Samantha Roberts - O Infiltrado

18 Entre a razão e a emoção


Meu corpo estava tão mole, eu havia dormido tão bem. Há quanto tempo não durmo assim? Abri os olhos devagar e percebi que não estava mais no colo de Nick. Fiquei atenta ao que parecia uma discussão entre ele e Jenny.

— Seu idiota! Eu... não acredito! – Jenny quase gritou.

— Jenny!

— Não fale mais comigo!

Esfreguei meus olhos. Eu estava sonhando ou os dois estavam brigando mesmo? Antes que eu pudesse perguntar algo, Chaves freou. Olhei para fora da janela e abri um pequeno sorriso em meu rosto. Estávamos em Veneza.

Paramos em frente à um prédio aparentemente pequeno. Chaves abriu a porta do carro e Jenny saiu para com tudo. Olhei para Nick, ele baixou a cabeça. Depois conversamos, disse com os olhos. Ele assentiu e saiu também. Sentei ao lado de Queen, cutuquei seu braço devagar para acorda-la.

Ela resmungou, mas arrastei-a para fora do carro. Joguei a mochila de cada um para eles e me despedi de Chaves. Abrimos a porta e subimos as escadarias.

O apartamento era muito aconchegante e até luxuoso, nunca que eu iria pensar nisso vendo o lado de fora do prédio. A sala tinha piso de madeira, sofás confortáveis, mesa de centro, e muitos eletrônicos – Telefone, televisão LED, abajur, Micro System e até um X-BOX 360.

Jogamos nossas coisas no sofá e fomos explorar um pouco mais o apartamento. Quando chegamos ao último quarto, desabamos na cama em sequência.

— O que fazemos agora, Srta. Fontaine? – Perguntou Jenny.

— Não sei, que horas são? – Perguntei.

— Oito da noite. – Nick respondeu, olhando o seu relógio de pulso.

Bufei.

— Noite livre hoje. Mas amanhã de manhã vamos comprar nossas passagens e ir para extremo sul da Itália. Cuidado com os monstros e corram para cá se acontecer algo; se forem sair saiam com alguém, em hipótese alguma sozinhos. Eu vou ficar aqui e descansar.

Queen disse que iria descansar também e foi ver tevê na sala. Jenny tentou fazer o IPod dela funcionar, mas a agua acabou com ele. Ela ficou com raiva por que perdeu ‘’ as 1500 músicas mais tops do planeta ‘’ e jogou o IPod na parede, toda invocada. Ela foi dar uma volta para esfriar a cabeça, Queen não quis com ela e Jenny também nem olhou para a cara de Nick.

Deitei na cama e virei de lado. Fechei os olhos na esperança de sonhar com ela de novo. Eu precisava saber quem é a infiltrada. Então sinto dedos acariciando meu rosto delicadamente, com movimentos circulares e cada vez ficando melhor.

Eu estava quase dormindo quando Nick falou:

— Veneza é uma bela cidade. Vamos dar um passeio?

Se ele não fosse tão fofo eu ficaria irritada por ter atrapalhado meu sono.

— Quero não, Nick. Vamos ficar aqui juntos.

Deitei em seu ombro e tentei dormir, mas ele não deixou. Revirei os olhos e sentei na cama. Abracei meus joelhos e apoiei meu queixo em cima dele.

— Por que você e Jenny estão brigados? – Perguntei.

Ele olhou para mim surpreso, acho que não desconfiava que eu ouvi a última parte da briga. Ele pensou um pouco, como se tivesse formulando o melhor jeito de explicar; não conseguiu por que ele inventou uma desculpa rápida.

— Só digo se você for fazer um passeio de gôndola comigo no Grande Canal.

Tenho admitir que não foi má ideia. Com certeza, um passeio memorável.

Estávamos na sestiere de Castello, que é como se fosse um bairro. O passeio até o canal seria um pouco grande já que teríamos que passar pela sestiere de San Marco, nome dado em homenagem ao padroeiro da cidade. Mas eu estava andando com Nick na cidade mais bela de toda Itália, poderia andar até a Grécia que nem ligaria.

Eu quase que... está bem. Eu surtei quando vi a Ponte de Rialto. A ponte em arco fazia a ligação entre os dois lados do canal. Corri até ela e subi suas escadarias. Me apoiei no guarda-corpo e observei o Grande Canal se estender abaixo de mim.

Senti um beijo em meu pescoço, que me arrepiou todos os pelos do corpo. Nick abraçou minha cintura por trás e encostou sua cabeça na minha.

— Vamos passear de gôndola? – Perguntou ele.

— Ok, vamos.

Nick tentou dar uma de Jenny para fazer mímica e conseguiu comprar um passeio pelo canal. O homem pegou um remo e preparou a gôndola para que entrássemos, o que foi uma cena meio engraçada. Quando eu finalmente consegui entrar, o homem começou a remar e a cantar uma música de amor francesa, e Nick me abraçou pelo ombro.

Tenho que admitir: o passeio era divino. O som do remo batendo nas águas era tranquilizador, o gondoleiro era um ótimo cantor. As estrelas brilhavam e era noite de lua cheia.

Lua... Ártemis. Eu não conseguia desligar! Além do mais Nick não tinha me contado nada. Ele percebeu minha inquietação.

— O que foi, Sam? – Nick perguntou.

— Eu brigo com a Jenny todo dia, eu faço pazes com a Jenny todo dia. Mas, você? Ela nem morta brigaria com você.

Ele abaixou a cabeça e sacudiu negativamente. Ele colocou a ponta dos dedos na água, como se fosse algo que o acalmasse.

— Jenny teve uma visão. Algo no futuro que nem ela pode mudar...

Fomos interrompidos por uma flecha que se alojou no casco da gôndola. O gondoleiro tomou um susto e se desequilibrou, caindo no Grande Canal. Gritei para ele sair dali, e acho que ele entendeu. Nadou até a outra margem e deu uma última olhada para nós antes de fugir. Olhei para cima, na Ponte dos Descalços, e vi o dono do arco que atirou aquela flecha em nossa direção. Eram cinco adolescentes, três garotos e duas garotas. Todos armados, protegidos com armadura e aparentemente dispostos para me matar.

E lá se vai meu passeio romântico, pensei.

Nick assumiu o remo e nos levou até a margem. O semideus com o arco disparou mais um flecha em nossa direção. Gritei Sofía bem a tempo de desviar a flecha com minha espada. Pulamos na calçada e corremos em direção aos guerreiros.

Cheguei a conclusão que, ou Sócrates estava dando esteroides para todo mundo ou ele estava pagando o próprio Ares para treinar os semideuses. Eles eram enormes!

Nick fez com que Nascente crescesse em sua mão. Uma estratégia para evacuação da área de batalha se você estiver em uma cidade com muitos mortais: grite demais que eles vão achar que você é doente mental, então fogem. Os semideuses fizeram a formação pirâmide, prontos para a batalha.

Parei de correr e Nick foi o primeiro a atacar. Ele tentou não usar o tridente como lança, só desviava os golpes. Eu não queria feri-los, iria vencê-los com meus poderes. Um deles iria acertar Nick pelas costas, então entrei em suas funções motoras e fiz com que ele jogasse a sua espada no canal. Mas ele desembainhou uma adaga em continuou a atacar.

Uma das meninas correu em minha direção com sua espada. Paralisei. Eu não tinha a reconhecido de lá embaixo. Mas seus olhos iguais aos meus a denunciaram. Eu... não posso lutar com ela! Aquela garota era Miranda, minha meia-irmã.

Ela tentou um golpe na diagonal, que desviei facilmente.

— Miranda! O que você está fazendo? – Perguntei. – Não devia ter nos abandonado!

Ela desviou de meu golpe com um giro. Tirando Briana, ela é a maior guerreira de nosso chalé. Até diria melhor do que eu. Modéstia a parte, sou melhor com os poderes. Espada é com as duas.

— Cansei de ser insignificante! – Ela respondeu.

Nick empurrou um semideus para fora da ponte, ele caiu na água. Olhei de novo para Miranda. Seus olhos estavam cinza escuro, típico de quando ela estava com raiva. Vá por mim, eu já a acordei às seis da manhã do dia de horário livre. Sei quando ele odeia me ter por perto.

— Você não é insignificante. – Rebati. – Não para mim.

— Não me venha com esse joguinho, Roberts. Você sabe que não sou influenciável, não vou cair nesse joguinho. Vou me tornar alguém.

Ele tentou cravar sua espada em minha barriga. Dei um passo para o lado e dei um chute em sua mão, fazendo que ela deixe sua espada cair. Mas algo apertou meu coração. Um semideus, num gesto estranho, pôs a mão em cima dos olhos de Nick. Ele deu um bocejo e caiu da ponte, já desacordado. Me apoiei no guarda-corpo e vi meu namorado boiar no Grande Canal, depois afundar.

Eu estava entre a razão e a emoção. Eu sabia que Nick respirava embaixo d’agua. Sabia que não era uma grande profundidade, era por volta de uns cinco metros. Mas e a vontade de pular para salva-lo? E aquela sensação de que eu tenho a obrigação de protegê-lo a todo custo?

Pense sempre nas consequências de seus atos, Sam. Minha mãe falava comigo na mente. Use a razão. Use mesmo sendo para salvar aquele Cara de Baiacu.

É depois dessas que eu digo que não preciso de exame de DNA para saber de quem sou filha.

Atena, como sempre, estava certa. O que aconteceria se eu me jogasse naquele instante? Eu conseguiria mergulhar tão fundo e trazer Nick a superfície? Nadaria e seguraria Nick ao mesmo tempo até a margem, conseguindo desviar de todas as flechas que os semideuses mandariam?

Quase me lembrei da existência dos semideuses tarde demais. Vi a sombra de uma espada descendo no guarda-corpo, e meus reflexos falaram por mim. Desviei rapidamente e ele cravou a espada na pedra. O semideus tentou tirar a espada de lá, mas não conseguiu. Olhei para ele direito, tinha a mesma fisionomia dos filhos de Hipnos do acampamento. Era ele que tinha apagado Nick.

Uma explosão de raiva tomou contra sobre mim. Dei uma joelhada em sua barriga e dei com um punho de minha espada em sua têmpora. Então ele caiu, desmaiado. Mas a outra garota me agarrou pelo braço e pediu para que o outro garoto fizesse o mesmo. Eu tentei me livrar, mas eles eram forte demais. Os dois torceram meu braço num ângulo que se eu tentasse ir para frente de novo, quebrava os dois.

Miranda tirou a espada do guarda-corpo e olhava para seu reflexo de um modo sinistro.

— Deixem que eu terei o prazer de matar minha cara irmã. – Miranda disse, ainda olhando para seu reflexo. – Farei nosso senhor orgulhoso e ficarei em sua tropa de frente, como ele prometeu.

— Mand, escute. – Pedi.

— Não me chame de Mand. – disse.

— Chamo, sim. Porque você é minha irmã. Mas Sócrates não é seu irmão, ele não se importa com você, ele nem ligaria se você fosse a próxima a cair pelo canal. Esse plano é impossível, ele não vai conseguir. Temos que ser fiéis aos nossos pais, porque ele que realmente se importam conosco.

— Deixe de ser ingênua, Roberts. Quando assumirmos o poder, verá quanto suas palavras são tolas. Oops. Você não verá nossa vitória, estará morta.

Eu estava me preparando para a morte. Pensando no que eu fiz, no que eu deveria ter feito e no que eu queria tanto fazer. Pensei no meu pai. Eu tinha esperanças de voltar para casa e falar para ele que não morri, mas agora seria verdade. Em meus amigos. Em Nick. Será que o achariam se eu morresse e não falasse que ele afundou? Como será que seria a vida deles sem mim? Que rumo levaria a guerra sem mim?

Fechei os olhos e virei o rosto, esperando a espada atravessar minha barriga. Mas, não! Eu não posso morrer! Eu não vou abandonar meus amigos! Entrei no cérebro de Miranda e lamentei ver as cenas que ela tinha visto. Algumas passagens dos seus treinamentos com Sócrates, também o vi conversando com ela. Me concentrei em tudo o que eu não podia perder e achei forças para usar o telefragorium. Ele caiu por terra nesse instante, com as veias de sua cabeça dilatando.

— O que você está fazendo, Roberts? – O semideus gritava comigo.

Ele começaram a terminar de torcer meu braço, a dor era descomunal. Mas a garota gritou de dor e se ajoelhou. Dei uma cotovelada na cara do garoto com o braço livre e consegui acertar seu nariz, fazendo com que ele me largue.

Olhei para mais adiante na ponte e Jenny vinha mancando em nossa direção, ainda machucada pela luta de hoje.

— Onde está Nick? – Ela perguntou.

Apontei para o canal e corri para pegar minha espada. A semideusa tirou uma flecha certeira de Jenny de sua panturrilha e correu até nós.

Jenny tirou a adaga de um bolso que tinha em sua aljava.

— Pegue Nick que eu cuido dos dois!

— Mas...

— Agora!

Apertei a coruja no punho de minha espada e ela voltou a ser meu colar. Não hesitei nem um segundo sequer para pular na ponte. Mergulhei.

Um turbilhão de bolhas subiu. Procurei por Nick, é escuro demais lá embaixo. Fui a superfície para tomar um fôlego maior, e nadei por cima até avistar o brilho verde do tridente de Nick mais abaixo. Nadei até o brilho do tridente, que conseguia iluminar com precariedade o rosto de Nick. Peguei seu tridente e o abracei bem forte. Dobrei os joelhos e peguei impulso para subir, eu já não estava mais aguentando segurar o ar.

Nadei até a margem do Grande Canal e joguei seu tridente na calçada, depois coloquei Nick para cima. Também subi e deitei na calçada para tomar ar. Vi pés ao meu lado e já iria gritar para minha espada aparecer.

— Calma, Sam. Sou eu. – Jenny disse.

Ele me deu a mão para levantar e eu segurei.

— O que fez com eles? – Perguntei.

— Lutei com eles até desistirem. Fugiram. Sam, Mand está mesmo...

— Eu sei. – Coloquei as mãos em meus olhos. – Por que ela, deuses?

Jenny ajoelhou-se ao lado de Nick e colocou a cabeça em seu peito. Depois verificou sua respiração e pulsação.

— Ele está só dormindo. – Jenny anunciou. – Venha, me ajude o levar para casa. Não sei quando ele pode acordar.

Passei o braço de Nick por trás de minha nuca a segurei em sua cintura, Jenny fez o mesmo. Fomos voltando para a casa dos Fontaine, eu já mais que exausta. Pensando também no que aconteceria se eu não desistisse. Se eu me permitisse morrer. E mais uma vez a palavra futuro voltava a minha mente. Eu pensando no quanto minhas ações podiam influenciar a dos outros.