Samantha Roberts - Guerra Fria
33 A Infatigável
Notas iniciais
Eu nunca fui uma dessas meninas que pagavam de rebeldes e desafiavam qualquer imposição de autoridade. Para ser sincera, eu sempre procurei andar na linha para evitar qualquer tipo de problema. Mesmo depois de ter descoberto que era uma semideusa.
Só que naquela tarde específica eu realmente não estava afim de seguir o cronograma de atividades.
Não que eu não adorasse passar uma hora inteira conjugando verbos em grego antigo, ou que depois não fosse legal aprender algumas táticas de escoteirismo. Afinal, não havia melhor programa para uma sexta do que aprender a filtrar água.
De qualquer forma, para não me sentir muito culpada por matar aula sozinha, convidei meus amigos para essa minha onda de loucura descontrolada. Era um pouco mais de quatro e meia quando nos encontramos no Anfiteatro.
Alex conseguiu sabem lá os deuses como arranjar alguns pacotes de Doritos para beliscarmos. Jenny trouxe consigo seu violão e logo começou a afinar as cordas, a fim de que tudo estivesse certinho para a fogueira mais tarde. Victor e Queen também vieram, assim como o bom e velho Zack.
Não fizemos muito além de jogar conversa fora, comer e cantar algumas músicas. O ambiente era leve, desprovido de qualquer preocupação. Não éramos campistas treinados para enfrentar as forças malignas do mundo grego. Éramos apenas seis amigos compartilhando um momento de descontração.
Jenny, sentada no tablado central do Anfiteatro, começou a dedilhar a introdução de uma música do John Denver.
— Credo, Jennifer! — reclamou Alex ao arremessar um doritos no rosto de Jenny. — Alguma coisa que minha mãe não ouça, por favor!
Victor, que estava ao lado da namorada, pegou o doritos preso à blusa dela e comeu sem nenhum problema.
— Gosto do Denver.
Queen remexeu sua cabeça deitada sobre minhas pernas cruzadas.
— O dia em que esses dois discordarem em algo — ela murmurou. —, por favor, me avisem, porque será o fim dos tempos.
Dei risada, principalmente porque era mesmo verdade. Aqueles dois preferiam morrer a ir um contra o outro. Não que eles fossem admitir, claro.
— Por isso não namoro. — Zack soltou.
O sorriso de Alex se alargou.
— Não por falta de opção, bonitão. Ou vai dizer que nunca reparou que Aileen suspira praticamente toda vez que você passa por ela.
Zack só faltou engasgar.
— Aileen!? Do quatro?
— Com toda certeza, irmão.
— Deuses, Alex. Nem brinca com isso. Ela foi meu primeiro beijo!
Victor deu tapinhas nas costas de Zack.
— Em algum lugar, Afrodite está sorrindo para você. Não de felicidade, mas porque agora que você sabe ela vai tramar algo muito maquiavélico para os dois.
— Essa gosta de aprontar com a vida dos outros. — comentei, na qualidade de testemunha do que ela podia fazer.
— Até parece que ela ou algum deles estão dando a mínima para nós agora. — Queen disparou.
Ela estava se referindo ao fato de não termos recebido algum comunicado oficial ou relatório vindos do Olimpo, referente aos acontecimentos no Alasca. Eu entendia sua posição. Era revoltante. Defendemos a supremacia dos deuses com nossas vidas e, no final de tudo, não recebemos nem um “ei, valeu aí”.
No entanto, eu estava decidida a não me apegar a algo que me trouxesse para baixo de novo. Se eu ficasse pensando muito naquilo, não iria me fazer bem. Havia sido difícil chegar nesse meu estado zen, então nada iria estraga-lo.
— Eu falaria que eles são uns babacas, mas daí iria rolar uns trovões no céu. — Alex tirou sarro.
Não pude evitar de olhar para cima, apreensiva, esperando por alguma manifestação. Surpreendentemente, não houve inquietação alguma. Apenas o mesmo céu cheio de nuvens ao entardecer.
— Talvez seja melhor a gente deixar isso de lado. — opinei, ainda olhando para cima.
— Verdade. — concordou Jenny. — Talvez a gente devesse deixar tudo de lado. Ei, Sam, por que não aproveita essa sua fase badgirl e não faz outra festa daquelas?
Peguei o pacote de Doritos na mão de Victor e mandei alguns para dentro.
— Tô passando fora qualquer responsabilidade. Faça você que eu estarei lá dançando.
Zack riu.
— Sam dançarina. Taí algo que nunca teria esperado de você.
As lembranças da festa vieram em flashes à minha mente. A iluminação improvisada, a banda tocando sem parar, Ned me pegando pela mão e me rodando ao ritmo da música.
Ah, Ned.
Fui acometida por uma terrível onda de nostalgia.
Eu faria de tudo para voltar para aquela noite. Eu faria tudo diferente.
Jenny percebeu algo em meu olhar e logo veio ao meu socorro.
— Sam é uma mulher de camadas. — ela disse ao colocar de lado seu violão. — Acho que já está na hora da fogueira. Vamos?
Juntamos nossas coisas e acabamos com qualquer evidência de que passamos o final da tarde naquele lugar. Despedimo-nos só para nos encontrar vinte minutos mais tarde, quando começaram a acender o fogo.
A fogueira se sucedeu de maneira agradável.
Os estalos da madeira queimando pareciam ditar o ritmo da cantoria; o crepitar do fogo incrementava os acordes dos violões trazidos por aqueles que desejavam animar mais ainda a atmosfera acolhedora.
A temperatura caíra bem conforme o final de tarde se tornava noite. A brisa fresca transformou-se em vento gelado; o céu lusco-fusco encoberto de nuvens, em um vasto tapete negro. Os lampiões elétricos das faixadas dos chalés foram acesos e, juntamente com a chama da fogueira, iluminavam parcialmente a área comum em que estávamos.
Não me importei de soltar a voz. Cantei alto e animada, e ainda, em algumas músicas, entrei na brincadeira de Jenny de fazer a harmonização vocal para o que estava sendo cantado.
Infelizmente, nem as melhores fogueiras duram para sempre. Quíron anunciou o fim das atividades do dia e nos deu tempo livre, enfatizando que deveríamos estar no chalé cinco minutos antes do toque de recolher. Os campistas foram se levantando e muitos casais foram dar uma última volta, o que incluiu Victor e Jenny, que fugiram para não sei onde.
Continuei sentada na mesma tora onde estive a fogueira toda, observando com interesse a conversa que Queen e Clarck travavam com tanta naturalidade, estes também sentados em minha tora.
Nick, que tagarelava com Ally, cativou minha atenção. Era a primeira vez em muito tempo que eu o via desacompanhado da irmã. Eu tinha ouvido qualquer coisa naquela tarde sobre ela ter passado mal, mas não dei importância ao assunto. Supus que ela estivesse na enfermaria, ou descansando no chalé, talvez.
Minha mente voou até nossa primeira fogueira juntos, a minha primeira no acampamento, e em como eu tinha odiado sentar perto dele, mas também em como eu tinha me sentindo bem ao perceber que agora tinha uma família.
Ele notou que eu o fitava por um tempo maior que o normal, então dispensou a filha do Sr. D., que simplesmente andou até a rodinha de conversa mais próxima. Nick se levantou e andou até mim, perceptivelmente escondendo sua animação.
— Olhando para mim desse jeito, posso até dizer que você parece apaixonada. — ele arriscou.
Sorri pequeno, secretamente adorando seu jeito sem rodeios.
— Só estou pensando. — respondi ao levantar.
— Eu poderia saber no que, Srta. Wikipédia?
A menção ao apelido que ele costumava a usar para mim, bem como o fato de eu não ter reagido mal a isso, indicavam uma sutil mudança em nós dois. Estávamos conseguindo voltar ao passado com mais naturalidade, sem empacar nos terríveis meses em que estivemos separados. Mesmo não necessariamente representando uma chance no futuro para nós dois, consegui achar aquilo um bom sinal.
— Prefiro deixar isso em off.
Ele me deu um sorriso travesso, parecendo gostar de poder alimentar a imaginação.
Nick apontou com a cabeça para seu chalé, mais adiante, e começou a andar até lá. Sem ao menos me dar contar do que estava fazendo, eu o segui.
Uma semana e meia havia se passado desde aquela conversa franca que tivemos. Superando minhas expectativas, Nick estava respeitando muito bem o meu tempo. Ele vinha até nossas rodas de conversa e se juntava a nós, participava de algumas atividades em conjunto com o meu chalé também. Até mesmo apostamos uma corrida hípica uma vez neste meio tempo — eu montada em Deino e ele em Silver, um dos pégasos do acampamento.
Nick não tentou nada. Sinceramente, eu esperava que ele cometesse alguma loucura amorosa ou qualquer coisa do tipo — fazer uma serenata, um super jantar romântico ou implorar perdão de joelhos no meio do refeitório na hora do almoço. Esse era seu feitio. Mas então eu soube que não cometer nenhuma loucura amorosa estava sendo a maior loucura amorosa que Nick já tinha feito por mim.
Subimos para a varanda de seu chalé, onde, encostado à balaustrada lateral, havia um banco para poder sentarmos. Ele foi primeiro e eu tive o cuidado de manter certa distância ao me sentar também.
Costumávamos a usar aquele banco para relaxar quando não estávamos muito dispostos a sumir na floresta. Era um lugar bom, e o estofado do banco era confortável. Poder estar lá depois de tanto tempo me trazia boas lembranças.
— Jenny já te contou sobre Victor? — Nick perguntou, tentando puxar assunto.
Assenti.
Na verdade, eu estava com ela quando Victor apareceu com sua carta da New York University. Ele havia aplicado para uma vaga no curso de Relações Públicas há muito tempo, mas infelizmente sua nota no SAT não foi o suficiente para entrar na primeira chamada, o que o deixou numa longa lista de espera. Devido algumas desistências, Victor conseguiu sua vaga e foi convidado a comparecer na universidade no início da próxima primavera.
Meu pai lecionava na NYU há anos, o que me dava a grande oportunidade de ingressar na universidade como bolsista. Pretendia me matricular somente depois do verão, porém era bom saber que Victor estaria sempre por perto. Melhor ainda seria para Jenny, que poderia nos encontrar no mesmo lugar logo ali, perto de sua casa.
— Imagino que você também irá para lá em breve. — Nick deduziu.
— Vivi tempo demais no lado de fora. Não sei se seria capaz de imaginar outro futuro para mim.
Essa ruptura entre a gente sempre fora um problema. Enquanto eu estava sentada numa sala de aula aprendendo a ser uma cidadã melhor, Nick estava manipulando armas e aprendendo a não ser morto pelos mais diversos tipos de monstros. Mesmo tendo eu entrado de cabeça no mundo dele, nós nunca veríamos as coisas da mesma maneira. Nunca teríamos as mesmas expectativas do futuro.
— E quanto a você? — quis saber.
Nick escorregou no banco e relaxou um pouco.
— Não sei. De verdade, eu não sei. Minha mãe está tentando vir para cá em breve, para poder ver Susana pessoalmente. Só está negociando com seu patrão essas férias fora de hora. Só então vou poder decidir algo. Querendo ou não, Susana está morta para o resto do mundo. Temos muito a resolver.
— Mas você não é a Susana.
Ele passou preguiçosamente seus dedos entre os fios de seu cabelo, que precisava urgentemente de um corte. Respirou fundo e soltou um pequeno grunhido.
— É complicado. — ele disse. — Ela precisa de mim agora. E, de certa forma, eu também preciso muito dela. Somos um pacote fechado, entende?
Esta história toda me perturbava sem ao mesmo eu entender por que. Nick parecia agora viver em função da irmã, deixando todo o resto de lado. Embora em me esforçasse para não ligar, isto soava errado para mim em vários sentidos. Deixava uma sensação estranha de incômodo em meu peito.
— Acho que sim. — forcei-me a dizer. — E você quer voltar para Utah?
Nick voltou-se para mim, apoiando o braço dobrado sobre o encosto do banco, apenas a alguns centímetros de meu ombro. Havia algo difícil de interpretar no modo como ele me olhava. Contudo, esta coisa era intensa, de modo que me fez segurar o ar.
— Não sei. Utah parece muito longe de Nova York agora, mais que nunca.
Ele queria dizer muito mais com aquelas palavras. Era um jeito sutil de transpassar o limite do tempo que pedi; um pedido implícito de que eu voltasse a pensar na gente. De reavaliar nossa situação.
Eu não queria me posicionar sobre nós, não naquele momento. Guardei meus pensamentos para mim e não disse nada.
Nick franziu as sobrancelhas e tentou conter a evidente irritação.
— Pede para eu ir embora para Provo e eu não vou mais precisar ser um problema pra ti. — ele disparou. Simplesmente assim.
Pisquei algumas vezes, sem reação.
— Como é?
— Vamos, pede! — ele disse, dando uma risada cínica. — Depois que eu resolver tudo aqui, se você quiser, não vai mais precisar me ver. Por um bom tempo. Por que não para logo de me enrolar e diz logo o que você quer?
Ele se levantou do banco, tomado demais pela emoção do momento para ficar sentado. Olhou para os lados, verificando se alguém estava prestando atenção na gente, então me lançou um olhar acusador.
Encolhi-me no lugar, não entendendo o que estava acontecendo. Nick estava tão instável. Pensei que apenas teríamos uma conversa trivial, porém ele acabou virando o jogo duas vezes no mesmo minuto. O que ele esperava de mim?
Nick parecia transtornado. Eu via no seu jeito inquieto que havia muita coisa que ele gostaria de falar para mim bem naquele momento. Parecia estar prestes a jogar tudo no ventilador.
— Sabe o que eu acho? Que você tem medo de me contar a verdade.
Levantei-me do banco também, começando a me indignar. Ele estava sendo tão idiota. De todas as pessoas, Nick era a que menos tinha condições de entender meu lado depois de tudo aconteceu. Ele não sabia nem a décima parte do que havia acontecido enquanto ainda estava no Alasca.
— Medo? — ecoei, tentando me segurar para não falar a primeira coisa que me viesse à cabeça.
Ele veio até mim, fazendo com que eu recuasse até a balaustrada da varanda. Fiquei encurralada entre ela e um Nick colérico. Ele chegou perto, terrivelmente perto de meu rosto.
— É, a filha da deusa da coragem tem medo de me dar de vez um pé na bunda. De admitir seus sentimentos.
Tentei empurrá-lo para trás, extremamente desconfortável com o modo como aquilo estava acontecendo. No entanto, ele nem se moveu. Continuou me encarando, esperando alguma resposta.
— Já disse que é tudo muito recente. — tentei explicar.
Eu queria de verdade que ele entendesse que não poderia esperar muito coisa de mim agora. Mas não era assim com ele. Nick tinha a secreta esperança de que voltaríamos reatados para o Acampamento Meio-Sangue. Ele não estava mais conseguindo lidar com o fato de nosso estado indefinido.
— É recente, né? A morte de Ned.
Imediatamente fechei a cara.
— Isso não tem nada a ver com ele.
— Eu sei o que aconteceu entre vocês. Todo mundo nesse acampamento sabe, alias. Jenny já me contou tudo também. Por que você me esconde isso?
Eu estava com vontade de gritar algumas poucas e boas na cara dele.
— Esconder o quê?
— Que você se apaixonou por ele também!
E boom. Ele conseguiu o que queria: jogar a bomba atômica.
Nick recuou, me permitindo respirar um pouco. Ele andou até a parede do chalé e recostou-se nela, já totalmente transfigurado. Não parecia mais bravo comigo. Agora era Nick, o garoto doce de sempre. Porém, arrasado. Magoado por mim.
— O que ela te disse?
— Tudo o que eu precisava saber.
Jenny iria me pagar por aquilo mais tarde. Ô, se ia.
Eu não sei se estava mais irritada com ele por ter trazido tudo à tona ou se era comigo, por não nunca conseguir me resolver. Ned morrera sem saber se haveria uma chance para nós. Agora eu estava negando a Nick a mesma certeza.
Fechei os olhos e tentei ser sincera. Comigo e com ele.
— Eu quis me apaixonar por Ned. Eu só... não consegui.
— Por quê!?
Sentia-me tão exposta que mal conseguia olhar para ele.
— Porque ainda tinha você! Porque cada vez que eu estava com ele, era como se eu estivesse te traindo. Eu sabia que você estava me esperando. Odiava a ideia, mas, sim, sabia! Era horrível.
Ele esperou um pouco antes de falar.
— Mas eu tô aqui agora. O que nos impede, então?
Balancei a cabeça.
— Não sei.
Salvando-me daquela conversa, alguém gritou de dentro do chalé. Um grito assustado e esganiçado, como o de uma criança indefesa. Só podia ser Susana.
Nick dividiu o olhar entre a porta do chalé e eu.
— Espera um pouco. — ele disse antes de entrar apressadamente em seu dormitório.
Fiquei parada, sem saber ao certo o que fazer. Olhei em volta, a fim de ver se achava alguém conhecido andando pela área, mas não vi ninguém. Achei que Nick ficaria ofendido se eu desaparecesse depois daquilo tudo. Eu não podia simplesmente ir embora dormir, ou podia?
Timidamente, andei até o batente da porta para entender o que estava acontecendo.
Susana estava sentada em sua cama, um beliche encostado à parede do quarto. Sua testa brilhava com o suor e os fios de cabelo da franja grudavam na pele molhada. Era visível que tentava controlar sua respiração intensa e acelerada. A mão de Nick, ajoelhado ao lado da cama, estava pousada sobre o pulso dela, que tremia junto com a própria mão.
O cenário todo me permitiu supor que ela tivera um pesadelo.
Engoli seco.
Ultimamente, os sonhos de Susana vinham repletos de memórias recuperadas. E elas nunca eram boas.
Ao me notar, Susana arregalou os olhos, então olhou para seu irmão e depois para a palma das mãos. Abriu a boca para falar, no entanto pareceu ser impedida por uma onda de emoção que dominou seu rosto inteiro, contorcendo-o em feições de abalo. Quando ela começou a chorar, perguntei-me se eu deveria mesmo estar assistindo àquele momento íntimo.
— Sue, você precisa me contar, senão não posso te ajudar. — explicou Nick.
Ela assentiu, os olhos perdidos em algum ponto fixo.
— Eles... eles me bateram. — contou ela.
Nick travou o maxilar e, conhecendo-o bem, eu diria que ele estaria disposto a voltar a pé para o Alasca matar Sócrates, se ele já não estivesse morto.
— Por quê?
— Ouvi o que não devia. — ela franziu as sobrancelhas. — Sócrates mandou me darem uma lição por ter ouvido sua ligação. Ele estava consultando alguém. — Susana balançou a cabeça. — Não. Ele estava recebendo ordens.
Comecei a me preocupar.
Não fazia sentido algum ele receber ordens. Ele era o líder da revolução. Além disso, ele nunca permitiria que alguém subisse um degrau acima dele. Sócrates propusera poder aos semideuses, mas era óbvio que ele queria mais poder que todos os outros. Era viciado na sensação de superioridade. Não aceitava nem as intervenções de Susana, por que raios iria ser submisso a alguém?
— De quem? — me flagrei perguntando. — Ordens de quem, Susana?
Algum esforço foi requerido para lembrar-se do nome.
— Ele disse o nome. — ela deu uma longa pausa. — Era Infatigável.
Cambaleei para trás e, se a porta não estivesse logo atrás de mim, de certo eu cairia no chão. Ouvir o nome foi um balde de água fria que me deixou paralisada. Ele ecoou no fundo de meu consciente, me levando até a parte da memória onde ele se encontrava. O lugar não era nada, nada bom.
Senti meu coração começar a se acelerar em contraposto com minha pressão, que estava abaixando. Olhei para fora, para meu chalé, e só consegui pensar em uma coisa.
— Não pode ser. — deixei escapar, com a voz fraca. Voltei-me para os dois. — Venham comigo.
Não esperei que eles levantassem e logo fui marchar até o chalé seis.
As hipóteses e conjecturas inundavam minha mente. A cada passo que dava, eu filtrava as possibilidades, cursando até um resultado plausível. Conforme eu ia avançando, no entanto, mais ficava com medo. Só que eu não poderia me dar ao luxo de concluir qualquer raciocínio; precisava checar uma coisa antes.
Os gêmeos Johnson me seguiram para dentro do chalé que, pelo menos no andar térreo, encontrava-se vazio. Porém era lá embaixo onde eu precisava chegar. Acionei a coruja entalhada e a porta na parede se abriu, revelando a escada que levava ao covil. Respirei fundo e desci os degraus com lentidão receosa.
Fiz uma primeira varredura do lugar e encontrei apenas Clarck lendo um livro, sorridente. Tudo bem, pensei. Ele poder saber. Eu confio nele.
— Clarck. — chamei, o que fez com que ele levantasse os olhos e percebesse os visitantes. — Preciso de sua ajuda. Me acha uma Ilíada.
Ele evidentemente estranhou a presença dos dois ali e com certeza a reprovou, mas não hesitou ao me socorrer.
Nick reconheceu problema em minha preocupação. Do mesmo modo que eu conhecia, ele me conhecia. Ele devia estar sabendo que era coisa séria. Que não era qualquer coisa que iria me fazer agir assim.
Clarck veio até mim com um exemplar velha da Ilíada de Homero.
— O que está acontecendo? — perguntou.
Não respondi, mas lancei a ele um olhar que consentia que ele soubesse por si mesmo. Enquanto eu abria o livro com meus dedos trêmulos, Clarck acessou minha mente para descobrir o que estava acontecendo.
Abri no capítulo quatro e achei os versos que estavam procurando. Li apressadamente e, não absorvendo tudo aquilo, obriguei-me a voltar e ler mais uma vez.
Não, não. Mil vezes não. Por favor. Não.
Clarck, conhecedor ímpar da Ilíada, olhou a página em que me encontrava e rapidamente fez a mesma conexão que eu. Segurou o livro junto comigo e também releu aqueles versos, como que para ter certeza.
— Será? — ele indagou.
— Só pode ser ela.
Susana fungou o nariz, inquieta no lugar.
— Ela quem? — perguntou, nervosa.
Sem saber o que responder direito, apenas entreguei-lhe o livro aberto na página. Ela leu em voz alta:
— A Discórdia infatigável, companheira e irmã do homicida Ares, quem a princípio se apresenta timidamente... — ela parou a leitura e olhou para mim. — Discórdia infatigável?
— Éris. — Clarck respondeu. — Homero está falando sobre Éris, a deusa da discórdia.
Ouvir o nome dela sair da boca de meu irmão tornou tudo subitamente real. Senti como se o ar estivesse se tornando denso. Foi como se alguém tivesse envolvido meus ombros com um cobertor de chumbo.
— O que isso significa? — perguntou Nick.
Minha mente trabalhava de milhares maneiras diferentes para encontrar essa resposta.
Era óbvio que tinha que ter alguém por trás. Como eu não tinha desconfiado disso! O período entre a morte de Susana e a batalha ainda eram pequenos demais para construir toda a infraestrutura que Sócrates tinha. De arrumar todo aquele dinheiro.
Mas o que Éris ganharia com uma revolução semideusa? Por que ela iria querer que assumíssemos o poder do mundo?
A menos que ela não quisesse.
Tenho um meio de enfraquecer aos deuses...
Arregalei os olhos e soltei um arquejo espantado.
— Deuses. Não pode ser.
Nick segurou meu braço e, pela primeira vez, seu toque não me causou nada. Nem segurança, nem desconforto ou repulsa. Apenas não importava.
— Sam, o que é?
Senti meu mundo desabar aos poucos. Eu podia jurar que o chão iria escancarar-se naquele momento para me tragar por inteiro. Minha cabeça começou a rodar e o ar fugiu de meus pulmões. De repente, exprimir-me em uma sentença representava um grande desafio.
— Sócrates.... Ele...
Meus olhos começaram a arder e eu realmente não me liguei de segurar as lágrimas que ameaçavam a chegar.
— Quando ele nos disse que tinha um meio de enfraquecer aos deuses, esse meio era... Era a gente.
Olhei para Nick e seu rosto preocupado e só consegui pensar o quanto ele se sacrificou, nos sacrificou, achando que no final iria tudo dar certo. Que iria salvar conseguir salvar todos, dos dois lados.
— Como assim, Sam?
Comecei a andar pelo lugar, odiando a ideia de ficar parada numa hora dessas.
— O livro, a batalha, tudo! — eu disse, subindo meu tom de voz. — Tudo isso fazia parte de um plano maior, de um jogo! Um jogo que ninguém que ganha! Só ela!
As lágrimas começaram a descer, mas elas não eram suficientes para extravasar o que eu estava sentindo. Meu exterior esboçava uma pequena fração das ondas encapeladas de emoções que se colidiam com tudo que encontravam dentro de mim.
Cambaleei até a mesa de sinuca e me apoiei na borda.
— Pensávamos que estávamos indo salvar o mundo, mas, na verdade... Isso tudo só tinha um motivo! Que nós ficássemos naquela droga de lugar nos matando até dizer chega!
Susana pareceu não entender.
— Mas a revolução...
— Não tem revolução! — gritei. Tive que respirar fundo algumas vezes para controlar, eu tinha medo de alcançar um nível emocional que provocasse o estrago que fiz assim que Mia foi assassinada. — Era tudo uma mentira, um pretexto.
Eu estava me sentindo arrasada. No último ano e meio, imaginei estar indo contra o inimigo, quando, na verdade, estava jogando ao seu favor. Fui reduzida a uma pequena marionete, e eu sentia a veracidade desse fato como se meus próprios fios estivessem me enforcando.
Clarck conseguiu concluir meu raciocínio.
— Os deuses se fortalecem com nossas formas de devoção. É assim que a chama do Olimpo se mantém acesa.
— Então ele nos separou em dois. — Nick seguiu o pensamento, já entendendo tudo. — Ou ela. Eu não sei.
— Sócrates foi tão usado como nós. — eu disse. — Éris criou um motivo, através dele, para nos separar. Os do outro lado negaram aos deuses, o que já é ruim para a manutenção da chama. Mas então fomos para lá lutar e nosso número foi reduzido e...
— E os poucos que ficaram também estão zangados com os deuses. — Susana concluiu, com um olhar desolado. — Então os deuses perderam seus semideuses. A devoção, o respeito. Agora, são vulneráveis.
Eu não conseguia imaginar o porquê disso.
Até onde eu sabia, a deusa cultivava uma raiva por Zeus e Hera, os progenitores que a desprezaram. Por isso ela e seus filhos assombravam a humanidade, como forma de vingança pela rejeição.
Então era isso? Um plano sórdido de vingança?
— Éris deve ser muito poderosa. — Susana disse. — Se ela conseguiu fazer a cabeça de Sócrates, seu poder já consegue chegar até ao Submundo.
— Ela e seus descendentes têm poder de influenciar aos outros, assim como o pessoal do chalé seis e dez. — Clarck contou. — Só que sua influência é mais poderosa, é maligna. Ela leva sorrateiramente escuridão ao coração das pessoas.
— Por isso Sócrates foi de filósofo a doente mental. — Nick associou.
Por isso muitos aderiram a causa. Por isso que, quanto mais eu me envolvia com a história, mais amargura eu passava a colecionar. Por isso que ela obteve tanto sucesso.
Briana morreu por uma mentira. Ned, Mia, Júlia, tantos outros morreram por uma mentira.
Eu matei por uma mentira.
Apertei com força a borda da mesa de sinuca, convencida de que eu conseguiria parti-la em duas se pusesse um pouco mais de pressão. Lágrimas quentes saíram de meus olhos e abriram caminho até minhas maçãs do rosto.
Porém, tentando abandonar tudo isso, tentando me reencontrar em meio a tantas informações que pareciam me afogar, consegui me acalmar. Percebi que de nada iria adiantar se eu voltasse a ser vencida pela nuvem negra, que isso não iria dar em nada além de me deixar isolada da realidade.
Fomos enganados. Fizemos o trabalho sujo de um monstro. Os deuses estavam em sério perigo.
Essa era a realidade. Não tinha volta. Isso não iria mudar.
Limpei o rosto, respirei fundo, e voltei-me para os três.
— Isso não acabou ainda. — eu disse, determinada. — A Infatigável deve estar pronta para dar o próximo passo. Se os deuses estão fracos, ela irá usar seu poder neles.
O olhar de Clarck perdeu-se em algum lugar.
— Se ela conseguisse plantar a discórdia entre os deuses...
— Seria guerra. — Susana concluiu.
— Uma guerra entre os deuses. — Nick disse, praticamente desacreditado.
Gostaria de dizer que eu sabia o que aquilo poderia significar. Mas a verdade era o que eu não sabia. Uma guerra entre os deuses poderia representar a destruição do acampamento, ou até mesmo a do mundo.
Clarck despencou em cima da cadeira de uma das escrivaninhas.
— Céus, e agora?
Eu não sabia até onde aquilo poderia ir, não sabia se o plano de Éris incluía mais alguma coisa ou alguém, não sabia se seria párea para derrota-la ou como fazê-lo. Eu só tinha certeza de uma coisa.
— Agora vamos impedir que isso aconteça.
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