San Peter: A Escola dos Mimimis Amorosos (Vol.2)

72 148. A Última Bolacha do Pacote


Notas iniciais
Oi, pessoinhas! Vamos sentir um pouquinho de nostalgia com a data de hoje. Boa leitura!

A maioria dos estudantes esperavam por uma época específica, as férias. Já outros esperavam pela data que estava por vir. O dia dos namorados. Os casais iriam sair para comemorar, alguns solteiros iriam procurar por um pretendente, outros chorariam por não conseguir um, outros ficariam na torcida para receber os corações do correio elegante e outros não estavam ligando. Eu me encaixava no último grupo esse ano.

Quando andávamos nos corredores do dormitório, o que mais ouvíamos eram conversas sobre o dia dos namorados, sobre o que as meninas fariam nesse dia com seus namoradinhos, como seria o dia perfeito, que roupa usariam etc.

Lili disse que ela e Viktor não fariam nada no dia, mas que pretendiam sair para o cinema no próximo sábado. Aquele era o dia perfeito para sair e passar raiva por causa dos lugares lotados de casais apaixonados, segundo ela, então era melhor ficar na escola e aproveitar outro dia.

Como no ano anterior, as mesmas garotas passaram de sala em sala uns dias antes distribuindo os corações de papel vermelho. Eu não quis pegar nenhum, já que não tinha ninguém para mandar. Até poderia mandar para Lili e o James como fizemos, mas eu achei que ainda estava cedo para fazer aquele tipo de brincadeira, então achei melhor ficar na minha.

No final da aula, as meninas chegaram na nossa sala e começaram a chamar os nomes e distribuir os corações.

Lili recebeu dez, cinco só do Viktor. James recebeu dois e Júlio e eu nenhum. Fingimos chorar enquanto os outros dois liam seus bilhetinhos. No almoço, Bebê chegou com seus míseros quinze corações e os colocou na mesa, com um sorrisinho de quem estava se achando o cara mais bonito da face da terra.

— Nossa, cadê sua humildade? — Júlio perguntou fazendo um bico fingido.

— Olha, nem todos aí são bons, isso eu te garanto — disse Bebê indo pegar sua comida, já que nós já estávamos todos sentados comendo.

— Ué, como assim...? — Lili já foi logo pegando os corações para ler. No quarto, fez uma cara de surpresa e raiva ao mesmo tempo. — Nossa... Deixa eu descobrir quem mandou isso que eu quebro a cara!

— Como assim? — perguntei, estendendo a mão para pegar o bilhete e ela me entregou. James encostou em mim para ler também.

“Você é um belo desperdício. Uma pena te ver com outro cara.”

— Como que deixaram entregar um negócio desse? — James questionou, encabulado.

— Provavelmente não viram. Acha mesmo que elas vão ler bilhete por bilhete pra saber qual tem uma mensagem bonitinha e qual é horrível? — comentou ela, lendo os outros. — E mais aqui. — Nos entregou outro.

“Triste saber que tu gosta da mesma fruta que eu. Uma boca que nunca vou beijar.”

— Como se alguém quisesse beijar essa sua boca suja — resmungou James, revirando os olhos.

— Joga isso fora — falou Lili quando Bebê se sentou, colocando sua bandeja na mesa. — É ridículo uma coisa dessas. Não dá nem pra descobrir quem foi a infeliz que escreveu.

— Acha mesmo que eu me importo com isso? — Ele riu, começando a comer. — Só posso dar risada.

— Bom, pelo menos tem os outros pra compensar — comentou Júlio, tentando animar o clima.

— E o Carlos te mandou algum? — perguntei.

Bebê negou, fazendo uma careta, como se fosse óbvio. — Ele não é de fazer essas coisas.

— E você não mandou pra ele? — Lili o olhou, só querendo confirmar.

— Claro que não. Até parece.

— E por falar no diabo... — brincou James, nos fazendo olhar para onde ele olhava, vendo Carlos se aproximando com sua bandeja e se sentando ao lado do Bebê, estranhando por estarmos o encarando.

— O que eu fiz...?

— Nada. — Bernardo riu. — Eles estão enchendo o saco porque não mandamos coraçõeszinhos um pro outro.

— Mas eu te mandei.

Todo mundo ficou com cara de surpresa e em silêncio, sem saber o que falar. Bebê o encarou e segundos depois Carlos começou a gargalhar, o fazendo revirar os olhos e começar a comer.

— É, vocês combinam mais do que eu imaginava. — Lili riu.

Parando de rir aos poucos, Carlos chegou perto do Bernardo e lhe deu um beijo na bochecha, que foi respondido com um afastamento e um rosto um pouquinho corado, com uma cara de bravo. Carlos sorriu, parecendo gostar de provocar o outro.

Nós rimos, começando a falar de outras coisas. Depois que terminamos, Lili e eu fomos para o dormitório. Começamos a subir a primeira leva de escadas.

— Eles são muito fofos — comentou Lili sobre Bebê e Carlos. — É engraçado ver o Bebê todo sem graça.

— Ele não é muito fã de demonstração de afeto em público.

— Só não o afeto romântico, porque vive agarrado com você. — Deu risada.

— É, isso sim...

— Você viu os corações que seu namorado recebeu? — Alguém perguntou atrás de nós e paramos para olhar, vendo uma garota no final dos degraus, nos olhando.

— Por quê? Você quer ver pra passar raiva? — Lili devolveu a pergunta, cheia de sarcasmo.

— Não preciso ver. Eu sei. Ele já respondeu todos. Eu só fiquei preocupada, você não deveria aceitar uma coisa dessas.

A garota parecia uma modelo de tão bonita, mas sua voz ácida não combinava nem um pouco com o rosto angelical. Com certeza era a ex-namorada do Viktor que Lili tinha comentado um tempo atrás.

Lili se virou de frente para ela, cruzando os braços, com um sorrisinho. — Caramba, você deve estar muito desesperada, né? Pra vir tentar me provocar. Mas olha, melhor você guardar sua saliva. Eu não sou igual a você que dá chilique de ciúmes por cada respiração que o Viktor dá sem mim.

Ela fechou um pouco a cara, mas continuava firme. — É uma pena, estou tentando te alertar. Não devemos confiar em homem algum.

— Deve ser triste não poder confiar em homem nenhum. Fica tranquila, eu confio no Viktor, afinal, nós nos conhecemos basicamente desde sempre, diferente de você. Pode deixar que estamos ótimos. — Lili segurou minha mão e me puxou, voltando a subir a próxima escada.

A menina não falou mais nada, e só ouvimos a porta da entrada bater.

— Ridícula. Isso poderia funcionar com a Lili de anos atrás, mas agora tá longe de mexer comigo.

— Eu não consigo entender por que fazer uma coisa assim.

— Ela tentou dar um golpinho, provavelmente mandou alguns corações pro Viktor e tentou me convencer de que ele também mandou pra ela. Não duvido que tenha escrito alguns e mandado pra si mesmo. Só pra fazer a gente brigar. Coitada.

— Ela queria que vocês brigassem, terminassem pra ela ir atrás dele, não é?

— Com certeza. Mas mesmo que isso tudo realmente acontecesse, as chances do Vitkor voltar com ela eram menores do que zero vírgula um por cento... Agora estou curiosa para saber o que ela escreveu. Vou pedir pro Vi me mostrar. — Deu uma risadinha.

Assim que chegamos no quarto, deixei minha mochila no meu e fomos pro dela. Lili pegou seu celular e mandou uma mensagem pro Viktor, pedindo pra ver os bilhetes. Poucos minutos depois ele respondeu, dizendo que os levaria para o jardim.

Descemos rapidamente e esperamos por ele em uma das mesas.

— Ela foi falar com você? — Viktor indagou assim que se sentou no banco de frente para nós, deixando os corações de papel sobre a mesa.

— Sim e a Bru tá de prova — respondeu ela, pegando e começando a ler os papeis, já rindo.

Viktor negou com a cabeça, como se estivesse cansado. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo e alguns fios da franja estavam soltos, por serem mais curtos. Fazia um tempo que eu não parava para reparar nele. Ele parecia um pouco mais velho, mas não menos bonito. Era engraçado como ele e a Lili combinavam. Muito mais do que ele e aquela garota.

— “Como você sempre sabia exatamente onde tocar...”, ela por acaso sabe que você aprendeu essas coisas comigo? — Lili deu risada, como se estivesse vendo um filme de comédia.

— Vai ficar se achando a professora agora, é? — Ele riu.

— Claro. Qualquer coisa pra essa doida se achar menos. Ela se acha a última bolacha do pacote, ela só não se tocou ainda que ela é daquelas bolachas que são pura gordura trans e açúcar, que todo mundo deixa no pacote porque não aguenta mais comer.

Essa fez Viktor e eu gargalharmos.

— Mas o que ela disse?

— Ah, que eu devia ficar de olho em você, porque você respondeu os bilhetes dela, e que não se pode confiar em homem nenhum e blá, blá, blá. E eu falei que sentia pena dela, porque eu podia confiar em você porque nos conhecemos desde sempre e... Enfim. Calei a boca dela e ela foi embora toda bravinha por não ter conseguido o que ela queria.

Viktor suspirou. — Você quer que eu vá falar com ela?

— Não, não precisa dar esse gostinho pra ela. — Lili juntou os bilhetes e deixou na frente dele. — Eu não quero chegar no mesmo nível, mas tô me coçando pra andar agarrada com você na frente dela.

— É, eu imaginei. — Ele riu. — Podemos fazer isso quantas vezes você quiser.

Eles realmente andaram agarrados naquele dia, e no outro também. Aliás, pelo resto da semana. No tempo livre que tinham, estudavam juntos.

As provas começaram quase no meio da semana, o que significava que tinham mais provas no mesmo dia. Eu não sabia se ficava aliviada ou triste pelas férias estarem quase ali. Era sempre a mesma coisa, né? Ficar sem estudar era ótimo, mas ficar longe dos amigos era triste.

A semana da recuperação começou gelada com o início do inverno. Todos estavam embrulhados em seus casacos e meias grossas. Ali, no litoral, eu achava muito mais frio do que na minha cidade. Nem pudemos fazer uma “festa de despedida” na piscina. Não arriscaríamos nem molhar os pés naquela água congelante.

Pelo menos conseguimos ficar juntos no último fim de semana antes de Bebê e eu irmos embora. Ficamos todos na casa do Júlio, jogando, vendo filmes, comendo e realmente aproveitando os últimos momentos antes das férias.

As notas saíram na última semana do mês e, como sempre, não tínhamos do que reclamar. Estávamos ótimos.

Aos poucos fomos nos despedindo de todo mundo, parecia até que nunca mais nos veríamos, mas era só um mês. Na sexta-feira nos abraçamos não sei quantas vezes, e James, Júlio e Lili ficaram conosco no ponto de ônibus. Com um último abraço, subimos no ônibus e fomos para o terminal, um pouco tristes, mas animados por voltar para casa.

Logo chegamos no terminal. Entregamos as passagens, guardamos as malas e subimos, pegando nosso lugar de costume.

— Vai ficar longe do seu namoradinho, e agora? — brinquei com Bebê, assim que o ônibus deu partida.

— O que você quer que eu responda? Que eu vou sofrer e chorar toda vez que trocarmos uma mensagem? — Ele beliscou minha bochecha e eu resmunguei.

— Ai, sai fora.

— E agora que você vai voltar a ficar o dia todo no msn, vai mandar mensagem pro Yan?

Travei ao ouvir o nome dele, me lembrando que era bem provável que agora ele tivesse internet lá em São Paulo. Será que eu devia mandar alguma coisa? Perguntar como as coisas estão?

— Até travou, coitada.

— Fica quieto. Eu não sei... Faz tanto tempo que não conversamos.

— E se ele estiver online? Vai mandar mensagem?

— Não sei! Para de me pressionar.

Ele riu. — Pode ter certeza que não vou parar, ainda mais quando chegarmos.

Tanta coisa aconteceu desde a última vez que nos falamos. Eu não sei como ele reagiria se soubesse que...

Ai, Deus...

Notas finais
E ai, acham que a Bru deve ou não mandar mensagem? xD Até mais o/