com uma mão enquanto se tenta falar ao celular com a outra é difícil pra caramba!"

Desliguei a ligação ao mesmo tempo em que cheirava em baixo do braço — Eu realmente precisava de um banho.
Liguei o chuveiro enquanto escovava os dentes. Cuspi a espuma da boca enquanto fazia mais espuma ainda com o sabonete pelo corpo todo. Enxaguei a espuma do corpo enquanto aplicava xampu em meus cabelos pretos, notando que chegavam quase até os ombros.
Em instantes já estava vestido, penteado e perfumado. Sofia era pontual.
Ela estava linda, vestida com um jeans que acentuava bem suas curvas e uma blusinha branca, o tecido leve esvoaçando com o vento calmo daquela noite estrelada. Calçava botas marrons simples, e por sua alta estatura, não possuiam saltos. Seus cabelos loiros estavam amarrados num rabo de cavalo que davam destaque aos grandes brincos de argola que pendiam de suas orelhas.
Ela não usava tanta maquiagem e o batom era fraco, num tom de matte, que a deixavam deslumbrante justamente pela simplicidade.
Senti-me um tanto envergonhado pela simplicidade de minha casa humilde. A mãe dela era dona da maior loja esotérica da cidade. Não bastando isso, ela ainda havia recebido uma herança generosa do avô de Sofia. Em minha casa, mal ganhávamos o suficiente para sobreviver.

Antes de entrar no carro, dei uma última olhada, e de relance, pude ver meu pai nos observando através da janela da sala.
Sofia sorriu quando sentei-me ao seu lado no banco do carona. Logo já estávamos à caminho da lanchonete, rindo e cantando. Toda aquela energia ruim da minha casa ficando pra trás:

— Teve notícias da sua amiga Ana? — perguntei.
— Mandei mensagem pra ela hoje mais cedo. Ela disse que estava melhor, que ela e a família estão decidindo quando voltar.
— Entendi. Ainda não a conheço mas desejo que eles consigam se restabelecer.
— Ela e a mãe já passaram por muita coisa. Mas são pessoas muito fortes. Vão ficar bem. — disse ela.
— Você também me parece bem durona. Suponho que essa força venha da sua mãe também.
— Pelo contrário. — sua feição mudou totalmente. Ela estava dura e séria, os olhos cheios de ressentimento. — Quando se tem uma mãe que parece viver em um mundo paralelo de fantasias e loucura, nós temos que amadurecer mais cedo à força.
— Todos nós acabamos vivendo em mundos diferentes. No fim das contas, apenas coexistimos. — disse, pensando em minha própria família. Meu próprio mundo de caos.
— Alguns preferem se perder em seu próprio mundo. Ignorando a existência da realidade. — disse Sofia. — Minha mãe vive para aquela loja. Se perdendo entre livros, pedras e incensos, tive que ter muita força pra correr atrás dos meus sonhos e do que realmente quero. Ela queria que eu seguisse seus passos com a loja esotérica. Mas eu tinha outras prioridades. Isso acabou nos afastando bastante.
— Eu entendo. Às vezes, ter a força para correr atrás dos próprios objetivos acaba sendo a coisa mais difícil que temos que fazer na vida. — concluí.
O resto do caminho foi silencioso. O assunto da mãe de Sofia mexia muito com ela, e de certo modo, fiquei feliz por ela ter compartilhado isso comigo. Mesmo que o assunto tenha pesado um pouco nosso clima.

A lanchonete estava praticamente vazia. Eu me senti mais a vontade. Não gostava de aglomerações.
Sofia e eu nos sentamos e pedimos nossos lanches. A feição dela havia melhorado. Ela estava sorrindo de novo.
Conversamos sobre tudo enquanto comíamos. Ela acreditava nas mesmas ações políticas que eu, e falávamos disso sem parecer piegas. Tudo sempre acabava com nós dois fazendo piadas e rindo. Falamos brevemente sobre as notícias que havia visto na TV, e ela achava que provavelmente era alguma disputa entre facções criminosas da cidade.
Foi então que ela entrou no assunto de namoro. Ela me contou sobre os dois únicos namorados que teve na vida. Sobre como terminaram mal. Um, era um babaca que preferiu as drogas e a farra do que firmar um compromisso sério com ela. O outro, um pouco mais sério e recente, havia sumido sem deixar vestígios, abandonando-a em um dos períodos mais difíceis com sua mãe. Ele não atendia mais suas ligações e nem respondia mais suas mensagens. Quando ela ia até sua casa, sabia que ele estava lá mas ele jamais a atendia. Então, depois de insistir tanto, ela desistiu. Foi quando conseguiu o emprego e focou em sua carreira, deixando as relações amorosas de lado.
Quando ela perguntou de mim, sobre minhas experiências, me dei conta que não tinha nenhuma. Exceto uma paixonite do ensino fundamental, que jamais tivera coragem de declarar:

— Mais ninguém? Vamos Sam, diga a verdade! Estamos sendo sinceros aqui! — insistiu ela, sorrindo.
— Eu sou realmente tímido, se você ainda não percebeu. Se fazer amigos já é tão difícil para mim, imagina algo a mais do que isso... — confessei.
— Não percebi porque você não é tímido comigo. Nós conversamos sobre tudo. E você sempre foi tão aberto comigo... — disse ela, pegando em minha mão. Eu fiquei vermelho na mesma hora. Podia sentir minhas bochechas queimando.
— Você é diferente... — tentei me defender.
— Não sou não. Dois braços, duas pernas, dois olhos, uma boca... — brincou ela, ajeitando o cabelo com a mão livre.

"Uma boca... ai meu deus! E que boca..."

— Talvez seja intimidação. Como não fazer o que você manda? — Tentei brincar.

"Que merda, Sam. Você é medíocre."

— Humm... Então o que eu te mandar fazer, você faz? — disse ela, abrindo um sorriso malicioso.

"Satanás está trabalhando hoje. Só pode."

— Depende... Se isso não pusér em risco a minha vida... — foi só o que consegui responder. Ela riu.
— Você é um fofo, sabia?
— Sou ursinho de pelúcia nas horas vagas.

"Puta que pariu! Eu não falei isso!"

— Agora você pegou pesado. — disse ela, forçando uma carinha de decepção.

"Feliz agora, seu idiota?"

— Falei merda, né? Desculpa. — falei, totalmente constrangido.
— Não. Não foi o que você disse. — disse ela alarmada. — É que eu... — o celular dela começou a tocar. Ela atendeu.
Era a mãe dela, pelo que pude entender. Ela tagarelava sem parar, interrompendo Sofia quando ela tentava falar. Parecia sério.



Ana

Ouvimos um clique no portão e ele abriu sozinho, emitindo os ruídos das engrenagens mecânicas trabalhando.
Uma passarela de pedras abriu-se a nossa frente, ladeada de grama verde e bem cuidada. O terreno era enorme e se estendia amplamente ao redor da mansão.
A mansão parecia um castelo sombrio com suas paredes de pedras cinzas, repleta de janelas que se estendiam até um andar superior. Nos telhados do segundo andar, estátuas apavorantes de criaturas aladas e ferozes jaziam ajoelhadas como terríveis sentinelas. Uma torre se erguia mais alto do que tudo ali, sua ponta era ladeada de estátuas de anjos com espadas, também em posição de guarda. Um lugar belo e elegante em sua tenebrosidade.
Chegamos a grande porta de ferro que levava pra dentro da mansão, onde Emanuel já nos esperava.
Ele vestia um terno preto completo, os braços cruzados, e nos olhava com curiosidade. Deu as costas pra nós fazendo sinal para que o seguíssemos.
Mônica olhou para mim, procurando aprovação e eu fiz que sim com a cabeça. Entramos. O lugar parecia ainda mais enorme por dentro. Enorme, rústico e elegante. Decorado com quadros de pinturas que pareciam caríssimas. Uma em particular me chamou a atenção: era uma batalha que tinha duas frentes armadas com armas que pareciam medievais. De um lado, todas as pessoas com armaduras tinham tons em dourado resplandecente. Do outro, tinham tons escuros de vermelho, também todos com armaduras. "A luz e as trevas", pensei. O que tinham em comum — e isso me deixou um tanto surpresa ao notar — era que todos tinham asas. Eram todos anjos.
Emanuel fez sinal para que sentássemos num sofá vermelho imenso que parecia mais confortável que qualquer cama que já tive o prazer de dormir. E sim, era melhor que todas elas — pude constatar ao sentar.
Ele sentou-se num outro sofá menor à nossa frente. Apenas o que nos separava era uma mesinha de centro:

— Pois então. — começou ele. — Ao que devo esta inesperada visita? — seu tom era calmo e despreocupado.
— Então... nossa avó, Elisa, como o senhor deve saber, foi morta recentemente. A polícia não consegue achar o culpado, como o senhor também deve saber. Soubemos através de nossa tia, que sua sobrinha, Maria, andou tendo algumas aulas particulares com ela, nesta casa. Pensamos em vir aqui pra saber se ela, ou o senhor, sabem de algo que pode nos ajudar a descobrir quem fez isso e por quê. — disse numa saraivada só. Eu estava nervosa. Emanuel me olhava atentamente. Algo na fisionomia dele me fez pensar que ele já esperava nossa visita.

Quando ele ia responder, um estrondo ecoou pela casa, sobressaltando-nos. O som parecia com o impacto de metal contra metal, o mesmo de espadas chocando-se em filmes que havia assistido antes. Vários golpes ritmados vindo do que parecia ser o porão da casa.
Emanuel esboçou um sorriso devido a nossa reação. Ele olhou em direção a uma entrada que descia numa escadaria estreita:

— Maria! — chamou ele, sem gritar. — Suba aqui! Temos visita, querida.

O som parou imediatamente. Ouvi passos rápidos e logo, a garota de cabelos vermelhos, já havia subido as escadas, parando na entrada da escadaria, nos encarando. Ela estava com o cabelo preso num coque, a pele da testa e do pescoço, suada:

— Olhem só quem está aqui! — disse Maria, ofegante. — A garota que ficou me encarando no velório, titio. — completou sorrindo, os olhos me fuzilando.

A pele do meu rosto pegou fogo. Eu devia estar completamente vermelha. Não sabia se era vergonha ou ultraje:

— Traga chá para as visitas, Maria. Depois, junte-se a nós. Elas vieram falar sobre Elisa. — disse Emanuel, talvez prevendo que minha resposta ao que ela disse podia não ser tão educada.
— O que foi isso? — disse Mônica. Ela estava boquiaberta.
— Maria faz esgrima. É um bom hobbie de família. Esse foi o barulho que vocês ouviram. Ela treina no porão, a porta que certamente abafaria o som, devia estar aberta. — respondeu Emanuel, apesar de nem eu ter entendido o que Mônica realmente queria saber com sua pergunta.

Maria logo voltou com uma bandeja e quatro xícaras. Distribuiu elegantemente a cada um de nós e sentou-se ao lado de seu tio. Ficamos em silêncio alguns instantes e logo Maria adiantou-se:

— Eu estudava na escola onde a avó de vocês dava aula. Terminei o último ano e precisei de umas aulas extras para o vestibular. Lembrei dela e pedi que me desse algumas aulas particulares. Fiquei muito triste ao ver o que aconteceu com ela pelo noticiário. Eu gostava muito dela. Ela sempre foi muito gentil comigo, e me ensinou coisas que levarei comigo pro resto da vida. — falou ela. Suas palavras realmente pareciam sinceras.
— Você não tem idéia de quem possa ter feito isso? Sabe se ela tinha inimizade com alguém? Alguém que quisesse ferí-la? — disse Mônica.
— Não. Não faço idéia de por que alguém pudesse querer fazer mal a uma senhora de idade. Ela era uma boa pessoa. Todos a adoravam. — disse ela. Desta vez — podia ser paranóia minha — mas não acreditei muito nas palavras dela. — Desculpe não poder ajudá-las. Aliás, só estou repetindo a vocês a mesma coisa que disse aos policiais que estiveram aqui antes...
— A polícia também esteve aqui? — perguntei, interrompendo-a.
— Sim. Eles chegaram a mesma lógica que vocês. Só que por serem profissionais, o raciocínio deles foi mais rápido. — disse ela com uma pitada de provocação na voz. Olhando diretamente para mim.
— Isso mostra que nossa vinda aqui não é nenhum absurdo, afinal. A lógica, coloca você na história, como os policiais anteriormente foram capazes de constatar. — rebati, copiando o tom ácido da voz dela.
— Pena que a lógica, por si só e sem fatos concretos, não condena ninguém em nada, Ana. — disse ela, carregando a voz de deboche quando pronunciou meu nome.
— A não ser que os fatos concretos sejam encontrados e provados no fim do "raciocínio", Maria. — disse eu, novamente imitando seu tom.
— Acalmem-se meninas. — interrompeu Emanuel. Sua voz era calma. — Ninguém está sendo acusado de nada, não é Ana? Só vieram aqui para colher informações para ajudar a encontrar o real culpado, não foi?
— Sim, sr° Emanuel. — disse, acalmando-me um pouco. — Já fizemos isso e agradecemos por ter nos recebido. Agora é hora de irmos.
— Podem terminar o chá primeiro. Sem pressas. — disse ele, gentilmente.
— Obrigado. Mas realmente temos que ir. — disse, já levantando. — E eu não gosto de chá.
— Como queira... — respondeu ele, ainda estava sendo gentil. Maria me olhava, parecia divertida com a situação.

Antes que eu me divertisse socando a cara dela, arrastei minha prima até a saída, nem dando tempo para que ela terminasse seu chá. Mônica adorava chá.
Emanuel e Maria nos acompanharam até a porta somente, tendo eu e Mônica que caminharmos sozinhas pelo quintal até o portão da frente. Ele fechou-se sozinho às nossas costas.

Íamos até o carro quando tudo aconteceu rápido demais para que eu pudesse reagir na hora: a corrente de ouro que minha avó havia dado a Mônica soltara de seu pescoço enquanto ela ia até a porta do carona que estava do lado da rua. A corrente, estranhamente, caíra distante demais para que alguma lei da física fizesse sentido, e ao ir até lá para pegá-la, Mônica fora surpreendida por um carro preto que vinha em alta velocidade em sua direção. O carro acertou ela em cheio, seu corpo voando pelo ar de uma forma anormal. Uma forma que indicava que sua coluna havia sido despedaçada.
Fiquei paralisada, tendo tempo apenas para olhar o rosto do homem que dirigia o carro homicida: ele sorria enquanto pisava fundo no acelerador, em fuga.
Sua intenção era matar.