Samantha Roberts - Guerra Fria
11 Selecionados
Para variar, meu dia havia começado com uma reunião matinal. Pelo menos não era outro conselho de guerra ou qualquer coisa oficial. Era algo mais casual, somente Queen, Alex e Matt e eu sentados nos sofás da sala de estar da Casa Grande. E Quíron em sua forma de cavalo ao nosso lado.
Matt estava claramente exausto — não pela reunião em si, mas por uma aparente noite mal dormida. Olheiras horríveis circundavam a parte inferior de seus olhos. O cabelo estava despenteado, como se ele tivesse se arrancado da cama direto para cá.
Estávamos tentando resolver um meio de chegarmos até os Montes Kenai. Transportes, instalações, grupos, datas, locais.
— Jack falou para mim que tem um homem que faria essa viagem para a gente. — Quíron contou. — Ele o conheceu no aeroporto, onde trabalhava. O senhor tem um pequeno avião de carga e tem muita estima pelo Jack.
— O primeiro grupo poderia ir neste avião com as provisões para o acampamento. — Queen concluiu a ideia.
Quíron assentiu.
— Precisamos pousar em Anchorage. — disse Alex. — Tenho um conhecido lá que me deve um favorzão.
— E aonde isso nos levaria? — perguntou Matt.
Alex sorriu.
— Ele é motorista de ônibus escolar. Digamos que eu salvei a vida dele dois anos atrás. Longa história. A questão é que acho que ele emprestaria o ônibus dele sem questionar muito.
— Isso é perfeito. — eu disse. —Pelo que andei pesquisando, não há muitos aeroportos perto da cordilheira. Tem um a sessenta e cinco quilômetros de lá. Longe demais para levarmos tudo a pé. Não teríamos condições.
— Resolveu quem irá com você nessa primeira viagem, Matt? — Quíron perguntou.
O filho de Ares esfregou o rosto e passou a mão pelos cabelos. Ele expirou pela boca e parou um pouco para pensar.
— Quero que a Sam vá comigo. — foi a primeira coisa que ele disse. — Ela andou estudando bastante a geografia do local, pelo jeito.
— Pode ser perigoso. — adverti. — Eu posso ser reconhecida.
— Seremos cuidadosos. — ele deu mais uma pausa. — A Alex, obviamente. Precisamos do cara do ônibus. Quero um filho de Apolo bom na área de medicina, caso aconteça alguma coisa.
— Ned é nosso melhor curandeiro. — Quíron sugeriu.
Prendi minha respiração por um segundo. Parte de mim não gostava da ideia de levar Ned conosco para a viagem. Eu nem mesmo sabia por quê. A outra parte admitia que Ned era competente na área. Lembrei-me que foi ele que cuidou do quadro de Nick quando ele ficou em coma. O desgraçado estava vivo, afinal.
— Quero Queen também. Ela sabe ser discreta. Precisamos espionar também, para ter alguma vantagem. Além disso, ela sabe fazer um pouco de tudo.
Queen meneou a cabeça, agradecendo.
— E precisamos de uma caçadora, é claro. Elas são peritas em acampamentos. Acho que só. Um grupo maior pode ser perigoso. Vamos para o Alasca. Lá os monstros correm soltos.
Meu coração se apertou quando percebi que Jenny não fora selecionada. Não poderia ser assim. Ela foi a primeira a demonstrar serviço. Ela queria mais que ninguém estar nesse grupo. Ela não me perdoaria se eu fosse e a deixasse aqui.
— Precisamos da Jenny. — eu disse rapidamente, antes de o assunto se encerrar. — Quer dizer, ela é rápida e super ágil. É a melhor alpinista desse acampamento e disso todos sabemos. Vai ser um belo suporte para Queen na espionagem. Ela será de grande ajuda também na floresta. Sempre amou atividades de pioneirismo.
— Não era você quem era terminantemente contra Jenny estar nesse grupo? — Matt indagou.
Fiquei sem saber o que responder — coisa extremamente rara. Por sorte, Queen veio a meu socorro e respondeu por mim:
— Não queríamos que ela fosse sozinha. Vocês sabem por quê. Debaixo de nosso nariz, ela não fará nada. Eu garanto.
Queen olhou para mim. Era claro que não garantíamos nada. Quando Jenny queria algo, era impossível segura-la. Mas pelo menos estaríamos por perto. Tentei me mostrar confiante para Quíron e para Matt.
— Está bem. — ele disse. — Por sua conta e risco. Mas sete semideuses zanzando juntos por aí fora... A melhor a gente se conformar que não vai ser fácil.
Alex deu ombros.
— Nunca gostei de coisas fáceis mesmo. Quando partimos?
Quíron coçou sua espessa barba. Seu olhar distante indicava que ele estava avaliando algo.
— As Caçadoras chegam em pouco tempo. Creio que dois dias serão suficientes para elas descansarem e para contatarmos o nosso piloto e o amigo de Alex de Anchorage. Quero que vocês listem o que levarão. Preciso dessa lista o quanto antes. Alex, pode encarregar alguns de seus irmãos para prepararem essas provisões? Quero isso pronto amanhã a noite.
— Claro.
— Acho que posso dispensar vocês então, pessoal. Ao trabalho.
Despedimo-nos de Quíron e saímos da Casa Grande.
Era uma manhã alegre no Acampamento Meio-Sangue. O sol brilhava forte e iluminava todos os cantos. Era cedo demais para que isso fosse suficiente para esquentar maravilhas, mas só pelo céu azul o dia começara bem.
Faltavam alguns minutos para que a sinal do dejejum tocasse. Alguns campistas já estavam fora de seu chalé, alguns se alongando e outros conversando. A várias metros de distância, vi Clarck brincar de pega-pega com Mia. Sorri por causa da cena. Clarck finalmente estava tendo a irmã bem mais nova que ele sempre quisera ter.
— Depois do café da manhã vou falar pro chalé de Hermes verificar quantas barracas e quantos utensílios temos. — Matt anunciou. — Você pode avisar Jenny e seu namoradinho que eles estão nessa também.
— Ned é meu amigo. — corrigi. — Só meu amigo.
— Claro. Amizade. Só que com vantagens. Já vi esse filme antes. — ele tentou pentear o cabelo com os dedos. — Tem o final de tarde livre? Podemos ir até a cozinha e fazer uma listagem dos não perecíveis que vamos levar.
— Para ser sincera, eu ia ao boliche no final da tarde.
Matt sorriu.
— Uma pena saber que vou estragar seus planos. Cinco horas na cozinha. Esteja lá.
Ao terminar a última frase, Matt se dirigiu a área comum dos chalés. Era completamente irritante o tom imperativo que ele usava comigo. No entanto, vê-lo tão ativamente nas decisões e nas preparações fazia com que a pressão que eu sentia se aliviasse um pouco.
— Me impressiona ver que esse cara mudou da água para o vinho com você. — Queen disse ao meu lado.
Girei meu tronco cento e oitenta graus para me espreguiçar um pouco. Depois de estralar os dedos das mãos respondi:
— O grande fato é que as pessoas não conseguem me odiar por muito tempo. Olhe para mim, sou um amorzinho de pessoa!
Queen me mandou um olhar entediado.
— Ah, tá. Claro.
— Estou falando sério! Diga por si mesma. Me odiava. Fomos pra missão e pimba! Amiguinhas. Tem algo comigo, eu não sei, as pessoas simplesmente me amam.
— Tenho certeza que sim. Mas a pergunta é: quem disse que sou sua amiguinha?
— Tem razão. Você está mais para minha escrava.
Queen revirou os olhos.
— Desisto de você. Desisto da vida. Estarei perto do pavilhão do refeitório se precisar.
E foi embora.
Minha mente voou até a Itália enquanto eu me dirigia ao chalé sete. Eu recordava do episódio de Milão, quando Queen salvara minha vida. Quis poder visitar todos os lugares de minha última missão com calma e em circunstâncias normais. Ter feito um tour na Europa e ter aproveitado nada era algo lamentável.
Avistei Jenny ao pé da varanda de seu chalé. Ela esperou eu chegar mais perto para me cumprimentar.
— Bom dia, raio de sol. — ela disse sorrindo e mostrando seus dentes de propaganda da Colgate.
— Buenos dias, hermana. — eu disse e dei um abraço nela.
— Decidiram algo na reunião?
— Estou partindo mais cedo para o Alasca. Vou em três dias. Estamos só esperando as Caçadoras chegarem para fecharmos de vez o grupo.
Qualquer sinal do bom humor matinal de Jenny desapareceu em um segundo. Ela me encarou, o rosto desprovido de qualquer expressão.
— Agora é a parte que eu conto que você vai comigo e você para com essa cara de bunda.
Ela abriu a boca, surpresa. Depois um sorriso apareceu novamente.
— Sério?
— Sério. Eu, você, Queen, Matt, Alex, Ned e mais uma caçadora. Mas logo aviso que você não vai fazer nada imprudente. Ouviu? Na verdade, não era nem para você vir. Mas como somos um pacotinho fechado, dei um jeito. Preciso de você lá comigo. Sem travessuras.
— Tá bem. — ela levantou os braços em sinal de paz. — Não vou mais bancar a rebelde. Mas é bom que se lembre de seu juramento, porque eu, sinceramente, tenho medo do que pode acontecer com você.
— Já disse para não se preocupar com isso. — eu assegurei, mas era óbvio que eu também estava preocupada.
— Ah, deuses... O Victor! Vou ter que falar com ele depois. Victor não gosta muito quando eu saio em missão, principalmente sem ele. Que droga.
— Nos encontraremos com os outros em uma semana. Só o que precisamos fazer é montar o acampamento na nossa e estudar o máximo possível a movimentação do acampamento deles.
— Diga você isso para ele. Que seja. Ele só late. Não vai dar em nada.
Ned saiu de seu chalé. Ele bagunçou um pouco seus cabelos molhados e tirou o excesso da água de suas mãos esfregando-as na lateral de sua blusa dos Stars Wars que usava. Sorriu ao me ver e veio me dar um longo beijo na bochecha. A colônia que ele estava usando era doce e suave.
— Bom dia. — ele desejou.
Jenny lançou um idiota olhar malicioso. Senti vontade de cavar um buraco no chão e enfiar minha cabeça ali. Desejei não ruborizar, mas sabia que já era tarde demais.
— Sam tem boas novas para você, maninho.
— Ah, é?
— Matt selecionou você para participar do grupo que vai montar o acampamento. Vamos viajar depois de amanhã. Jenny também está nesse grupo.
— É claro que eu vou! Espero fazer tudo direitinho. Quem mais vai conosco?
— Alex, Queen, o próprio Matt e uma caçadora. — respondi. — É um grupo grande, mas acho que um grupo menor que isso não ia dar conta de montar um acampamento inteiro.
Uma movimentação iniciou-se atrás da gente. Virei-me para entender o que estava acontecendo. Três sátiros começaram a balir e a correr. Um estava dando saltos de alegria.
— Ela chegou! Ela chegou!
Jenny olhou para mim, confusa.
— Será?
— Vamos ver.
Disparei atrás dos sátiros, os filhos de Apolo atrás de mim. Paramos no pé da Colina Meio-Sangue, onde havia uma pequena aglomeração. Abri espaço entre as pessoas para confirmar minhas suspeitas.
As Caçadoras já se encontravam no meio da colina, lideradas por Lady Ártemis. Fiquei contente ao ver a deusa que já me ajudara outras vezes. Era bom ver que a cada encontro ela tinha mais seguidoras. Apenas mais uma demonstração de sua capacidade.
Quíron esperou que todas descessem antes de dizer:
— Lady Ártemis, é uma honra tê-las aqui novamente. Gostaria de demonstrar meu voto de gratidão e fazê-las bem-vindas.
A pequena deusa fez um cumprimento com a cabeça.
— Minhas caçadoras estão sempre a disposição para ajudar-lhes nesta causa, Quíron.
— Suas acomodações no chalé oito estão devidamente arrumadas. Queira que eu as acompanhe até lá.
Ártemis seguiu nosso diretor; as Caçadoras foram atrás, evitando ao máximo o contato visual com qualquer um de nós. Os sátiros pareciam estar a beira do colapso quando a deusa passou pela lado deles. Nunca entenderei essa devoção toda.
A sinal tocou, anunciando a hora do dejejum. Ned, Jenny e eu nos entreolhamos. Toda aquela coisa só para isso? Dei ombros e pus meus braços em volta do pescoço de ambos. Juntos, fomos para o refeitório.
____
A tarde se fora e a noite estava começando a ameaçar cair. E, como eu não iria mais para o boliche, tive que comparecer à cozinha para ajudar Matt. Levantamos a quantidade de comida que iríamos precisar e listamos o que levaríamos na viagem conosco.
Depois dos primeiro trinta minutos o processo começou a se tornar insuportável. Tudo tinha que ser perfeitamente fracionado. Eu estava começando a ficar cansada de tanto treino e de tanta preparação. Por mim, entraria num avião para o Alasca naquela noite mesmo.
Quando terminamos a lista, fomos até o chalé onze entrega-la na mão de Alex. A partir dali, era com ela e seus irmãos.
— Precisamos ainda de uma caçadora. — Matt lembrou ao irmos embora. — Você cuida disso? Tenho medo do jeito que elas me olham quando eu chego perto.
— Você? Com medo? Ora essa.
— Só não espalhe por aí. Tenho uma reputação a zelar.
— Uma péssima reputação, diga-se de passagem. Mas eu cuido disso. Aliás, já tenho alguém em mente.
— Ótimo. Vou tomar uma ducha. Até a fogueira.
— Até.
Enfiei minhas mãos nos bolsos da calça e fui dando passos calmos até o chalé oito. Parada em frente à varanda, estiquei meu pescoço para ver se eu encontrava alguém dentro do chalé.
— Não vai encontrar ninguém lá dentro. — alguém disse ao meu lado.
Virei-me e me deparei com um par de doces olhos castanhos que eu conheci no começo de minha vida semideusa.
— Thais. — eu disse, feliz. — Eu adoro o seu timing, sabia? É impressionante. Eu queria mesmo falar com você.
— Sério? — ela perguntou, dando uma pequena risada. — Eu só estava indo pegar uma coisa para a tenente. Mas diga.
— Pois bem. Depois de amanhã eu sairei na frente com um pequeno grupo para prepararmos as coisas no Alasca. Achamos que seria melhor se tivéssemos a companhia de uma caçadora. Ninguém melhor com acampamento que vocês.
— E você quer que eu vá com vocês.
— Exatamente. De todas as caçadoras, me sinto mais a vontade trabalhando com você. Acha que Lady Ártemis teria algum problema com isso?
— Eu posso falar com ela, mas creio que não terá problema algum. Pode contar comigo.
— É ótimo saber disso.
Thais andou até o chalé e sentou-se no primeiro degrau da pequena escada da varanda.
— E como tem andado?
Sentei-me ao seu lado.
— Foram meses difíceis. Mas acho que agora já estou bem melhor. Mesmo estando numa posição de desvantagem, finalmente estou conseguindo ver os esforços se tornando em resultados. Estou ao mesmo tempo mais relaxada e mais ansiosa. Vá entender.
— Sua mente deve estar tão lotada de coisas agora que nem deve estar dando tempo de prestar atenção em outras coisas. Deve ser isso.
— É por aí. Mas isso é bom. Eu reclamo por tudo, mas no fundo gosto dessa euforia toda. Mas olhe para você! Cada vez que eu te vejo você parece mais radiante! Como foi seu último semestre?
— Perfeito. Cada vez mais sinto que estou ganhando a confiança de minha senhora. Fomos para lugares maravilhosos nesse meio tempo. Tenho aprendido muito, crescido muito. Foi muito difícil ir embora, mas ingressar na Caçada foi a melhor coisa que fiz na minha vida.
— Não tenho dúvidas disso.
— Sinceramente, não sei por que você recusou o convite. Poderia ter entrado comigo.
Engoli seco.
— Na noite em que recebi o convite... Eu não estava com a cabeça muito no lugar.
— Ah, o baile.
Fizemos silêncio por um tempo. Não era preciso dizer mais nada sobre o assunto.
— Mas, sabe, as coisas sempre acontecem por um motivo. — Thais tentou remendar. — Sempre dá para tirar algo disso. Não é totalmente uma perda de tempo.
— Estou tentando tirar algo de bom disso tudo há algum tempinho já.
Senti uma pontada de tristeza pedir permissão para entrar, mas logo dei um chega para lá nela. Não havia espaço para ela naquele momento. Eu precisava me animar para a viagem.
Levantei-me e dei a mão para ajudar Thais a levantar também.
— Vamos lá. Não quero perder o jantar.
— Estou faminta. — a filha da Afrodite admitiu.
Acompanhei-a até sua mesa no refeitório.
Mal consegui encostar na comida naquela noite. Eu estava uma verdadeira pilha de nervos. Queria que o tempo voasse, queria que o depois de amanhã chegasse mais cedo. A partir do momento que eu entrasse naquele avião, eu deixaria de fazer tudo pelo futuro. O que realmente começaria a contar era o agora.
Depois que eu partisse, era de verdade. Era para valer.
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