Samantha Roberts - O Infiltrado
11 O Camikaze
Notas iniciais
Foi uma das melhores vigílias que eu já fizera em toda minha vida. Não pude deixar de prestar atenção em tudo a nossa volta, mas foi, com certeza, a mais divertida. Mal eu notara o tempo passar e já era hora da segunda vigília, a da Jenny e do Nick.
Tentei relaxar um pouco. Nada aconteceu. Sócrates falhou. Vamos viver. Vamos vencer. E, como sempre quando penso assim, eu estava errada. A questão é, quando a pessoa em questão é Sócrates, você deve esperar o inesperado.
Eu conversava com Queen quando tudo começou. Estávamos falando sobre antigas batalhas dela. Monstros que atacaram o acampamento, missões antigas. Ela me contou que foi em duas missões com Susana e Jenny, mesmo sendo perigoso. Acho que noção de perigo é uma coisa que realmente essa turma não tem. Onde já se viu dois filhos dos Três Grandes embarcarem em uma missão? A última missão dessas que eu fiquei sabendo foi.... Resgate na Ilha de Polifemo. A última missão de Susana. E outra sem noção de perigo é a Jenny que esteve nessas missões! Garota louca!
Enquanto eu a xingava mentalmente, Jenny emitiu um ruído, seguido por um barulho dela batendo em alguma coisa.
— Jenny! – Nick quase gritou na fileira da frente.
Tirei o cinto com tudo e corri para perto deles. Nick segurava Jenny, desmaiada. Ela a chacoalhava para acordar, mas eu o mandei parar. Tirei o cinto de Jenny e a sentei na poltrona, deitando sua cabeça no ombro de Nick. Ela estava pálida como a neve e suava muito. A aeromoça nos ofereceu ajuda, mas recusamos. Pessoas em cima era tudo o que Jenny não precisava. E agora? Como curar a médica da missão?
Comecei a abana-la com minha mão. Nick a chacoalhava um pouco e Queen, de pé da fileira de trás, conversava com ela. Depois de um tempo Jenny piscou os olhos fortemente e abriu os olhos, confusa. Suspirei aliviada. Demos um tempo para ela tomar um ar.
— Jenny, o que houve? – Perguntei preocupada.
— Visões... ruins... muito ruins. – Ela disse atordoada.
Pedimos água para a aeromoça e demos para Jenny. Ela desceu aquilo pela garganta e respirou fundo.
— Horrível. – Ela começou a nos contar o que viu. – Não consegui ver direito. Eram borrões, vultos, confusões de muitas vozes. Vozes conhecidas, muito conhecidas. Todavia, nenhuma identificada.
— Todavia? Você está falando que nem eu. – Reparei.
— Sei lá. Sempre quando você fala essas coisas nerds sempre causa um efeito maior. – Jenny disse. – Eu... primeiro vi água, muita agua. Eu estava debaixo d’agua por algum motivo. Depois estávamos no escuro, ou era um borrão preto mesmo. Aí minha visão ficou pior. Ouvi espadas. Um grito. E a única coisa nítida que eu vi foi você, Sam. Toda molhada, gritando e chorando.
Sentei com tudo na poltrona ao seu lado. Que raios iria acontecer comigo? Quem você achava que não seria, será. Era isso que a profecia dizia. Quem é a pessoa que menos espero que pode me fazer algum mal? Olhei para minha amigas e Nick, que olhavam para mim com compaixão, se imaginando em minha situação. E, sim, eu sabia que eles estavam imaginando isso mesmo, eu tinha meios como saber. Não podia ser nenhum deles. Até mesmo minha fé em que Queen era a infiltrada estava abalada um pouco. Mas não totalmente.
Nick pegou minha mão. Permiti-me dar a ele um sorriso com o canto da boca. Fez ele se desfez ao ouvir um grito de dor logo à frente. Olhei para eles e mandei-os ficarem no lugar. Corri corredor à frente.
Olhei todas as fileiras desesperada. Nenhum ferido, só passageiros assustados. Voltei devagar para nosso assento, mas uma grande turbulência fez com que eu caísse direto no chão.
— Sam! – Nick gritou.
— Estou bem. – Tentei levantar. Outro fracasso, devido à outra turbulência. – A cabine do capitão. – Sussurrei a mim mesma.
Consegui me levantar. Corri para frente do avião e tentei abrir a porta, que estava trancada. Droga, pensei. Tentei arromba-la dando-lhe um chute na altura da tranca, mas o sistema de segurança era bom.
— Queen, manipule a névoa! – Gritei. – Jenny, me jogue o pote de fogo grego. Agora.
Jenny abriu o compartimento superior e vasculhou a mochila. Ela jogou o pote para mim. Dei alguns passos para trás, tentando me equilibrar. Joguei o fogo na porta, que explodiu.
Passei pela camada de fumaça, tossindo por inala-la. Quando a fumaça se dissipou tive uma visão horrível. O volante sozinho. O painel quebrado. E dois corpos jogados no chão. Abafei o grito.
O primeiro, que era o copiloto, tinha muito sangue no chão na direção da cabeça. Me ajoelhei ao seu lado e levantei um pouco sua cabeça. Havia um corte muito profundo na parte de trás da cabeça, feito por uma adaga. Olhei para o outro corpo. Com a mão direita segurando uma adaga, provavelmente a mesma que matou o copiloto, no peito. Constatei que foi um homicídio e um suicídio.
— Um camikaze. – Sussurrei.
Mais uma turbulência. Olhei para o volante que estava se levantando sozinho, fazendo o avião cair num anglo de quarenta e cinco graus inclinado para baixo. Sentei na cadeira do piloto, tentando entender algo. Eram muitos botões, e um painel totalmente destruído pelo piloto. Argh, odeio ter um inimigo esperto. Eu não podia por de novo no modo de auto pilotagem.
Peguei no volante e o puxei para baixo, tentando levantar o avião. Mas é mais difícil do que parece. Pus os fones de ouvido e liguei o rádio.
— Torre! Torre! – Chamei desesperadamente. – Alguém aí? Avião... – Olhei para o painel, onde o número do avião estava escrito em baixo relevo. – Avião E-3745 caindo!
O rádio começou a fazer aquele barulho de como se estivesse encontrando a frequência. Um homem começou a gritar comigo em uma língua que eu só reconheci como francês graças às aulas.
— Pode chamar alguém que fale inglês? – Pedi. — Ouviu? Inglês!
O homem chamou outro cara que pegou o rádio.
— Prossiga. – Outro homem pediu.
— Meu nome é Samantha Roberts. Tenho dezesseis anos e nenhuma experiência em voo. Encontrei dois corpos aqui na cabine. O piloto e o copiloto estão mortos! O painel todo destruído e sem meios de colocar no piloto automático. Não sei como pilotar!
Nesse momento Nick chegou na cabine com tudo. Ele avistou os corpos e olhou assustado para mim. Ele balançou a cabeça negativamente ao perceber tudo. Nick arrastou os corpos para o canto e sentou na poltrona do copiloto.
— Droga! – Ele gritou e deu um soco no painel.
— Acalme-se, Nick! – Mandei.
— Samantha, você está acompanhada? – Perguntou o homem no rádio.
— Sim, mais ou menos. Nicholas Johnson está ao meu lado. É meu namorado, sem experiência em voo também. O que temos que fazer?
— Tente... – Ele não conseguiu terminar a frase. As luzes do avião se apagarem. Sem energia. E estávamos caindo.
— Temos que sair daqui! – Nick gritou para mim.
— Não! Nós vamos morrer! Se o avião vai cair, vou tentar fazer o máximo que posso!
— Não vamos morrer!
— Vamos sim!
Puxei o volante para baixo para tentar levantar mais o avião. Se ele não caísse tanto de bico na água, a explosão com o impacto seria menor, até com chances de sobreviventes. Mas estávamos sem energia. Não deu certo.
— Sam, vem comigo! – Nick mandou.
— Eu vou tentar salvar todo mundo! – Gritei com ele.
— E eu vou salvar todo o meu mundo! Vou te salvar! – Ela estava quase berrando. O ainda avião caindo. – Venha agora!
Ele pegou minha mão e me levantou a força daquela cadeira. Corremos em direção às garotas, que se agarravam a poltrona. Caímos duas vezes durante o percurso. O avião caia em velocidade maior ainda. Todos nós gritamos desesperadamente.
— Peguem suas mochilas! – Nick mandou.
Não hesitamos e pusemos nossas mochilas nas costas. O avião caindo, ou melhor, a poucos segundos do contato com o mar.
— Me abracem! – Nick mandou. Dessa vez nem liguei por Queen estar agarrando meu namorado. Agarrei-o com todas minhas forças também.
Depois disso, muita coisa aconteceu em muito pouco tempo.
Uma explosão. Um clarão, fogo e gritos. Nick deu um grito de guerra e tudo o que eu consegui ver foi a agua me envolvendo, me protegendo. Até demais. A agua estava me levando para longe deles. Nick agarrou minha mão, o que era muito difícil com duas pessoas agarradas em sua cintura. Ele me soltou.
O oceano me engoliu, cada vez eu estava mais fundo. Um pedaço da turbina vinha bem em minha direção, tentei nadar para cima, mas não fui tão rápida. Mas, por um milagre, a turbina bateu em meu braço e se quebrou e pedaços. Me assustei demais. Pensei que iria morrer.
Nadei para a superfície. Tomei mais ar que pude conseguir. Olhei para os lados e não achava ninguém.
— Sam! Sam, onde você está? – Era definitivamente a voz de Nick chamando por mim. Não sei, mas em meio a tanto pânico consegui sorrir. Ele sobreviveu. Ele nos salvou.
Nesse momento uma mulher, com o resto todo desfigurado e queimado, segurou meu braço. Ela estava se afogando e me puxando para baixo. Eu tentei resistir, mas eu não era uma das melhores nadadoras. Ela rasgou meu rosto com suas unhas enormes. Levei uma mão ao rosto. Minha bochecha estava cortada pelas unhas da mulher, meu supercílio estava queimado e resgado. Eu também sentia minha coxa arder em chamas. Não resisti por mais tempo. Cedi e a mulher se afogou, junto comigo. A mulher morrera de tanta agua nos pulmões e finalmente me soltara.
A última coisa que fiz antes de desmaiar foi empurrar seu corpo para baixo, para conseguir um impulso para subir. Quando vi que o mar me puxava mais, me conformei com minha morte. Mas uma figura apareceu. Era Nick, nadando loucamente em minha direção.
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