Samantha Roberts - O Infiltrado
12 Vila da Limonada
Notas iniciais
Acordei com Nick me beijando. Não, ele estava fazendo respiração boca a boca. Assim que abri os olhos, virei para o lado para cuspir litros e litros de água. Nick suspirou de alívio e se sentou. Deitei-me a me permitir respirar um pouco. Apalpei o chão. Havia areia debaixo de mim, eu podia sentir a brisa litorânea e ouvir o barulho das ondas também. Estávamos na praia, era tudo o que eu conseguia pensar. Meus neurônios não estavam funcionando ainda.
Nick me ajudou a sentar e ergui as costas com um ruído. Levei minhas mãos às têmporas, a barulho da explosão e dos gritos ainda ecoava em minha cabeça. Passei a mãos pelo meu supercílio quando senti algo melado em meu rosto. O sangue escorria pelo buraco. Nick tirou sua camisa, de modo que só ficasse com camiseta de baixo, e limpou meu rosto.
— Obrigada, Cabeça de Bagre. Você me salvou, de novo. Só para variar né.
Ele sorriu e me deu um selinho. Peguei a camisa de sua mão e comecei a estancar o sangue, mas percebi que minha perna também tinha um corte.
Olhei para Jenny, que estava ao meu lado.
— Pode dar um jeito em mim? – Perguntei a ela.
— Vou pegar um pouco de Ambrosia e ataduras. – Jenny anunciou e se levantou.
Verifiquei meu corpo, para me certificar de que não havia nenhum outro ferimento. Somente o da minha coxa, os arranhões do rosto e o corte no supercílio.
— Eu te deixei mais exposta à explosão. – Nick disse. – Desculpe, eu não devia ter soltado sua mão.
— Tudo bem, não foi sua culpa. Vocês tinham que ver o rosto daquela mulher que me afogou, horrível. Nem me machuquei muito. Não sei por que, mas nada me machucou.
— Por causa disso. – Queen apareceu e jogou meu casaco em mim, todo molhado. – Leia a etiqueta.
Olhei para ela com desdém. Peguei o casaco e o abri no meu colo. Li atentamente a etiqueta. Boutique Afrodite; Tamanho M; 100% de Pele de Leão de Neméia. Fiquei sem palavras. Não havia mãe no universo que sabia dar presentes como a minha. Isso irá te proteger. Use em suas próximas batalhas, apresar de que tudo, isso irá te ajudar. Era isso o que minha mãe me dissera. Me proteger. Eu havia entendido depois de algum tempo. Era por isso que eu não me ralei no aeroporto, por isso a explosão não me afetou tanto, por isso aquela parte da turbina do avião se quebrou ao vir ao meu encontro. Se eu fechasse o casaco, de modo que protegesse todos meus órgãos vitais, era muito difícil eu morrer em batalha. Perfeito.
— Err... eu não sabia. – Foi o que eu disse.
Jenny se ajoelhou ao meu lado e começou a limpar a ferida de minha coxa. Tentei me conter para não reclamar da dor.
— Você disse para mim que nunca haveria mentira entre nós. – Jenny disse amargurada.
— E não há. – Rebati.
— Sério? Sério mesmo? – Ela perguntou. – Então Afrodite comprou uma loja no Shopping International Council? Foi lá que você me disse que comprou, não? Ela disfarçou a loja, mas tem uma seção especial para semideuses. Me diga, estava em liquidação?
Ela começou a passar água oxigenada para limpar mais. Ardeu a alma isso.
— Ai! – Reclamei. – Não entendo por que você se importa tanto.
— Ah, desculpa. Mas acho que quando você ganha uma arma que poderia interferir na nossa missão seria de meu interesse também.
— E quando você ganha novas flechas você me conta também.
— Mas eu falei para você que eu fiz novas flechas lindas no arsenal!
Queen e Nick só nos assistindo a brigar, engraçadinhos não? Eles perceberam que eu olhei feio para eles e disseram que iriam reconhecer território. Olhei para os lados. Estávamos numa faixa pequena de areia, rochas nos cercavam. Eles escalaram e foram para a cidade, para descobrir onde estávamos.
Jenny pôs ataduras na minha coxa, mas logo começou a sangrar de novo. Ela me deu um pouco de Ambrosia. Senti o sangue estancar e os ferimentos fecharem um pouco.
— Não vou por gaze aqui no supercílio. – Disse Jenny. – Vou só limpar e passar uma pomada para essa queimadura da explosão.
E depois disso ela começou a cuidar de meu rosto. Eu não tinha noção do quanto eu estava sangrando até ver a gaze de cor escarlate. Ela pôs a pomada e depois se levantou.
— Pronto. – Ela disse esfregando uma mão na outra. – Agora vê se não fica no meio de uma explosão de novo.
Revirei os olhos. Nesse momento Queen e Nick voltaram e, pela cara deles, não haviam descoberto nada.
— Não há sobreviventes do avião? – Perguntei esperançosa.
Queen balançou a cabeça negativamente.
— Não, todos mortos. Posso sentir isso. Também estaríamos se Nick não fosse filho de Poseidon. Bom, tem que ter alguma coisa positiva em ser semideus, não?
— Sem sobreviventes? – Mordi os lábios. – Ok. Vamos descansar um pouco antes de descobrir onde estamos. Acho que merecemos uns quinze minutos, afinal.
Nem esperei ele falarem, fui sentar a beira d’agua. Tentei respirar um pouco, esquecer a dor. Todo o tipo de dor. Queria ficar sozinha, mas Nick não me deu esse luxo. Ele se sentou ao meu lado e pegou minha mão.
— Foi culpa minha. – Finalmente falei.
— Foi culpa sua você não saber pilotar um avião jumbo em plena queda? – Nick perguntou.
— Sim, por isso também. Mas é culpa minha não ter previsto isso. Aquele semideus que servia Sócrates disse que era uma distração, que ele veio para nos distrair. Os Grifos foram só uma coisa para nos manter ocupados enquanto Sócrates trocava os pilotos de nosso avião. Eu devia saber disso. Agora o avião caiu. Todos foram mortos. Eu destruí famílias, Nick. Pais de família estavam lá, mães, filhos, avós ou mesmo famílias empolgas com uma viagem. E eu acabei com tudo.
— Não fale assim, Sam. Você tentou, tentou até o fim. Mas se eu não a tirasse de lá naquele segundo... você também estaria com aquelas famílias. E eu não poderia permitir isso, você sabe.
Sorri com o canto da boca.
— Sei, eu sei de muita coisa.
Ela deu uma pequena risada e se levantou, depois me deu a mão para que eu fizesse o mesmo. Tínhamos pouco tempo para achar as Caçadoras, que nos esperavam. Não podíamos enrolar muito.
— Entre na água. – Mandei.
Ele deve ter me achado louca pela sua expressão, mas ele entrou na agua até a canela. Nick nem se molha na agua mesmo.
— Agora me diga qual é a nossa longitude e latitude.
— Aah. – Ele percebeu o porquê da esquisitice. Que lerdo. — 43º 46’ Norte, 7º 30’ Leste. Onde exatamente fica isso?
— Nem vem. Sou a Srta. Wikipédia não a Srta. Google Maps. – Ele riu. – Mas imaginando o Mapa Mundi e tal, e também pela língua em que o cara da torre de comando falou comigo, estamos na França. Agora temos que descobrir o nome da cidade onde estamos, vamos lá.
Fomos ao encontro de Queen e Jenny de novo. Depois de escalar aquela parte de rochas de quebra-mar, avistei uma cidade que tinha aparência de uma vila clássica. Andamos pela orla da praia e, depois de andar dois quilômetros da praia onde estávamos, avistamos uma praia repleta de pessoas. Andamos entre essas pessoas e distinguimos diferentes línguas e sotaques, o que me leva a pensar que essa cidade devia ser turística. E tinha tudo para ser mesmo. O mar era do azul mais bonito, a areia era branca e limpíssima e nossos pés afundavam ao andar pela praia.
Depois da praia, paramos para descansar um pouco no porto. Havia muitos navios pesqueiros e até mesmo de carga ali. Depois de descansar, adentramos mais na cidade. A vila era pequena. O limite da vila era traçado por montanhas verdes. O aroma de pão fresco após sair do forno circulava perto de pequenas padarias e confeitarias. Pelo centro avistamos um belo campanário, que achei a coisa mais bonita de lá. Pelas ruas e ruelas tinham pequenos centros comerciais, mas o que mais se via aqui era limão. Um homem até nos ofereceu um copo de limonada de graça, que estava deliciosa.
Por fim, voltamos ao porto e ficamos no píer. Eu tenho um grande gosto por píeres mesmo, conclui que seria melhor pensar lá. Sentei-me na balaustrada de madeira e todos fizeram o mesmo.
— Então, gênio. – Jenny disse com tom de zombaria. – Informações, por favor.
Revirei os olhos e suspirei.
— Estamos na Vila de Menton. Pude descobrir isso pela cadeia de montanhas e pelo símbolo da cidade ser o limão. É uma das rotas turísticas da França por causa disso, eles tem até uma Festa do Limão, coisa do tipo. Foi tomada pela Itália na Segunda Guerra Mundial, mas acho que vocês não se importam com fatos históricos mesmo. Estamos quase na fronteira com a Itália. Bom, acho que se formos por terra vai demorar muito. Eu não estou a fim de pegar outro avião e vocês? – Todos ficaram em silencio. Por mais forte que você fosse, é difícil sair de uma catástrofe aérea que nem aquela sem trauma algum. – Bom, acho que devemos ir até o extremo sul da Itália e tentar ir por mar depois. Mas receio que iremos demorar o dobro do tempo esperado para essa missão, e nem sabemos quando Sócrates atacará. O penso que, se Sócrates descobrir que sobrevivemos, ele ficará irado com isso. Mandará suas tropas atacarem o acampamento sem a gente lá para defendê-lo e nos matará onde quer que estejamos. Então é uma sorte que perdemos todos nossos celulares no acidente. Aquele sonho que tive sobre Ártemis está me incomodando, ela disse que está sem contato. Não sei por que, mas algo me diz que Sócrates conseguiu capturar Íris e tem controle sobre as MI’s. Então peço que não mandem e nem aceitem nenhuma Mensagem de Íris até voltarmos para o acampamento, independente de quem seja. Então, é só isso gente.
Silencio absoluto, de modo que só ouvíamos as gaivotas e ondas batendo no quebra-mar.
— Tem alguma coisa. – Jenny disse. – A profecia diz ‘’ Na casa da deusa as encontrará. ’’. Quando ouvi logo pensei que seria o Templo de Ártemis. Mas ele não fica na Turquia? Éfeso, não?
— Elementar caro Watson. – Falei. – Foi uma das coisas que também pensei no avião. É mais uma das pegadinhas feitas pela ambiguidade das palavras do Oráculo. Sim, é lá que o Templo de Ártemis ficava, hoje só há ruinas. Mas Lady Ártemis também é ligada à Natureza Selvagem. Eu a vi em meu sonho numa floresta, e lá que seria a casa dela. Mas agora qual floresta eu não sei, são tantas.
— Primeiro vamos nos concentrar em chegar à Grécia. – Queen disse. – Podemos voltar para a praia? A tonta aqui esqueceu a mochila lá.
— Ah, pensei que você tinha deixado de propósito, por isso não te avisei. – Confessei. – Deixei meu casaco secando lá também.
Jenny desceu da balaustrada e bufou.
— La vem você com o casaco.
— Quer parar? – Perguntei.
— Por que não para você primeiro? – Ela devolveu.
— Quer parar de me encher?
— Quer parar de mentir?
Nós já nos batíamos sem motivo aparente, mas eu estava quase dando uma voadora naquela garota. Nick percebeu isso e me puxou para trás, Queen fez o mesmo com Jenny.
— Me solta, eu sei me controlar. – Eu disse e me afastei de Nick.
— Duvido muito. – Jenny retrucou.
— Já chega! Quer saber da onde veio essa droga de casaco? Eu não comprei no shopping! Ganhei de presente de aniversário! Minha mãe me deu! Ela veio pessoalmente no acampamento para me dar isso, o que é contra as regras olimpianas. E ela pediu segredo total por que ela iria se ferrar no Olimpo por isso. E agora todos vocês sabem! Felizes? Agora sugiro que vocês calem a boca. Vamos para a praia.
Nem esperei eles responderem, fui batendo o pé em direção à praia. Gosto de ficar com os meus amigos, mas não há nada melhor no mundo do que ficar sozinha para pensar. Tínhamos muito a fazer, muito caminho a percorrer e muito pouco tempo para isso.
Jenny arrancou até chegar a mim. Olhei para a cara dela, mas não falei nada. Continuei andando em frente, tentando a ignorar para continuar pensando no que fazer. Mas não dava para pensar com ela me encarando. Bufei e tentei andar mais rápida, o que não era fácil com minha coxa naquela condição.
— Ei, Sam. Ande mais devagar! – Jenny mandou e andou mais rápido. Ela agarrou meu braço e me olhou nos olhos. – Desculpa, tá? Eu não devia te julgar assim e nem te forçar a falar uma coisa que não devia. Acho que eu sou uma idiota mesmo.
— Eu também acho. – Disse.
— Pare, eu que estou me desculpando aqui. Não fica você legal se menosprezar, meu pedido de desculpas perde todo o efeito dramático.
— Não, não. Eu disse que também acho que você é uma idiota.
Nós rimos.
— Vai, eu sei que você me ama. – Ela me deu um abraço.
— Ai, ai, ai. Eu gosto de minhas costelas, sabe, quando elas não estão quebradas.
Depois disso voltamos para a praia, ter mais um descanso antes de procurar um lugar para dormir. Senão, acampar na praia mesmo. Esse trecho da praia é deserto.
Começamos a ver o que no restou dentro das mochilas. Os dracmas estavam inteiros, mas perdemos algum dinheiro mortal. Qualquer coisa, secamos as notas que não estragaram no hotel. As roupas estavam molhadas, mas não perdemos nenhuma. Só mais a minha mochila que rasgou em uma alça, mas nada demais.
Depois de verificarmos tudo, fui sentar a beira d’agua. O sol poente deixava o céu num tom róseo, para o momento ficar mais bonito eu só precisava de uma coisa. E, como se fosse ele que lesse os pensamentos aqui, Nick sentou-se ao meu lado enquanto eu assistia o sol.
— O Sol é lindo, não? – Perguntei.
— É lógico! – Jenny falou lá de trás. – Ele é meu pai. Olhe esse meu rostinho mais que lindo.
Nós rimos.
— Às vezes você tem uns momentos tão filha de Apolo. – Nick reparou. – Vive vendo o sol.
— Minha mãe reina sobre a sabedoria e o conhecimento do homem. E, nossa, isso é demais. Há dois anos eu nem sabia quem era minha mãe. Mas, o reino dela não é... físico. E é por isso que eu gosto de admirar o dos outros deuses. O céu é lindo. A lua é linda. O sol é lindo. As florestas são lindas. O mar é lindo.
— Você é linda.
Senti minhas bochechas queimarem. Olhei bem nos olhos dele e abracei seu pescoço. E, quando nos beijávamos, me senti segura pela primeira vez desde o acidente.
Mas o que seria um momento mais que perfeito com Nick se Queen não se metesse.
— Ei, podem, por favor, parar com essa troca de saliva e arrumar as coisas para irmos pra um maldito hotel descansar?
— Aposto que ela gostaria de está trocando saliva com você. –Eu disse na cabeça de Nick.
Ele sorriu e se levantou.
— Por que eu só atraio garotas ciumentas? – Ele pensou alto para que eu o ouvisse.
— Cale a boca. – Mandei. E já estava exausta, se eu ficasse usando meus poderes atoa eu iria desabar.
Por fim, arrumamos nossas coisas e fomos tentar ter uma noite tranquila em um hotel na cidade. Bem, para mim não foi uma noite tão tranquila.
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