Samantha Roberts - Guerra Fria

12 O que acontece no Alasca, fica no Alasca


A última caixa foi posta na van por volta de dez para as sete da manhã.

Voluntários de vários chalés nos ajudaram a empacotar todas as ferramentas e utensílios necessários para carregar as vans. A cada caixa que entrava nos veículos, mais eu ficava apreensiva. Era coisa demais!

Por fim, o carregamento terminou com as roupas térmicas, que haviam chegado na noite anterior, e a porta da terceira van foi fechada num baque, mostrando o logotipo de nossa produtora de morangos. Argos olhou para dentro das janelas a fim de ver se tudo estava certinho e depois subiu no assento do motorista.

Estava nevando um pouco naquela manhã. O sol estava começando a nascer em algum ponto no horizonte. O céu ainda era daquela cor estranha de azul escuro acinzentado. Checamos a meteorologia assim que acordamos para verificar se haveria condições de voo. Aparentemente, nenhuma nevasca estava a caminho. Só tínhamos que nos conformar com um frio de nove graus negativos.

Mia estava agarrada em minha cintura, tremendo de frio. Passei meu braço ao redor de seu ombro e a trouxe para mais perto de mim. Beijei o topo de sua cabeça.

Todos meus companheiros de viagem estavam prontos. Só faltava jogar nossos pertences pessoais na mala e ir embora.

Austin apareceu ao meu lado.

— E aí, capitã?

Ignorei a brincadeira.

— Fale, pequeno Austin.

— Vim desejar boa sorte. E — ele tirou do bolso da calça dois colares iguais ao meu. Fiquei verdadeiramente impressionada. Eu mesma não conseguia distinguir alguma diferença entre os dois. — lhe devolver seu bebê. — ele pigarreou. — Bebês.

— Uau, Austin. Seus salsichões são mágicos! — peguei os colares, um em cada mão. — Qual deles é o verdadeiro?

Austin se agachou um pouco e examinou os dois colares atentamente. Não sei por qual diferença ele procurava, mas ele conseguiu encontra-la. Indicou com o dedo para o colar em minha mão esquerda.

Coloquei o outro colar em meu bolso do casaco e fiz menção a colocar o verdadeiro em meu pescoço, mas Austin levantou a mão, meio hesitante.

— Posso, capitã?

Revirei os olhos, porém eu estava sorrindo. Entreguei o colar para ele, que, meio desengonçado, fez o serviço.

— Não exploda o acampamento enquanto eu estiver fora, Nero. — eu disse quando ele voltou para minha frente.

Austin sorriu.

— É só a van sumir de vista. Cabum.

Mia puxou a barra de meu casaco. Olhei para baixo e ela pediu para que eu chegasse mais perto.

— Posso ir com você? — ela sussurrou ao lado de meu ouvido.

Olhei para ela e depois para Austin.

— Eu adoraria que você fosse comigo, Mia. Mas sabe de uma coisa? Eu preciso de você no acampamento. O grandão aqui — olhei para Austin. — anda aprontando muito com aquelas bombas que você brincou no outro dia. Você acha que pode tomar conta dele para mim? Não acho que mais alguém iria conseguir.

Mia assentiu, triste, mas então começou a se animar. Pareceu ter gostado de receber uma tarefa. Ela me deu um beijo na bochecha, pegou Austin pela mão e começou a puxa-lo.

— Vem, Austin! Agora eu mando em você!

Ele olhou para trás, pedindo socorro. Eu apenas acenei, sorrindo e dizendo “Boa sorte” com os lábios.

— Coitado do muleque. — Clarck apareceu e disse.

Ele estava usando seus óculos naquele manhã porque disse estar com preguiça de por as lentes de contato. As lentes quadradas o deixavam com a maior cara de nerd gato. Uma dia eu disse isso para ele e na mesma hora ele jogou os óculos em mim.

— Não quero ela na viagem. — eu disse, sem tirar os olhos de Mia, que estava recebendo um ataque de cócegas de Austin. — Deixe ela aqui com o Sr. D.

— Mas é claro que não vou deixa-la ir para lá. Não sou louco. Ainda.

— E não falta muito para ser.

Ele assentiu e me puxou para um abraço apertado.

— Se cuida, maninha. — ele disse.

— Eu vou. E o senhor cuide das coisas aqui por mim. Eu tento ligar para você assim que chegarmos lá.

— Faça isso.

Observei Jenny, que abraçava Victor pelo pescoço a poucos metros de distância da gente. Os dois mantinham as testas coladas. Victor disse algo a ela e depois a abraçou. O momento estava tão fofo que cogitei ir lá estragar. Porém optei por deixar os dois pombinhos em paz.

— Acho que vou entrando. — eu disse. — Está frio aqui fora. Até semana que vem.

— Até lá.

Ele me deu um beijo na bochecha e se juntou ao grupo de voluntários que estava jogando conversa fora.

Entrei na van e encontrei Queen, Ned e Matt lá dentro. Matt estava sentado no lugar do carona. Queen apossou-se do um assento da primeira fileira de bancos e Ned, da segunda. A terceira e a quarta estavam tomadas por caixas e mochilas. Ned olhou para mim, convidando-me a sentar ao seu lado. Sorri sem graça, pedindo desculpas, e me sentei ao lado de Queen.

Cinco minutos depois, Alex e Thais e Jenny entraram no carro também. Jenny sentou-se ao meu lado e fechou a primeira fileira. As outras duas sentaram-se atrás da gente.

Argos deu a partida e meu coração disparou junto com o motor. Finalmente, saímos fomos embora do acampamento.

Meus pensamentos vieram involuntariamente até papai quando me toquei que estávamos voltando para Nova York. Apalpei meu bolsos, procurando por meu celular. Lembrei então onde eu o tinha deixado: na mala e desligado. Era mais seguro assim.

Cutuquei Jenny com o cotovelo.

— Teu celular está fácil? — perguntei.

— Por quê?

— Quero ligar para meu pai.

— Não é uma boa ideia. — Queen cantarolou.

— Vou ser rápida.

Não muito convencida, Jenny pegou seu celular e me entregou. Eu era tão mal acostumada a fazer ligações que demorei até lembrar o número do celular de meu pai.

Ele atendeu no terceiro toque.

— Alô? — sua voz mansa disse no outro lado da linha.

— Papai? Sou eu, Sam.

Consegui imagina-lo sorrindo.

— Filha! Meu Deus do céu, como você está?

— Estou bem, papai. Estamos todos muito bem por aqui. Estou ligando para te avisar que vamos viajar. Estaremos pegando um voo para o Alasca dentro de duas horas.

— Avião? — ele perguntou, preocupado.

Eu entendia sua preocupação. Verão passado meu voo para Atenas caiu no meio do oceano. Não houveram sobreviventes, exceto por meus amigos e eu. Nick salvou nossa vida no último segundo. O acidente caiu na mídia e por dias papai achou que eu também estivesse morta. Secretamente, a ideia de subir num avião de novo me apavorava. Coloquei em minha cabeça que o objetivo da viagem valia a pena. Eu tinha que fazer isso.

— Sim, avião. Não se preocupe com isso. Nada vai acontecer desta vez. Não estão sabendo dessa nossa viagem.

— Falar estas coisas é muito mais fácil. Jenny está com você?

— Está ao meu lado agorinha mesmo. Aliás, o senhor pode passar o recado para Alison? — olhei para Jenny. — Acho que a Jenny gostaria que o senhor contasse que estamos indo embora do acampamento.

Jenny assentiu energeticamente.

— Eu vou, sim. — papai suspirou. — Por tudo que é mais sagrado, tome cuidado. Por favor.

— Eu vou, papai. Eu tenho que desligar.

— Entendo. Eu te amo, filha. Eu te amo muito.

— Eu também te amo. Fica bem.

— Você também. Tchau, meu amor.

— Tchau.

Desliguei a ligação e fiquei encarando o led do celular. Meu peito ficou esquisito, de modo que eu não sabia se o que eu estava sentindo era bom ou mau. Eu só queria parar em casa e dar um abraço em meu pai. Ouvir a voz dele foi uma coisa reconfortante e familiar, mas me fez sentir mais saudades.

Entreguei o celular a Jenny, ainda meio vacilada. Esfreguei minhas mãos —mais por nervosismo do que por frio —, embora minhas mãos sempre apresentarem uma facilidade de perder calor para o ambiente.

Olhei para a janela, onde Queen desenhava com o dedo no vidro embaçado e suado um T-Rex. Observei a grama molhada à beira da estrada por entre os traços do desenho. Encostei a cabeça no apoio e fechei os olhos. Ainda iria demorar até chegarmos até a asfaltada e cinzenta Nova York.

_____

Entramos pelo estacionamento de funcionários do Aeroporto de La Guardia. Jack, que estava na primeira van, desceu do veículo e foi falar com um dos caras que se prostravam em pé na frente da guarita. Os três entraram na guarita e saíram de lá dois minutos depois. O portão foi aberto, Jack e um dos caras entraram na van.

Era uma sensação diferente ver os bastidores de um aeroporto — os carrinhos de bagagem, as escadas de rodas, os armazéns, os funcionários andando em um ritmo frenético com seus walkie-talkies.

Paramos em frente ao armazém de número três. Argos abriu a porta para a gente e imediatamente me senti atacada por uma forte explosão de ar frio. Fiquei parada, xingando, absorvendo o choque. Jenny saiu e, a contagem de três, fui atrás dela.

Estava ventando bastante. Meu corpo parecia ser vazado, eu sentia como se o vento estivesse passando por dentro dele e cortando tudo no meio do caminho. Lutei contra a vontade de pular feito louca para me aquecer.

Pude dar uma melhor olhada no cara com quem Jack havia conversado na entrada. Era um senhor de meia idade meio corpulento. Era calvo no meio da cabeça e tinha um grosso bigode italiano, os pelos grisalhos. Usava um casaco surrado de aviador por cima de um grosso moletom. Segurava em uma das mãos enluvadas um gorro.

— Sam. — Jack me chamou. — Venha aqui, por favor.

Enfiei minhas mãos debaixo das axilas e fui até seu encontro.

— Ei. — cumprimentei os dois com um movimento de cabeça.

Jack pousou uma mão no ombro do homem.

— Sam, esse é meu amigão, Conrad. Ele vai ser o piloto de vocês hoje. — Jack deu alguns tapinhas na clavícula do amigo e depois recolheu a mão. — Competente, esse cara aqui.

— Paguei cinco dólares para esse panaca dizer isso. — Conrad disse, brincando. — Impressionante as coisas que ele faz por dinheiro.

Dei risada.

— Não vamos entrar em detalhes. — eu disse, entrando no jogo. — Temos menores aqui.

Jack fuzilou Conrad com os olhos e o segundo fazia o máximo de esforço possível para não rir na cara dele. Consegui congelar essa imagem e voltar vinte anos no tempo; imaginei os dois na mesma situação em uma noitada durante a faculdade. Aos meus olhos, eles eram amigos de longa bagagem, não apenas de trabalho. Essa ideia alegrou-me por alguma razão inexplicável.

— Vamos resolver algumas questões do pouso. Vou pedir pra deixarem essa tralha toda lá uma noite. Assim vocês descansam antes de seguir viagem. Onde está Alex? Quero o número daquele cara de Anchorage.

— Presente. — Alex, que passava por trás da gente, gritou.

— Vem comigo.

Os dois entraram no armazém. Conrad me encarou por um tempo.

— Quer ver meu filhote?

Dei ombros. Conrad dirigiu-se para o armazém e eu fui atrás dele, os funcionários do aeroporto que descarregavam as vans indo na mesma direção.

Nunca fui muito fã de aeronáutica e coisas do tipo, mas devo admitir que o bicho até que era simpático. Era um avião de médio porte, turbinado. O bico era redondo e a estava tão limpo que refletia a luz provinda das lâmpadas logo acima. Duas listras vermelhas rasgavam as laterais — uma delas estava aberta para que nossa carga entrasse.

Coisinha bonitinha. Podemos só tirar uma foto com ela e voltar para o acampamento?

— É o amor da minha vida. — Conrad disse quase suspirando. — Por favor, não conte isso para minha mulher. Meu sofá é duro.

— Pode deixar.

— Estou trazendo meu sobrinho para ser meu copiloto, se não se importa. É uma viagem longa.

— Claro que não. O senhor é o chefe.

Após o carregamento ser encerrado, despedimo-nos rapidamente de Argos e Jack e entramos no avião. O interior era um paredão metálico. A carga ocupava a parte central e traseira da aeronave. As caixas e os sacos foram amarrados. Fora nosso material, algumas redes e caixas de papelão jaziam empoeirados no chão.

Mais a frente, havia uma parede com uma portinhola, que dava acesso à cabine do piloto. Antes disso, uma fileira de cinco assentos encostava-se à parede em cada lado do grande corredor.

Andei devagar até um desses assentos e, hesitante, sentei. Ned e Jenny sentaram-se ao meu lado, os demais sentaram nos bancos da frente. Conrad caminhou até o nosso meio e começou a dar as instruções:

— Assim que eu fechar a porta, afivelem os cintos de segurança. É uma viagem longa e cansativa. Vamos passar por quatro zonas horárias. Ficaremos no avião por doze horas. — meu coração começou a acelerar com essa informação. — Qualquer coisa, batam na porta aqui atrás. E o pacote de vocês não vem com tevezinha e amendoim para o lanche. Sinto muito. Talvez a gente tenha uma pequena turbulência na decolagem por causa do tempo. Só estou esperando nossa autorização. Então é isso. Boa viagem, galerinha.

Ele saiu, fechou a porta e as luzes se acenderam.

Não esperei mais de meio segundo para por meu cinto. Apertei o máximo que eu consegui e ainda por cima dei um nó. Eu ficaria quietinha e presa a minha cadeira. Nada de mal me aconteceria.

— Meus deuses, Sam! — exclamou Jenny. — Tira esse nó.

Balancei a cabeça.

— Sra. Prudência, se alguma coisa acontecesse, um nó só iria retardar sua fuga.

Desfiz o nó na hora.

— Vai ficar tudo bem. — Jenny apertou minha mão. Mesmo tentando me tranquilizar, senti um pouco de tensão em sua voz.

O avião deu um tranco e começou a andar. Meu coração começou a martelar meu peito. Balancei meus pés, inquieta, com dificuldade de respirar. Agarrei os braços do assento até o nó de meus dedos ficarem brancos.

Matt deu uma risada seca.

— Sam, a boazona, tem medo de avião?

Olhei para ele, furiosa. Tentei ignorar. Não valia a pena. Fechei os olhos e comecei a regular minha respiração pela boca.

— Larga de ser idiota. — Queen disse, ríspida. — Todo mundo sabe que nosso avião caiu. O pior ainda foi para Sam, que ficou longe da gente, caiu no meio dos escombros na água e ainda por cima foi afogada por uma vítima desesperada.

Fechei os olhos com mais força ainda para tirar a imagem daquela mulher de minha mente. A pele desfigurada, queimada, derretida. Um rasgo enorme na cabeça já praticamente careca. Os olhos arregalados como os de um animal desesperado.

Você é dona da sua própria mente, eu disse. Esqueça isso.

— E, mesmo assim, nada foi desculpa pra ela. — Queen completou. — A garota mal acordou e já teve que situar a gente e nos levar para a Grécia. Se fosse você, estaria chorando até hoje. Então cala a boca.

Mandei um olhar agradecido à Queen. Ela me retribuiu tentando passar segurança. Ned passou a mão pelas minhas costas. Tornei a fechar os olhos e enterrei minha cabeça entre as mãos, apenas esperando que decolássemos.

Demorou cinco minutos para recebermos a autorização para a decolagem. Minha crise chegou ao ápice quando o avião andava em altíssima velocidade na pista. Eu me esqueci como é que se respirava direito.

— Minha pressão está caindo. — anunciei quando comecei a me sentir aérea e tonta.

— Fique com a cabeça o mais baixo que você conseguir. — Ned disse perto de meu ouvido com uma voz extremamente calma, mas, ao mesmo tempo, com seu quê impositivo, algo que lembrou meu antigo pediatra.

Delicadamente, Ned forçou minha nuca para baixo e continuou fazendo pressão por algum tempo.

O avião chacoalhava intensamente e meu estômago parecia fazer movimentar-se proporcionalmente a isso. Eu ouvia o barulho das caixas chocando-se contra outras e contra as paredes, e cada estrondo que elas causavam fazia com que meu coração parasse de bater por um segundo.

Ned soltou minha nuca e tomei isso como sinal de que podia subir minha cabeça novamente.

— Está melhor? — ele quis se assegurar assim que eu terminei de me levantar.

Minha visão estava cheia de pontinhos pretos.

— Sim. — minha voz saiu rouca.

As rodas do avião perderam o contato com o solo e fiquei aterrorizada. A sensação era semelhante a quando você está no ponto mais alto da montanha-russa e começa a, então, despencar — parece que não há nada embaixo de você, só uma queda enorme.

— Não. — retifiquei na hora. — Não. Definitivamente não.

Jenny arfou ao meu lado. Era evidente que ela se segurou até seu próprio limite, mas que também não estava conseguindo lidar muito bem com aquela amostra grátis do que quase acabou com nossa vida.

A sensação de confusão após a explosão reviveu em mim. Tudo veio de uma vez: confusão, medo, desespero e, por fim, a rendição. Eu iria morrer e seria isso mesmo. O avião iria cair de novo a qualquer momento.

Agarrei o antebraço de Jenny na intenção de retribuir a sua tentativa de me tranquilizar, porém com esse gesto eu me mostrei mais desestabilizada que outra coisa. Não deixei de aperta-la ainda mais por esse motivo.

Graças aos deuses, o avião parou de subir e tomou uma rota constante. Expirei pesadamente e só então notei que estava prendendo a respiração por tanto tempo. Apesar do ar gelado no bagageiro, eu suava. Minha respiração era desregulada, e as batidas de meu coração, descompassadas.

— O pior já foi. — confortou-nos Thais.

— Ainda faltam mais doze horas. — Queen lembrou. Capitei aquilo como um pensamento involuntário que ela não conseguiu filtrar.

— Elas vão passar. — Alex assegurou.

Matt balançou a cabeça, confirmando.

Deslizei no assento e deixei que meu corpo ficasse mole. Aproveitei para tentar pegar ar. A minha cota de showzinho do dia havia passado.


Ao contrário do que Alex disse, as doze horas não passavam. Por volta da terceira hora de voo, Matt foi até uma das caixas e pegou alguns salgadinhos para dividirmos. Eu podia estar com o estômago totalmente embrulhado, mas sempre, sempre era hora de Doritos.

Os outros começaram a dormir por volta da sexta hora de voo. Invejei-os, pois mesmo apesar de todas as tentativas, eu estava elétrica demais para pregar o olho. Queen e Ned tentaram me fazer companhia, mas cederam depois de algum tempo. Eu não os culpava — o barulho ininterrupto das turbinas causava uma sonolência desgraçada.

Aquelas foram, com certeza, as mais longas horas de minha vida. Mas o alívio que senti após Conrad anunciar nosso pouso dentro de cinco minutos alcançou — ou até ultrapassou — as proporções do nervosismo da viagem.

Tive outro leve ataque de ansiedade na hora da descida.

— Vai ficar tudo bem. — Ned sussurrou ao pegar minha mão.

Eu estava tão aterrorizada que nem refleti direito se deveria mesmo dar essa liberdade a ele de pegar minha mão. Apenas mordi o interior de minhas bochechas e tentei conter o grito que eu estava prestes a sair.

Só me permitir acalmar após o tranco final do pouso. Uns dez minutos depois, o avião parou dentro de um armazém.

A porta foi aberta por Conrad.

— E aí, crianças? Fizeram boa viagem?

_____

Jack já havia deixado tudo encaminhado para a gente, então não foi difícil alugar o armazém por uma noite. Conrad explicou-nos que ele não iria pernoitar no mesmo lugar que a gente por conta do número de quartos disponíveis. Ele nos deu o endereço da pousada que reservaram para nós e depois se despediu.

Dividimo-nos em dois táxis até chegar a tal pousada. A cidade era praticamente horizontal, embora houvesse alguns prédios perto do litoral. Seguíamos pela Spenard Road, que parecia dividir o lado da cidade mais moderno e o lado da cidade mais conservador. A cidade tinha a aparência limpa e branca e os moradores locais pareciam confortáveis com suas rotinas. Os pinheiros salpicados de neve enfeitavam as ruas, juntamente com alegres bonecos de neve e algumas esculturas de gelo.

Não é o pior lugar do mundo para se morar, pensei.

O sol já estava baixo, logo atrás das montanhas que circundavam a cidade. Em pouco tempo já estaríamos no escuro, mesmo faltando pouco mais uma hora e meia para a tarde terminar.

Nossa pousada ficava na parte mais conservadora da cidade. O endereço era numa rua calma, que me lembrava uma rua típica de cidade de interior. A faixada da pousada era praticamente uma casa, exceto pela placa em que estava escrito Pousada da Nanny

A atendente tinha idade suficiente para avó de primeira viagem. Apesar de aparentar estar um pouco cansada, abriu um sorriso simpático ao nos ver entrando.

— Boa tarde!

Pousei as bolsas que carregava em frente ao balcão de atendimento.

— Boa tarde. — cumprimentei. — Acho que temos uma reserva no nome de... — olhei para Jenny, procurando ajuda. Eu sempre esquecia o nome falso que Quíron mantinha no mundo exterior. — Sr. Brunner. — não tinha certeza absoluta se era o nome certo. — Gerard Brunner.

A mulher abriu o livro de registros que estava ao seu lado. Seu dedo percorria nomes e nomes, estes que eu mal conseguia ler de cabeça para baixo.

— Brunner, Brunner, Brunner... — ela recitava o nome como se isso a ajudasse a visualiza-lo melhor. Seu dedo parou no meio da página. — Aqui está. Dois quartos, uma noite, jantar a dejejum inclusos. Correto?

Se ela estava dizendo...

— Sim.

Ela pegou duas chaves no mural atrás dela.

— Vou levar vocês até lá.

O lugar parecia uma antiga casa, porém modifica para atender a uma ocupação maior. Subimos dois lances de escada e dobramos alguns corredores até chegarmos aos quartos.

— Os dois quartos tem dois beliches. — mais beliches. Ótimo. A atendente fez uma contagem da gente. — Vocês podem trazer mais um colchão para o quarto das meninas. Vejam o que preferem. O jantar será servido às oito.

Matt e eu nos entreolhamos.

— Obrigado pela ajuda. — ele disse. — Mas acho que não vamos aparecer mais por hoje. Foi uma viagem longa.

O sorriso da atendendo murchou.

— Que pena. — ela entregou as chaves a Matt. — Espero que tenham um bom descanso.

Meu amigo mandão esperou até que a mulher desperecesse ao final do corredor para jogar uma das chaves para mim. Quarto 16. O da esquerda.

Abri a porta e me deparei com um quarto simples. Havia um beliche em cada uma das paredes laterais; entre eles, um criado-mudo abaixo de uma janela. Havia, também, outra porta, que deveria levar ao banheiro. Um pequeno closet e um discreto aquecedor portátil também compunham o quarto.

Joguei minhas coisas no canto, assim como as outras garotas.

Alex se sentou na cama de baixo de um dos beliches e abanou o rosto em um gesto teatral.

— Oh, fico, aqui, conjecturando sobre qual dos dois cavalheiros iria dar-se ao trabalho de ajudar-nos com esse tal colchão, que deve ser deveras pesado para moçoilas delicadas feito nós. — disse alto com seu melhor sotaque inglês, como se estivéssemos em um dos livros de Jane Austen.

Queen sorriu.

— Aposto que teve que ver no dicionário metade dessas palavras. — alfinetou ela.

Alex deu-lhe a língua.

— Sou uma menina muito culta, está bem?

— Você não quis dizer: deveras culta? — Jenny rebateu.

Thais riu.

— Olha o bullying logo cedo.

Revirei os olhos.

— Eu busco o colchão. — anunciei.

Nem precisei me incomodar em fazer o esforço, pois Ned já estava no corredor, trazendo um dos colchões de seu quarto. Ele parou parar ajeitar o colchão.

— Ligaram para o disk cavalheiros?

— Me recomendaram a entrega a domicílio.

— Nossas clientes ficam sempre satisfeitas.

Cruzei os braços.

— Faz sempre entregas a domicílio?

Ele deu um sorriso malandro e entrou em nosso quarto. Matt apareceu na porta do outro quarto, se apoiou no batente e ficou me encarando.

— Você é muito preguiçoso. — disparei.

— E você é muito emburrada. Nem por isso eu fico reclamando.

— Você reclama, sim.

— Ah, é verdade.

Ned voltou ao corredor, estralando os dedos da mão.

— Clientes devidamente satisfeitíssimas.

— Engraçadinho.

— Agora vou pro clubinho dos meninos. Vamos fazer uma festa do pijama, né, Matt? Guerra de travesseiros, maquiagem, verdade ou desafio, Querido John, essas coisas.

Matt fez uma careta.

— Tá me estranhando, cara?

Ned se inclinou sobre mim.

— Depois vamos dormir de conchinha. — ele sussurrou perto de meu ouvido.

Dei risada e o empurrei para frente.

— Você é o pior!

Ele deu um sorriso largo, então deu um beijo demorado em minha bochecha, como costumava fazer.

— Durma bem, Sam.

Então ele entrou no quarto.

Matt arqueou uma sobrancelha, com o ar divertido, e senti meu rosto ficar quente por isso. Olhei para ele, sem jeito, me perguntando se devia falar alguma coisa.

— Que foi? — ele perguntou. — Não vou te dar beijinho de boa noite também, se é o que está pensando.

— Isso é um alívio.

— Vou pra cama. Você deveria fazer o mesmo.

— Eu vou. Até.

— Até.

Entrei no quarto, já arrastando meus pés. Alex e Queen já estavam trocadas para dormir, Jenny havia reservado um lugar na cama de cima do beliche e Thais devia estar no banheiro.

Liguei o aquecedor e quase morri de alívio quando o ar começou a sair. Lembrei-me que Clarck tinha me pedido que eu ligasse assim que chegássemos. Acho que ele não iria ficar bravo se eu demorasse só mais um dia para mandar notícias.

Até todas estarem prontas demorou quase uma hora. Thais fez questão de dormir no colchão do chão — ela disse que agora gostava do desconforto — quando começamos a decidir onde dormiríamos.

Sentei-me no chão, encolhida, ao lado do aquecedor. O calor era tão gostoso que parecia um abraço.

— Não vai se deitar? — perguntou Thais, já se cobrindo.

Balancei a cabeça, meio taciturna. Puxei minhas pernas contra o peito e apoiei meu queixo nos joelhos.

— Ah, qual é! — Alex protestou. — Você levantou antes de todo mundo aqui.

— E não dormiu a viagem toda. — completou Thais.

A verdade é que eu tinha passado por uma sequência de sonhos desagradáveis nos últimos dias. Indo contra toda minha natureza, eu estava cortando meu tempo de sono. Isso não mudava muita coisa, porém eu sentia que, pelo menos, tentava fazer algo.

— Estou sem sono. — justifiquei. — Sério.

— Mentira. — Jenny acusou.

Sempre aliviando para meu lado.

— Está preocupada? — Thais arriscou.

Ela sempre aparentava verdadeiramente interessada e/ou preocupada quando fazia essas perguntas. Eu ainda não a conhecia direito, mas apostava que, se eu a acordasse no meio da madrugada para desabafar sobre algo, ela ouviria tudo e ainda arranjaria um jeito de fazer com que eu ficasse melhor. Thais tinha jeito de ser uma daquelas pessoas que não conseguem ver alguém com problemas ao seu lado e não fazer nada.

— Pode se dizer que sim.

Queen se remexeu na cama.

— Preocupada? — ela indagou. — Eu não estaria preocupada. É um acampamento de férias. Não é, Jenny?

— Uhum. — concordou Jenny. — Tipo aqueles de verão dos filmes do final dos noventa, só que no inverno. Snowboarding ao invés de tobogãs. Colegas de chalé e iuuupi. — ela bateu palminhas.

— Sempre quis ir a um desses acampamentos de férias. — juntou-se a brincadeira Alex. — Queria pregar umas peças que nem no Operação Cupido.

— Ou tipo pintar o chalé alheio de rosa? — Queen retrucou. As garotas riram, e eu também, mas senti um pouquinho de irritação na voz dela. Acho que Queen ainda não achava essa história engraçada.

— Aquela foi a me-lhor do ano! — Jenny disse em meio as risadas. — A Sam paga de santa, mas tem uma mente maquiavélica.

Thais olhou para mim, desacreditada.

— A Sam te mandou fazer isso? — ela se dirigiu a Alex, que assentiu.

— Ela comprou meus serviços noturnos.

— Sam e sua mania por serviços noturnos. — Queen jogou as palavras no ar.

— Ouvi o Ned contar pra Sam que ele também tem seus serviços noturnos. — Jenny implicou. — Ela deve estar animadíssima com isso.

Joguei a cabeça pra trás, encostando-a na porta do closet.

— Você é tão ridícula!

— Ridícula é a senhora sua mãe!

Arregalei os olhos. Alerta de perigo.

Ficamos quietas, imóveis, morrendo de medo que alguém caísse no chão com dor de cabeça ou que tivesse uma súbita perda de memória. Minha mãe nunca gostava de ser ofendida.

Nada aconteceu.

Rimos, primeiramente nervosas, então nos soltamos e rimos ainda mais. Depois rimos porque éramos idiotas, então rimos porque estávamos rindo e aí rimos porque não mais sabíamos por que estávamos rindo.

Acho que havíamos encontrado uma vantagem de estar no Alasca: os deuses não tinham mais nenhum poder sobre a gente.

— Quer dizer que a gente pode xingar a vontade que eles nem ouvem? — Queen se sentou na cama com um sorriso de criança em seu resto. — Essa sensação de liberdade é... sensacional.

— Hermes, eu que troquei aquela encomenda que ia para o Olimpo no Solstício! — Alex gritou para o céu. — Era um presente de Nike para Zeus. — ela explicou. — A gente foi visitar uma das fábricas do papito antes da excursão ao Olimpo, vi o pacote, Robby tinha umas bombas de tinta na mochila, só para usar em caso de emergências... Não resisti. Zeus ficou com a cara roxa naquele dia.

Queen bufou.

— Clichê. Ousado, mas clichê. — ela pigarreou. — Hades, quando eu to irritada com você, dou manteiga de amendoim para Cérbero para ele fazer um estrago no seu palácio.

— Ew! Que horror! — Thais torceu o nariz.

— Sua vez, então, Thais. — Jenny disse.

Thais respirou fundo e hesitou um pouco.

— Lady Ártemis, eu devo ter ficado com mais garotos do que viu em sua vida inteira antes de eu ter entrado para a Caçada! — ela disse rápido, as palavras atropelando umas as outras. Em seguida, tampou a boca com a mão.

Jenny curvou-se para frente e deu uma risada muda.

— Gente, que revelação!

— E você se arrepende? — perguntei a Thais.

Ela deu ombros.

— De alguns, talvez. Mas, se não fosse por eles, eu não estaria na Caçada agora. Então... Sei lá. Jenny, sua vez.

Jenny esfregou as mãos e olhou para um ponto fixo, como se escolhesse o que ela mais queria falar.

— Deméter, você é uma vaca! Hera: nunca vi mais corna. Zeus, eu que esbarrei e quebrei a escultura que Cálamis fez do meu pai no solstício de verão, há dois anos. Ah, e em falar no meu amado papi... Apolo, eu te vi fazer um strip numa boate gay em Oregon!

Dei risada. Eu sabia que, se deixássemos, ela ia continuar a falar sem parar a noite inteira.

— A pergunta é: — Queen disse assim que conseguiu parar de rir. — o que você estava fazendo numa boate gay em Oregon?

— E depois eu que sou adepta dos serviços noturnos. — disse eu.

— Não... É que eu... Ai, eu tava em missão! Não é justo!

— Aham.

— Cale a boca porque agora é sua vez.

Cruzei meus braços e comecei a pensar. Eu tinha feito alguma coisa contra aos deuses? Sabia de alguma coisa que não deveria saber?

Eu simplesmente não podia acreditar que eu manuseava armas, tinha o sangue divino e tinha poderes, estava no meio de uma guerra e minha vida conseguia ser chata mesmo assim.

Ou eu era chata mesmo assim.

— É... Eu acho... Pera.

— Ah, fala sério, Sam! Não me obrigue a contar seus podres. — Jenny ameaçou.

Franzi o cenho. Tinha que ter alguma coisa.

— A Sam é a queridinha do Olimpo. — Queen disse. — Não iria fazer nada.

Eu tinha namorado um filho de Poseidon. Nossos pais não aprovaram a união, mas aquilo não era tecnicamente errado. E todo mundo sabia disso, então não era uma revelação.

— Vamos, Sam. — Alex incentivou.

Uma vez eu esqueci de fazer a oferenda na hora do almoço. A culpa não era minha, eu estava morta de fome.

Não, isso não conta.

— Ahn... O Livro de Sócrates, eu fiz uma orelha nele enquanto eu o estudava. E eu não estava usando as luvas e pinças especiais de conservação.

As quatro ficaram mudas por um momento, apenas olhando para mim. Naturalmente, Jenny quebrou o gelo:

— Meu Zeus, Sam. Você é uma péssima influência na minha vida. Eu vou parar de andar com você antes que seja tarde demais.

— Sem as pinças! — Queen enfatizou. — Como ela esqueceu as pinças? Não consigo aceitar isso.

— Ah, vocês sabem como eu sou inconsequente às vezes. Uma bad girl.

Jenny balançava a cabeça enquanto sorria, como se pensasse por que diabos ela era minha amiga. Ela piscou para mim e se deitou.

— Não se preocupe, Sam. Nós, inconsequentes, estamos a salvo aqui. Acho que vou chamar aqui de Nova Vegas. O que acontece no Alasca, fica no Alasca.