Sanctuary

10 Way Back


Os dias que seguiram foram calmos e sem dar conta Rhoda já estava à mais de dois ano e meio em Flotsam a viver. Mas numa noite ela acorda com barulho vindo do estábulo, com cautela equipa-se aproxima-se do local onde estavam os cavalos, reparou que a porta do quarto de Gonder estava fechada, o que indicou a ela que não era ele nos estábulos.

Ouviu murmúrios de alguém e esperou paciente, onde nesse momento ouve o potro a relinchar alto e depois ouviu silêncio. Ao abrir a porta, Rhoda reconheceu os dois homens que estavam no estábulo, onde um deles tinha um ancinho na mão. Observou o ancinho e reparou que as pontas estavam sujas e a porta onde o potro descansava encontrava-se aberta.

Rhoda: – Oh não. – Realizando o que tinham feito.

Aproximou-se dos homens saindo das sombras em direção ao potro, surpreendendos afastando-se dela.

Rhoda: – O que fizeram… – Vendo o potro deitado de lado com a manta dele manchada de sangue, chorando baixinho pedindo ajuda. – Porque o fizeram? – Voltando-se para os homens com raiva. – Ele era apenas uma cria. O dinheiro não vos chegou? – Fechando punho com força.

Rufia: – O nosso chefe sempre teve interessado neste cavalo negro. – Sem deixar-se intimidar por ela. – E ele sabe que Gonder nunca irá vender o cavalo, por isso temos de o levar à força. Esse potro foi só apenas um percalço, nada mais. – Com indiferença na voz.

Rhoda: – Um percalço? – Olhando para eles surpreendida, onde aqui foi a última gota para ela. – No meu ver vocês também são um percalço para mim. – Num tom mais frio, mudando a tonalidade dos olhos para um verde brilhante, onde viu os homens a engolirem em seco. – Vocês darão uma boa refeição. – Com indiferença na voz.

O homem com ancinho investe contra Rhoda esquivando-se sem problemas, apanhando a cabeça dele com a mão.

Rhoda: – A tua alma é minha. – Nesse instante o corpo do homem transforma-se em cinza e ela consome a alma dele à frente do outro homem aterrado que também teve o mesmo destino.

Rhoda ficou alguns minutos imóvel onde a mente dela só pensava em destruir aquela vila a cinzas, mas o relinchar baixo do potro fez ela sair daquele estado voltando ao normal. Aproximou-se dele sentando-se ao pé dele, pondo a cabeça nas pernas dela, não havia muito que ela pudesse fazer. O ferimento apresentava ser bastante grave, ela suspeita que os homens tenham perfurado um dos pulmões dele.

Para reconfortar o potro dava-lhe festas na cabeça, dizendo que tudo iria ficar bem num tom triste. Com o passar gradual do tempo, Rhoda viu através dos olhos dele a alma dele extinguir-se.

Gonder entra em cena passado um bocado, indo ao encontro de Rhoda que continua a dar festas na cabeça no corpo do potro.

Rhoda: – Não o consegui salvá-lo. – Olhando em frente com olhar vazio. – Gostava de chorar por ele mas parece que já não tenho mais lágrimas.

Gonder: – Rhoda…. – Sem saber bem como abordá-la.

Rhoda: – É injusto, ele era apenas uma cria. Mataram ele só porque foi um percalço. – Gonder olhou a sua volta e viu dois montes de cinzas e o ancinho ensanguentado no chão.

Gonder: – Rhoda, – pondo a mão no ombro dela. – eu ajudo a enterrá-lo.

Rhoda pega no corpo do potro ao colo com cuidado, seguindo Gonder, reparou que o Negro seguia com olhar mas não deu muita importância. A chuva começou a cair gradualmente quando enterravam o corpo em silêncio.

Rhoda: – Gonder, eu vou ter que ficar sozinha por algumas horas. Preciso de pensar. – Olhando para sepultura. – Por isso não contes comigo até amanhã de manhã.

Gonder: – Se precisares de mais algum tempo….

Rhoda: – Agradeço mas não será necessário.

Rhoda foi até às ruínas, lá olha para as mãos ainda sujas de sangue durante algum tempo, fechando-as com forças mudando a tonalidade dos olhos dela novamente para um verde brilhante, dando um soco com toda a sua força na árvore mais próxima derrubando-a sem dificuldades, passando à seguinte e à seguinte. A mente dela naquele momento estava negra, se alguém aproximasse demasiado dela naquele momento era capaz de matar instantaneamente.

Ao longe ouvi-o passos de alguém aproximar-se dela mas mantendo uma distância considerável.

Rhoda: – O que fazes aqui? – Num tom frio para Selina, mostrando um olhar indiferente.

Selina: – Rhoda, o que se passou?

Rhoda: – Vai-te embora, eu quero estar sozinha.

Selina: – NÃO!!!

Rhoda: – Serás sempre uma chata. – Voltando-se de costas, irritada com a persistência dela.

Selina sem receios abraça Rhoda por trás, encostando a testa dela nas costas de Rhoda.

Selina: – Foi ele, não foi? – Formando um silêncio entre elas, na companhia da chuva.

Rhoda: – Sim. – Num tom baixo, voltando ao normal. – Eu não consegui salvá-lo. – Selina agarra ainda mais ela. – É injusto. – Agarrando o braço dela.

Selina após algum tempo põem-se à frente de Rhoda, agarrando o rosto dela, com sorriso.

Selina: – Lembra-te que não estás sozinha. – Rhoda olha surpreendida.

Rhoda: – Desculpa-me pela maneira como falei contigo, Selina. Após estes anos todos, ainda continuo fraca.

Selina: – Não sejas tonta, tu sabes que isso não é verdade. – Com olhar sério. – Quem foi quem deu a oportunidade a Vriran?, quem foi quem salvou o Adamar e Edarr?, quem foi quem salvou o teu grupo?, quem foi quem salvou-me? e quem mudou ligeiramente a opinião dos humanos aqui no acampamento? – À espera da resposta de Rhoda. – Tu.

Rhoda: – Como sabias que estava aqui?

Selina: – Cedric estava em uma missão de reconhecimento e viu-te.

Rhoda: – Hum…. Espero que ele não se tenha assustado muito com o que viu.

Selina: – Nem por isso, ele estava bastante preocupado contigo. Tu sabes que mesmo após teres ido embora do acampamento, as amizades que lá fizeste permanecem.

Rhoda: – Estou a ver. – Dando um pequeno sorriso. – O potro salvou o Negro de ser roubado dando-me tempo para aproximar-me do estábulo onde estavam os cavalos. – A chuva gradualmente começou a parar. – Vou ter que regressar. Amanhã é um novo dia.

Selina: – Sem problemas. – Sorrindo-se. – É verdade, acho que devias saber isto. Eu ouvi de alguns esquilos a comentar que viram a Lierin algumas vezes na casa abandonada quando andavam a patrulhar.

Rhoda: – Eu irei ficar atenta a isso. – Pensativa. – Obrigada.

Selina: – De nada. Bem sendo assim eu também vou regressar ao acampamento.

Rhoda: – Tem um bom regresso.

As duas despedem-se com forte abraço. Ao chegar ao estábulo, Rhoda foi directa para o quarto. Nos dias que se seguiram, Rhoda trabalhava como um robô focada nas diversas tarefas sem mostrar muitas emoções. De vez em quando olhava para o local vazio onde estava anteriormente o potro pensativa. Mas num dia depois de ter tratar dos outros cavalos, o Negro parceia mais agitado do que a habitual, o que chamou atenção de Rhoda.

Olhou para ela, batendo com o casco na porta, Rhoda levou-o para a arena como já começou a fazer algum tempo, aproveitou para treiná-lo, onde ele mostrou estar cada vez mais obediente a cada exercício, um pouco antes de terminar recompensou-o com pedaço de fruta, e nesse momento ele bate com casco no chão da mesma maneira que o potro fazia. Rhoda olhou surpreendida, mostrando um pequeno sorriso aceitando o desafio dele.

Gonder no momento que ia chamar Rhoda para irem almoçar, ficou deslumbrado com a cena que via, o Negro brincava com Rhoda, que deixou escapar algumas risos. No final deu-lhe um pedaço de fruta e sem rodeios Rhoda encosta a testa dela ao focinho do Negro agradecendo.

Gonder: – Estou sem palavras. – Chamando atenção dos dois. – Se me contassem o que acabei de assistir não iria acreditar. – Com os braços cruzados, observando Rhoda a levar o Negro para local dele.

Rhoda: – Uma das coisas que admiro nos animais é que eles são verdadeiros pelo que sentem por ti.

Gonder: – Lá isso é verdade. – Com sorriso. – Ele sabia que estavas em baixo, mesmo que não o demonstrasse. Ele confia em ti. – Olhando para o Negro. – Vamos almoçar?

Rhoda: – Sim, claro.

Na cozinha os dois sentaram-se à mesa dando a primeira colherada na refeição, onde Gonder informou que conseguiu arranjar outro cavalo para ocupar o lugar do potro, mas a estadia dele seria temporária, uma vez que já existia um potencial cliente interessado.

A atenção deles foi desviada com a presença de Eloimaya, a cozinheira do estábulo, que entrou na cozinha muito preocupada.

Gonder: – O que se passa? Porque estás tão agitada? – Observando Eloimaya a mover de um lado para o outro durante algum tempo.

Eloimaya: – Eles apanharam ele. – Olhando para ambos, expressando alguma confusão.

Gonder: – Eles? Ele? Quem afinal?

Eloimaya: – Eu explico. – Sentando-se à mesa aproximando-se dos dois em voz baixa. – Os humanos apanharam Iorveth.

Nesse instante Rhoda pousa a colher e olha bastante séria para Eloimaya, sentindo o seu batimento cardíaco acelerado.

Eloimaya: – Isto vai ser o fim da Scoia’tael se nada for feito.

Gonder: – Calma lá os cavalos, tens a certeza do que estás a dizer? Não terás ouvido mal?

Eloimaya: – Não. – Num tom firme. – Quem me informou foi uma jovem elfa, que esbarrou-se contra mim quando vinha para aqui.

Rhoda: – E como era essa elfa? – Num tom sério.

Eloimaya: – Bem, ela trazia um capuz na cabeça, talvez de estatura média. Não sei bem, mas isso importa para alguma coisa?

Rhoda: – Talvez, talvez não, apenas acho estranho. – Pensativa.

Eloimaya e Gonder continuaram a trocar mais algumas palavras, mas a mente de Rhoda estava noutro sítio em que não prestou muita atenção ao que diziam. Ela sabia que tinha de salvar Iorveth custo o que custasse. Levantou-se da mesa, o que chamou a atenção de Eloimaya e Gonder.

Gonder: – Onde pensas que vais? – Agarrando-lhe o pulso num tom sério.

Rhoda: – Eu tenho que ir salvá-lo. – Vendo alguma surpresa nos rostos dos dois. – Os nossos caminhos cruzaram-se uma vez e ele ajudou-me quando precisei. – Fazendo uma pausa. – Quando tive no acampamento eu criei algumas amizades com alguns esquilos e…. – Olhando para o chão. – Isto não pode ser o fim da Scoia’tael. – Num tom sério. – Se não o salvar, tudo o que Iorveth construiu será perdido e ainda não é tempo de ele sair de cena.

Gonder: – Eu compreendo o que estás a dizer. – Soltando o pulso dela. – Mas tens algum plano para o salvar? Não podes simplesmente aparecer lá sem ter algo planeado, verdade?

Rhoda: – Sim tens razão no que dizes, e infelizmente não tenho nenhum plano.

Gonder: – Bem me parecia. – Suspirando. – Não te preocupes, eu ajudo-te no salvamento e a planear algo.

Rhoda: – Obrigada Gonder. – Sentando-se de novo à mesa olhando para Eloimaya. – Essa elfa que te abordou, ao menos não viu para onde levaram Iorveth?

Eloimaya: – Hum… ela mencionou uma casa abandonada mas não o local exacto.

Rhoda: – Estou a ver. – Confirmando o receio dela, Lierin já começou a planear alguma coisa. – Eu sei onde fica essa casa e quase de certeza absoluta que é uma armadilha.

Gonder: – O que leva ter assim tão a certeza que é uma armadilha?

Rhoda: – Eu já defrontei-a uma vez e houve baixas, não mortais mas com alguma gravidade.

Gonder: – Como assim houve baixas, é só uma mulher, sem ofensa, mas qual é a dificuldade em derrotá-la?

Rhoda: – Gonder lembras-te das cinzas que encontras-te no estábulo algumas semanas atrás quando o potro morreu?

Gonder: – Sim, sei, o que tem?

Rhoda: – Sabes como foram feitas?

Gonder: – Morreram queimados, não? – Pensando. – Espera lá, mas isso é impossível, porque não havia indícios de fogo. Rhoda o que estás a querer contar?

Rhoda: – Eu é que fiz essas duas cinzas.

Gonder: – Tu fizeste? Não estou a seguir.

Rhoda: – As cinzas aparecem após eu consumir as almas dos seres vivos. – A surpresa nos olhares de Eloimaya e Gonder foi inevitável. – Eu nasci com uma maldição, eu sou aquilo que vocês chamam de Souleater. – Eloimaya afasta-se da mesa com receio.

Eloimaya: – Nunca pensei que algo como tu existisse neste mundo, sempre ouvi histórias. – Buscando uma faca.

Gonder: – Eloimaya pára com isso, estás a ser tonta.

Eloimaya: – Será que estou? – Olhando séria para Gonder. – Quem me diz a mim que nós não seremos a próxima refeição, dela.

Rhoda: – Eu reconheço que cometi muitos erros no meu passado que não me orgulho, mas quando conheci a pessoa que me mostrou o lado colorido do mundo, as coisas ficaram mais claras para mim. – Fazendo uma pausa. – Eu não sou nenhum monstro, Eloimaya. Se eu fosse, achas que estaríamos, neste momento, a falar? – Eloimaya ficou pensativa.

Gonder: – Reconheço que esta revelação é grande, mas olha que mim continuas a ser a Rhoda que conheci há três anos atrás. – Com sorriso.

Rhoda: – Obrigada Gonder.

Eloimaya: – Ok, – Guardando a faca na gaveta. – peço desculpa, pela minha reação ultra exagerada, Rhoda. Mas fiquei com medo.

Rhoda: – Sem problemas.

Gonder: – Bem já que estamos todos em sintonia, esta missão vai ser como nos velhos tempos.

Eloimaya: – Espero que com esse entusiasmo extra que tens, não venhas a ter um ataque cardíaco antes da acção começar, por assim dizer. – Cruzando os braços, rindo-se.

Gonder: – Mas por quem me tomas? Ainda não sou assim tão velho.

Eloimaya: – Se tu o dizes. – Sorrindo-se.

Gonder: – Posso contar contigo para gerir o estábulo?

Eloimaya: – Tu sabes que sim.

Gonder: – Sendo assim eu e a Rhoda vamos para o escritório planear a missão de resgate.

Eloimaya: – É como quiserem, ainda tenho que acabar algumas coisas aqui, por isso façam o que quiserem.

Gonder convidou Rhoda a sentar-se no banco que existia à frente da mesa, onde foi buscar às prateleiras um mapa da região.

Rhoda: – O local fica aqui. – Indicando no mapa.

Gonder: – Estou a ver. Isto fica perto de uma caverna que só os mais astutos conhecem, como eu. – Rindo-se. – Nós poderíamos utilizar essa caverna como refúgio quando toda a vila estiver a investigar o que aconteceu.

Rhoda: – Então como iremos proceder?

Gonder: – Daqui a dois dias vai ficar lua nova o que vai ser bastante vantajoso para nós. – Fazendo uma pausa. – Eu irei utilizar pequenos explosivos, como uma vez a casa e a caverna estão muito próximos, e espero que o meu palpite esteja certo, exista uma parede a separar as duas estruturas, no qual seria utilizada como saída da casa. É claro que depois terei todo o gosto em tapar de novo o buraco.

Rhoda: – Eu irei dar-te tempo para preparar as coisas.

Gonder: – Só uma pergunta, tu afirmaste que iria ser uma armadilha, aí tudo bem, mas não chegaste a explicar qual a dificuldade em derrotar a elfa que abordou a Eloimaya.

Rhoda: – A elfa que passou a informação a Eloimaya na realidade o nome dela é Lierin. Ela foi expulsa do acampamento, uma vez que os ideais dela já não eram os mesmo que a Scoia’tael. Aliás, foi eu quem a expôs a Iorveth esse facto – Suspirando. – e desde então ela odeia-me e infelizmente ela juntou-se a quem não devia.

Gonder: – Bem, isso é um problema. – Com os braços cruzados. – Achas que o encontro entre Eloimaya e ela foi planeado?

Rhoda: – Claro que foi planeado, como tu sabes nesta vila entra-se e sai-se sem muitos problemas. Lierin teve sobre vigia a planear cuidadosamente o seu golpe. – Pensativa. – Só ainda não sei como Iorveth foi capturado, por ela.

Gonder: – Bem, isso é algo que terás de perguntar a ele depois de o salvar-mos.

Os dois dias de espera passaram a correr, onde Rhoda e Gonder preparavam-se para avançar. Gonder já estava pronto com o Negro já equipado com material necessário para os explosivos. A vila estava banhada em silêncio e os guardas ensonados o que deu para sair da vila sem grandes problemas.

Gonder avançou para a caverna sem pressas enquanto Rhoda avançou para a frente da casa onde não viu nenhum movimento, aproximando-se com cautela. De súbito a porta da casa abre-se e vê alguém a sair de lá reconhecendo as feições.

Rhoda: – Lierin!!! – Em tom baixo, vendo-a através dos arbustos.

Lierin: – Rhoda, minha querida, podes sair do teu esconderijo. – Olhando para os arbustos em que ela estava. – És muito corajosa em vires sozinha até aqui.

Rhoda: – Vejo que ganhaste novas pernas e um braço.

Lierin: – Ainda bem que gostas. – Mostrando a tonalidade verde brilhante no olhar dela a Rhoda formando uma foice nas mãos.

Rhoda: – Achas mesmo que com mesmo esse novo poder, o resultado vai ser diferente da última vez? – Mostrando também a tonalidade verde brilhante no olhar dela formando também uma foice nas mãos.

Lierin: – É o que iremos ver. – Em posição para começar.

Sem medo Lierin avança a toda força para Rhoda que se defende sem grande dificuldade, mas notou que ela estava mais rápida nos movimentos, por algum motivo o que dificultava algumas defesas.

Lierin: – É impressão minha ou estás um pouco mais enferrujada desde a última vez que nos defrontamos? – Esquivando-se rapidamente do ataque Rhoda contra-atacando, apanhando braço dela sem causar muitos estragos.

Rhoda sabia que alguma coisa devia estar a dar poder a Lierin. Ela não era ou nascera como uma Souleater. O seguinte ataque que Lierin fez, Rhoda defendeu-se de maneira a saltar por cima dela, onde ficou de costas para Rhoda.

Os fios negros fumados que saíam das costas de Lierin, captou atenção de Rhoda que seguio até ver humanos parados como estátuas envolvidos pelos fios. Lierin estava a utilizar as almas destas pessoas para adquirir poder extra.

Sem rodeios, Rhoda corta uma das ligações onde um dos humanos cai no chão e Lierin grita de agonia voltando-se para Rhoda.

Rhoda: – Lierin, ainda vais a tempo de mudar.

Lierin: – Mudar? Mudar o quê? – Num tom irritado. – Aquilo que me tiraste?

Avançando para Rhoda, sem pensar muito na performance do ataque. O que fez com que Rhoda tomasse vantagem no contra ataque num movimento circular, pondo-se atrás de Lierin mais uma vez cortando ainda mais ligações.

Assim que Lierin percebeu-se do erro que cometeu era tarde demais, Rhoda dá um pontapé nos dois gémeos dela, obrigando a joelhar-se como se tivesse numa guilhotina sentido a lâmina fria da foice na parte de trás do pescoço dela, onde começou-se a rir.

Rhoda: – O que tem assim tanta graça?

Lierin: – Achas que ganhaste? Mesmo que me mates, eu ganhei. – Olhando para Rhoda. – Boa sorte em trazer Iorveth de volta ao que ele era. – A surpresa no olhar de Rhoda fez com que Lierin ri-se ainda mais. – Eu ganhei.

Lierin nesse momento aproveitou para escapar de Rhoda rolando para o lado esquerdo onde a mão no ar fez um sinal. Da escuridão, Rhoda vê vários humanos zumbificados com armas nas mãos, mas em simultâneo ouve ao longe alguém a gritar da casa.

Lierin: – Estes humanos se tu o quiseres podes salvá-los. – Mostrando um boneco de trapos igual ao que a alma da Erin tinha sido aprisionada uma vez. – Muitos destes humanos são pessoas inocentes que consegui manipular sem muita dificuldade. Contudo na casa há alguém na casa, em que a mente dela está a ser destruída lentamente. – Com um sorriso malicioso. – E então Rhoda? Quem vais salvar? Apesar de saber já a resposta.

Rhoda estava indecisa, olhava para os humanos e via nos rostos o pedido de ajuda, ela sabia que nem todos os humanos eram seres maus, tendo o exemplo de Joshua, mas desta vez ela não podia escolher a eles, fechando o punho com raiva.

Lierin viu Rhoda a deslocar-se para casa e começou-se a rir alto. No caminho havia vários humanos a tentar impedi-la que os despachava sem problemas. Dentro da casa, selando a porta de entrada, o ambiente era escuro. Rhoda sabia que tinha de ser breve na procura porque sabia que a porta não iria aguentar muito.

Na exploração da casa em certos sítios viu tonalidades mais escuras não percebendo se era sangue ou não. Nas fissuras da madeira por baixo de si viu luz a sair. Não precisou de muito tempo para achar a porta da cave. Desceu devagar as escadas onde o silêncio era incomodativo, tendo no ar um cheiro esquisito, havia utensilios sujos em cima de uma mesa aproximando-se para observar melhor tendo uma tonalidade avermelhada escuro quase em todos. O que desviou atenção dela foi tilintar metálico que vinha da parte mais escura da cave, ela aproxima-se com cautela onde a vista adapta-se gradualmente à escuridão, vendo um vulto que começou a reconhecer as feições.

Rhoda: – Iorveth? – Aproximando-se com alguma pressa até ele.

Iorveth estava acorrentado pelos os dois braços, que estavam abertos como asas, estando de joelhos de cabeça baixa. O corpo dele apresentava várias feridas abertas e nódoas negras. Rhoda perguntou-se a si mesma quanto tempo é que Lierin teria torturado Iorveth.

Viu que ele estava dentro de uma cela com a porta fechada, onde Rhoda olhou para parede do lado esquerdo e viu algumas chaves penduradas onde com elas abriu a porta da cela. Iorveth teve uma pequena reação com rangido da porta olhando em frente. No piso de cima a porta da entrada tinha sido derrubada pelos humanos que começaram a entrar com alguma velocidade.

Sem pensar muito, Rhoda fechou-se dentro da cela com Iorveth como proteção. Abaixou-se até Iorveth e viu o olho ferido dele exposto.

Rhoda: – Não te preocupes, Iorveth.. – Tocando no rosto com cuidado. Reparou que ele não tinha a mínima noção do que estava a acontecer à volta dele. – Eu vou tirar-te daqui. – Tocando a testa dela na dele de modo a tranquilizá-lo. Observando que ele voltara a fechar de novo os olhos.

Os humanos começaram a entrar na casa gradualmente, o que fez ela ficar um pouco preocupada, apressando-se em soltá-lo das algemas pondo-o às cavalitas, encostando-se à parede. Sentiu algumas vibrações do outro lado.

Rhoda: – Gonder? – Olhando para parede. – Gonder? És tu? – Com voz alta. No qual ouviu batimento do outro lado dando uma resposta positiva. – Gonder eu não quero apressar-te, mas isso ainda vai demorar muito? É que o tempo aqui está a esgotar-se.

Gonder: – Tem calma Rhoda, as coisas para resultarem têm de ter o seu tempo de execução. – Fazendo uma pausa breve. – Ok, afasta-te um pouco da parede.

Rhoda obedeceu e uma pequena explosão é formada à frente dela, de lá Gonder entra em cena, reparando o estado de Iorveth.

Gonder: – Anda, segue sempre em frente este caminho, que irás dar à carroça e lá tens cobertores para pores nele.

Rhoda: – E tu?

Gonder: – Eu vou ter que selar este buraco, não te preocupes, eu não irei demorar muito.

Pelo trilho Rhoda encontrou a carroça onde o Negro permanecia calmo. Sobe a carroça e com cuidado posa Iorveth nos cobertores que lá estavam, envolvendo ele sem ter muita reação. Após alguns segundos Gonder apareceu com passo rápido, pronto para partir, indicando ao Negro para avançar.

Rhoda quando observava Iorveth reparou que ainda não tinha saído da caverna.

Rhoda: – Esta caverna sem dúvidas é bem extensa.

Gonder: – Nisso tens razão, talvez estes túneis tenham sido feitos para evacuação numa altura em que ainda não éramos nascidos. Mas estamos quase a chegar.

Na caverna existia uma outra entrada que sem dúvida estava bem escondida pela vegetação, por onde entraram.

Gonder: – Podes trazê-lo para aquela divisão. – Parando a carroça.

Rhoda com cuidado põe Iorveth às costas e fui até à divisão que era uma espécie de quarto muito simples, tendo apenas uma cama, uma mesa pequena, uma mesa de cabeceira com uma pequena vela em cima e um banco de madeira. Com cuidado pôs Iorveth na cama e sentou-se no banco de madeira.

Rhoda: – Consegues arranjar-me álcool, algumas compressas limpas e algumas velas extras para ter mais iluminação. – Olhando para Gonder. – Isto vai ser uma longa noite.

Gonder: – Sim eu arranjo, sem problemas. – Saindo do quarto para trazer os itens. – Não sabia que tinhas conhecimento em medicina. – Pousando as coisas na mesa de cabeceira.

Rhoda: – Sei apenas o básico. Mas agradeço à Selina por ter me insistindo comigo na altura que quis ensinar-me.

Gonder: – Deve ser uma boa amiga. – Bocejando.

Rhoda: – Nem sabes o quanto. – Com um sorriso. – Gonder se quiseres podes ir descansar.

Gonder: – Tens a certeza? Se quiseres eu posso ficar para ajudar-te.

Rhoda: – Agradeço, mas não será necessário.

Gonder: – Bem sendo assim boa noite.

Rhoda: – Boa noite, Gonder, descansa bem.

Gonder, sai do quarto encostando a porta, deixando Rhoda à vontade. Ela observou Iorveth pensativa durante algum tempo, que dormia tranquilamente com respirar lento, mas sem mais demoras, meteu as mãos às obras.

Rhoda não sabia quanto tempo tinha passado desde que começou a tratar as feridas de Iorveth, mas em cada ferida sendo ela pequena ou grande, analisava pacientemente e limpava com cuidado. O cansaço começou a abater-se nos olhos de Rhoda que ignorava ao máximo uma vez que estava determinada em acabar o trabalho desse por onde desse.

Rhoda: – E com esta é a última. – Pousando os utensílios, suspirando. – Agora falta o meu braço. – Olhando para ele.

Antes de sair do quarto olhou para Iorveth que continuava a dormir tranquilamente. Passou ao de leve as costas da mão na testa dele mexendo na fita vermelha. Saiu do quarto com álcool e umas compressas indo para outra divisão.

Viu que a ferida que tinha no braço era apenas um corte superficial, onde molhou a compressa com álcool e pôs na ferida ardendo um pouco. O silêncio que invadia os ouvidos de Rhoda é interrompido com um grito, que sobressalta Rhoda. Ela no caminho ao encontro de Gonder, viu um pouco confuso, porque não sabia o que se estava a passar e de novo mais um grito, mas desta vez Rhoda localizou de onde vinha.

Rhoda: – Iorveth!!!! – Correndo em direção ao quarto na companhia de Gonder.

Ao entrarem no quarto, Iorveth estava todo encolhido com as mãos na cabeça, sobre stresse a falar em elfo. Rhoda recordou o que Lierin tinha dito e agora fazia todo o sentido.

Rhoda: – O que será que aquela idiota lhe deu? – Preocupada. Aproximou-se de Iorveth para tentar acalmá-lo, mas ele afasta-a com alguma agressividade empurrando-a para trás, falando elfo com ela. – O será que ele está a dizer? – Olhando para Gonder.

Gonder: – Eu não sei como te dizer isto, mas pelo que estou a perceber do que ele está a dizer, ele está a reviver o dia da ponte onde os amigos dele foram mortos. – Fazendo uma pausa. – Ele está a pronunciar os nomes deles e ao mesmo tempo a pedir desculpa. Ele basicamente está alucinar.

Rhoda estava a pensar numa maneira de como podia acalmar Iorveth. Os remorsos que ele tinha guardado ao longo deste anos todos, estão agora a vir ao de cima como um vulcão. De novo ela aproximou-se dele e novamente Iorveth no momento em que ia empurrá-la ela agarra o pulso dele da melhor maneira que podia, deitando-se na cama ao lado dele aconchegado ao peito dela a cabeça dele.

Rhoda: – Tem calma, está tudo bem. – Num tom calmo, soltando o pulso dele. – Eu estou aqui. Não estás sozinho. – Encostando os lábios dela no cabelo dele.

Gonder: – Incrível!!! – Vendo Iorveth acalmar gradualmente. – Tu realmente preocupas-te com ele. Nunca tinha visto um humano a chegar assim tão longe para um não-humano.

Rhoda: – É o mínimo que posso fazer por ele depois de ele ter-me ajudado.

Gonder: – Olha que já vi muita coisa na minha vida – Cruzando os braços. – E só quem não tem olhos na cara é que não vê os sentimentos que tens por ele.

Rhoda: – Huh? – Um pouco confusa com as palavras de Gorder. – Não estarás a fazer alguma confusão? A minha amiga também fazia o mesmo a mim quando tinha pesadelos, para acalmar-me.

Gonder: – Isto é apenas a minha observação, mas Rhoda, – Olhando para ela um pouco entretecido. – não cometas o mesmo erro que cometi, quando dei conta a pessoa mais importante da minha vida, já não existia mais. Podes enganar toda a gente, mas nunca poderás enganar o teu próprio coração. – Rhoda ficou pensativa. – Devias pensar nisso, não é nada demais. Isso faz parte de qualquer ser, mesmo naqueles que têm um coração fechado. – Fazendo uma pausa. – Bem vou deitar-me que ainda faltam algumas horas para o nascer do sol. Tenta descansar um pouco, Rhoda. – Saindo do quarto.

Rhoda durante algum tempo observava Iorveth pensativa, processando o que Gonder tinha-lhe dito. De vez em quando Iorveth mexia-se tranquilamente para um dos lados.

Rhoda: – Será verdade? Não pode… – Ficando agora confusa.

Levantou-se devagar da cama para não acordar Iorveth, na outra divisão onde tinha tratado o braço, sentou-se no chão encostando-se à parede olhando o tecto dando um suspiro. Gradualmente ela começou a fechar os olhos, entrando rapidamente num sono profundo, ficando naquele estado por bastante tempo, não teve sonhos, mas foi acordada por pequenos barulhos. Olhou em volta, levantando-se com alguma curiosidade para ver de onde vinha o barulho.

Rhoda: – Gonder?

Gonder: – Oh!!! Rhoda!!! Desculpa, não queria ter acordado. – Arrumando a carroça.

Rhoda: – Não tem mal. Vais voltar?

Gonder: – Sim. – Suspirando. – De volta ao mundo real.

Rhoda: – Eu….

Gonder: – Não te preocupes, podes voltar assim que puderes. Tens em cima da mesa desinfectantes e compressas se precisares.

Gonder reparou que a porta do quarto onde Iorveth estava abrir-se. Rhoda sem se voltar ouviu passos atrás de si aproximando-se gradualmente.

Gonder: – Iorveth!!! Há quanto tempo!!! – Com largo sorriso para ele.

Rhoda voltou-se para Iorveth, onde os olhares deles encontraram-se por breves segundos. A expressão neutra que ele tinha tornava-se difícil de o ler.

Iorveth: – Como tens andado, Gonder?

Gonder: – Não me posso queixar. – Rindo-se. – Contudo gostava de ficar mais tempo a falar contigo mas o dever chama-me.

Iorveth: – Faz um bom regresso e obrigado.

Gonder: – Não foi nada, mas quem devias agradecer é à Rhoda. – Olhando para ela, fazendo uma pausa. Reparando que ambos olhavam um para outro com alguma intensidade. – Bem, suponho que tenham de pôr muita conversa em dia. – Saindo de cena.

O silêncio que banhava a caverna sem dúvida que incomodava. Rhoda naquele momento não sabia o que dizer a Iorveth ou como iniciar uma conversa.

Rhoda: – Tenho que verificar como estão as tuas feridas. – Quebrando o silêncio, desviando o olhar para o lado.

Iorveth voltou para o quarto e sentou-se no banco com uma postura firme à espera pacientemente. Rhoda foi buscar o álcool e as compressas que Gonder tinha deixado para ela usar. Primeiro observou as costas, para evitar contacto visual com ele, tocando suavemente na pele dele, analisando pacientemente.

Rhoda: – As tuas feridas das costas estão praticamente curadas. – Observando agora ainda melhor as várias cicatrizes antigas que ganhou ao longo dos anos.

Depois passou para o braço esquerdo com a mesma dica, enquanto no braço direito havia uma ferida que ainda precisava mais de algum tempo para curar. Na parte da frente do peito tentou ao máximo não olhar para ele, onde ela observou cada peitoral dele tocando com suavidade, passando para a zona abdominal. Pela primeira vez observava o quanto Iorveth era bastante atlético, cada músculo dele era bem definido, até mesmo na arena ela não tinha reparado nisso.

Ao examinar o rosto dele, não conseguiu de todo evitar o contacto visual. O toque suave dela no rosto de Iorveth fazia com que ele ficasse com um olhar profundo quando olhava para ela.

Rhoda: – É tudo. Podes levantar-te. Daqui talvez um ou dois dias já poderás regressar ao acampamento. – Ficando de costas para ele, pegando de novo no álcool e em uma compressas para limpar a ferida dela.

Como da primeira vez ela teve alguma dificuldade em fazer o curativo. Iorveth tomou a iniciativa de ajudá-la a fazer o curativo, sem ela contar.

Rhoda: – Obrigada. – Num tom baixo, reparando que Iorveth sentou-se à beira da cama pondo os cotovelos apoiados nas pernas tapando a boca com as mãos, pensativo.

O silêncio que se formou novamente entre eles era de novo incomodativo. Rhoda queria sair daquele quarto, mas ao mesmo tempo não.

Iorveth: – Adamar, contou-me o que realmente aconteceu na missão. – Quebrando o silêncio daquele quarto, num tom neutro. – Porque o fizeste?

Rhoda demorou algum tempo em dar uma resposta.

Rhoda: – Ele não ia sobreviver aqui fora. – Respondendo num tom firme ainda voltada de costas.

Iorveth: – Se esse fosse o caso é porque ele ainda não estaria pronto. – Num tom sério.

Rhoda: – A questão não é essa. – Voltando-se para Iorveth séria. – Tu não tens a mínima noção o quanto é difícil ter um sítio em que possas chamar de casa, pois não? – Iorveth levantou-se da cama cruzando os braços olhando para Rhoda.

Rhoda desviou o olhar dele, quando notou que os músculos de Iorveth ficavam mais tonificados quando ele se ponha de braços cruzados, o que chamou atenção dele.

Iorveth: – Então nestes três anos que passaram, tens andado a trabalhar para Gonder.

Rhoda: – Sim, não foi complicado em ser aceite, uma vez que trabalhei com animais no passado. – Continuando a olhar para o lado. – Assim que tiveres recuperado dentro de um ou dois dias voltarei a Flotsam.

Iorveth: – Diz-me uma coisa, porque arriscas-te tanto? – Num tom neutro. – Podias simplesmente desistir. Deixar as coisas fluírem ao curso delas.

Rhoda: – E eu o que ganharia com isso, sabendo que posso fazer alguma diferença? – Olhando de novo seria para Iorveth. – O mesmo pergunto também a ti? Porque formas-te a Scoia’tael? Pela tua conversa, estás com a ideia de desistir? Qual é teu o receio?

Iorveth: – Eu não sei onde tiraste essa ideia ridícula. – Num tom sério e frio. – Eu não tenho intenções de desistir da Scoia’tael. Eu percorri um longo caminho para desistir agora.

Rhoda: – Eu sei que sim, mas ainda és assombrado pelo teu passado. – Fazendo uma pausa. – Pelo o evento que ocorreu na ponte. – Rhoda notou alguma surpresa no olhar de Iorveth. – Tu deliraste a noite passada e mostras-te o que realmente ainda sentes. – Iorveth desviou o olhar franzindo o sobrolho. – Eu consegui acalmar-te no final de tudo. – Num tom mais sereno. – E chego à conclusão que tu não és assim tão diferente de mim, eu percebo o que tu sentes e quero que saibas que não estás sozinho. – Iorveth volta a olhar para Rhoda mas com olhar mais sereno. – O teu braço!!!! – Notando a compressa no braço direito suja de sangue.

Rhoda pede a Iorveth para sentar-se no banco novamente para iniciar o processo de troca para uma nova compressa.

Rhoda: – A ferida deve ter aberto quando cruzaste os braços. – Finalizando o processo, afastando-se lentamente.

Nesse momento Iorveth agarra o pulso de Rhoda, não deixando-a arrumar o álcool e as compressas na mesa de cabeceira, apanhando-a de surpresa.

Rhoda: – Iorveth?!

Iorveth: – Quero que voltes comigo para o acampamento. – Num tom sério. – Quero que faças parte do meu grupo.

Rhoda demorou um pouco a processar o que Iorveth acabara de dizer.

Rhoda: – Tu tens a noção do que estás a pedir-me?

Iorveth: – Tenho.

Rhoda: – Isso não irá contra as regras que estipulaste?

Iorveth: – Eu vou abrir uma excepção.

Rhoda: – Iorveth… – Surpreendida com a resposta dele, fazendo uma breve pausa. – Terei todo o gosto em voltar ao acampamento. – Com um sorriso nos lábios.

Iorveth: – Assim que sairmos daqui quero que me acompanhes a um sítio antes de regressamos ao acampamento. – Soltando o pulso de Rhoda.

Rhoda: – Como queiras. – Arrumando o álcool e as compressas na mesa de cabeceira. – Posso fazer-te duas perguntas?

Iorveth: – Sim.

Rhoda: – Selina contou-me que houve ocasiões em que vinhas até Flotsam para observar a vila, existia algum propósito para expos-te assim? E como acabaste capturado pela Lierin?

Iorveth: – No dia em Adamar, contou o que aconteceu, eu… – Fazendo uma pausa. – refleti bastante sobre como fui injusto e duro para contigo. As idas a Flotsam não sei bem porque as fiz mas ajudaram-me a pensar o quanto fiz mal em julgar-te, nas palavras duras que te disse. Infelizmente numa das minhas idas a Flotsam eu deixei a minha guarda embaixo.

Rhoda: – Sei que é tarde para dizer isto mas, devias ter tido mais cuidado.

Iorveth: – Eu sei que sim. – Reconhecendo o erro dele. – E agradeço por teres-me salvo.

Rhoda: – Não é preciso agradecer, é o que os amigos fazem.

Iorveth: – Se calhar não tanto como tu. – Mostrando um ligeiro sorriso nos lábios.

Rhoda: – Tens fome?

Iorveth: – Nem por isso, – Pondo-se de pé. – sabes onde estão o resto das minhas roupas?

Rhoda pela primeira vez observou com mais atenção a tatuagem de Iorveth. O olhar dela seguiu o desenho desde o pescoço até à cintura dele. O desenho em si era lindo, bem detalhado. O olhar atento de Iorveth fez com que Rhoda afastasse para trás um pouco embaraçada.

Rhoda: – Desculpa!!!! Eu não queria…. A tua roupa está em cima da mesa.

Iorveth: – Quem desenhou esta tatuagem foi um velho amigo meu. – Pegando na roupa.

Rhoda: – É linda. O detalhe é realmente magnífico.

Iorveth: – Em relação à refeição, mudei de ideias, traz-me qualquer coisa.

Rhoda: – Ok.

No momento em que Rhoda voltou-se de costas para sair da divisão é envolvida pelos braços de Iorveth, sentido o peito musculado dele, apanhando ela de surpresa.

Rhoda: – Iorveth?! O que estás a fazer? – Sem saber muito bem como reagir. Ela sentia o respirar dele no pescoço, dando-lhe pequenos arrepios, onde o calor dele era de algum modo reconfortante.

Iorveth: – Deixa-me estar assim por alguns minutos. – Num tom calmo, onde ficaram ambos em silêncio durante um bocado, aproveitando o momento.

Rhoda: – Por mais que não queiramos admitir, – Tocando na mão dele, num tom baixo. – nós não somos assim tão diferentes quanto pensamos. As experiências que tivemos, os receios que ainda assombra-nos, são mútuos. – Voltando de frente para Iorveth pousando a mão esquerda no rosto dele onde tinha a cicatriz, acariciando com cuidado.

Iorveth: – Eu reconheço que tu fizeste mudar a minha opinião ligeiramente sobre os humanos como tu. – Fazendo uma pausa. – Eu em certa parte acho que nunca odiei ninguém, simplesmente fico à defesa.

Rhoda: – É normal que fiques, devido às experiências que tiveste, mas eu estarei aqui se precisares de falar.

Iorveth: – Eu sei que sim.

Iorveth solta Rhoda vendo ela a sair do quarto, no qual foi buscar algumas frutas, mas quando regressou de novo ao quarto, Iorveth tinha adormecido em cima da cama. O respirar dele era calmo, tapou-o com um cobertor para o aconchegar.

Caminhou novamente até à divisão onde tinha tratado o braço dela, sentando-se no chão comendo uma das frutas que tinha trazido. De novo olhou para o tecto começando a ganhar algum sono, não lutou contra isso. O silêncio da caverna de certo modo era acolhedor. Como anteriormente não sonhou, mas também já não se sentia em alerta como anteriormente. Rhoda já não se recorda qual teria sido a última vez que sentia-se em paz enquanto dormia.

Acordou com murmúrios que ecoavam na caverna, olhou à volta dela e reparou que estava envolvida com o mesmo cobertor que tinha envolvido Iorveth. Levantou-se e foi ao encontro do som, ao longe viu Iorveth e Gonder a falarem um com o outro. Os dois viram Rhoda aproximar-se.

Gonder: – Iorveth contou-me que irás voltar com ele. – Um pouco triste.

Rhoda: – Não fiques assim. – Pondo a mão no ombro dele.

Gonder: – Fico, fico, não tive melhor colaborador mais desenvencilhado do que tu. – Suspirou. – Mas pronto a vida é mesmo assim. – Agora com sorriso. – Não te esqueças de despedir do Negro.

Rhoda: – Tu sabes que eu nunca iria esquecer dele.

Rhoda foi ter com o Negro dando-lhe uma festa na cabeça.

Rhoda: – Eu vou ter saudades tuas, amigo. Eu nunca irei esquecer-te. – Dando um beijo no nariz, onde o Negro abanou a cabeça e relinchou.

Gonder: – Eu só vim aqui para ver se precisavas mais de alguma coisa. Mas antes que me esqueça. – Tirando uma bolsa de pele pequena do bolso mostrando a Rhoda. – Por causa da outra vez.

Rhoda: – Eu agradeço o teu gesto, mas não. Fica tu com a bolsa.

Gonder: – Tens a certeza? – Surpreendido com o gesto dela.

Rhoda: – Tenho. Tu irás dar melhor uso do que eu.

Gonder: – Sendo assim irei seguir o teu conselho. – Arrumando a bolsa de pele. – Bem, desejo que tenham um bom regresso.

Rhoda: – Tu também.

Iorveth e Rhoda viram Gonder a partir, para ela foi um pouco emocionante porque Gonder fez parte da vida dela durante os últimos três anos que passaram.

Rhoda: – Quanto tempo tive a dormir? Se Gonder esteve aqui, isso quer dizer….

Iorveth: – Que dormiste praticamente um dia inteiro.

Rhoda: – Hum… – Um pouco pensativa. – Qualquer das formas, vamos ver como estão as tuas feridas?

Os dois foram para o quarto onde Iorveth ficou de tronco nu sentando-se no banco de madeira pacientemente. Rhoda analisava pacientemente as pequenas feridas que estavam quase a sarar, não esquecendo a ferida do braço direito dele.

Rhoda: – As tuas feridas estão a responder bem ao tratamento. – Arrumando as coisas na mesa. – Acho que podemos regressar.

Iorveth: – Não sabia que percebias de medicina.

Rhoda: – Deves agradecer à Selina, por ter sido chata comigo. – Rindo-se.

Iorveth: – Como tiveste a informação que tinha sido capturado? – Levantado-se do banco vestindo-se.

Rhoda: – Lierin passou a mensagem a Eloimaya.

Iorveth: – Eloimaya… sim eu conheço-a, ela trabalha como cozinheira no estábulo de Gonder.

Rhoda: – Desde do dia que Lierin abandonou o acampamento, as escolhas que ela tomou depois disso, não foram as melhores. – Num tom sério.

Iorveth: – O que queres dizer?

Rhoda permaneceu em silêncio durante algum tempo abaixando o olhar, ela sabia que na altura em que foi banida do acampamento, ela não contou-lhe que tinha encontrado Ilthuryn.

Iorveth: – Rhoda? – Chamando atenção dela.

Rhoda: – Na altura em que baniste-me do acampamento, o nosso grupo encontrou Ilthuryn, por surpresa. – Num tom sério. Vendo que tipo de reação iria ter Iorveth, mas nada mudou no rosto dele. – Ao que parece Lierin fez alguma aliança com ele. Não sei qual é o objectivo concreto dela, mas ela mencionou que queria vingança da Scoia’tael.

Iorveth: – Já esperava algo assim dela.

Rhoda: – Desta vez que a defrontei-a, ela conseguiu ter poder como se fosse uma Souleater, através de ligações a vários seres vivos. Mas assim que eliminei essas ligações não passava apenas de uma simples elfa. – Fazendo uma pausa. – Ela tornou-se num problema, e se eu deixar ela….

Iorveth: – Faz o que achares melhor.

Rhoda: – Assim o farei.

Iorveth: – Prepara as tuas coisas que partiremos esta noite.

Rhoda: – Ok.

Após terminar de arrumar as coisas Rhoda, juntou-se a Iorveth que tinha acendido uma pequena fogueira onde já estava sentado numa das pedras que lá estava ao pé mexendo nos galhos da fogueira. O som do estilhaçar da madeira no fogo, preencheu a caverna. Rhoda observou que Iorveth pousava o olhar na chama da fogueira pensativo. A luz da fogueira fazia com que o olhar dele se tornasse profundo, por algum motivo.

Iorveth: – Queres dizer-me alguma coisa? – Olhando para ela.

Rhoda: – Huh? – Tomando consciência que tinha sido apanhada. – Não… eu apenas…. – Tentando arranjar uma explicação. – Já faz algum tempo que não sentava numa fogueira. Tinha esquecido o quanto é agradável ouvir estilhaçar da madeira no lume. – Olhando para o fogo.

Iorveth nada disse, apenas voltou olhar de novo para a fogueira com pequeno sorriso. Na espera do anoitecer voltaram ainda trocaram alguns dedos de conversa, o que ajudou mais um pouco a passar o tempo.

Quando deram conta a noite já tinha chegado, Iorveth apgou a fogueira. Os dois foram até à entrada da caverna onde olharam com cautela, mas não viram ninguém. A brisa da noite no rosto de Rhoda pareceu-lhe estranha mas familiar ao mesmo tempo. Iorveth liderou o caminho até ao local que queria que Rhoda o acompanhasse.

Ao chegarem, Iorveth parou atrás de um arbusto fazendo sinal a Rhoda, ela viu que o local apresentava um enorme cerco como se fosse uma arena de combate, onde quem entrasse na arena teria alguma dificuldade em sair de lá. Os dois viram um pequeno grupo de Nekkers que pareciam que estavam a alimentar-se de alguma coisa impedindo que Iorveth e Rhoda de avançarem. Rhoda estava pronta para entrar em ação quando Iorveth impedio-a de avançar com o braço, fazendo sinal com a cabeça a ela para observar.

Das sombras um enorme monstro com carapaça surpreende o pequeno grupo de Nekkers, que começam a fugir a sete pés pela sua vida. Nesse momento Iorveth indica a Rhoda para segui-lo rapidamente. Sem grandes dificuldades, os dois entram dentro da caverna, respirando de alívio. Como existia pouca luminosidade na caverna, Iorveth acendeu uma pequena fogueira.

Rhoda olhou em volta e viu que existia vários tipos de armamento expostos numa mesa, onde um deles chamou a atenção. Com cuidado pegou num belo arco feito em madeira, onde o detalhe era sem dúvida de mestre.

Iorveth: – Vejo que tens bom gosto. – Pousando as armas dele numa outra mesa.

Rhoda: – O detalhe deste arco é lindo.

Iorveth: – Este arco, – Pegando nele. – é o que costumo utilizar em missões. Eu precisava de vir cá para vir buscá-lo.

Rhoda: – Então quer dizer que este sítio é teu? – Olhando em volta.

Iorveth: – Sim, podes dizer-se que sim. Aquela criatura que viste lá fora não achas que faz um óptimo guarda. – Rindo-se.

Rhoda nada disse e foi até à fogueira sentando-se a contemplar a chama.

Rhoda: – Se este sítio é o teu esconderijo, porque trouxeste-me até aqui? Não é suposto eu saber deste esconderijo, verdade?

Iorveth aproxima-se de Rhoda com algumas ferramentas na mão o que despertou a curiosidade dela.

Rhoda: – Que ferramentas são essas?

Iorveth: – Eu não fui totalmente sincero contigo acerca da minha tatuagem. – Sentando-se ao lado de Rhoda contemplando também a chama. – A pessoa quem fez-me esta tatuagem foi quem me salvou a vida no dia da ponte. Eu era para ter morrido naquele dia, mas ela quis que eu sobrevivesse. – Fazendo uma pausa. – Ela era como uma irmã mais velha para mim, foi ela quem ensinou-me a arte da espada e do arco mas também foi quem cuidou de mim após ter ficado com a cicatriz no meu olho. – Mostrando alguma tristeza no olhar. – Eu quero fazer-te uma tatuagem. – Olhando para ela sério.

Rhoda: – O quê? – Surpreendida. – Tens a certeza? Isso não é uma coisa só para os elfos?

Iorveth: – Não.

Rhoda ficou a olhar para ele durante algum tempo, em silêncio.

Iorveth: – As coisas que tem acontecido no acampamento desde que chegaste e desde que foste embora, mudaram drasticamente. – Fazendo uma pausa. – Existem muitos esquilos a falarem de ti a outros esquilos, do que fizeste e vêem-te como um deles, tal como eu.

Rhoda sabia que era verdade o que Iorveth dizia, desde que entrou no acampamento, inconscientemente, em certo modo criou vários laços de amizade e prova disso foi quando teve de se ir embora do acampamento.

Iorveth: – Tu fazes parte da Scoia’tael agora.

Rhoda: – Eu… – Ainda a processar o que Iorveth acabara de dizer, olhando para o chão pensativa durante um bocado, antes de olhar para Iorveth. – Sim, eu quero fazer a tatuagem.

Iorveth: – Segue-me. – Levantando-se da fogueira pegando nas ferramentas que dantes tinha trazido.

Rhoda segue Iorveth que a levou para uma pequena divisão com uma mesa média e três mais pequenas em madeira. Numa das mesas pousou as ferramentas.

Iorveth: – Preciso que fiques em tronco nu. – De costa para ela, selecionando as ferramentas necessárias para fazer a tatuagem.

Rhoda despiu-se ficando apenas com a ligadura que tapava os seios.

Iorveth: – A ligadura também. – Notando que ela desviou o olhar com algum embaraço. – Não te preocupes, nada vai acontecer. – Voltando-se de costas para ela a ficar mais à vontade.

Rhoda: – Podes voltar-te. – Tapando com os braços os seios com alguma vergonha.

Iorveth: – Em qual dos lados queres que te faça a tatuagem, e o que queres que te desenhe?

Rhoda: – Quero que faças no meu lado esquerdo e que desenhas folhas e uma raposa.

Iorveth: – Muito bem. – Ficando de tronco nu, o que chamou atenção de Rhoda. – Como eu disse anteriormente, nada vai acontecer. Eu trabalho melhor neste tipo de coisas se não tiver roupa em cima dos meus braços. Deita-te na mesa assim que quiseres. – Pondo-se atrás da mesa ficando de frente para a entrada.

Rhoda deita-se ficando voltada de costas para Iorveth, um pouco nervosa.

Iorveth: – Isto pode doer um pouco.

Rhoda: – Não te preocupes, com isso.

Iorveth, começou por desinfectar a zona onde depois iniciou a fase de decalque que permitiu ver os contornos na pele dela de forma a guiá-lo. Com isto começou a injetar a tinta na pele. O toque dele era cuidadoso e suave, levando o seu tempo a desenhar.

Iorveth: – Preciso que fiques de barriga para cima.

Rhoda observou que Iorveth estava muito concentrado na tarefa que fazia, por isso nada lhe disse para não distrair. Mas houve alturas que pelo canto do olho parecia que ele às vezes olhava para o rosto dela.

Iorveth: – Preciso que fiques voltada novamente de costas para mim. Já falta pouco.

Rhoda mais uma vez obedeceu, mas desta vez Iorveth pôs-se à frente dela, o que a deixou um pouco confusa.

Iorveth: – Preciso que desças um pouco as calças, deixando ligeiramente a coxa à mostra. – num tom firme.

Rhoda: – Hum… – Um pouco hesitante.

Iorveth: – Confia em mim.

Rhoda puxou ligeiramente as calças como pediu ele, sentindo um pouco envergonhada. Iorveth levou o seu tempo a desenhar até dar o toque final.

Iorveth: – Se quiseres podes já levantar-te. Eu vou arrumar isto, fica à vontade para vestir-te. – Saindo da divisão.

Rhoda antes se vestir olhou para a barriga dela e viu a raposa desenhada seguindo com os olhos até à coxa onde terminava. Não tinha palavras para descrever como estava perfeita a tatuagem. O detalhe era fantástico. Vestiu-se com calma, e a parede à frente dela, reparou que havia várias palavras escritas em elfo, onde muitas delas já estavam rasuradas por causa do tempo. Perguntou a si mesma o que significava.

Iorveth: – O que estás a ver é um memorial.

Rhoda: – Oh… – Voltando para a entrada, onde Iorveth estava encostado. – Velhos amigos?

Iorveth: – Sim. – Pegando na roupa para se vestir. – São todos aqueles que morreram na ponte. – Olhando agora para o memorial, com alguma tristeza na voz.

Rhoda: – Qual destes nomes era o dela?

Iorveth: – Este. – Aproximando-se da parede, indicando com indicador. – Thissa.

Rhoda: – Esse foi o nome que pronunciaste mais vezes na noite em que estavas a delirar. – Iorveth desviou o olhar. – Não te sintas mal por isso. Eu também muitas vezes acordava aos gritos chamando os nomes do meu marido e filho. – Olhando de novo para a parede, reparando que Iorveth olhava para ela. – Depois com ajuda do tempo, as coisas tornaram-se ligeiramente mais fáceis de lidar.

Os dois quando regressaram à fogueira Rhoda viu uma garrafa de vinho e dois copos.

Rhoda: – Hum….. Vamos comemorar alguma coisa?

Iorveth: – Sim, esta nova etapa.

Rhoda: – Eu tinha a ideia de que não bebias.

Iorveth: – Eu bebia no passado, mas deixei de o fazer porque não era a mesma coisa.

Rhoda: – Compreendo o que dizes. Mas não sei será uma boa ideia para mim. Eu não sou muito tolerante ao álcool. – Rindo-se um pouco com a mão na cabeça.

Iorveth: – Não te preocupes e aproveita este momento.

A frase de Iorveth fez accionar a memória dela, levando-a ao dia da festa, onde tem uma vaga memória do que tinha acontecido nesse dia no lago.

Iorveth: – Toma. – Passando-lhe um copo cheio de vinho, onde ela agradeceu.

Pela noite dentro os dois falavam em diversos temas acompanhados com algumas gargalhadas, onde Rhoda pela primeira vez viu o verdadeiro sorriso de Iorveth no rosto.

Rhoda: – Uau!!! Nunca tinha visto esse sorriso teu. *Hic*. – Já um pouco afectada pelo álcool. – Devias rir-te mais vezes, sabes. Dizem que faz bem à alma. *Hic* – Dando mais um golo. – Isto de estarmos aqui a olhar para a fogueira, faz-me lembrar do tempo em que eu e Joshua acampava-mos. O facto de estar ao pé de ti assim, trás boas memórias, dessa época. – Abaixando o olhar para o copo um pouco triste. – Boas memórias. – Dando mais um golo.

Iorveth: – Tu fizeste o teu melhor, nas possibilidades que tinhas à disposição naquela altura. Tal como eu.

Rhoda: – Talvez sim, talvez não. Mas fica sempre a dúvida.

Iorveth: – É por isso que temos de trabalhar no duro para tentar mudar algo, nem que seja um pequeno pedaço.

Rhoda: – Nisso, concordo plenamente contigo. – Mostrando um sorriso a ele, levantando-se de repente, o que não contava era que o equilíbrio dela estivesse comprometido. – Oh bolas!!! Acho que exagerei de novo. Estou a ver duas fogueiras. – Rindo-se.

Rhoda quando ia começar a caminhar desequilibra-se, mas num rápido movimento Iorveth envolve ela pela cintura, amparando-a.

Rhoda: – Estás a ver o que me fizeste? – Apontando com o indicador no peito dele. – Eu nem consigo andar como deve ser. – Rindo-se.

Iorveth: – Não te preocupes agora com isso. A onde queres ir?

Rhoda: – Quero encostar-me numa daquelas paredes, aí à frente. Estou a ficar com sono.

Iorveth guiou-a até à parede com cuidado sentado-a no chão, onde ele senta-se ao lado dela, apoiando o antebraço numa das pernas, olhando em frente sem destino.

Rhoda: – Uma coisa que sempre achei estranho, é nunca teres mostrado interesse pelas elfas que vivem no acampamento. Eu sei que as mulheres podem por vezes ser chatas que nem uma porta. – Rindo-se. – Mas tipo, elas são bonitas…. não percebo… o que falta. – Suspirando.

Iorveth: – O ser bonito ou não, não é um pouco relativo, não achas?

Rhoda: – Bem, agora que falas nisso, acho que tens razão. – Encostando a cabeça à parede onde começou a sentir as pálpebras pesadas.

Iorveth: – A mim não me interessa nenhuma das raparigas do acampamento porque já tenho alguém que me interessa. – Num tom baixo.

Rhoda: – Isso é fantástico. Ao menos não irás ficar sozinho. Acho que devias arriscar, mas deixa as coisas fluir com naturalidade. – Fechando os olhos. – Ela deve ser muito especial.

O silêncio põe-se entre os dois durante algum tempo, onde a cabeça de Rhoda vai ao encontro do ombro de Iorveth que observava as suaves feições dela a dormir com pequeno sorriso.

Iorveth: – Tu, nem sabes o quanto ela é especial.