Notas iniciais
Ganha um cookie quem descobrir a referência que fiz nesse cap!

— Espero que a gente se veja em breve. — disse Thais antes de me dar um longo abraço, que retribuí.

Era sábado de manhã e as Caçadoras estavam se preparando para partir novamente. Passaram um bom tempo no acampamento, se recuperando. Estava na hora de seguir com a vida e voltar a servir sua senhora.

Estávamos perto da base da Colina Meio-Sangue. O dia estava claro e muito fresco, razão de eu estar usando um fino casaco por cima da blusa. A atmosfera de despedida era agradável. Parte dos campistas foi acompanhar a saída das Caçadoras e agradecer por sua sempre valiosa ajuda.

Jack também estava lá, a uma distância segura de Catherine. Pelo que eu estava sabendo, os dois não andaram se falando muito desde a batalha no Alasca. Imaginei que ainda não fosse bom para os dois reviver o passado, mas sinceramente esperava que voltassem a se entender.

— Com certeza vou me meter em encrenca de novo. — eu afirmei. — Daí eu te chamo.

Seu sorriso criou pequenas rugas ao redor de seus alegres olhos.

— Amo encrencas.

Acompanhada por Victor, Jenny veio até nós com passos rápidos. Ela chegou com seu jeito de miss simpatia, passou o braço pelo meu pescoço e puxou-me para mais perto de si, discretamente declarando que eu era sua posse para Thais.

— E aí? — Jenny perguntou, animada. — Tudo preparado para a partida?

Thais trocou um rápido olhar comigo, secretamente se divertindo com aquilo. Era surpreendente que Jenny, namorada de um filho de Afrodite, pudesse achar que era possível disfarçar algum sentimento na frente deles.

— Sim, só estou me despedindo. — ela olhou para os três. — Bom, vou lá. Tirando os contextos, é sempre bom estar com vocês. Mas a Caçada me espera.

Trocamos as últimas palavras de despedidas e Thais acabou por tomar seu rumo, juntamente com as outras Caçadoras que começaram a subir a colina. Em contraste, uma figura despontou ao lado do grande pinheiro e começou a descer até nós.

Demorou pouco tempo até eu reconhecer a pessoa como Queen, que vinha até nós com um ar atipicamente ansioso. Ao passar por Thais, disse algo para ela que não consegui ouvir àquela distância. As duas garotas seguiram e continuaram seus caminhos opostos.

Clarck também veio até nosso pequeno grupo. Ele ajeitou os óculos sobre o nariz — havia perdido suas lentes de contato no Alasca — e nos cumprimentou.

Ele não tinha levado muito bem o fato de Susana permanecer no acampamento. Principalmente depois de ter descoberto que meu voto tinha sido de suma importância naquela decisão. Ficou bravo, porém eu não lhe dei grandes satisfações. Sentia que não seria legal de minha parte expor Susana a todos de meu chalé. Tudo o que Clarck sabia é que ela ficou porque tinha que ficar. E iria continuar assim.

Ele acompanhou com interesse a caminhada de Queen até nós. Desde o dia da festa, ele não tinha se empenhado muito em me esconder que criou uma quedinha pela filha de Hades. Clarck era um cara que se apaixonava muito fácil e, ao agarrá-lo no meio da festa, Queen dera esperanças ao coitado sem ao menos perceber. Ela não havia comentado nada comigo, mas eu duvidava que o evento teria acontecido se ela não tivesse abusado do ponche.

— Até que enfim a princesa das trevas apareceu! — comentou Victor quando Queen finalmente chegou até nós.

Os olhos dela brilharam ao ouvir o título. Ela gostava quando era engrandecida.

— Trago boas novas! — ela anunciou, animada. — Boas, boas novas!

Queen não era a pessoa mais entusiasmada que eu conhecia — essa alcunha, com certeza, ia para Jenny. Ela sempre mantinha o tipo calmo e sereno. Quando se animava, soltava algumas piadinhas ou comentários afiados e sarcásticos, mas nada como se ela estivesse prestes a dançar de tanta felicidade, que nem ela aparentava estar naquele momento.

Jenny largou meu pescoço.

— E está esperando o que para contar?

Queen tirou a mochila que carregava nos ombros e a pousou ao lado de seus pés, no chão.

— Sam — ela disse —, você se lembra naquele dia do Central Park, né? Quando fui te convocar para a batalha.

Assenti. Era apenas mais uma madrugada das muitas em que não consegui dormir por conta de sonhos, ou até mesmo memórias. Arriscando ficar de castigo ou ser assaltada, eu sempre procurava espairecer no parque.

— Então. — ela continuou. — Como vocês devem saber, há um portal para o Mundo Inferior no Central Park. Foi meio que sem querer encontrar Sam durante aquele horário. Eu tinha ido para Nova York para chama-la, claro. Mas esperava que o encontro acontecesse no dia seguinte. Eu estava no Central Park naquele exato momento porque eu tinha acabado de voltar do Mundo Inferior.

Clarck e eu trocamos um breve olhar impressionado.

Eu, particularmente, estava pensando até então que ela havia me achado durante uma viagem nas trevas. Não contava que ela havia estado no Submundo recentemente.

— Fui para lá — Queen continuou — a pedido de meu pai. Ele tinha essa missão para mim... E não adianta vocês me olharem assim porque não estou autorizada a falar qualquer coisa sobre o assunto. O fato é: fiz um trabalho para meu pai e ele ficou muito agradecido por isso, porque, modéstia à parte, não era trabalho para qualquer um. Ele disse que estava me devendo uma. Uma grande.

Comecei a ficar inquieta.

— E você foi...

—Fui cobrar o favor. — ela completou. — E foi meio difícil e me custou uma certa insistência, mas... — ela tomou fôlego só para atropelar uma palavra com a outra: — Eu consegui trazer Mia e toda a família dela para os Campos Elíseos!

Eu não teria acredito naquilo se Jenny não desse um berro de alegria e pulasse em cima de Victor para comemorar.

Pisquei, atônita, ainda impactada com que eu acabara de ouvir.

— Sam? — Queen chamou, receosa. — Você está bem?

Não havia nenhuma palavra capaz de exprimir o que eu estava sentindo, então me adiantei em um movimento brusco e abracei Queen com toda força.

Eu não imaginava que algo tão bom poderia acontecer a mim depois de tudo o que havia passado. Aquela era simplesmente a melhor notícia que eu tinha recebido em anos! Mia estava segura. Estava bem. E estava com toda sua família. Não iria haver males para atormentá-la no Mundo Inferior, nem seria ela um robozinho no meio da multidão dos Asfódelos. Ela poderia desfrutar de todas as regalias dos Elíseos e fazer isso conscientemente.

— Obrigada. — consegui dizer. — Obrigada mesmo! Ah, meus deuses, eu te amo!

Queen ficou estática por um milésimo de segundo. Nós não tínhamos o hábito de fazer grandes demonstrações de afeto uma para outra. Apesar de tudo que passamos juntas, nossa amizade não havia começado há muito tempo. Mantínhamos certo limite.

A emoção, no entanto, era tamanha que eu não consegui me segurar. Abracei Queen com tanta intensidade que ela não consegui fazer muita coisa além de soltar uma pequena risada e me apertar mais.

Um favor. Um favor grande. Ter o senhor do Submundo lhe devendo algo era uma vantagem sem precedentes. Eu não acreditava que Queen usara esse favor com Mia, uma garota com quem ela mal teve contato. Mal podia acreditar na briga com os três juízes que ela tinha arranjado por causa disso.

— Isso é muito legal de sua parte, Queen. — disse Victor ao abraçar por trás a cintura de Jenny, que encostou sua cabeça na dele. — Sério!

Queen me largou e olhou para todos.

— Mia não merecia menos que isso.

— Você foi muito corajosa. — Clarck falou.

Ela deu-lhe um olhar acanhado de agradecimento, o qual durou um pouco mais que o normal. Percebendo alguma coisa aí, tive um estalo.

Boa hora para tentar algo, eu disse na mente de Clarck.

Socorro, ele respondeu. Ai, tá bom.

Ele enfiou as mãos no bolso, uma tentativa não muito sucedida de parecer casual e reunir coragem. Olhou para os dois lados, como quem não quer nada, e tomou um fôlego rápido.

— Sabe, Queen, — ele começou — o pessoal de Deméter está trabalhando numa estufa e está ficando bem bonita. Queria saber se você não está afim...

— Olha só quem está aí! — alguém interrompeu meu pequeno galanteador.

Michel veio até nós com um sorriso radiante e toda sua beldade. Apesar do frio que estava fazendo — ou que eu sentia que estava fazendo —, ele usava uma camiseta regata que expunha seus bíceps, devo dizer, muito bem trabalhados.

Queen congelou ao ver o garoto que lhe causara uma baita impressão seis meses antes. Pareceu até ficar assustada, como se ele fosse uma assombração. O que era irônico para uma filha de Hades.

— Mademoiselle, você fez falta neste acampamento. — ele disse a Queen, que não conseguiu esboçar reação. — Se lembra de mim? Michel. Michel Pontmercy, da França.

Enquanto eu trocava um olhar animado com Jenny, Queen tentou fazer uma cara desinteressada.

— Siiiim, sei. O cara da França. Do aluguel de carros. Acho que lembro.

— Pois em bem marquei o rosto da senhorita. — ele pegou delicadamente a mão dela e depositou em suas costas um beijo. — Se não estiver ocupada, me daria a honra de um passeio na praia?

Clarck fez algo que não era muito de seu feitio comedido.

— Na verdade — ele interveio, com um sorriso forçado no rosto. — eu estava convidando Queen para uma volta agora.

Queen olhou para ele, como se acabasse de lembrar de sua presença ali do seu lado. Ela piscou rapidamente duas vezes, não entendendo direito o que estava acontecendo ali. ­

Os dois garotos trocaram um olhar mortífero, então se viraram para Queen, esperando uma resposta.

— Ok. — ela disse, parecendo começar a gostar da ideia. — Não sei o que vocês vão fazer. Eu vou cuidar do Spike agora. Quem quiser me acompanhar, que venha. — ela acenou para Jenny e eu. — Até o almoço.

Então se virou e começou a andar em direção aos estábulos, onde seu cão infernal gostava de ficar interagindo com os pégasos do acampamento. Os dois Romeus seguiram-na sem pestanejar, vira e mexe trombando um com o outro.

Victor, Jenny e eu não conseguimos segurar a risada.

— Parece que a princesa está com a bola toda agora. — Victor comentou.

Fitei Queen, que sorriu ao perceber a presença dos dois garotos ao seu lado.

— Ela merece. — eu disse.

— Merece o Clarck, o Michel, merece é passar o rodo por aqui. — Jenny acrescentou, em meio a pequenas risadas.

Sorri, porque era verdade. Se tinha alguém naquela história que merecia conquistar seu final feliz, aquele alguém era Queen. E parecia que ela estava no caminho certo para isso.


Depois de uma série de pequenas atividades, fui passar o final de tarde como muitos outros — sentada no guarda-corpo do píer do lago de canoagem, me isolando de todos os outros enquanto a água refletia os últimos raios solares do dia.

A missão de me isolar, no entanto, não foi bem sucedida.

Era tarde demais quando percebi a chegada de Nick. Eu tinha apenas duas opções: ou eu teria de conversar com ele, ou pulava no lago e saía nadando. Mas, tendo em vista que água nunca fora um problema para ele, soube que que não me restava muito o que fazer.

Ele vinha com uma das mãos escondida nas costas, coisa que atiçou minha curiosidade. Antes que ele chegasse, arrumei discretamente meu cabelo e ajeitei-me sobre o guarda-corpo de madeira.

— Pensei que você estivesse enfiada na floresta. — Nick disse ao parar em minha frente.

Imediatamente, senti o aroma amadeirado de sua colônia favorita, o que evidenciava que ele havia saído do banho há não muito tempo. Lembrei que tinha enviado para ele mais um frasco dela antes do último verão, o que me fez perguntar se Nick estaria ainda consumindo meu presente. Logo após concluir essa conjectura, me censurei. Não tinha que ficar pensando nessas coisas.

— Não costumo mais andar por aqueles lados. — respondi.

Sua feição alegre vacilou um pouco quando ele reconheceu os motivos disso. Entrando em seus pensamentos, pude identificar seu medo de que nosso lugar especial perdesse todo seu significado para mim.

Nick tirou a mãos de trás das costas, revelando um enorme buquê de rosas.

— Para você. — ele abriu o sorriso novamente.

Prendi o ar, surpresa com o gesto romântico. Depois de tanto tentar alimentar sentimentos ruins por ele, quase acabei me esquecendo do quanto ele poderia ser um perfeito príncipe se quisesse.

Peguei o buquê de suas mãos, mais por instinto do que outra coisa.

— Por estar sendo a garota mais incrível e forte que alguém poderia ser. — ele acrescentou, então coçou atrás de sua cabeça. — Os filhos de Deméter meio que deram uma ajudinha.

Quis achar que a tentativa dele era inútil, mas acabei sorrindo ao invés disso.

— Eu já tinha imaginado isso.

Ele deu ombros e tomou impulso para sentar-se ao meu lado. Fiquei observando a beleza das rosas vermelhas enquanto ele decidia que rumo tomar com a conversa. Notei que bem no meio do buquê, quase se perdendo entre as dezenas de pétalas, havia um discreto bilhete.

Estar perto de Nick novamente era extremamente conflitoso. Sua presença era familiarmente leve e, de certo modo, parecia ser certa. Como se fosse o único meio pelo qual as coisas poderiam se ajeitar novamente. Mas, ao mesmo tempo, estávamos lado e lado e não falávamos nada. Esse limite que secretamente impomos tornava as coisas tão estranhas. Parecia que éramos apenas dois conhecidos.

— Quando você descobriu? — perguntei. — Sobre Susana, digo.

Ele meneou a cabeça, entendendo, e comprimiu os lábios.

— Um dia, em Provo, recebi uma M.I. no meio da noite. Era ela. — ele deu uma breve pausa. — Susana me contou tudo. Sobre seu envolvimento com Sócrates e sobre o que estava passando... Eu não podia negar socorro para minha irmã. Você entende agora, não é? Ela precisava de alguém para protege-la dele.

Se eu soubesse disso na época, não pediria para que Nick ficasse comigo. Agora, com uma visão mais ampla de toda a situação, eu compreendia. O rancor não era nada mais que mágoa.

Soltei um suspiro tristonho.

— Ah, Nick, você deveria ter me contato. Desde o primeiro momento em que podia. As coisas estariam completamente diferentes se fosse desse jeito.

Ele abaixou a cabeça e encarou seus pés.

— Não consegui. — ele admitiu, subitamente envergonhado. — Me convenci que não daria certo se você soubesse antes da batalha. Então esperei outra chance, mas ela nunca chegava. Quando finalmente chegou, já tinha passado tanto tempo... Eu nem sabia se você iria querer olhar na minha cara.

— Você é meu namorado! — rebati, indignada.

Eu podia estar me corroendo de ódio dele, de sua irmã, de toda a situação, mas, me conhecendo bem, eu sabia que era somente necessário ouvir a voz de Nick pedindo desculpas para me desarmar por completa. Eu o amava e ele deveria saber disso. Como ele poderia não saber?

Nick corrigiu a postura e se virou para mim, surpreso.

— Sou?

Desviei o olhar.

— Era. — corrigi, baixinho.

Ele saltou do guarda-corpo e parou de pé à minha frente. Naquela posição, eu ficava poucos centímetros mais alta que ele. Ele pousou sua mão sobre a minha, que ainda segurava o buquê sobre o colo, e, dessa vez, não me afastei.

— Eu tive medo. — ele confessou, me fazendo olhar em seus veementes olhos verdes. — Eu estava morrendo de medo que você não me perdoasse, porque nem eu tinha me perdoado por não ter contado tudo a você assim que tive a ideia.

Sempre odiei a franqueza com a qual Nick falava, pois era tão intensa que eu mal sabia como corresponder. Eu assumia a defensiva e ele com meia dúzia de palavras conseguia desfazer isso. Era insuportável.

— Não precisava ter esse medo. É como... como se você não confiasse em mim. No que eu sentia.

— Eu sei.

— E mesmo assim você deixou rolar.

— Eu sei.

Apertei sua mão carinhosamente antes de também pular do guarda-corpo. Olhei para cima e, de repente, seu rosto estava ali, tentadoramente próximo ao meu. Disponível se eu quisesse tentar qualquer coisa.

— Não estou brava por você ter ido, mas por você ter me deixado. Entende a diferença? — ele assentiu, triste. — Temos tempo para por os pingos nos I’s agora. É só disso que eu preciso.

Não me contendo, beijei o canto de sua boca. Em nome dos bons tempos, justifiquei.

— Obrigada pelas flores. — eu disse depois de me afastar. — Eu adorei. De verdade.

Eu já estava me virando quando Nick me segurou pela mão de novo.

— Promete que vai pensar com carinho? Em tudo isso?

— Prometo.

— De mindinho?

Abri um inevitável sorriso e entrelacei nossos mindinhos.

— De mindinho.

— Posso alimentar esperanças ou você vai quebrar meu coração em mil pedacinhos?

Balancei a cabeça, rindo, quase sentindo falta da cara de pau dele.

— Tchau, Nick.

E fui caminhando até meu chalé.

Ao chegar lá, descalcei meus pés e joguei-me em cima de minha cama. Meus irmãos viram meu buquê, mas não fizeram perguntas. Não tínhamos o hábito de fazer perguntas a nós mesmos que já sabíamos a resposta. E eles já sabiam de onde as flores tinham vindo.

Apreciando a beleza das rosas, deparei-me de novo com o pequeno bilhete que me esperava. Retirei-o de lá com calma e o desdobrei delicadamente.

Eram três pequenas palavras escritas à mão:

Sinto sua falta.

Notas finais
Eu to bem triste por dizer isso, mas o próximo capítulo será o último de GF. Desde 2011 escrevendo e já está acabando! Dá uma dorzinha, mas também alegria. Obrigada àqueles que estão acompanhando, não importa desde quando!