Samantha Roberts - O Infiltrado

10 Filho de peixe, animal terrestre é.


Notas iniciais
Hey, gente. Na minha opinião ficou bem legal esse capítulo. Espero que gostem.

Depois de ter certeza de que Queen não me mataria enquanto dormia, consegui cair no sono. Não tive como evitar. Viagem longa, barriga cheia, sono absurdo e barulho de avião. É, dormi rapidinho.

Em meus sonhos eu via uma menina em um acampamento adentro de uma floresta. Ela estava sentada a frente de uma fogueira com os olhos fechados, aparentemente ponderando sobre algo. As brasas da fogueira iluminando seu rosto ajudavam realçar a aura de poder ao seu redor. Eu vi essa mesma garota a pouco mais de um ano. Com certeza era Ártemis.

Ártemis abriu os olhos ao ouvir o barulho de alguém pisando em um galho, mas não alterou seu estado calmo. De entre dois arbustos saiu uma figura. Ela não devia passar dos quinze anos, o que é uma idade consideravelmente grande para uma caçadora. Ela vestia um vestido prateado que brilhava com a luz da fogueira. Uma tiara foi colocada acima de seus cabelos castanhos ondulados e ela tinha uma aljava nas costas. A garota se ajoelhou ao lado de Ártemis.

— Lady Ártemis, cansei de a senhora ficar me escondendo coisas. – Reclamou a garota. – Está acontecendo algo muito importante, vejo pelo seu rosto que está sempre preocupada. Estamos muito tempo caçando aqui, por que não viajamos?

— Realmente há coisas que não estou mencionando. E saiba que fiz isso porque estou tentando poupar vocês. Trouxe vocês para cá para lembrarem-se de quem realmente são e não se rebelarem.

— Nos rebelar? — A garota perguntou.

— Um grupo de semideuses está preparando uma revolução para destronar os deuses. Não se aliem a eles. Sinto que precisam das Caçadoras, estão vindo lhes buscar aqui.

— Então é por isso que estamos aqui?

— Não. Não é seguro sair daqui. – A garota me pareceu assustada ao ouvir isso. – Perdi o contato com os deuses. Não posso falar e nem receber mensagens. Ficaremos aqui até eles chegarem.

— Quem são eles?

Nesse momento Ártemis levanta a cabeça e olha bem em minha direção, como se soubesse que eu estava ali.

— Talvez, a salvação do Olimpo.

Depois disso meu sonho mudou de lugar. A névoa era muito densa nesse local. Destroços de estátuas e esculturas negras, o ar parecia tenso e mais alguns ruídos na caverna que havia mais atrás. Este era o palco de meus últimos piores sonhos. Eu estava, de novo, no Monte Tamalpais.

Dessa vez eu podia agir por vontade própria aqui. Gritei Sofía e minha espada apareceu em minha mão, agora eu estava preparada para o que der e vier. Corri para dentro da caverna. Passei pelo castigado Atlas que gemia e mandava Sócrates liberta-lo, que assim o ajudaria. Mas Sócrates era inteligente demais pra fazer isso. Passei pela sua frente e notei que eles não sentiam minha presença, mas mesmo assim mantive minha mente alerta.

Um estalo de raiva subiu pelo meu corpo quando eu ouvi a voz de Sócrates gritando com alguém. Não ousei entrar na câmara, dentro da caverna ainda, encostei-me à parede dela e só fiquei ouvindo.

— Como assim ele se rebelou? – Sócrates gritava.

— Ele disse que não iria trair o acampamento não importa o que o senhor fizesse! – A menina que eu vi em meu sonho gritou de volta, como se já estivesse cansada de ouvir Sócrates gritar com ela.

— Argh, garoto imbecil! Quer saber? Cansei dele! Vamos atingir aquele garoto então, onde mais doí. Vamos matar seus amiguinhos. Que o avião de Roberts caia. Ouviu? Caia!

— Não, mestre! Eu te imploro! Eles também são meus amigos. Vivemos juntos no acampamento, não quero que eles morram. Por favor, meu irmão pode trazer todos para o nosso lado.

— Estúpida!

Nesse momento ouvi um barulho, como se Sócrates tivesse dado um tapa na cara da garota. Desde que eu sonhei com ela, eu a odiava. Mas agora não. Ela estava nos defendendo a qualquer custo para vivermos. Um minuto. Nosso avião vai cair? Di Immortales! Sam, acorda! Acorda! Eu não consigo acordar! Argh, que raiva! Então raciocina. A garota nos conhece. E viveu conosco no acampamento. Então, por que raios eu não consigo me lembrar de quem era a dona da voz?

— Esse avião cai e você não vai salva-los. Garota insuportável! Sorte sua que eu precisei de você, senão você era outra morta! Agora verifique se nosso outro missionário está fazendo tudo certo e saia de minha presença!

Nesse momento ela saiu da sala, chorando, e correu em minha direção oposta. Não consegui ver seu resto. Isso por que ela se virou tão rápido que nem um mutante conseguiria, e também por que eu estava atordoada demais tentando assimilar as coisas. A única coisa que consegui ver fisicamente eram seus cabelos negros. Ótimo, com isso podemos tirar sessenta garotas da lista. Agora faltam mais mil garotas no acampamento com cabelos negros.

— Volte! – Corri atrás da garota. – Ei, volte! Me diga quem é você. Eu vou te ajudar! Prometo! Volte! Volte!

Acordei com três pessoas me chacoalhando. Me sentei com tudo no assento e pus minha cabeça entre as mãos.

— Por que vocês me acordaram? — Quase gritei com eles, ainda estava um pouco atordoada. – Eu ia descobrir quem é a garota! Eu ia descobrir quem era o infiltrado! Por que me acordaram? – Comecei a chorar, mesmo todos do avião olhando para mim.

Nick sentou-se ao meu lado e pôs seu braço no meu ombro. Encostei minha cabeça em seu peito e esperei o choro acabar.

— Nós vamos morrer. Temos que sair daqui agora. – Consegui falar. – Sócrates vai fazer com que esse avião cai de algum jeito. Temos que pular ou... não consigo pensar. Não posso deixar vocês aqui. Temos que sair. Temos que ficar de olho nas janelas, para ver se terá algum ataque aéreo, ou pode ter um homem-bomba aqui dentro ou mesmo monstros.

— Então ficaremos de olho. – Jenny me assegurou. – Faltam umas cinco horas de viagem ainda. Não dormiremos, ou temos que fazer vigia. Hey, não vamos morrer, ok? Fica calma.

Limpei uma última lágrima em meu olho com as costas da mão. Calma. Isso era vital para um momento desses. Preciso ser calma e constante.

— Ok, gente. – Respirei fundo. – Vamos fazer uma vigia, de dois em dois. Eu fico com Queen e vocês dois façam uma dupla. De olho nas janelas e pessoas suspeitas. Qualquer turbulência é sinal de alerta. Se for algum monstro, temos que tentar salvar todos os mortais. Eles podem quebrar o avião mesmo por dentro. E, por favor, cuidado.

— Certo. – Jenny afirmou.

— Eu posso fazer a primeira vigia, já que acabei de acordar. – Sugeri. – Vocês durmam e isso pode ser para você também, Queen.

— Não, não. Vou fazer a vigia com você. – Ela disse.

— Certo.

Depois de me acalmar completamente, contei todo meu sonho a eles. Desde a parte de Ártemis estar presa na floresta sem comunicação com os deuses, até a garota serva de Sócrates. Todos ficaram apreensivos com isso, e também não era para menos. Decidimos continuar com o plano e Queen e eu ficamos com a primeira vigia e, depois de um tempinho, Jenny e Nick dormiram de novo.

Eu realmente não faço a mínima ideia de tempo depois disso. Eu estava ocupada demais pensando. Pensando em todas as possibilidades possíveis de sobreviver a um atentado terrorista de um louco filósofo que voltou do Hades e quer me matar e destronar aos deuses. Simples. Ah, eu tenho que me distrair.

Olhei para o lado e vi que Queen também era uma transgressora de regras, estava ouvindo música.

— Ei, que música você está ouvindo? – Perguntei para puxar assunto, não estava aguentando mais.

— Ah, nada. Nirvana. – Queen mentiu para mim.

— Aham, sei. Sabe que este volume está no máximo, né? Escuto o ritmo da música daqui e isso com certeza não é rock. Vai, fala pra mim.

— Não e você não pode me impedir!

— Ah, é? – Perguntei.

Cheguei perto dela e tentei arrancar seu fone de ouvido. Sim, eu sou muito folgada mesmo. Queen desviou e pulou para a poltrona do lado. Eu ri e tentei arrancar de novo. A cena estava tão engraçada! Eu estava quase deitando em cima de Queen para ela me dar o fone de ouvido, as duas rindo. A aeromoça nos mandou parar, mas nem demos ouvidos. Só ficamos gritando e tentando vencer a luta. Mas eu conseguir ganhar e pus fone de ouvido no meu ouvido.

Fiquei totalmente pasma em ouvir uma música conhecida. Ela estava ouvindo The Phantom Of The Ópera e ainda me fala que é Nirvana? Que coisa.

— Olha... eu mudei a playlist sem querer. Eu nem ouço essas...

— Músicas boas? – Perguntei. – Queen, eu achava que era o maior ET desse planeta! Obrigada! Eu amo essa ópera. É boa demais, sério. E você não queria que eu ouvisse?

— Ah, sei lá. Tem tanta gente que odeia, pensei que fosse mais umas delas.

— Não, eu amo. E, ei, não precisa se envergonhar por ter um bom gosto. – Nós rimos.

Depois disso tínhamos um assunto. Falamos de nossas óperas e concertos favoritos, músicas eruditas e sinfonias. Eu nunca, nunca mesmo, imaginei que ela teria tanto em comum com aquela garota.

— E aquela versão que você estava ouvindo da ópera é a melhor, em minha opinião. – Confessei. – É da aquela cantora... Sarah. Sarah? Não lembro o sobrenome dela.

Nesse momento Queen ficou muito tensa. Agora eu me ferrei, ela pensou. Fiquei a observando direito.

— Sabe, você a lembra um pouquinho. – Juntei todos os fatos. – Sarah Boulevard! Esse é o nome dela. Nããããõ, Queen. Você é filha de Sarah Boulevard? Que tudo! – Eu dei risada. – Sério, a ultima opção que passaria na minha cabeça era que você fosse filha de uma cantora de ópera.

Ela pôs a mão em minha boca.

— Psiu. Cale a boca! Não quero que todo mundo saiba, nerd.

Tirei a mão dela de minha boca.

— Por que não? – Perguntei. – Isso é o máximo, Queen.

— Não preciso de amigos por interesse. Não quero gente assim ao meu lado. E, além disso, ela não é minha mãe. Minha verdadeira mãe se chama Lilliam Cristine, a mulher que me criou. Minha babá, se preferir. Aquela que você chama de Sarah me largou e viajou o mundo inteiro, fazendo turnês e noites de autógrafos. Quem me ensinou a andar, falar, a ler e como se viver nesse mundo ingrato foi Lilliam. E ela que é minha mãe, ou era né. Nem meu pai, que diz gostar de mim, a poupou. Foi injusto.

Ao ouvir a história de Queen, percebi o quão a julguei mal. Tenho que admitir que meu ciúmes não ajudou em nada. Ciúmes não. Precaução em certificar que coisas que são minhas continuem sendo minhas.

— Nossa, Queen. Isso é...

— Isso é um saco! – Ela explodiu.

— É por isso que você se incomodou tanto quando Kimberly te provocou.

— Ela pode ser uma mortalzinha insignificante, mas quando descobre alguma coisa horrível sua, sabe como usa-la contra você direitinho.

— Quer falar sobre isso? – Perguntei.

— O que você acabou de dizer?

— Sei lá. Com a vida aprendi que quanto mais a pessoa quer sufocar um assunto que a incomoda, mais ela precisa falar sobre isso com alguém.

— Você tem cada momento filosofa que me irrita até o pó da alma, sério. – Ela reclamou. – Você vai ficar me enchendo até eu falar sobre isso, não? – Assenti. Ela abaixou a cabeça e seu um suspiro frustrado. – Ok. Hm, meus pais se conheceram há éons. Pelo o que ela me contou, eles se conheceram no dia do Solstício de Inverno. Era o ano em que minha mãe explodiu e virou revelação ano. Ela estava fazendo um show, que lotou em horas, no Madison Square Garden e meu pai estava na cidade sem nada para fazer depois do Solstício. Ele foi ao show dela e se encantou com ‘’ tamanha beleza ‘’ de minha mãe. – Queen fez sinal de aspas enquanto dizia tamanha beleza. – Ele foi até o camarim dela para conversar e pedir autógrafo, essas coisas. Ele curte muito música clássica. Depois ele deu tchau e foi embora. Alguns anos depois ela cantou em Los Angeles e meu pai foi vê-la. Depois do show ele foi ao camarim dela de novo e a convidou para jantar. Aí foi um jantar a luz de velas e blá blá blá. Romance demais para o meu gosto. Se apaixonaram e você já sabe o resto. Assim que eu nasci, minha mãe teve outra explosão na carreira. Foi fazer turnê mundial de um ano. Ela me largou com minha babá, com aquele leite materno doado pelo hospital e uma foto dela. Depois que a turnê acabou, eu já estava aprendendo a andar e minha mãe iria largar a carreira. Mas se ela fez isso? Não mesmo. Trocou de gravadora e ganhou o dobro do que tinha. Mais turnês, mais viagens. E eu ficava em casa.

— Nossa, Queen. Isso deve ter sido difícil. – Falei.

— Difícil nada. Foi a melhor coisa que já me aconteceu. Sarah não saberia como cuidar de mim. Ainda bem que foi minha mãe que me criou e acho que nunca a agradeci devidamente.

Pensei sobre isso também. Meu pai me criou sozinho e foi meu pai e minha mãe ao mesmo tempo. E também acho q nunca o agradeci devidamente.

— Então, é isso. – Queen terminou. – Hm, soube que você gosta de Bartok. Quer... sabe... – Ela ofereceu o fone de ouvido. — Ouvir?

— Claro.

E depois dessa conversa só me vinha uma palavra na cabeça: progresso.