Sanctuary

9 A New Chapter


Aos primeiros raios de sol, Rhoda acordou levantando-se da cama arranjando-se com calma. Selina também acordou meia ensonada. Cá fora o silêncio banhava o acampamento, que acompanhava Selina e Rhoda até à saída do acampamento, que viram Cedric, os dois esquilos do grupo dela, alguns ex-colegas da turma do combate corpo a corpo e Vriran o que surpreendeu Rhoda.

Cedric: – Achas que ias embora sem dizermos um último adeus? – Com sorriso nos lábios.

Rhoda: – Cedric…. Todos vocês. – Com alguma emoção na voz.

Vriran: – Desejamos que tenhas sucesso com a tua nova vida. – Fala Vriran aproximando-se dela.

Rhoda: – Obrigada a todos. – Com sorriso nos lábios.

Todos eles despediram-se de Rhoda onde o acampamento começa agora a acordar, ao longe Rhoda ouviu a voz de Iorveth que falava com um dos esquilos, por breves segundos o olhar dos dois fixaram-se mas é quebrado assim que Iorveth entra de novo na tenda dele.

Naquele momento Rhoda apercebeu-se que mais um capítulo na vida dela tinha chegado ao fim, pelo menos ela achava que sim. De costas voltadas para o acampamento ela avança em frente com cabeça erguida para começar um novo capítulo. Ao chegar à entrada de Flotsam, um dos guardas aborda Rhoda.

Guarda: – O que trás por estas bandas? – Num tom sério.

Rhoda: – Venho procurar trabalho. – Rhoda viu que o guarda olhou-a de cima a baixo um pouco desconfiado. – Meu bom homem, não acha normal uma mulher que viaje sozinha tenha-se de proteger?

Guarda: – Sim, penso que sim. Aliás existem bons homens solteiros por estas bandas, se tiveres interessada. – Com um sorriso, no qual Rhoda também o dá o dela, mas interiormente achava-o repugnante. – Sendo assim, bem-vinda a Flotsam. – Dando-lhe passagem.

A caminho do quadro de anúncios que normalmente encontrava-se, ao pé da Câmara Municipal da vila, Rhoda viu os humanos a olharem desconfiados mas também viu que aqui viviam não-humanos, onde em cada um deles tinham o medo e o terror no olhar. Na praça principal existia um alçapão de madeira com uma tonalidade já escura com três lugares para enforcar pessoas.

No quadro de anúncios ela procurou algum anúncio que lhe interessava-se, mas a maior parte deles eram sem interesse, até que viu um anúncio que lhe interessou.

Rhoda: – Procura-se ajudante para estábulo de cavalos… – Pensativa. – Eu já tive uma quinta em que tinha de cuidar de alguns animais mas nunca de cavalos. Pergunto-me se é muito diferente do que sei. – Olhando para o anúncio atentamente. – Bem só à uma maneira de saber.

Rhoda por não conhecer os arredores da vila, perguntou a um morador onde podia encontrar o estábulo e amavelmente o morador deu as indicações necessárias onde ela encontrou o local. Notou que existia uma área para treinar cavalos. Entrou, mas o local aparentava não haver ninguém lá dentro.

Rhoda: – Olá? – À espera que alguém respondesse.

Durante alguns minutos, Rhoda olhou em seu redor com alguma curiosidade, notou que o interior era um pouco escuro, mas da escuridão vê um anão com cabelo curto e barba ruiva aproximar-se dela.

Gonder: – Olá, minha jovem. Em que posso ajudar-te?

Rhoda: – Eu vim por causa do anúncio.

Gonder: – Hum… – Com uma voz desanimadora. – Entra.

O anão leva Rhoda até ao escritório dele, que estava cheio de papéis e livros por todo o lado.

Gonder: – Por favor senta-te. – Sentado-se atrás da secretária dele. – Qual é o teu nome?

Rhoda: – Rhoda.

Gonder: – Bem Rhoda antes de mais, não me a leves mal por estar um pouco desanimado, mas a contar contigo és a quinta pessoa em três meses que aparece aqui.

Rhoda: – O que aconteceu aos outros quatros?

Gonder: – Desistiram do trabalho. – Rhoda ficou um pouco confusa, com a resposta dele. – Vem comigo que eu explico-te.

Os dois foram até ao estábulo onde estavam os cavalos. O local não era muito grande, mas tinham quatro cavalos nas celas. Rhoda notou que os cavalos eram bem estimados, um deles era castanho claro, outro castanho escuro, outro cinza e o último um lindo cavalo preto.

Gonder: – Aqui estamos. – Parando em frente do cavalo negro. – Este cavalo tem medo de humanos. – Pondo as mãos na cintura. – Eu resgatei-o dos escombros da guerra quando ainda era um potro. Vinha mal tratado e desnutrido. Mas apesar de estar contra as probabilidades ele conseguiu sobreviver. Ele tem uma grande vontade de viver e foi o meu primeiro cavalo que tive no estábulo quando ainda estava no início do meu negócio. – Fazendo uma pausa. – Mas quando o negócio começou a crescer o meu tempo para cuidar dos cavalos também diminui drasticamente e comecei a pôr anúncios para quem estivesse interessado. Foi nessa altura que descobri que ele tinha pavor de humanos, e numa das situações quase matou um à pisadela. Mas com não-humanos tudo às mil maravilhas.

Rhoda: – A confiança dele com os humanos foi quebrada, é normal que fique com pé atrás.

Gonder: – Se quiseres desistir estás à vontade. – Olhando para ela.

Rhoda: – Desistir? Não me parece. – Olhando para cavalo com determinação, no qual o anão reparou.

Gonder: – Sendo assim, acho que ainda não me apresentei, eu sou Gonder. Já alguma vez trabalhaste num estábulo?

Rhoda: – Bem eu já tive coelhos, galinhas e cabras para cuidar, isso conta?

Gonder: – Sim, porque não. – Reparando nas espadas dela. – Assumo que isso foi algum tempo atrás, não?

Rhoda: – Sim foi, mas o que se aprende não se esquece, apenas fica enferrujado.

Gonder: – Bem, lá isso é verdade. Sendo assim estás contratada. Acompanha-me, eu quero que conheças os cantos à casa.

Gonder guiou-a pela casa com calma indicando o que cada divisão era.

Gonder: – Aqui será o teu quarto, como vês não é uma mansão de luxo mas é confortável. Aqui é a cozinha, onde irás comer os almoços e jantares, como é óbvio, e ali ao fundo é …. Tu sabes. – Encolhendo os ombros. – O meu escritório, onde irei passar a maior parte do meu tempo à volta dos papéis, mas se precisares de alguma coisa podes interromper-me sem problemas. E aqui – Deslocando-se para a parte exterior do estábulo. – é onde podes treinar os cavalos ou deixá-los esticar as patas.

Rhoda: – Eu sei que isto vai ser uma pergunta estúpida, mas para além de acolheres e treinares os cavalos no final vendes eles?

Gonder: – Sim, eu reabilito cavalos para depois serem vendidos. Bem, quando quiseres começar a trabalhar, força, eu tenho que voltar à papelada.

Rhoda: – Sim, vou começar.

Gonder: – Bem sendo assim, até logo. – Regressando ao escritório.

Rhoda foi até ao quarto dela onde deixou as suas coisas e foi de novo para o estábulo. Antes de começar a fazer a limpeza de cada local dos cavalos foi verificar como estava cada cerca.

Começou a encher o bebedor que se encontrava na arena de treino onde levou cada cavalo menos o cavalo negro até ao local. Em cada local utilizou o ancinho para mexer na palha antiga substituindo por uma nova, onde na mente dela por breves momentos mostrava-lhe a memória do passado onde ela e Joshua trabalhavam em conjunto na quinta que tiveram um dia.

Rhoda quando acabou o último local Gonder veio ao encontro dela e ficou um pouco surpreendido com a rapidez e eficiência dela.

Gonder: – Vem almoçar.

Rhoda: – Já são horas? – Um pouco surpreendida.

Gonder: – Pela inclinação do sol eu diria que sim. – Com sorriso nos lábios.

Na cozinha, a refeição para eles os dois já estava pronta, sentando-se frente a frente.

Gonder: – Olha que para uma humana és bastante desenrascada.

Rhoda: – A vida fez-me o sê-lo, assim.

Gonder: – Lá isso é verdade. – Dando um suspiro.

Rhoda observou que na parede da cozinha existia um poste de “Wanted” com o nome de Iorveth, o que fez ela olhar por um longo período, chamando a atenção de Gonder.

Gonder: – Mais um a ser caçado pelos humanos.

Rhoda: – Como assim?

Gonder: – Infelizmente se nasceres não-humano, ficas habilitada a ganhar um poster com a tua cara nele. – Comendo mais um pouco. E olha que não precisas de fazer muita coisa para ganhar um.

Rhoda: – Após estes anos todos, ainda não mudaram em nada. – Reparando que Gonder ficou surpreendido. – Porque ficaste surpreendido? Lá porque sou humana não quer dizer que concorde com tudo o que eles fazem, o que na maioria das vezes é sempre.

Gonder: – Eu sabia. – Rindo-se. – Que havia alguma coisa diferente em ti. Mas olha não estragues o teu disfarce, especialmente aqui nesta vila, não vale a pena. – Comendo mais um pouco. – Antes que me esqueça, eu vou ter que ausentar-me e devo chegar um pouco tarde. Assim que chegar eu tratarei do Negro.

Rhoda: – Deixa o Negro por minha conta.

Gonder: – Tens a certeza? – Um pouco preocupado.

Rhoda: – Sim, tenho.

Gonder: – É como achares, mas por favor não te aleijes.

Assim que os dois terminaram a refeição, Gonder saiu de casa e Rhoda retomou ao trabalho onde tinha parado. Aproximou-se do Negro, olhando nos olhos dele e viu que o medo tinha o invadido, por isso ela não interagio com ele. Foi buscar os outros cavalos, metendo cada um deles nos respectivos locais, escovando-os e limpando-os onde deu como recompensa por bom comportamento um pedaço de fruta.

Rhoda olhou que o Negro e viu que parecia um pouco triste, entrou no local dele com cuidado onde ele ficou a um canto. Sem fazer contato com ele, ela conseguiu limpar o local sem problemas. Antes de sair deixou no chão um pedaço de fruta para ele comer, sem mostrar muito interesse.

Na área de treino ela viu que o céu já estava pintado com o entardecer. Assim que deu os últimos toques deu como concluído o trabalho dela por hoje. No quarto deitou-se ao comprido na cama olhando para o tecto pensativa. Sem dar conta começou a pensar em Iorveth, no poste da cozinha e por fim em Joshua durante algum tempo, até que abanou a cabeça para dissipar os pensamentos, voltando-se de costas para porta fechando os olhos à espera que o sono viesse, mas sem muito sucesso uma vez que a cabeça dela estava preenchida de pensamentos.

Por isso levanta-se da cama, equipando as espadas às costas, saindo da vila até às ruínas, onde observa a estátua da mulher e do homem. Sem pensar muito, Rhoda lembrou-se da altura em que ela e Joshua já estavam a namorar, mas uma das primas dele muito mais bonita que ela intrometia-se na relação deles.

Numa das ocasiões, Rhoda apanhou a prima dele a beijá-lo descaradamente à frente dela, onde correu o mais rápido possível fora do local em lágrimas escondendo-se atrás de um arbusto. Joshua aproximou-se com cuidado até ao arbusto.

Rhoda: – Eu não irei meter-me mais no vosso caminho. Eu não consigo ganhar-lhe. Magoa-me muito ver ela sempre em cima de ti.

Joshua: – Tu não precisas de ganhar a ninguém, porque tu já ganhaste. – Limpando as lágrimas do rosto dela.

Rhoda: – Como assim? – Confusa. – Eu vi ela a beijar-te.

Joshua: – Isso foi ela num acto desesperado, quando fiz a minha decisão final. – Mostrando uma flor vermelha com sorriso. – O meu coração é teu e de mais ninguém.

Rhoda: – Mas ela é muito mais bonita que eu. – Pegando na flor, abaixando o olhar.

Joshua: – O ser bonito ou feio é muito relativo a quem o vê. Eu acho-te a mulher mais bonita do mundo. – Mexendo no cabelo dela. – A beleza não é tudo, a nossa relação cresceu com base da nossa amizade e não pela atração física. – Rhoda olhou para Joshua surpreendida. – Achas que iria trocar tudo aquilo que construímos só por causa de uma mulher mais bonita? Nunca, tu para mim és tudo.

Rhoda: – Joshua!!! – Ficando sem palavras, abraçando-o com força.

Rhoda é retirada do seu pensamento após ouvir passos entre as árvores, tomando uma posição defensiva onde ouve os passos afastarem-se gradualmente, retornando à posição normal. Reparou que o entardecer deu lugar à noite que apresentava nuvens acinzentadas que ameaçavam trazer chuva.

O rosto de Rhoda sentiu a primeira gota a cair, seguindo de mais algumas, levando-a a regressar ao estábulo. Gonder aparecia ainda não ter chegado ao estábulo, por isso Rhoda foi até à cozinha onde o jantar esperava por ela. Após comer deitou-se na cama e apesar de estar em forma sentiu o corpo cansado onde ligeiramente o sono começou a convidar as suas pálpebras a fecharem lentamente, levando-a a um sono profundo.

Todos os dias Rhoda acordava aos primeiros raios de sol, comia qualquer coisa rápida antes de começar a trabalhar. Começava a rotina por pôr os três cavalos menos o Negro na área de treino enchendo o bebedor, onde limpava em cada local deles movendo a palha antiga por uma nova, trazendo de novo cada cavalo ao respectivo sitio escovando-os, limpando-os e recompensando-os no final com um pedaço de fruta pelo comportamento. Não esquecendo de limpar o local do Negro em ultimo lugar, deixando também um pedaço de fruta.

Havia dias em que Rhoda treinava na reabilitação de cada cavalo à vez, recompensando-os com mimos e pedaços de fruta. Ela sem dar conta já tinham passado dez meses e nesse período reparou que Negro cada vez que levava os outros cavalos para arena de treino, ele ficava cada vez mais atendo aos movimentos dela.

Numa das vezes Rhoda quis exprimentar se o Negro comeria da mão dela o pedaço de fruta. Assim que acabou as tarefas todas ela aproximou-se do Negro, os grandes olhos castanhos dele, olhavam para Rhoda um pouco inseguros.

Num subtil movimento, Rhoda estendeu a mão com pedaço de fruta à frente do Negro. De início não mostrava interesse na fruta. Ela sabia bem que era uma questão de paciência, onde permaneceu imóvel. O cavalo olhou de novo para Rhoda e começou a cheirar ao de longe o ar, esticado ligeiramente o pescoço, aproximando-se da mão dela, hesitando algumas vezes, acabando por finalmente aceitar a fruta da mão dela.

Rhoda: – Bom rapaz. – Recolhendo a mão, mostrando um sorriso a ele.

Gonder: – OH…MEU…DEUS!!! – Ainda não acreditando no que acabou de presenciar. – Tu conseguiste. – Aproximando-se dela. – Não sei o que dizer.

Rhoda: – Com um pouco de paciência e persistência, consegue-se tudo.

Na hora do almoço, Gonder informou à Rhoda que conseguiu arranjar um cliente importante para o cavalo de cor cinza e que daqui alguns dias fechariam o negócio.

Rhoda: – Isso são óptimas notícias.

Gonder: – Assim que o cavalo for embora iremos ter mais um novo, mais precisamente um potro. Como sabes um filhote tem mais cuidados do que um cavalo já adulto.

Rhoda: – Sim eu sei, mas não deixarei de fazer o meu trabalho.

Gonder: – Fico contente em ouvir isso.

Após acabarem de almoçar cada um deles foi fazer as tarefas destinadas até ao final do dia. Na manhã seguinte, Rhoda é acordada por vozes que vinham fora do estábulo, molhou a cara e foi ao encontro das vozes. Gonder estava à porta onde o cavalo de cor cinza anteriormente estava, com pequeno sorriso.

Rhoda: – Gonder, ouvi vozes. Está tudo bem?

Gonder: – Oh Rhoda desculpa, não queria ter acordado.

Rhoda: – Sem problema, mas o que se passa?

Gonder: – Anda cá.

Rhoda aproxima-se do local e vê um belo potro de cor castanha claro que estava bastante interessado em tudo ao seu redor cheirando.

Rhoda: – É lindo.

Gonder: – Verdade, mas infelizmente vou ter que ir embora, diverte-te com o teu novo filho. – Rindo-se, mas notando uma expressão triste no rosto dela. – Rhoda? Disse alguma coisa que não devia?

Rhoda: – Não, apenas fizeste-me lembrar do meu filho que infelizmente já não se encontra entre os vivos. – Pousando o olhar no potro.

Gonder: – Estou a ver. Eu também tive um filho, mas morreu na guerra. – Ficando em silêncio.

Rhoda: – Sem problemas, Gonder. – Pondo a mão no ombro dele.

Gonder: – Eu e a minha grande boca. Desculpa-me.

Rhoda: – Sem problemas, de certeza que o assunto viria ao de cima mais cedo ou mais

tarde.

Gonder: – Ok, sendo assim vou ter que sair, até logo. – Saindo de cena.

Rhoda: – Tu e eu vamos ter um dia longo pela frente. – Sorrindo-se para o potro.

Rhoda em primeiro lugar tratou dos outros cavalos, antes de começar a trabalhar com o potro. Levou-o para a área de treino onde limpou e mudou o feno do local dele. Reparou que ele era um explorador nato. Foi buscá-lo para limpá-lo e escová-lo, viu que o potro estava descontraído, pelo canto do olho reparou que o Negro observa-la atentamente cada movimento. Ao acabar o potro deu um relincho de satisfação.

Rhoda: – Bom rapaz. – Dando uma festa na cabeça. – Agora vamos treinar as tuas habilidade. – Encaminhado para área de treino.

Rhoda esperava alguma dificuldade em pôr a sela no focinho, uma vez que não estava habituado e por vezes protestava porque não queria estar preso, mas com paciência e persistência Rhoda conseguiu que ele começasse a comportar-se como deve ser dando-lhe fruta como recompensa.

O treino prolongou-se até ao final da tarde com um resultado bastante satisfatório. Rhoda após guardar os acessórios do treino, reparou que o potro bateu com a pata da frente no chão com a cabeça a baloiçar.

Rhoda: – O que queres? – Não percebendo a postura dele.

O potro avançou e recuou em seguida regressando de novo ao ponto onde estava tomando a mesma postura como se estivesse a desafiar Rhoda.

Rhoda: – Queres brincar, é isso? – Dando um relincho de felicidade. – Ok, vamos a isso.

Os dois brincaram à apanhada o que roubou umas boas risadas de Rhoda. Gonder aproxima-se para ver o que se estava a passar-se e pela primeira vez viu o rosto de Rhoda cheio de felicidade.

Gonder: – Olha só para vocês, parecem duas crianças. – Rindo-se.

Rhoda: – Gonder, não tinha reparado que já tinhas chegado. – Parando com a brincadeira.

Gonder: – Sem problema. É bom ver que estás a divertir-te. Quando quiseres vir jantar, estás à vontade. – Caminhando para a cozinha.

Rhoda levou o potro para local dele, onde aconchegou com uma mantinha, viu que ele estava cansado e com sono.

Rhoda: – Descansa pequeno, amanhã temos mais. – Dando uma pequena festa no focinho antes de fechar a porta.

Na cozinha, Gonder não estava presente, o que não surpreendeu muito Rhoda uma vez que era um homem ocupado, começou a comer lentamente o jantar olhando de novo para poste pensativa, enquanto terminava a refeição onde ouviu murmúrios vindos do escritório. Levantou-se até ao local e reparou que a porta do escritório estava semi-aberta o que surpreendeu ela um pouco. Olhou lá para dentro e viu duas adegas em cima da mesa iguais aos que os esquilos utilizavam.

O olhar entristecido e pensativo que Gonder dava às adegas, sem dúvida que ele tinha alguma história com os esquilos. Rhoda voltou para o quarto, deitando-se na cama pensativa. De lá de fora ouviu várias vozes masculinas não muito agradáveis, o que chamou atenção dela.

Rufia: – O nosso chefe está à espera do teu pagamento, com alguma impaciência. Onde está ele?

Gonder: – Eu ainda só tenho metade do pagamento, se me derem até ao final da semana eu garanto que terei o resto. – Com alguma preocupação.

Rufia: – Meu caro, Gonder. – Aproximando-se dele. – Por mim seria em problemas, mas sabes como é o nosso chefe, a paciência é algo que ele não, por isso tens até amanhã para devolver o dinheiro todo. – Pondo o braço por cima do ombro dele. – Odiaria ter que utilizar a força por causa deste pequeno assunto tão fácil de ser resolvido. Bem – Retirando o braço do ombro dele. – então vemos amanhã ao final do dia. – Saindo de cena o grupo de homens.

Rhoda: – Quem são aqueles homens?

Gonder: – Pessoas que nunca devia ter socializado na minha vida.

Rhoda: – Já tens alguma ideia onde vais arranjar o resto que te falta?

Gonder: – Aí está uma excelente pergunta. – Suspirando. – Não faço a mínima ideia. – Fazendo uma breve pausa. – Vou regressar ao meu escritório, se quiseres comer o meu jantar, força, fiquei sem fome. – Caminhando para o escritório pensativo.

No quarto, Rhoda deitou-se na cama pensando numa solução, porque sabia que se aqueles homens não tivessem o que queria o desfecho não seria lá muito bonito.

Rhoda: – A não ser que… – Levando-se da cama tendo uma solução para o problema.

Na manhã seguinte Gonder não se encontrava no estábulo, onde Rhoda fez a rotina no estábulo, almoçou sozinha. À tarde Gonder regressa ao estábulo mas não cumprimentou Rhoda que prosseguiu com o treino do potro até ao final do dia. Cá fora ouviram-se vários passos a aproximarem-se do estábulo.

Rufia: – EI!!!! Gonder viemos colecionar a tua dívida.

Gonder sai do escritório de cabeça baixa para enfrentar o grupo de homens. Rhoda vai até ao quarto, onde debaixo da cama dela, puxa uma caixa de madeira e de lá dentro retira uma bolsa de pele.

Rufia: – Aqui está o meu amigo. – Contente por ver Gonder. – Onde está o dinheiro em falta?

Gonder: – Como eu te disse ontem, eu preciso até ao final da semana para ter o dinheiro todo. – O rosto do homem muda drasticamente para uma expressão muito mais séria.

Rufia: – Porque será que todos vocês que devem dinheiro gostam de complicar as coisas? Devem gostar muito de sentir dor. Só pode. – Movendo-se de um lado para o outro. – Não me deixas escolha Gonder. – Fazendo sinal com a cabeça a dois homens do grupo para o agarrarem.

Gonder debateu-se para soltar-se mas sem muito sucesso. No momento em que o homem ia dar um primeiro soco, a atenção deles desviou-se para a entrada do estábulo.

Rhoda: – PAREM!!!!! – Aproximando-se do grupo de homens, onde alguns começaram a rir-se.

Rufia: – Olha, olha, o que temos aqui? Uma salvadora? – Observando com curiosidade Rhoda que apresentava um olhar intimidador, que fez desviar o olhar de alguns homens mas não desde.

Rhoda: – Toma o teu dinheiro. – Atirando a bolsa de pele em direção ao homem.

Rufia: – Para uma mulher és inteligente. Eu gosto nisso numa mulher. – Andando à roda dela, sem que ela perdesse a postura firme. – Podem soltá-lo. – Fazendo sinal aos dois homens. – Meu caro Gonder devias seguir o exemplo dessa mulher. Vamos embora meus caros. – Saindo de cena.

Os dois entraram no estábulo e foram até ao escritório onde permaneceram durante um bocado em silêncio.

Gonder: – Onde conseguiste arranjar o dinheiro? – Quebrando o silêncio.

Rhoda: – Não te preocupes com isso, já passou.

Gonder: – Mas como? – Rhoda permaneceu calada. – Tu não me digas que… – Chegando a uma conclusão. – Utilizaste o teu dinheiro do trabalho, não devias tê-lo feito, era o teu dinheiro. – Num tom sério.

Rhoda: – Gonder o que achas que iria acontecer depois de levares uma boa tareia daqueles homens? Achas que eles iam ficar só por ti? Não! Eles iriam destruir o estábulo, e muito provavelmente irias ser condenado à forca por qualquer motivo estúpido. – Gonder nada disse, apenas cruzou os braços pensativo. – O dinheiro é apenas uma ferramenta. Já estou farta de injustiças, se quiser mudar alguma tenho de ser eu a tomar o primeiro passo. Se vou ficar à espera dos outros nada muda.

Gonder: – Obrigada. – Olhando para ela. – Não sei como te recompensar.

Rhoda: – Não precisas, tu já o fizeste. Dando-me um trabalho, um tecto, uma refeição quente entre outras coisas.

Gonder: – És diferente dos outros humanos que conheci.

Rhoda: – Talvez as experiências que a vida me deu tenham feito ver as coisas de maneira diferente.

Gonder: – Vamos jantar?

Rhoda: – Sim, vamos.

Há mesa Rhoda falou sobre o como o potro estava a sair-se nos treinos e num modo geral em todo. Ainda ficaram por mais algum tempo a conviver antes de irem dormir.

Numa manhã, Rhoda entrou no escritório sem bater à porta uma vez que a porta estava bem aberta a perguntar onde poderia arranjar um ancinho novo para tarefa em questão e para surpresa dela vê Gonder a arrumar há pressa as duas adegas um pouco preocupado.

Rhoda: – Devias ter mais cuidado, – Fechando a porta. – agora fui eu mas podia ter sido outra pessoa e ficarias em apuros. Como já deves ter percebido, aqui na vila os habitantes humanos não são muito fãs da Scoia’tael.

Gonder: – Mas, – Olhando surpreendido para Rhoda. – como sabias que…

Rhoda: – Eu já vi essas mesmas adegas nas mãos da Scoia’tael. – Gonder suspirou e pediu a ela para se sentar.

Gonder: – Sim é verdade, estas adegas foram oferecidas por Iorveth, quando ajudei-o numa missão quando ainda não tinha o meu negócio. Foi nessa altura que nós conhecemo-nos. Sempre achei-o um jovem muito idealista e lutador pela igualdade entre humanos e não-humanos. – Fazendo uma pausa. – Ele não teve uma vida fácil depois do que se passou, não me admira. Não sei se já ouviste falar do incidente da ponte?

Rhoda: – Ouvi vagamente.

Gonder: – Ele e outro elfo de um grupo de trinta dois foram os únicos que conseguiram escapar com vida. – Suspirando. – Ver os seus amigos a serem mortos à frente dele, não podendo fazer nada, deve ter sido algo muito difícil para ele, escolher entre ele e os seus amigos para sobreviver. Ele nesse dia perdeu tudo.

Rhoda nesse momento lembrou-se da sua família e da criança que teve de consumir a alma dela para sobreviver.

Gonder: – Muita gente não gosta do feitio dele, mas ele é assim por causa das experiências de vida que teve, onde tem receio de perder tudo de novo. – Fazendo uma pausa. – Só de pensar que ele ergueu-se do nada e liderou a Scoia’tael, com o objectivo de mudar alguma coisa em que tem tido alguns progressos mas poucos. Uma das coisas que notei quando falamos uma vez, mas posso estar enganado claro, vi uma ligeira tristeza e vazio no olhar dele, é verdade que toda a Scoia’tael gosta da lida dele mas aquele vazio nele não sei explicar bem. Se calhar pode ter sido uma impressão minha, claro.

Rhoda achou que a observação de Gonder não estava incorrecta, porque quando se perde tudo as pessoas têm a tendência para fechar o seu coração magoado por tempo indeterminado, como aconteceu com ela e mesmo deve ter acontecido com Iorveth.

Gonder: – Eu estou a dizer isto porque houve uma ocasião, em que eu e uns colegas meus estávamos a festejar o aniversário de um deles e convidamos Iorveth para beber um copo mas ele recusou, dizendo que tinha trabalho para fazer com olhar distante.

Rhoda lembrou-se da festa que tinha sido organizada para ela e Iorveth também deu a mesma resposta. Lentamente começou-se a aperceber que se calhar ela e Iorveth não eram assim tão diferentes um do outro em termos de experiências.

Gonder: – Bem, eu adorava estar mais tempo à conversa contigo mas o trabalho infelizmente não se faz sozinho. – Rhoda levanta-se. E respondendo à tua pergunta, podes levar aquele ancinho que está ali ao lado da estante. – Indicando o local.

Rhoda saiu do escritório para acabar o trabalho até ao final da tarde, onde informou Gonder que iria sair por alguns momentos. Foi até às ruínas para pensar um pouco em tudo que Gonder contara. Do canto do olho viu um vulto a aproximar-se com cautela até ela.

Rhoda: – Selina? – Um pouco confusa.

Selina: – Rhoda!!! – Mostrando um sorriso. – Há quanto tempo sem nos vemos. – Abraçando-a com força.

Rhoda: – Vieste sozinha? – Um pouco preocupada.

Selina: – Não, Cedric veio comigo, ele está agora a ver se o local é seguro.

Rhoda: – Mas como sabias que eu estava aqui? – Intrigada

Selina: – Bem, eu não sabia. Hoje eu e o Cedric conseguimos arranjar algum tempo para estarmos juntos e…

Rhoda: – Estou a perceber, foi uma coincidência.

Selina: – Qualquer das formas, vamos conversar um pouco. – Convidando Rhoda a sentar-se com ela. – Conta-me tudo. – Agarrando as mãos dela.

Rhoda: – Arranjei um trabalho num estábulo onde cuido e treino cavalos, onde recentemente temos um membro mais novo.

Selina: – Um potro? Ohhh…. Adorava vê-lo.

Rhoda: – Ele é de cor castanha claro, onde ainda estou a treiná-lo, mas ele é uma força da natureza sempre pronto para a brincadeira. – Fazendo uma pausa. – Há outro cavalo que já é adulto mas não confia em humanos, já fez alguns progressos mas é necessário ter alguma paciência com ele. – Olhando para Selina. – E como vão as coisas no acampamento?

Selina: – Adamar e Edarr já estão no activo, mas Adamar já não faz parte do mesmo grupo que Edarr, a pedido dele.

Rhoda: – Compreensível, depois de tudo o que se passou. – Olhando para o chão.

Selina: – Cedric contou a Adamar o que se passou depois de ter ficado ferido e Adamar ficou sem palavras.

Rhoda: – Hum… Estou a ver.

Selina: – Eu no entanto comecei a estudar magia, onde já sei utilizar alguma.

Rhoda: – A sério? Isso é incrível.

Selina: – Eu ainda não sei muito porque ainda estou no início. Mas olha com o que já sei dá para curar ferimentos mais ou menos complicados. – Selina reparou alguma hesitação em Rhoda. – O que se passa Rhoda?

Rhoda: – Como vai Iorveth?

Selina: – Ele continua lá a coordenar as operações sem se distrair muito. Contudo, eu ouvi de uns esquilos a comentar, que ele durante a noite por vezes sai do acampamento e vai até às muralhas de Flotsam, para observar numa das copas de uma árvore o movimento da vila. Voltando sempre um pouco pensativo, segundo palavras desse esquilo. Por isso não sei se tudo é verdade como tu sabes, porque sem muita iluminação pode tornar-se difícil de se ver expressões.

Rhoda: – Sim isso é verdade, mas Iorveth devia ter cuidado, a Lierin ainda anda por aí. Já passou algum tempo desde o nosso último encontro e não sei o que ela tem em mente, para o próximo movimento, o que me deixa um pouco preocupada.

Selina: – Compreendo a tua preocupação, mas vamos aproveitar o nosso momento da melhor maneira.

Rhoda: – Sim claro. – Dando um riso. – E como vão as coisas com Cedric?

Selina: – Bem…. – Ficando corada que nem um tomate, olhando para o chão envergonhada. – vão bem, ele tem sido impecável comigo. – Mostrando um ligeiro sorriso.

Rhoda: – Ainda bem que as coisas têm andado bem. – Levantando-se. – Vou ter que regressar ao estábulo, espero que consigam aproveitar o resto do tempo para o vosso encontro.

Selina e Rhoda despediram-se com um abraço prolongado, no estábulo jantou na companhia de Gonder onde trocaram alguns dedos de conversa antes de ir deitar-se.