E depois de uma tarde na praia, fomos arranjar um lugar pra descansar. O que não seria uma coisa fácil, por que eu escolhi logo as aulas de francês para ficar com saudades do Nick. Ah, céus. Eu devia escolher a de filosofia, já que metade da classe dormia mesmo.

Ficamos andando pela praia, vendo se havia algum hotel na avenida da orla. Era difícil por que tinham muitos prédios altos e bonitos por ali, parecia ser a parte nobre da cidade. Tentamos parar alguns locais, mas nenhum deles falava nossa língua e não estava a fim de entender nossa mímica. Humpf. Estávamos no país dos mímicos e nenhum francês fru fru queria ver essa minha arte. Vê se pode.

Passamos pelo aquele mesmo senhor que nos deu uma limonada grátis. Ele sorriu para nós e começou a falar um monte de coisas. Fizemos gestos para que ele parasse. Seria um bom momento para eu ser a Srta. Google Translator.

— Nous ne parlons pas français. – Me esforcei para me lembrar da única frase que julguei importante.

Jenny deu um passo à frente.

— Observe a mestra, novata na mímica.

O senhor da limonada pareceu aceitar o desafio da mímica.

— Nós... – Jenny apontou para nós quatro. Ah essa é fácil. Quero ver as outras. – Nós queremos ir – Ela abriu uma mão e fez com os dois dedos centrais da outra andassem sobre ela. – Para um hotel. – Ela desenhou um triangulo com os dedos. — Entendeu? Ho-tel. Onde tem um?

Grande mestra de mímica, pensei.

Mas, para minha surpresa e bom para o ego de Jenny, o moço entendeu. Fiquei chocada. Ele apontou para um prédio branco com grandes janelas de vidro, que refletiam o mar e ficavam num tom azul escuro agora à noite.

— Poderes de Filha de Apolo, baby. – Jenny disse.

Seguimos então para o hotel.

O nome do hotel era Hôtel Le Dauphin, era um hotel três estrelas e bem aconchegante. Decoração com cores pastel e muitos turistas de diversas partes do planeta. Nick pegou sua identidade falsa da mochila e foi ao balcão fazer o check-in, fui com ele. Por sorte, havia uma recepcionista que falava nossa língua.

— Boa noite. – Ela abriu um sorriso tão falso quanto nota de três dólares. – Então, em qual nível de suíte vocês querem ficar?

Nick olhou para a mim com cara de sacanagem.

— Uma suíte de lua de mel e dois outros quartos. – Ele pediu.

Dei uma cotovelada tão linda nele que consegui sentir seu estomago com o cotovelo.

— Era... brincadeira... sua idiota. – Nick disse sem ar.

Arranquei seus documentos da mão e me dirigi a recepcionista.

— Hm, três quartos. Um com duas camas de solteiro e dois com uma cama só. Tome aqui os documentos dele, estamos sobre sua custódia. Vamos ficar só uma noite aqui. Sabe onde tem alguma rodoviária?

— Não aqui, senhorita. Mas, vocês podem ir até o aluguel de carro e ir até a próxima cidade. Seus cartões-chave. – Ela me entregou os três cartões e uma cópia de cada. – Tentei por vocês nos mesmo andar, mas um quarto fica na outra ponta extrema do corredor. Quinto andar, quartos 5010, 5011 e 5030. Vocês têm dejejum, almoço e jantar inclusos no pacote. Lazer à vontade no hotel. Aproveite a estadia.

— Obrigada.

Pegamos nossas mochilas e fomos em direção ao elevador; Nick e eu na frente, e Jenny e Queen um pouco mais atrás.

Nick me puxou pelo braço para mais perto dele e sussurrou para mim:

— Você sabe que eu nunca tocaria em você, não?

— Eu sei. A cotovelada é por você gostar de você fazer cena.

— Ah, como se você também não gostasse.

Sorri com o canto da boca.

— A única diferença é que eu posso.

Depois disso seguimos para o elevador.

Chegamos ao nosso andar. Queen optou por se isolar no outro lado do corredor, não reclamei. Nick me deu um beijo na bochecha e foi para seu quarto, Jenny e eu, como sempre que possível, dividimos nosso quarto. A verdade é que ela é uma chata, mas eu adoro ficar acordada até tarde falando com ela. É quase uma necessidade vital minha. A Jenny não tem casa, você não entende. Cinco vezes na semana, no mínimo, ela dorme na minha casa. E a única coisa que eu não gostava do acampamento é que a política deles não aceita eu me enfiar no meio do chalé sete, uma pena.

Jogamos nossas mochilas nas camas e a primeira coisa que fizemos foi tentar foi secar as notas de dinheiro com o secador que estava preso a parede do banheiro. Salvamos quase todas, mas perdemos uns cinquenta dólares. Enquanto eu tomava banho, Jenny secava minha roupa e assim vise versa.

Pus meu moletom e desabei na cama. Jenny procurava a MTV para poder se entreter, mas não achava.

— E a seguir, uma matéria sobre a maior catástrofe aérea do ano. – O ancora do jornal anunciou, provavelmente num canal de nosso país. Mas Jenny falou ‘’ Ah, que chato. ‘’ e mudou de canal. Joguei a travessei nela.

— Ei, vai falar sobre o nosso avião, gênio! Volta para aquele canal.

Então ela revirou os olhos e voltou para o canal de noticiário.

— Mais navios de resgates para achar corpos são mandados para o local da colisão. No entanto nenhum foi encontrado. As famílias das vítimas estão desoladas. – Nesse momento apareceram pessoas que não reconheci na TV, chorando e dando uma entrevista. O silencio reina no quarto quando aparece uma imagem de apenas três segundos, mostrando a mãe de Jenny chorando e me pai a abraçando pelo ombro. Deuses, fiquei tão atônita. Meu pai pensa que eu morri. A reportagem segue. — Em depoimento, e diretor de manobras, que cuidava da torre na hora do acidente, diz que é um atentado terrorista. Ele teve uma conversa pelo rádio com Samantha Roberts, que diz ter entrado na cabine quando o avião estava caindo. Ano passado esta mesma garota foi acusada de destruir sua instituição de ensino com sua amiga Jennifer McGuire, depois foi inocentada. É curioso, visto que essa sua amiga estava no mesmo voo que ela, não é mesmo Will? Há especulações e rumores de que ela é doente mental. – Sou doente mental? Humf. Quem esse mortal pensa que é? Estou numa missão para salvar a vida dele, indiretamente, e eles falam que eu não bato bem. Eu devia ir até o estúdio e fazer o cérebro dele escorrer pelo nariz depois de derreter, isso sim. – Mas o diretor de manobras descarta essa possibilidade. Ele alega que Samantha estava tentando pousar o avião e ligou em busca de auxílio. O último contato que tiveram foi quando entrou uma terceira pessoa na conversa, Nicholas Johnson, namorado de Samantha, para ajuda-la e a energia do avião acabou. Mas, e agora? Quem teria matado o piloto e o copiloto? A que razão? Foi um atentado terrorista mesmo? Descubram aqui no próximo noticiário do canal 7.

Jenny desligou a televisão. Ela levantou na cama correndo para a mochila e a vasculhava como se sua vida dependesse disso.

— Ei, nem pense nisso! – Mandei.

— Primeiro, pare de entrar na minha mente sem permissão! Minha mãe pensa que eu morri, tenho que mandar uma M.I para ela.

Corri até ela e a puxei para trás pela cintura.

— Pare, doente mental!

A virei e segurei pelos braços.

— Pare você! Eles pensam que morrermos, mas não foi assim. Nós morreremos de verdade se mandarmos um M.I e Sócrates nos rastrear, você sabe que ele consegue. Certo? Vamos esperar até a missão acabar e vamos voltar para a casa. Meu pai também pensa que eu morri, mas isso é o certo.

Ela assentiu, tristemente.

— Você acha que eles assistiram também a reportagem? – Jenny perguntou.

— Não sei. Leio mentes, o cargo de prever coisas é seu. Agora vamos dormir, te acordo cedo amanhã.

Ela foi para cama, mas só de olhar para ela eu percebia o quanto ela estava mal com isso. Deitei na cama, na esperança de dormir. Não foi muito bem o que eu consegui.

Em meus sonhos eu estava com minhas mãos nos olhos. Chorava demais, demais mesmo. Mas, eu não chorava assim, era diferente. Eu estava vendo pelos olhos de outra pessoa, de novo.

Depois de um tempo, engoli o choro. Sequei as últimas lágrimas em meus olhos com as costas das mãos e, num abraço, juntei meus joelhos ao peito. Eu estava num tipo de compartimento, me parecia uma câmara. Câmara.... caverna do monte Tamalpais. Eu era a infiltrada. Olhei para minhas mãos, tão lindas e aparentemente delicadas, mas capaz de empunhar uma espada com destreza. Tão familiares. Desci da cama. Tentei me guiar para um tipo de espelho ou qualquer coisa do tipo, mas eu não tinha o domínio do corpo.

Um garoto, que aparentava ter seus quatorze anos, apareceu na câmara.

— Tenente. – Ela chamou.

— Diga, Travor.

— Uma péssima notícia. Eles sobreviveram ao acidente, Nicholas salvou a todas e a ele mesmo também.

Dei um sorriso digno do gato de Alice.

— Eles... sobreviveram?

— Isso. E eu que não irei dar essa notícia para o mestre, isso é seu cargo. Agora vá lá.

Corri quase saltitante de tanta alegria. Alivio, felicidade, vontade de socar a cara de Sócrates e xinga-lo de otário, tudo ao mesmo tempo. Nossa, estou simpatizando mais com a infiltrada a cada sonho.

Quando cheguei na maior câmara, me deparei com Sócrates pensativo e sentado em seu trono. Me ajoelhei e fiquei com a cabeça baixa e não ousei levantar.

— O que faz aqui? – Pergunta Sócrates com frieza. – Deu um jeito no avião?

Sorri com a pergunta, mas meu cabelo estava cobrindo minha face de modo que Sócrates não via. Di Immortales, que é essa garota? De modo que nem eu sonhando conseguia vê-la também. Quer dizer, me ver. Ah, isso é confuso demais.

— O avião caiu, mestre. Todos os passageiros mortos.

Bom, pelo menos os mortais, pensei depois. Ai, que burra! Sócrates lê mentes, idiota! Argh, tinha que ser burra pra ser tenente de Sócrates mesmo.

— Todos mortos. – Ele repetiu, dando um sorriso . – Ah, doce sabor da vitória. Roberts pagou pelo que me fez. – Ele levou a mão ao peito e abaixou a toga até mostrar uma cicatriz com queloide. Sim, era em formato de um S de linhas retas, a cicatriz que a lâmina de minha espada tinha feito nele. Levantei minha cabeça para ver a cicatriz e tentei esconder o sorriso. Ei, a garota gosta de mim. Isso é bom, se ela não estivesse do lado dele e tentando me matar. – Bom, continuemos com o plano. Como estam nossas outras instalações. Estão prontas?

— Tudo pronto. Assim que vencermos a batalha, podemos ir para lá.

— Hm, mudei de ideia. Prepare as tropas, o navio e tudo. Iremos ao ataque amanhã de manhã.

— Não! – Gritei e me levantei com tudo. – Quer dizer, os mais novos e os não-reclamados estão sem condições de batalha. Me de mais alguns dias, juro que vou deixar os melhores guerreiros em suas tropas, mestre.

— Você está tentando me enganar, vou descobrir o que você está fazendo. Mas, por outro lado, não quero perder muitos combatentes. Esperarei, sim, mas assim que possível vamos para o Acampamento Meio—Sangue. Vamos matar e exigir redenção daqueles que nos negaram.

Acordei assustada, com raiva, ensopada de suor e respiração a mil. Levei minhas mãos à cabeça e puxei meus cabelos até não aguentar de dor. Droga, droga! Outro sonho com ela, sem nenhuma descoberta. Outro sonho com ele, e revelando outro ataque. Mas agora não posso fazer nada. Estou na França, longe de casa, longe da Grécia e com um país inteiro para percorrer antes de chegar ao nosso destino. Eu não tinha nada, repito, nada que pudesse adiantar nossa viagem. E a infiltrada sabe disso. Ela está do nosso lado ou só fez isso para poupar a si mesma da ira de Sócrates se descobrisse que estamos vivos? Arrumei minha cama e me vesti. Não sei para onde eu iria, mas eu queria pensar.

Passeei pelo saguão, pela piscina para ver se Nick estava dando um mergulho da madrugada, pelo salão de jogos, por quase todo hotel. Parei de frente a uma porta vidro, com filme preto, que tinha o seguinte aviso em francês e logo abaixou em inglês: Favor, manter a porta fechada para não vazar o som dos instrumentos. Ei, instrumentos? Não hesitei em entrar na sala de música.

Acendi apenas uma luz que iluminou um instrumento no fundo da sala. Perdi o ar ao ver o piano mais belo que eu já vira em toda a minha vida. Preto, majestoso, desenhado pelo próprio Apolo, por que seria um insulto ao piano se assim não fosse. Sentei no banco e acariciei as teclas do teclado dele. Hesitei. Há quanto tempo eu não tocava?

Há alguns anos atrás, quando eu tinha uns onze anos, meu pai leu um artigo no jornal que dizia que aprender a tocar algum instrumento musical era bom para crianças com déficit de atenção, isso para ajudar na concentração, na coordenação motora e tal. Eu sempre gostei do som de instrumentos eruditos, então aceitei. Na segunda aula eu já queria sair. Aquele professor chato só me mandava fazer exercício de dedilhado a aula inteira. Um dia, eu tinha brigado com o professor e ele me mandou ficar mais uma hora no conservatório musical para fazer mais dedilhado. Assim que acabou meu tempo, fui ao banheiro. Quando voltei, meu professor estava sozinho na sala tocando a música mais linda no piano que eu já ouvi. Eu me lembro da delicadeza e destreza que ele tinha ao mesmo tempo nas mãos, o jeito que ele dançava junto com a música. Era My Immortal, do Evanescence. Eu esqueci de como respirava, fiquei somente observando, dando passos cautelosos a frente para não emitir qualquer ruído que pudesse atrapalhar. Eu era tão inocente, me impressionava por tão pouco e a música me tocou demais. Admito, uma lágrima escorreu pelo canto de meu olho.

— Sente-se aqui comigo. – Meu professor pediu e assim eu o fiz. – Sam, piano no começo é chato mesmo. Mas, se você fizer o que eu mandar, quem sabe você não toque assim algum dia?

— Eu adoraria.

— Sabe, Sam, o piano é como a vida. Ás vezes é chato, cansativo e difícil de tocar em frente. Mas você tem que persistir, dedilhar, tentar. Assim que você persiste, a melodia de sua vida fica mais bela.

— Obrigada, Sr. Howard. Juro, vou ser a melhor aluna que o senhor já teve, vou tocar como o senhor um dia.

— Eu sei, Sam. Você pode fazer coisas grandiosas.

A lembrança me deixou muito feliz. O dia em que eu saí do conservatório foi tão triste, eu tinha acabado de fazer quatorze. A diretoria escolheu dois alunos para fazer uma apresentação solo de piano, os que eles julgavam melhores. Senhor Howard queria que eu tocasse de qualquer maneira, eu era sua melhor aluna. Acho que consegui cumprir minha promessa. No dia da apresentação, senhor Howard mandou o Cody sair do palco e eu toquei em seu lugar. Foi uma experiência única. No dia seguinte ele foi demitido por causa disso, e eu não ficaria naquele lugar sem o melhor professor que eu tive em toda a minha vida.

Parei de acariciar o piano e comecei a tocar a música que uniu professor e aluna. Por um momento, esqueci da guerra, de meus sonhos, meu problemas, minhas tristezas, tudo. Só eu e o piano numa dança. Não ousei falar, cantar ou fazer qualquer barulho com o banco.

A música acabou e ouvi palmas ecoarem atrás de mim. Queen dá um passo à frente e sai da escuridão e se senta ao meu lado no piano.

— Nick tem razão, você é filha adotada de Apolo. – Ela disse a mim. Sorri. – É lindo, Sam. Eu adoro piano, não sabia que você tocava.

— Nem eu me lembrava.

— O que faz aqui a essa hora da madrugada?

— Clareando as ideias, pensando no que vamos fazer. Não me esquecer de quem eu sou e por que estou aqui. E sem falar dos sonhos.

— Sonhos?

Então expliquei todo meu sonho a ela, sobre estarmos prestes a ser atacados e sobre a garota ter mentido sobre nossa sobrevivência. Também contei a ela sobre o noticiário, mas ela já tinha visto.

Ela balançou a cabeça negativamente e deu uma risada.

— O que foi? – Perguntei.

— Nada. Só que... do jeito como essa garota reagiu, e o que ela fez por nós... ah, deixe para lá.

— Não, não! Me conte, eu preciso saber.

— Ela me lembra uma amiga muito querida, mas ela nunca faria isso, ela não pode.

— Como não? Quem você achava que não seria, será. Queen, me diga quem é ela.

— Já falei para você esquecer. Não rola. Mas, agora toque um pouco mais, gostei de te ouvir tocar. – Ela sorriu para mim, o que eu achei totalmente demais.

Assenti. E passamos a noite juntas, cantando e ouvindo o som mais que perfeito do piano.

Notas finais
Se estiverem interessados em se sentir como a Sam ao ouvir My Immortal no piano, o link do video que mais me tocou a música. http://www.youtube.com/watch?v=6TNgA1Jb_C0