Matt e Ally estavam batendo boca pela terceira vez na noite. Eu estava quase achando que aquele ódio entre os dois era paixão reprimida, mas, para minha própria integridade física, resolvi não comentar nada sobre isso em voz alta.
Aquele conselho de guerra parecia nunca ter fim. Estávamos discutindo há pouco mais de uma hora e ainda não tínhamos conseguido resolver metade dos assuntos na pauta. Era quase impossível sugerir alguma solução sem que alguém se opusesse totalmente a ela.
Coloquei meu cotovelo sobre a mesa de ping-pong e apoiei a bochecha em meu punho, completamente entediada com a troca de ofensas que estava acontecendo. Ao meu lado, Jenny cantarolava alguma música que eu não conhecia e batucava na mesa. Dei-lhe um chute na canela e ela me retribuiu com uma cara emburrada, mas, ao menos, parou de cantar.
Queen, sentada do outro lado da mesa, assistia à briga com brilho nos olhos. Seu olhar ia de Ally para Matt, como se acompanhasse uma partida de tênis. Quíron, Victor e Hailey estavam tentando acalmar os ânimos dos dois briguentos em vão. Os demais assistiam a tudo somente por assistir, como se não tivessem nada melhor para fazer mesmo.
Ally levantou-se bruscamente de sua cadeira.
— Você não tem noção mesmo! — a filha de Dionísio atacou. — Estamos falando de pessoas, não números! Já pensou em quantas pessoas podem morrer desse jeito? Claro que não! Você quer resultados. Apenas isso.
Às vezes eu me flagro perguntando a mim mesma como uma pessoa tão legal quanto Ally poderia ter saído do saco escrotal do Sr. D.
— Se você não quer fazer dodói, bonitinha, fique aqui sã e salva no acampamento. — Matt rebateu. — Não precisamos de bundões como você em batalha.
Ally cerrou os punhos. A garota tentou sossegar um pouco, respirando fundo algumas vezes; depois abriu as mãos.
— Estou zelando pela minha família. — disse calmamente.
Matt se endireitou na cadeira.
— Acha que, se eu não zelasse por ela, estaria aqui? — retrucou. — Acha que eu ligaria? Por que não deixar Sócrates simplesmente matar a gente?
Ally encarou o valentão e não falou mais nada. Apenas voltou a se sentar à mesa.
Olhei para Queen, esta que parecia ser a única decepcionada pela briga ter se encerrado. Ela cruzou os braços e afundou-se na cadeira. A única diversão da noite dela se fora.
— Concordo com Matt. — me pronunciei. — Não acho que devemos ficar aqui esperando.
Fiquei ereta na cadeira enquanto os olhares iam se dirigindo à minha pessoa.
— Mas eles agora sabem que estamos indo para lá. — Hailey lembrou.
Assenti.
— Sim, sim. Então temos duas opções: atacar antes da data estipulada, o que eu acho muito em cima da hora, ou atacar depois. Eles estarão preparados, porém mais relaxados do que agora que eles receberam a notícia de que iríamos até lá. E, na boa, eu não gosto muito da ideia de ter que armar uma tática de defesa às pressas se resolvermos esperar o próximo passo deles. Talvez seja tarde demais.
Queen se ajustou na cadeira.
— Então vamos depois da data. — ela falou. — Mais tempo para treinar a arrumar as coisas.
— Mas isso também dá mais tempo a eles também. — coloquei. — E nesse tempo eles também podem atacar. É um tiro no escuro.
Os conselheiros começaram a debater entre si. Quíron observava a tudo atentamente, tentando captar cada argumento. Entretanto, não fez sequer um comentário. Ele sempre os guardava para o final da reunião.
— Vamos esperar mais um pouco. — Jenny se decidiu.
Os outros pareceram concordar.
— Certo. — Quíron disse. — Faremos a viagem em duas semanas. Agora, o mais importante: do que precisamos?
— Qual é a nossa verba? — perguntou Austin.
— O que vocês precisarem. — Sr. D. falou algo pela primeira vez na noite inteira.
Ficamos chocados com a resposta. Ele estava... aliviando para nosso lado? Está aí algo que não acontece todo dia.
— Quem poderia ser mais rico que os deuses? — ele indagou. — Além disso, temos o dinheiro que arrecadamos com os campos de morango.
Gabriel sorriu, orgulhoso.
— Precisamos de um avião para viajar até lá. — comecei. — Estadia ou um acampamento improvisado. Roupas térmicas.
— Roupas térmicas? — Matt perguntou.
— Sim. — respondi. — Vai querer ter o mesmo fim que os alemães na Segunda Guerra Mundial?
— Para o acampamento inteiro? — Hailey perguntou com medo.
— Pros que moram muito longe. Ninguém estava esperando ir até o Alasca quando veio para cá, um refúgio do clima exterior. Temos o que? Quinze campistas com moram pelas redondezas? Eu mesma posso pegar algumas em minha casa, se o Sr. D. permitir. E aproveitar que vou sair do acampamento e já comprar as demais.
— Temos quatro vãs aqui. — Quíron informou.
— Então vamos nos virar com o que temos. — eu disse. — Três vãs vão rodar pelas redondezas indo nas casas de quem pode pegar roupas térmicas e mais agasalhos. Ou só mais blusas compridas pra usar por baixo. A outra vai procurar pelas roupas térmicas em um preço mais em conta.
— Posso te encarregar das compras? — Quíron perguntou a mim.
— Sim, claro. Quando iremos?
Sr. D. e Quíron trocaram alguns olhares. Eu fazia a mínima ideia de como eles faziam isso, mas os velhos companheiros conservam muito bem através dos olhos.
— Vou liberar as vãs para vocês amanhã de manhã. — Sr. D. disse.
— Acho que temos que fazer um levantamento primeiro de quantas peças vamos levar da cada número. — opinou Alex. — Depois iremos às compras.
Mais murmúrios.
— De fato. — concordei. — Sabem o que podemos fazer amanhã? Contatar Ártemis. Precisamos das Caçadoras novamente.
— Posso resolver isso. — Sr. D. disse.
— Enquanto isso eu posso procurar um lugar adequado e seguro para a gente ficar lá no Alasca. — Alex disse. — Acho que um bando de adolescentes chamaria muita atenção.
Apropriado, pensei.
— Podemos nos passar por uma escola. — Gabriel sugeriu.
— Isso só vai nos dar dor de cabeça. — Matt falou. — Acho que é melhor mandar um grupo primeiro para lá para estudarmos um local para montar acampamento a uma distância razoável do refúgio de Sócrates. As Caçadoras podem nos ajudar, ninguém monta acampamento com mais eficiência que elas.
— Eu vou. — Jenny se voluntariou sem hesitar.
— Você não vai. — me opus, já conhecendo suas péssimas intenções.
Jenny cruzou os braços.
— Você não manda em tudo o que diz respeito a essa guerra. A decisão é minha.
— Quíron — disse ao me voltar para o mesmo —, Jenny é um rostinho bem conhecido pelos campistas e ex-campistas deste acampamento. E por Sócrates, inclusive. Se fizerem uma ronda fora do acampamento, saberão quem ela é.
— Eu posso me cuidar. — Jenny retrucou. — Anos treinando aqui e vocês pensam que não sei nem me disfarçar ou ser cautelosa?
— Não podemos correr esse risco. — Matt comentou.
— Estão me subestimando!
Ela olhou para mim, enfurecida, e, por um instante, temi que essa raiva não fosse apenas circunstancial, mas que perdurasse. Mas era a Jenny. Iríamos nos acertar. Eu acho.
Ela se levantou e se retirou da sala de jogos.
— Jenny! — Victor tentou chama-la antes dela sair. Foi ignorado.
Victor olhou para Quíron, suplicante. O velho centauro assentiu e Victor abandonou a reunião para procurar por sua namorada.
Queen me mandou um olhar de solidariedade. Ambas sabíamos do potencial que Jenny tinha para ser inconsequente em horas críticas. Ela faria tudo o que estivesse ao seu alcance para salvar aqueles que ama.
Minha reflexão sobre o assunto abriu espaço para a culpa. Jenny estaria fazendo a mesma coisa por mim, se eu fosse a pessoa em cativeiro.
Quíron soltou um longo suspiro e esfregou seus olhos, que só então percebi que estavam vermelhos. Se era falta de sono ou choro eu não sabia. Tudo o que eu pude tirar daquela observação era que Quíron já estava farto daquela reunião.
— Acho que Matt poderia se encarregar de selecionar um pequeno grupo para ir até o Alasca semana que vem. — eu disse. — Seria adequado deixar espaço para uma caçadora no grupo.
Matt concordou comigo e disse que escolheria as melhores pessoas que ele poderia imaginar para terem tal responsabilidade.
— Por mim, já deu, pessoal. — confessei, por fim.
Todos relaxaram em suas cadeiras e agradeceram aos deuses pelo término de mais uma maçante reunião.
___
Eu nem costumava a andar muito pela floresta após o ocorrido do último verão, quanto mais voltar para meu antigo posto de observação. Não sei o que me deu naquela noite — insanidade ou saudade, qual é a diferença mesmo? —, mas eu fui para lá.
Poderia andar pela floresta com os olhos fechados de tantas vezes que eu fiz aquele mesmo caminho — o que não seria uma grande mudança, pois as copas das árvores barravam quase toda a luz do luar.
A alguns metros teria uma árvore com a raiz saltada. Eu costumava a tropeçar nela nas primeiras noites. A terceira árvore a minha direita teria os nomes Rick e Melody entalhados. Nunca ninguém soube me responder quem eram esses dois. Quíron talvez soubesse, mas optei por nunca saber. Iria perder toda a graça. Eu criava uma história para eles toda vez que passava por aquela árvore — um lindo romance trágico.
Eu arrastava meus pés enquanto andava, trazendo comigo folhas e gravetos secos a cada passada. A noite era fresca e silenciosa. Eu me sentia completamente sozinha no mundo, como se eu perambulasse por destroços de uma cidade abandonada.
Finalmente, a flora fechada foi se abrindo. E lá estava eu, depois de quase meio ano, em meu posto de observação. Nosso posto de observação.
Foi ali que Nick me pediu em namoro. Foi ali que ele me arrancou sorrisos, me roubou beijos. Foi ali que eu fui dolorosamente traída. Foi ali que eu vi uma irmã morrer. Foi ali que criei meu próprio mundinho fantasioso e foi ali que eu o vi desabar.
Maldito lugar.
— Sabe por que a floresta tem essa falha enorme? — alguém perguntou atrás de mim.
Virei-me, assustada. Era apenas Queen. Relaxei.
Balancei a cabeça em negação.
— Uma vez Hailey e Susana brigaram. — ela começou — E incendiaram grande parte da floresta.
— Eu soube. — disse, ao lembrar da história que Ned me contou.
— O incêndio começou aqui. — Queen continuou. — O fogo consumiu as árvores nesse ponto por três dias. O solo ficou, então, infértil. Os sátiros e as ninfas estavam tentando recuperar o dano, mas Nick e eu percebemos uma coisa: — ela olhou para cima. — o céu. Claro que poderíamos vê-lo de qualquer outro ponto do acampamento, mas nunca nos sentiríamos tão em contato com a natureza em outro lugar, não acha?
Assenti e sentei com as costas apoiadas em uma rochas.
Queen sentou-se ao meu lado.
— Nós que colocamos essas pedras aqui. — ela explicou. — Foi trabalhoso, mas valeu a pena. Tentamos deixar alguns travesseiros aqui também, mas um dia uma harpia achou eles aqui. Usou como evidência de que andávamos quebrando o toque de recolher. Lavamos a louça por duas semanas. — ela riu.
Engoli seco.
— Você e Nick?
Queen olhou para mim, se divertindo.
— Susana também vinha com a gente, relaxa.
Encolhi-me e olhei para minha amiga de soslaio, me achando a maior fura-olho da história.
Quis que Queen estivesse em meu lugar desde o começo de tudo. Se ela fosse buscar O Livro de Sócrates em vez de mim, teria coragem e capacidade de matar meu meio-irmão. E talvez Nick pudesse corresponder o que ela sentia. Não haveria guerra, nem dois corações partidos. Eu poderia até tentar ter um relacionamento saudável com Ned.
Mas é claro que as Parcas gostam de fazer tudo do jeito mais complicado.
— Por que parou de vir para cá? — perguntei.
Queen deu ombros e se ajeitou melhor no lugar.
— Pelo mesmo motivo que você: memórias.
Estirei-me no chão e apoiei minha cabeça numa rocha. Não era tão confortável nas primeiras vezes, mas acabei me acostumando. Queen imitou-me. Ela olhou para o céu por algum tempo e depois fechou os olhos, parecendo entrar em um estado de meditação.
O cabelo castanho escuro de Queen contrastava com sua clara pele que refletia e pálida luz da lua. Ele caía levemente ondulado sobre seus ombros. Seus lábios estavam em um ângulo que ela parecia sustentar um meio sorriso.
Eu nunca diria pronunciaria isso em voz alta, quanto mais dizer a ela, mas Queen era extremamente bela. E, naquele momento, senti-me obrigada a admitir isso a mim mesma.
— Acha que Nick seria capaz de fazer algo contra Jenny se ela fosse mesmo para lá? — ela perguntou, ainda de olhos fechados. — Ou Susana? Tipo, eles se conhecem desde de crianças. Até que ponto eles iriam?
Contei três respirações antes de responder:
— Acho que acabei nunca conhecendo os dois, na verdade.
Queen abriu os olhos e se virou para mim.
— Duvido. Bem, Susana tem sua personalidade que é impossível de entender, até para mim. Mas Nick? Ele é integro. Eu me recuso a acreditar que tudo isso está acontecendo.
Senti meu coração apertado.
— Mas é melhor acreditar. Ele escolheu nos deixar.
— Será? Será que ele escolheu mesmo?
Eu entendi o que ela quis dizer, mas ela nunca iria entender toda aquela situação. Pensei em abrir a boca para falar, contudo permaneci em silêncio. Fiquei concentrada em minhas respirações, aguardando meu peito ficar normal novamente. Meses depois do ocorrido e eu ainda não conseguia falar de Nick. Era ridículo.
— Poderíamos trazer Jenny outro dia e tornar isso aqui o lugar das garotas. — Queen sugeriu. — O que acha?
— Uma festa do pijama ao ar livre?
— Não, que horror! Festa do pijama é um termo tão pré-adolescente. Uma reunião amigável, talvez.
— Reunião amigável é um termo igualmente horroroso. — retruquei.
— Pense em uma coisa você, então.
— Uma saída?
— Ok. Sem nomes. Só vamos vir para cá e quebrar o toque de recolher, porque somos quase jovens adultas e temos que fazer loucuras.
— Loucuras? Estamos deitadas vendo as estrelas.
— Deixe as harpias nos acharem e você verá o que é loucura. Elas tem pernas de galinha, mas são mais rápidas do que parecem. Tenho cicatrizes, se quiser ver. — ela disse levantando a lateral da blusa.
— Não, não, não. Obrigada. — eu disse apressadamente e ela abaixou a blusa, rindo. — Fique quietinha aí e vamos viver insanamente, sim?
Ela pôs as mãos atrás cabeça e voltou a olhar para o céu.
— E minha mãe falando que não tinha uma filha rebelde.
___
Acordei com Queen deitada em minha barrigada. Esfreguei os olhos, ainda meio desorientada, e olhei em volta. Ainda estávamos cercadas pelas árvores da florestas. Pernoitamos no posto de observação.
Ou não havíamos terminado de pernoitar. Estava escuro e não havia o menor indício no céu de que o sol iria começar a nascer.
Dei alguns tapas na bochecha de Queen. Ele grunhiu e virou para o outro lado. Revirei os olhos, impaciente, e levantei-me, fazendo com que sua cabeça caísse no chão. Queen olhou para os lados, confusa, e então seus olhos encontraram os meus.
— Qual é a necessidade de tanta indelicadeza para com minha pessoa? — ela perguntou.
— Tempo. Venha, vamos dar o fora daqui.
Queen se levantou e bateu na roupa, tentando tirar o excesso de terra e folhas que se agarraram à sua roupa, então me seguiu floresta adentro.
Fomos cuidadosas o caminho inteiro, andando com os pés leves e respirando devagar. Pisávamos em um galho seco ou outro, mas o barulho era mínimo. Talvez fosse o fato de estarmos acordadas de madrugada que nos deixasse retardadas, mas estávamos nos segurando muito para não rir. Vivemos perigosamente.
A onda de estúpida alegria foi cortada quando avistamos de longe, ao sair da floresta, Jenny andando sorrateiramente pelo acampamento carregando uma bolsa de viagem consigo.
— Ela vai fugir! — sussurrei. — Essa bastarda.
Antecipei-me, afim de tentar alcança-la logo, mas Queen me segurou pelo ombro. Ela levou o indicador aos lábios e foi entrar novamente na floresta. Eu a segui.
Andávamos por trás da primeira linha de árvores, onde dava para nos esconder e dava para acompanhá-la. Por entre os grossos troncos eu via a imagem de Jenny se deslocando, eventualmente olhando para trás para se certificar se alguém a seguia.
Se continuássemos seguindo o contorno da floresta, iríamos parar no lado oposto do acampamento do qual Jenny visava chegar. Aguardamos por um tempo atrás de uma árvore enquanto ela contornava a Arena de Combates, depois, já descobertas, voltamos a segui-la.
A perseguição continuou por um bom tempo. Ainda tínhamos um acampamento inteiro parar percorrer. Longe, a Colina Meio-Sangue ficava maior a cada passos que dávamos.
Jenny dava passos firmes, determinados. Eu a xingava enquanto observava a criatura. Ela iria fugir e não me contou. E daí que ela sabia que eu não iria deixar? Ela nem se despediu de mim. Jenny queria partir para uma missão suicida sem sequer despedir-se de mim.
Ela começou a subir a colina. Estávamos a, aproximadamente, trinta metros atrás dela. A distância, aos poucos, foi diminuindo, pois, subindo a colina, Jenny andava mais devagar do que nós, que ainda estávamos em chão plano.
Porém eu cometi a clichê infelicidade de pisar e, por consequência, quebrar um graveto. Jenny olhou para trás. Nem deu tempo dela demonstrar seu espanto — jogou a bolsa por cima do ombro e disparou colina acima.
Queen e eu corremos atrás dela, enquanto eu entoava “droga, droga, droga!’’. Jenny era indiscutivelmente a mais rápida das três. Além disso, estávamos em uma grande desvantagem de metros. Não iríamos alcança-la de jeito nenhum.
A não ser...
Vi-me obrigada a entrar na cabeça de Jenny e fazer com que seus pés fincassem no chão. Seu corpo obedeceu ao meu comando sem hesitar. Com a repentina parada, Jenny tropeçou e caiu no chão.
Nesse meio tempo, conseguimos diminuir nossa desvantagem, e, quando Jenny estava prestes a se levantar novamente, Queen conseguiu se jogar em cima dela.
Em meio aos protestos e xingamentos, Jenny levantou-se com nossa ajuda.
— Você ia fugir. — eu disse, ofegante e pasma. — Nem falou comigo.
— E você disse que nunca ia usar seus poderes em mim. — ela disse enquanto pegava a bolsa no chão.
Cruzei os braços.
— Não mude o ponto.
— Que ponto? Fugir? Pois bem: eu vou conseguir e fugir e nada que vocês façam pode me impedir.
Queen arqueou uma sobrancelha.
— Tem certeza?
Jenny bufou, irritada.
— Escuta, vocês podem conseguir me barrar por hoje. Mas eu vou tentar amanhã. E depois. E depois de depois de amanhã. Aliás, o que vocês estão fazendo acordadas a essa hora?
— Não interessa. — respondi.
— Claro que interessa! O que vocês estavam fazendo sem mim? Agora é festa? Apresento as duas e agora vocês ficam saindo sem mim?
Revirei os olhos.
— Jenny, você está visivelmente alterada. Não vou discutir com você. Vai dormir porque você está com sono.
— Tecnicamente, você não nos apresentou. — Queen comentou. — Foi no meio daquele drama todo do Nick em coma que a gente se conheceu.
— Mas eu tive a ideia de ligar para você. — Jenny rebateu. — Não interessa. Eu vou salvar Zack.
— Não, não vai. — eu disse.
Jenny olhou para mim, incrédula.
— Como você, que sabe o que é ter o peso da morte de um irmão nos ombros, está me pedindo para não ir? Enquanto ficamos aqui nesse blábláblá, Zack pode estar sendo torturado. Pode estar terrivelmente ferido, até mesmo doente. Eu não vou ficar aqui com a bunda sentada enquanto Zack está sofrendo por um plano furado.
Segurei seu braço.
— Jenny, por favor, pensa. Eu também me sinto no dever de salva-lo. É claro que sim. Olhe bem. Eles suspeitarão se você se passar por uma nova aliada. Ficaria tão na cara! Mas, se você simplesmente invadir o acampamento sozinha, também daria errado. Eles te pegariam e você teria o mesmo fim de Zack.
— Então vem comigo.
— O que?
— Vem comigo. Já que eu não posso sozinha... Talvez a gente consiga. Nós três.
— Não vamos sair do acampamento. — Queen se posicionou. — Querendo ou não, temos coisas para resolver aqui. Nossas decisões pesam. Quer livrar seu irmão? Ganhe a guerra. Simples. Só temos essa alternativa.
— Até lá ele pode estar morto.
— Preciso de você aqui, Jenny. — eu disse. — Por favor. Perder você por causa desse loucura toda seria como perder um irmão também.
Jenny pareceu se desestabilizar um pouco.
— Você estava ao meu lado em todas as vezes que Sócrates me viu. — continuei. — Ele vai te matar. Ele faria isso pra me atingir. Ele é louco.
— Mas, Zack...
— Eu juro pelo Rio Estige que vou arranjar um jeito de tirar seu irmão de lá. Vamos fazer isso juntas. Mas não agora.
Queen e Jenny se encolheram e olharam para cima.
— Você tem noção do que fez agora? — Queen perguntou.
Olhei nos olhos de Jenny.
— Tenho. Fique aqui com a gente. Eles não devem matar Zack se ele tem a informação que eles desejam. Vamos confiar na sua força agora. Ele só precisa resistir. E, então, vamos ao seu socorro. Eu prometo.
Jenny olhou para a colina logo atrás de você e suspirou.
— Ok.
Aliviada, puxei Jenny para um abraço.
Se não estivéssemos no lugar certo e não hora certa, Jenny teria partido. Bendito seja Moros.
— Mas vocês ainda não disseram o que estavam fazendo. — Jenny disse, ainda me abraçando.
Sorri e comecei a andar em direção à área dos chalés.
— É sério! — disse Jenny atrás de mim. — O que era? Sam!
Queen soltou um risinho ao meu lado. Aquilo iria permanecer em segredo por um tempo — até Jenny parar de se sentir agoniada com o assunto. Até lá, iríamos nos divertir com sua curiosidade.
Decidimos terminar nossa noite de rebeldia e fomos para o chalé de Queen. As horas se passavam e o sono aumentava, causando um efeito que talvez pudesse ser comparado a uma embriaguez leve. Nós não falávamos nada com nada e ríamos por tudo. Mas não importava. Estávamos juntas. As três.
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