Samantha Roberts - O Infiltrado
19 But, mama, I'm in love with a criminal
Enquanto eu filosofava na mente, Jenny e eu carregávamos Nick até a casa dos Fontaine. Demoramos cerca de meia hora para chegar lá, totalmente ensopadas e exaustas.
Deitamos Nick no sofá e nos jogamos no tapete do chão da sala. Tivemos que explicar tudo a Queen, senão ela iria ter um surto, o que de certo modo me incomodava. Eu tenho que parar de ser ciumenta, é.
Fui deitar na esperança de sonhar com algo que me ajudasse na missão. Acho que superei minhas expectativas.
Em meu sonho eu estava saindo da escola, rumo a minha casa. Jenny, como sempre, estava ao meu lado ouvindo música e falando de como o dia tinha sido chato. Ela me deu tchau e dobrou a esquina, continuei meu caminho. Quando cheguei em casa, joguei minha mochila no sofá.
Procurei pela casa inteira, mas meu pai não estava. Estranho, ele já devia estar preparando o almoço a essa hora. Então eu ouvi um raspar de livros, como se alguém estivesse mexendo em minha prateleira. Nota para você: Pode roubar a minha casa inteira, mas não encoste em meus livros.
Entrei no meu quarto e me deparo com minha mãe, sentada em minha cama com um livro em sua mão.
— Hamlet é um ótimo drama, Sam. – Atena disse. – Seu gosto literário é muito bom.
— Err... obrigada.
Atena deu tapinhas ao seu lado na cama para que eu me sentasse. Ela foleava o livro com extrema delicadeza, apreciando cada palavra que lia. Fechou o livro e o pousou sobre seu colo, depois olhou para mim, séria.
— Já está na rota final de sua missão. A batalha se aproxima, e você se aproxima de seu destino. Precisava falar com você, por isso interferi em seus sonhos. Algum problema quanto a isso?
— De jeito nenhum. – Sorri. – Gosto de conversar com a senhora.
Atena retribuiu com outro sorriso.
— Primeiramente, vim pesquisando de onde Ártemis conseguiu fazer com que você sonhasse com ela. Foi difícil, principalmente por que Sócrates nos espiona também. Ele conseguiu prender Íris e Ártemis não esta segura também.
— O que faremos quanto à Íris? – Perguntei.
— Deixe que o Conselho Olimpiano cuide disso, filha. Bem, não sei exatamente onde ela está, são como nômades na floresta. Eles estão na região da Tessália, Grécia Continental, na floresta de Meteora, é tudo o que sei.
— Aquela floresta de montanhas rochosas?
— Exato. Mas não nas serras, nas florestas em suas planícies. Quando se aproximarem delas, mandarei um sinal que você, com certeza, irá reconhecer. Agora quero que se prepare. Conversei com Apolo e ele previu... Ele previu tempos difíceis para você, Sam.
De novo? Quantas mais pessoas irão dizer na minha cara que vou sofrer, chorar, fracassar, e não me explicar direito o que está por vir?
— Pretendo ser a última. – Atena respondeu. Ela olhou bem em meus olhos, o que me deixou meio sem graça, e pôs a mão em meu ombro. – Seja forte, seja corajosa. Nada mais do que você já é.
Uma chuva tremenda começou, raios cruzaram o céu. Mamãe se levantou e foi até a janela, pôs a mão em sua superfície e ficou encarando o céu, que de repente se tornou tão cinza.
— Não tenho mais tempo. – Atena disse. Ela foi andando e abriu a porta, mas antes de sair olhou para mim uma última vez. – Só mais uma coisa. Não confie em ninguém.
— Como assim? Ei, mãe! Me espere!
Mas não havia mais tempo para nós. Ela fechou a porta e, quando tentei abri-la de novo, minha mãe já tinha sumido.
Acordei com Queen me chacoalhando, já era hora de partimos. Arrumamos tudo que deixava resquícios de nossa presença, o que não demorou tanto. Nosso único problema era Nick. Tentei falar com ele e cutuca-lo, ele somente virou de lado e roncou. Queen tentou ser mais eficaz dando tapas na cara dele, e depois começou a gritar por ele quando ficou nervosa. Algo parecido com isso: Nick, acorda! Plat. Hey, Kit Kat de graça! A Sam está saindo com o Ned! Não me ignore! Aaargh. Slap. Apocalipse Zumbi! Acorde! Flapt.
Estranhamente, a mais esperta foi Jenny. Enquanto tentávamos acorda-lo, ela foi até a cozinha. Voltou com um copo de água cheio de gelo. Jenny deu um gole para refrescar um pouco e jogou o resto na cara de Nick, que quase pulou da cama. A primeira coisa que ele fez foi se queixar de dor no rosto, e Queen saiu de fininho. Por fim, arrumamos nossas coisas e seguimos viagem.
Compramos passagens para a cidade mais ao extremo sul que conseguimos encontrar. Nick ficou parecendo uma criança pedindo para eu comprar passagens para Gagliano Del Capo, ele sempre quis navegar naquelas águas cristalinas. Bom, o lugar era estratégico para a gente, comprei. Viajaríamos pela costa leste abaixo, pelo litoral. Seriam mais ou menos dez, onze horas de viagem. Beleza, outra viagem cansativa.
Já deve ter passado horas quando decidi contar meu sonho para eles. Queen e Jenny, que se sentavam na frente, viraram-se para ouvir.
— Que sinal? – Jenny perguntou.
— Não, sei. Ela só disse que eu irei reconhecer. – Respondi.
Olhei para Nick ao meu lado na poltrona, olhando a paisagem na janela. Ele me parecia mal. Peguei sua mão, o que fez com que ele olhe para mim.
— O que foi? – Perguntei a ele.
— Não gosto do que vivem prevendo para você, ainda mais por que não posso fazer nada para evitar que você sofra. Sou um idiota.
— É mesmo. – Jenny concordou.
— Jenny! – Repreendi ela. – Dá para deixar a briguinha de vocês de lado e ajudar aqui?
— Esqueçam. – Nick pediu. – Estou com sono ainda, vou dormir.
Nick se virou e dormiu em poucos minutos. Lancei meu olhar mais homicida para Jenny, mas ela estava acostumada, não surgiu tanto efeito. O jeito era ir na onda de Nick e dormir o resto da viagem, já que ninguém queria fazer nada mesmo.
Por volta de cinco da tarde, desembarcamos na rodoviária. Pegamos nossas malas e improvisamos um italiano para pedir informações, tínhamos que ir em direção ao porto de Gagliano Del Calpo. Nick foi até a calçada e tentou chamar um táxi. O tempo passava e ninguém parava. Jenny amassou uma lata de coca-cola jogada no chão e improvisamos um futebol no ponto de táxi, somos infantis e felizes mesmo.
Quando conseguimos um táxi, eu já estava ganhando de três a um. Subimos e pedimos para que o motorista nos levasse ao porto, o que não demorou muito tempo. Tirei o dinheiro da mochila e paguei o motorista, que sorriu e me deu o troco.
Pus minha mochila no ombro e fomos em direção ao porto. Andamos em direção a um grande píer. O cheiro de água salgada circulava pelo ar com a brisa litorânea. Me apoiei na balaustrada e olhei para baixo, o mar era mais azul e cristalino do que qualquer um outro que já vi em minha vida. Mais a frente no píer havia iates, barcos, veleiros, lanchas e jet skis.
Nick pegou seus documentos na mochila.
— Vou alugar um iate simples para irmos para a Grécia. – Ele anunciou e foi andando.
Ele começou a falar com um cara que estava mexendo no motor de um dos barcos. Mostrou os documentos e gesticulou um pouco. Os dois foram para dentro de uma loja logo mais atrás. Nick voltou correndo em nossa direção com uma chave na mão.
Estranhei a facilidade do aluguel um pouco.
— Você tem Carta de Arrais? – Perguntei.
— Não. – Nick respondeu e deu ombros.
— Ele alugou uma lancha para você, que não tem habilitação e irá entrar em águas estrangeiras?
— Sou filho de Poseidon, não preciso de habilitação para navegar. E... hã... eu não falei que iria cruzar a fronteira.
— Você tem que ter uma autorização para isso. – Avisei.
— Eu sei. Mas é uma missão, não temos tempo. Eles nunca nos autorizariam. – Ele riu. – Aliás, sou um bad boy.
Eu e Jenny nos olhamos, é incrível a capacidade que temos de pensar nas mesmas besteiras ao mesmo tempo. Seguramos a risada e começamos a dançar.
— But, mama, I’m in love with a criminal. – Cantamos juntas.
Todos riram, é muito legal ter um momento de descontração. Fomos até a extremidade do píer e Nick nos ajudou a pular para dentro do iate. O deck era de madeira e estava um pouco molhado. Andamos pelo iate. Ele era um pouco pequeno, mas confortável, e estava suficiente abastecido para a viagem. O chão da sala era coberto por um carpete creme, alguns sofás e uma mesinha de centro. Havia três cabines para dormimos e a cabine do capitão. Lógico que Nick babou aquele tipo de timão, o painel e seus botões, detalhes de madeira e tudo mais.
Ele assumiu o controle da embarcação e começamos a andar. O jeito era ir para minha cabine, ler ou dormir. Mas preferi ir para o deck, onde eu podia tomar um ar e pensar comigo mesma. Jenny passou para lá para esperar o por do sol, uma coisa que compartilhamos é a adoração por ele. Quando tentei fazer com que ela contasse o que rolou com Nick, Jenny mudou de assunto e foi para a cabine o mais rápido possível. Então assisti ao por do sol sozinha.
Eu queria tanto estar no píer, pensei.
Tantas coisas que eu queria. Queria respostas a milhões de perguntas em minha cabeça. Quem era a infiltrada? E seu irmão? O que Jenny previu? O que iria acontecer comigo? Quantas mais pessoas queridas eu iria perder para Sócrates? E como eu posso vencer essa guerra?
Era uma disputa entre revolução e retrocesso.
A causa deles é impossível. Como Sócrates venceria aos deuses? Na última vez que fui ao Tamalpais ele me disse que havia descoberto um meio de enfraquecer os deuses. Como? Talvez, possamos ganhar a guerra assim. Descobriremos o meio de como ele pode enfraquecê-los e destruir ao acabar com seus planos. E, se ele tentar tomar o Olimpo sem esse meio, será simplesmente aniquilado. Bom plano. Mas como descobrir é que o jeito. Tenho que ser mais esperta que o maior dos filhos de Atena, perfeito. Mas eu tinha que tentar.
Enquanto um avião de fumaça desenhava no céu rosa na luz poente do sol, fiquei perguntando mais coisas e tentando responder a mim mesma a maioria delas.
O tempo passou, e nos aproximávamos cada vez mais da costa da Grécia. Nick veio até o deck e pediu para que eu camuflasse o barco com a névoa por que veio um barco da guarda costeira nos seguir. Mas Nick fez uma manobra e os despistamos.
Decidi fazer uma visitinha a Nick na cabine do capitão. Mas, quando abri a porta, me deparei com o timão sozinho e o modo de piloto automático desligado.
Antes que eu tivesse um ataque, Nick aparece atrás de mim abrindo uma latinha de Coca-Cola.
— Fui buscar um refri. – Ele falou enquanto sentava na cadeira do capitão.
— Quem estava controlando o iate? – Perguntei.
— Eu, é claro.
— Mas você estava na cozinha!
— Você tem seus poderes legais, eu tenho os meus. – Ele disse e sorriu com o canto da boa.
Ele tinha razão. Nick provavelmente é o mais poderosos de todo o grupo. Sua capacidade do controlar o elemento água, não importa em qual estado físico seja, melhora a cada vez que treinamos juntos. Sem falar em tantos outros dons incríveis que eu poderia ficar horas citando.
Sentei em uma cadeira ao lado do assento do capitão. Nick tirou do bolso da calça dele um Trident.
— Quer? – Ele perguntou. – É o seu favorito, o de canela.
— Manda.
Ele desembrulhou o chiclete do papel. Abri minha boca e ele jogou.
— E cesta! – Eu disse rindo.
O tempo voa quando estou com Nick. Quando ele olhou para o relógio de novo já se passaram meia hora que estávamos lá, conversando e rindo.
— Faz tempo que eu não te vejo assim. – Nick disse.
— Assim como? – Perguntei, olhando para o mar que se estendia a minha frente.
— Como você realmente é: feliz, retardada e que ri de quase tudo.
— Valeu pela parte que me toca. – Eu ri.
Hesitei um pouco.
— É que está sendo muito difícil para mim. – Admiti. – Quer dizer, eu me sinto tão culpada por isso. Há um ano Sócrates estava lá, ajoelhado a meus pés e com o pescoço a mostra. Se eu o matasse antes eu poderia evitar centenas de mortes agora. Mas fui fraca, fui medrosa. E eu o provoquei demais também naquele dia, admito. Ele tem uma raiva imensurável por mim, sinto isso toda vez que nos falamos por sonhos. Nick – Olhei bem em seus olhos, procurando algum ponto seguro. -, fui eu que comecei essa guerra.
Ele balançou sua cabeça em negação.
— A culpa não é sua, Sam. Você sabe que não seria o certo mata-lo. Agora não fique se remoendo por isso. Não deixe com que problemas estraguem você, não deixe que eles mudem você.
— Mas esses não são simples problemas.
— Pode ser. – Nick olhou para frente e arregalou os olhos, depois sorriu. – Terra a vista, Srta. Wikipédia. Chegamos em casa.
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