Samantha Roberts - O Infiltrado
17 Monstros atirados.
Eu sabia que era uma questão de tempo até monstros nos atacarem. Só não que eles iriam dar em cima do meu namorado.
Confesso que assim que sai da limusine fiquei mais boba quando eu vi as coisas de lá dentro. Estávamos em Milão! Não podia acreditar. Estávamos em nada mais e nada menos do que na praça de Piazza del Duomo. Cobri a boca com a mão. Muitos turistas passavam com sacolas de compras, muitas compras. Quase desmaio quando vejo a Catedral de Milão, linda como nos livros. Com seu estilo gótico, daria medo à noite. Aquelas torres e pináculos brancos eram pontiagudos, os arcos magistrais.
— Sam, acorde! – Jenny mandou.
Balancei a cabeça na tentativa de me concentrar. Olhei para o capô do carro, onde Chaves discutia com algumas senhoras de idade. Elas eram gordas e com pele enrugada, unhas enormes e usavam roupas muito coladas para seu corpinho. Mas seus olhos vermelhos mostraram sua verdadeira identidade a mim.
Gritei para Sabedoria aparecer em minha mão. Um estalo de eletricidade zuniu pelo meu ouvido. Olhei para trás e Queen já estava com seu chicote enrolado na mão, com faíscas azuis saindo dele. O anel de Nick brilhou e logo cresceu seu tridente. Jenny também estava com seu arco e flechas.
Chaves estava confuso, me perguntei o que ele via da gente agora. É uma pergunta frequente na nossa cabeça. As mulheres se entreolharam e chegaram a um acordo silencioso. Elas estavam dando um passo para trás, mas uma das senhoras começou a correr em nossa direção.
— Não! Eles são muitos! – Uma das senhoras gritou.
Ela ignorou-as e veio em minha direção. Dei um passo para trás e segurei firme no punho da espada, calculando em quanto tempo ela chegaria a mim naquela velocidade, para eu dar o bote certo.
Antes que eu fizesse qualquer coisa, Queen se precipitou. Ela jogou o chicote para trás, descrevendo um semicírculo no ar. Assim que ela baixou o chicote, ele se enrolou no pescoço da senhora e descarregou a eletricidade. Assim que foi eletrocutada, a velha recebeu outra chicotada de Queen, se desintegrando dessa vez.
Olhei para Queen, agradecendo com a cabeça. Ela esboçou um sorriso com o canto da boca.
— Eu disse que eram muitos! Vamos buscar reforços! – A velha disse e começou a correr.
— Ei, volte aqui! – Arranquei atrás. – Vamos, gente!
E corremos a praça inteira. Esbarramos em muitas pessoas, que não gostaram muito. Acho que fui xingada em quatro línguas diferentes. Quase a perdemos de vista, mas Jenny tem uma ótima concentração para perseguições. Elas estavam indo em direção a Galleria Vittorio Emanuele ll.
Espere um minuto.
Elas estavam indo em direção a Galleria Vittorio Emanuele ll! Eu sempre quis ir para lá. É o primeiro shopping do mundo! Tanto lugar para eu fazer missão, tinha quer logo um que eu fico babando olhando para tudo? A Grécia não podia ser, sei lá, no Saara? Mas eu não podia diminuir a marcha. Entrei na galeria.
As senhoras continuaram correndo e se separaram. Cada um iria seguir uma, mas segurei todos. Não podemos nos separar. Uma delas olhou para mim com aqueles olhos vermelhos antes de desaparecer de vista. Droga. Mas as acharíamos depois, tínhamos que saber o que elas eram.
Mas, ei. Você está em Milão, Sam. Acho que está na hora da seguir o conselho de Jenny e esquecer um pouco a revolução.
Andamos pela galeria. Eu não parava de olhar para o teto de abóbodas de vidro. Paramos no centro da galeria, onde dava para mais outra ruas. Bem no centro havia um mosaico de touro.
— O que é isso? – Nick perguntou.
— O Brasão de Armas. – Respondi. – Esse é o touro de Turim. A superstição diz que se alguém colocar o calcanhar direito nos genitais do boi, tragará sorte para a vida.
— Que nojo. – Jenny falou.
Continuamos andando. Eu falava sobre os fatos históricos da Galeria. Céus, tudo era lindo. Jenny falava que queria ir para a Prada, Queen queria comprar mais tênis Converse e Nick fingia que me escuta e sorria.
Passeamos mais um pouco até encontramos outro mosaico no chão. Era de uma loba alimentando duas crianças, com as letras SPQR abaixo do desenho. Uma sensação entranha ao olhar aquilo tomou conta de meu corpo.
— O que é SPQR? – Jenny perguntou.
— Senatus Populusque Romanus. – Respondi. – O Senado e o Povo Romano, traduzindo. Essa sigla era inscrita nos estandartes das legiões romanas no antigo império. Essas crianças são Rômulo e Remo, são netos de Eneias, filhos de Marte. Amúlio, filho de Ascânio, mandou prender a mãe deles e matar os irmãos, por medo de eles quererem assumir o trono – Que na verdade anteriormente era de seu irmão, Numitor. Só que o servo não teve coragem de mata-los e jogou a cesta em que eles estavam no rio. Uma loba, a Lupa, acabara de perder seus filhotes. Quando os viu no rio, os tirou de lá e os amamentou.
— Eles são tipo o Mogli da Itália? – Nick perguntou.
— Não! – Cortei a piadinha. – Mais tarde eles foram encontrados por um pastor e ele os criou junto a sua mulher. Há mais histórias legais deles, só que a nos interessa nesse momento é que Rômulo fundou e foi o primeiro rei de Roma. Isso por volta de 753 a.C.
Olhei para as letras SPQR. O desejo de estar na Grécia crescia cada vez mais dentro de mim. Aqui não é minha casa, aqui não é minha casa. Uma vozinha chata repetia isso em minha cabeça.
— Vamos comer? – Queen perguntou. – Estou com fome.
— Ótimo! Sempre quis experimentar a comida daqui! – Me entusiasmei. – Há tantos restaurantes históricos. Tem o Biffi Histórico Caffè, O Savini, tem o...
— Vamos para o Mc Donald’s? – Perguntou Nick.
— Fechou. – Responderam as duas ao mesmo tempo.
. . .
Em vez de desfrutar da massa mais gostosa do planeta, fui obrigada a comer um Mc Chicken. Comecei com minha salada e fiquei encarando os três.
— Não acredito que estamos em Milão e comendo no Mc Donald’s. – Eu disse enquanto Nick devorava suas batatas fritas.
— Pois é. – Concordou Jenny. – É incrível como existe Mc Donald’s em tantos lugares do mundo.
Bufei, frustrada, e continuei a comer.
Algumas garotas carregavam sacolas de compras e riam. Eram umas sete, deviam estar um uma excursão. Uma sensação ruim percorreu meu corpo, não gostei da cena. Só que elas conversaram entre si e olharam direto para nós. Vieram em nossa direção.
— Vocês são americanos? – Perguntou uma das garotas.
Assentimos.
Uma das garotas cutucou o ombro de Nick.
— Ei, você poderia tirar algumas fotos da gente, por favor? Queríamos que todas aparecessem para fazer o álbum.
Nick olhou para mim.
— Hã, claro.
Então elas o puxaram pela mão, rindo, e foram até a frente de uma loja. Elas começaram a fazer poses e mandavam beijinhos para a câmera.
— Sam está muito vermelha. – Jenny riu. – Atenção. Cinco segundos para a explosão.
Queen estava contendo a gargalhada pela piada, mas não curtia muito as fotos que Nick tirava.
— Bando de atiradas. – Grasnei.
Mais fotos, e mais fotos. Uma delas pegou a câmera da mão de Nick e o empurrou para a massa de garotas, tirando fotos com eles. Apelaram demais agora.
— Vish, elas vão morrer em poucos segundos. – Jenny riu a me ver levantar.
— Vão mesmo. – Concordei.
Fui batendo o pé até eles. Cheguei ao lado de Nick e segurei sua mão com força.
— Cabeça de Bagre, temos que ir agora.
Comecei a puxar ele para a mesa, mas as garotas o seguraram pelo ombro. Ele fez força para não soltar minha mão, mas elas eram muitas. Um delas deu um beijo na bochecha dele.
— Vamos, me dê um beijo, Nicholas. – Uma delas pediu.
— O QUÊ? – Perguntei. – Escute aqui, projeto de prost....
— Sam! – Nick me cortou.
— Vamos, semideus, quero um beijo. – Insistiu a garota.
Eu fiquei meio Aaaaaaah ta, entendi agora. As garotas começaram a nos cercar, fazendo um círculo a nossa volta. Não consegui mais ver Queen nem Jenny. As garotas se transformaram. Seus olhos ficaram mais vermelhos do que nunca, dentes afiadíssimos. Suas pernas... Urg, uma totalmente peluda, outra de bronze. Eram Empousai.
Me segurei ao braço de Nick. Sete contra dois, isso se Queen e Jenny não nos visse. Desamarrei meu casaco da cintura e me vesti.
— Sofía! – Eu gritei para então minha espada aparecer.
Algumas delas recuaram ao ver meu rosto agressivo. Eu tinha dois motivos para mata-las: eram servas de Sócrates e deram em cima de Nick.
Escolhi a primeira vítima, a ruivinha que quis um beijo dele.
Corri e sua direção e pulei para dar um chute nela. Acertei sua barriga e ela caiu de costas no chão. Eu iria mata-la se outra empousai não tentasse matar com suas unhas. Ela pegou só um pouquinho de meu pescoço, mas o resto de meu tronco estava protegido pelo casaco.
Nick lançou seu tridente e seus dentes atravessaram a barriga de uma empousai, que se desfez em pó. Menos uma, faltam seis.
Jenny percebeu o ataque e puxou Queen para ir até nós. Enquanto elas corriam, Jenny colocou uma flecha na corda do arco. Ela mirou e a flecha passou bem pela cabeça de uma das espousais. Como ela nunca erra?
A ruivinha se levantou e tornou a me atacar. Desviei de suas garras para a direita e girei o corpo. Ficamos costas a costas. Apontei a lâmina para trás e passei minha espada ao lado de minha cintura, atravessando as costas da empousai.
Queen eletrocutou uma delas com seu chicote. Ótimo, faltavam somente três. Nick estava lutando com outra empousai, as três que restaram estavam armadas. Quando olhei para a Jenny, vi que estava com um corte feio no braço feito pela espada da empousai. Não tinha como ela lutar corpo a corpo com alguém se ela só estava armada de um arco e flecha.
Corri em sua direção. Cheguei por trás da empousai a bati com o punho de minha espada em sua nuca, fazendo-a ficar meio desorientada. Jenny a chutou para o lado e gritou de dor. Vi que ela também tinha machucado a perna.
Entenda uma coisa. Se Jenny está mal, eu estou pior. Fiquei muito ruim a vendo naquela situação.
Tirei meu casaco e a ajudei a se vestir.
— Sam, o casaco é seu! – Ela protestou.
— Você não pode lutar com elas e ficar ilesa! – Disse enquanto fechava o zíper. – Depois cuidamos de seus ferimentos. Fiquei longe da briga e se quiser pode disparar. Mas fique longe da gente!
— Não! Está louca? Não vou deixar vocês numa luta!
— Você vai ficar longe da luta, mas não vai ficar fora dela. Só vai acerta-las de longe. Agora, vá!
Então ela foi mancando para a loja da Pucci, com o arco e aljava nas costas. Fiquei olhando para ela, zelando para ver se ninguém iria ataca-la.
Meu maior erro.
Quando eu penso em voltar para a luta vejo uma empousai pulando em minha direção, pronta para fincar sua espada em meu peito. Me pus em posição defensiva, mas não iria dar tempo de eu bloquear o ataque com minha espada. Talvez se eu entrasse em suas funções motoras. Mas eu só tinha um milésimo de segundo para fazer isso que demorava algum tempo de esforço mental. E a empousai caindo cada vez mais rápido ao meu encontro.
Por um triz, Queen se joga em mim e me empurra para fora do alcance da empousai, que fincou sua espada no chão. Nick chega e atira nela com seu tridente. Ele nos ajudou a levantar a primeiro abraçou Queen. Percebi que não havia mais empousais.
— Obrigada por salva-la! – Ele ficava repetindo.
Depois ele me deu um abraço mais apertado.
— Tome mais cuidado, Sam! – Ele primeiro brigou comigo. – Sabe como eu ficaria ela tivesse te acertado? Daqui para frente eu não vou desgrudar de você, ouviu? Vou te proteger tanto que você vai até enjoar de mim.
— Acho bem improvável. – Eu ri.
Jenny mancou até nós e tirou o casaco.
— Desculpa. – Ela pediu, me entregando ele.
Fui até um monte de poeira de uma empousai e peguei uma adaga. Andei até Jenny e entreguei em sua mão.
— Não tem nada que se desculpar, idiota. Quando for lutar use essa adaga, ok? Agora, Nick, leve Jenny para a limusine. Chaves deve estar preocupado.
Nick assentiu e passou o braço esquerdo de Jenny por trás de seu pescoço. Os dois foram para a limusine.
Queen também foi os seguindo, mas a segurei pelo braço.
— Ei, espera. – Pedi. – Obrigada. Você salvou minha vida.
Ela deu ombros.
— Eu disse que só eu poderia te matar aqui.
Queen continuou andando, mas parou e olhou para trás.
— Além do mais, ninguém mexe com minhas amigas.
— Amigas? – Sorri.
— Amigas. – Ela concordou.
Depois disso fomos para a limusine, onde Chaves nos esperava confuso devido a névoa.
Eu tive que fazer uns curativos em Jenny. Não estava tão bom quanto os delas, mas estava na média. Dei um pouco de Néctar para ela também. Jenny sempre me disse que o dela tem gosto de suco de vitamina de laranja com mamão que Alison faz toda manhã para ela. O meu já tem gosto de Kid Lat, que meu pai colocava para eu comer de lanche para a escola.
Com o tempo Jenny ficou com sono e dormiu. Queen também cedeu ao sono e encostou sua cabeça da mochila de deitou no sofá. Sobraram eu e Nick.
Ele se deitou do meu colo e fechou os olhos. Comecei a fazer carinho em seus cabelos. Ele pegou minha mão direita e tirou meu anel, para ler.
— Esse Nicholas é um sortudo, sabia?
Eu ri.
— Eu amo muito o Nicholas, eu que tenho sorte. Agora, devolve meu anel.
Arranquei da mão de Nick e ele mostrou a língua para mim.
— Babe, eu tenho dois anéis! – Ele disse.
Tirei o Anel Tridente de seu dedo.
— Ei, o Tridente tem nome? – Perguntei.
— Aham. O nome dele é Pigí, Nascente.
— Por que deu esse nome a ele? – Perguntei, curiosa.
Nick se levantou e me abraçou pelo ombro.
— A nascente de um rio é a parte mais pequena dele na maioria das vezes, mas a mais importante. É ela que define o curso do rio. É a parte mais pura dele. E é assim que eu quero ser: puro e com um rumo definido.
Suspirei.
— E mais uma vez deixaram a meu trocadilho de usar Sabedoria com sabedoria no chinelo.
Nós rimos.
Deitei minha cabeça no ombro de Nick e ele me aninhou.
— Dorme um pouco que eu faço a vigília. – Nick disse.
— Não quero dormir. Não quero ter pesadelos de novo.
— Eu estou para te proteger, tá? São somente sonhos, não vão te fazer mal.
— Não é fazer mal a mim que estou com medo. – Rebati.
Ele levantou meu queixo delicadamente com a ponta de seus dedos e me beijou.
— Nada vai acontecer com nenhum de nós dois. Não enquanto estivermos juntos. Agora, boa noite, Srta. Wikipédia. Você precisa dormir.
Não concordei, mas encostei minha cabeça em seu ombro de novo. Seus dedos acariciavam meu braço e eu dormi ao seu embalo. Eu estava segura em seus braços, nessa noite não tive pesadelos.
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