Samantha Roberts - Guerra Fria
10 Se está fácil, está errado
Eu não aguentava mais tanta papelada. Os números e as letras se embaralhavam em frente aos meus olhos. E minha caligrafia não era lá essas coisas quando eu escrevia muito rápido, tenho que admitir.
Victor, que estava deitado no colo de Jenny em um dos beliches de meu chalé, ditava os resultados da pesquisa realizada no chalé 20. Eu, sentada no chão com as costas apoiadas no pé deste mesmo beliche que eles estavam, anotava tudo o que ele dizia e depois fazia uma soma total.
Havíamos gastado todo o resto de nossa tarde com essa pesquisa. Visitamos chalé por chalé e levantamos o número de quantas pessoas vestiam cada numeração de roupa. Depois de horas, estávamos quase finalizando o trabalho.
— Tudo isso de extra G? — Victor perguntou. — Precisamos cortar os carboidratos do cardápio daqui. Urgente.
— Isso é preconceito com os gordinhos. — Jenny disse.
— Gordura é um isolante térmico natural. — comentei. — Eu acho mesmo que devíamos engordar todo mundo aqui.
— Tipo que nem João e Maria? — Jenny perguntou.
— Mas sem a parte de comer alguém. A não ser que fiquemos desesperados. Caso isso aconteça, eu sugiro o Matt.
— Eu to com fome. — anunciou Victor. — Seria uma boa. Que gosto tem carne humana?
— Não sei. — Jenny admitiu. — Não é algo que vem no rodízio de uma churrascaria.
— Aposto que deve ter gosto de carneiro. — eu disse. — Ou coisa assim.
— Já comeu carneiro? — Victor perguntou.
— Quando eu era criança. Cuspi de volta no prato.
Fechei a última conta e joguei a cabeça para trás, apoiando ela no colchão, e agradecendo aos deuses pela minha sessão de matemática do dia ter acabado. Vida longa à humanas.
Senti falta da escola pela primeira vez que eu tinha pisado no acampamento naquela temporada. Quantos dias letivos eu já havia perdido? Será que papai havia conseguido realizar novamente minha transferência para o colégio fantasma que o acampamento mantinha por questões burocráticas? A única certeza que eu tinha é que lá se ia outro semestre pelo ralo.
— Quando as Caçadoras chegam? — Victor indagou.
— Em dois dias. — respondi enquanto alinhava perfeitamente as folhas de papel em minha mão. — Foi o prazo que elas deram.
— Como elas conseguem andar tanto em pouco tempo? — Jenny perguntou.
— Elas nem estão tão longe dessa vez. Estão no centro-sul do Canadá. — eu disse e, então, comemorei secretamente por ter alcançado a perfeição em forma de alinhamento.
— Mesmo assim. — Jenny disse e arrancou as folhas de sulfite da minha mão. Suspirei, triste, e deixei os braços penderem nos ombros. — São rápidas demais.
— Imortais. — Victor falou.
— É, pode ser. — Jenny deu uma olhada no que eu havia escrito. — A loja que tem o preço mais em conta é a Lot Less Closeouts. E tem essa outra aqui também, a Joe Fresh Flagship. Agora temos que ver quem faz o melhor preço para a gente que vai comprar em atacado.
Quíron nos permitiu acessar a loja virtual de cada um dos estabelecimentos, sugeridos em uma breve reunião, pelo computador da Casa Grande por, tipo, quinze minutos.
Levantei-me do chão.
— Ótimo. Ligamos para as lojas amanhã no horário comercial para negociar o preço e depois fazemos a encomenda. Nem precisamos ir até elas.
— Na boa — Victor disse. —, já que o nosso ataque não é mais surpresa, nem vejo por que fazer isso em pleno inverno.
— Já era. — Jenny falou. — Todos já fomos convocados agora. Ir e voltar... Vamos acabar com isso de uma vez. Eu quero paz.
— E quem não quer?
Espreguicei-me ao bocejar, ação que refletia o exaustivo dia que aquele vinha sendo. Bufei e dei tapinhas em minha face, na esperança de ficar um pouquinho mais desperta.
— Resolveram como iremos para o Alasca? — Victor perguntou.
— Avião. — senti vontade de acrescentar que não tínhamos mais nenhum Johnson para nos atrapalhar, mas me contive. — Quíron está tentando alugar um para a gente. Jack tem seus contatos.
Lembrei-me de quando conheci Jack em seu trabalho no aeroporto. Eu havia odiado aquele dia por muito tempo, agora eu não podia deixar de, pelo menos, sorrir quando eu me lembrava dele. Era hilário pensar que Kimberly nem sequer lembrava do incidente com os grifos depois daquele show todo no JFK.
— Velho Jack... — Jenny jogou as palavras no ar. — As Caçadoras estão vindo. Que fim deu ele e Catherine?
— Não sei. — confessei. — E também não algo sobre que eu falaria com ele. E aí, Jack? Tudo bem? A propósito, voltou a falar com sua melhor amiga que quebrou seu coração e que nunca vai poder corresponder o que um dia você sentiu por ela?
— Você precisa ser mais sútil. — Jenny sorriu. — Que nem eu.
Joguei minha cabeça para trás e dei uma gargalhada forçada.
— Quantas vezes eu terei que lembrar você do “Sam, vou ser direta: você é uma semideusa.”?
— Não foi assim!
— Foi quase assim!
— Você nunca vai superar isso?
— Não consigo, foi o grande trauma da minha vida.
— A vida, Sam. Ela sempre anda para frente.
Jenny me olhou feito uma sabichona, o sorriso torto pendendo em seus lábios. Eu sabia que as palavras ela dirigiu a mim não era totalmente sobre o assunto abordado no momento. Ela queria que eu aplicasse em outras situações. Situações específicas.
— Vamos perder o jantar. — eu avisei, por fim.
Victor e Jenny levantaram da cama, ainda meio preguiçosos. Jenny entregou-me os papéis e eu fiquei encarando aqueles número enquanto me dirigia à porta, meus pensamentos totalmente voltados para o dia de amanhã.
____
— Eu não quero ninguém fazendo corpo mole! — Matt berrou ao meu lado, fazendo com que meus ouvidos reclamassem de dor. — Bando de maricas!
— Mas eu sou menina! — alguém reclamou no meio da frota.
— Isso não vem ao caso!
Dez passos a minha frente, metade dos chalés estavam unidos ombro a ombro, em formação militar, todos trajando armadura completa. Os semideuses, já com o rosto vermelho por causa do intensivo treinamento que aquele vinha sendo, seguravam seus escudos acima da cabeça com um braço só. Vários deles estavam resistindo consideravelmente bem, outros estavam pingando de suor e com o braço tremendo.
Do outro lado do campo gramado, a outra metade dos semideuses estava fazendo um circuito montado por Austin e seus irmãos. Estes também usavam toda a parafernália necessárias para o combate. O intuído disso tudo era criar resistência ao peso dos utensílios de segurança e ataque.
O sol estava começando a ficar alto, na altura de meus olhos, o que já estava me irritando. Era um dia sem nuvens e quente. Cada dia que eu passava no acampamento, mais difícil ficava para acreditar que estávamos em pleno janeiro. Meu corpo simplesmente não aceitava isso. Tampouco meu cérebro.
— Descansar! — eu gritei, abaixando também meu escudo. — Peguem suas espadas e voltem para a formação.
Os meio-sangues emitiram um coro de alívio e os que preferiram fazer o exercício com a espada fora da bainha arrastaram seus pés até o monte de espadas jogadas no chão.
— Já pensou em ser personal trainer? — perguntou Matt, com um sorriso divertido. — Se tudo der errado, pode considerar a opção. Quando você grita até eu fico motivado.
— Claro, claro. Aposto que sim. — tirei a espada de minha bainha. — E você? Já considerou ser professor de educação física? Tem o mesmo dom para xingar os alunos. Não que eu já tenha imaginado um futuro mais brilhante para você.
Matt sacou sua espada com um sorriso ainda no rosto. Contive minha risada, porque eu realmente conseguia imaginar Matt sentado numa cadeira enquanto seus alunos se matavam de dar voltas no campo de futebol. Isso tudo com uma viseira e uma pochete.
Quando todos voltaram aos seus respectivos lugares, virei-me de costas para eles, como se eu fosse ensina-los uma nova coreografia. Matt fez a mesma coisa.
— Espero que ainda se lembrem das posições. — eu disse em voz alta. — Número um! — levantei o escudo em um ângulo e direção que serviriam para bloquear uma investida diagonal. Os que estavam atrás de mim me imitaram. — Dois! — projetei o escudo para frente, como se fosse usá-lo para atacar. Rapidamente voltei a minha base inicial. — Vamos lá, gente!
Praguejei. Eu estava mesmo parecendo uma personal trainer.
Coloquei a ideia de lado e me concentrei em recordar a lista de movimentos que enumeramos. Passei os próximos quinze minutos gritando e realizando posições. Matt assoprou o apito — novamente do lado de minha orelha — e encerrou essa parte do treinamento de nosso grupo.
Ao mesmo tempo, Austin apitou no outro lado campo. Os semideuses deixaram os instrumentos do circuito e sentaram-se no chão, para descansar. Acenei para o grandão filho de Hefesto e ele veio até mim.
— Diga, capitã.
— Eu odeio quando você me chama assim. — comentei.
— Desculpa, capitã.
Ele tinha no rosto o sorriso de uma criança de seis anos que pia de verdade quando a mãe diz que não quer ouvir mais nenhum pio.
— Conversou com o pessoal de Hécate? — quis saber. — Sobre feitiços de barreira de som. É possível fazer o que eles fizeram no Anfiteatro em uma área tão grande quanto um acampamento inteiro?
O rosto de Austin ficou sério. Assunto de negócios, cara de negócios.
— Eles fizeram um teste e não conseguiram. Estão tentando resolver problema. Mas não sei, me parece meio difícil.
— Mas não é impossível. Eles conseguiram, a gente também consegue. — disse a frase desprovida de qualquer tom de motivação. Era um fato. — Precisamos também aperfeiçoar aquelas bombas.
— Quais são seus planos com elas? Quer detonar o acampamento?
Algo dentro de mim dizia que seria tudo mais fácil desse jeito. Um ataque de Hiroshima em pequena escala e pronto. Problemas resolvidos.
— Não podemos. Zack está lá. Além disso, temos algumas outras variáveis. Sócrates disse que eles tinham um meio de enfraquecer aos deuses. Temos que descobrir como e tirar esse meio deles.
— Se todos estiverem mortos, não vão ter como fazer nada. Cabum. Você sabe que eu sou meio piromaníaco.
— E quem disse que todos estão lá dentro? Não, eles não fariam isso. Seria fácil demais. Se está fácil, está errado. Lei número um da aula de álgebra.
Balancei um pouco meus braços. Eles doíam devido ao esforço de carregar tanto peso por tanto tempo. Eu estava precisando de uma massagem urgente.
— Me fale quando tiver tempo de desenvolver alguns protótipos comigo. — Austin pediu.
— Claro. Aliás, tem algum problema se eu trouxer Clarck? Ele entende muito disso. Será útil. O que precisamos é de um lugar aberto e sem movimento para testar essas bombas.
— Não vai ser difícil. Meu problema é com a pólvora. Acho que estamos com o estoque baixo. Vou falar com Quíron depois. Gostaria saber onde ele arranja essas coisas.
— Deep web. — respondi, brincalhona. — Soube que ele só tem um rim. Vendeu o outro na deep web também.
Austin deu risada.
— Deve ser por isso que ele não deixa a gente usar o computador da Casa Grande. Vai que ele deixa algo aberto sem querer.
Sorri. Olhei para minha espada e lembrei-me de algo. Apertei o desenho de coruja no punho da espada e ela voltou a seu devido lugar — meu pescoço. Coloquei o cabelo de lado e procurei pelo feixe do colar.
— Quero que fique com ele. — eu disse enquanto abria o colar. — Vou testar suas habilidades de forjador. Consegue fazer uma cópia fidelíssima de meu colar?
— Nunca fui o melhor ouvires do mundo. Na real, eu nunca tentei. Eu não tenho dedos, tenho salsichões. — ele balançou os dedos em frente a minha cara. — Trabalhos muito delicados nunca foram comigo.
— Então considere isso um desafio. Por favor, faça o mais rápido que conseguir. Odeio não estar usando meu bebê.
Austin levou o colar em frente aos olhos, estudando cada detalhe.
— Não apresse a arte, filhote de Atena. Não é tão fácil assim fazer uma cópia. E você sabe: se tá fácil, tá errado.
Bufei.
— Certo. Desde que você faça uma obra-prima, eu espero.
— Vamos ver no que isso vai dar.
Meus olhos acompanharam meu grupo de treinamento que estava se dirigindo para a outra parte do campo gramado.
— Acho que é minha vez de ir por circuito. — fui andando de costas. — Espero que nenhuma de suas gerigonças quebre comigo.
— Sei não! Elas não aguentam pessoas muito gordas!
— Vai se ferrar! — gritei, brava.
Austin me respondeu com uma gargalhada. Ele colocou meu colar no bolso da bermuda e se juntou a seu grupo.
Tentei imaginar como ficaria meu novo colar. Uma onda de ansiedade acometeu minha barriga. Era minha melhor aposta. Tinha que dar certo. Estava tudo arquitetado em minha cabeça. Grandes planos aguardavam aquela pequena bijuteria.
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