Acordar cedo foi mais difícil do que eu imaginei que seria. Minha cabeça doía e eu jurava que precisava de mais vinte horas de sono para compensar meu cansaço. Queen teve que, literalmente, me jogar para fora do colchão.

Estávamos atrasados e, por mais que eu soubesse que aquela seria a última refeição decente que comeria em um bom tempo, engoli o café da manhã. No Alasca anoitecia mais cedo do que outros lugares, mesmo usando os parâmetros de inverno. Precisaríamos montar o acampamento ainda à luz do dia.

Pegamos um táxi para voltar ao aeroporto. Encontramo-nos com Conrad e seu sobrinho, e eles nos trouxeram até o armazém onde havíamos deixado toda nossa carga. Quinze minutos depois, um grande ônibus escolar amarelo estacionou em frente ao armazém.

Certo, isso não é algo que vemos todo dia.

O motorista desceu do ônibus. Era franzino, com as feições do rosto ossudas. Tinha o nariz proeminente e sobrancelhas grossas. Seus cabelos, grisalhos e lisos, me davam uma noção de sua idade. Era antipático e parecia tão feliz por ter acordado cedo quanto eu.

— Yohan. — Alex cumprimentou o motorista. — Que bom vê-lo de novo.

Ele torceu o nariz.

— Igualmente.

Fizemos uma breve apresentação geral e voltamos ao trabalho. Quinze minutos depois, o ônibus estava pronto para partir.

Despedimo-nos de Conrad com uma chuva de agradecimentos por seu trabalho e tempo. Ele nos desejou boa sorte e ficou de olho em nós enquanto embarcávamos no veículo.

As portas soltaram um esguicho de ar e se fecharam. Conrad despediu-se com um aceno e saiu de vista. Jogamos as bolsas com comida e mais casacos nos primeiros bancos e olhamos para todas as possibilidades de lugares para sentar.

— Fundão! — Jenny berrou e correu para os últimos bancos, me puxando junto com ela.

Jenny era completamente complexada pelo fato de que sempre nas excursões conseguíamos chegar super atrasadas para o embarque, de modo que a gente nunca pôde escolher nossos lugares. O fundão era propriedade de Kimberly e suas dementadas fiéis escudeiras.

Ela pulou nas cadeiras e parecia estar tão feliz que poderia rolar nelas a qualquer instante. Revirei os olhos e sentei-me ao seu lado, mas, secretamente, o fato de termos conseguido realizar tal proeza me alegrava de igual forma.

Todos tomaram seus lugares, exceto por Alex, esta estava debruçada sobre o painel do motorista com Yohan, observando um mapa e traçando rotas.

— Vou precisar de gasolina para voltar. — Yohan disse. — Só essa estrada vai ter um posto a essa altura.

— Mas isso vai aumentar a viagem em, tipo, quarenta minutos! — Alex protestou.

— Não posso fazer nada.

Ela não pareceu gostar nada da ideia, porém não argumentou. Com a cara irritada, tornou a encarar o mapa a procura de rotas alternativas.

Algum tempo depois, eles entraram em um consenso. Alex veio até nós, aparentemente contendo a vontade de socar alguém, e anunciou:

— Serão cinco horas de viagem. Uma parada para banheiro e abastecimento. E teremos mais uma hora para levar aquilo a pé até a cordilheira.

Meus ombros penderam no corpo.

— Está de brincadeira. Como vamos carregar aquilo tudo?

— A gente pensa em algo até lá.

Yohan deu a partida e tudo começou a tremer ao som do motor barulhento.

— Vocês cansam minha beleza. — esfreguei meu rosto. — Tá. Tá. A gente dá um jeito. Talvez seja melhor a gente pegar a trilha só amanhã. O que acha, Thais?

Ela mordeu os lábios.

— Há uma chance da gente conseguir fazer tudo a tempo. Ela é muito pequena, mas, se a gente entrar num ritmo bom, talvez consigamos.

— Defina ritmo bom. — pediu Matt.

— Quantos quilômetros até o pé da cordilheira?

— Uns três.

Thais franziu o cenho, pensativa.

Era difícil calcular o quanto aquela tralha toda iria diminuir nosso ritmo de caminhada. Não eram apenas nossos pertences pessoais, mas um acampamento inteiro nas nossas costas.

— Vamos subir a trilha quarenta minutos. — ela disse. — Isso vai dar quase a metade do caminho. Acampamos por ali uma noite e de manhã a gente escolhe o lugar definitivo.

O meio termo das duas alternativas soava melhor aos meus ouvidos. Aconcheguei-me no encosto do banco e relaxei. Seria mais um longo dia de viagem.

_____

Para a infelicidade de Yohan, Jenny começou a puxar uma cantoria. Convenhamos, uma viagem de ônibus com os amigos sem música não é uma viagem.

Matt se encolheu no lugar e fingiu que não nos conhecia. Eu fiquei de pé no banco e fingi que minha caixinha de suco Del Valle era um microfone. Pulei para o banco da frente com a ajuda de Ned, então saltei para o banco do lado, o qual Matt estava sentado.

— Desce daí, menina! — gritou Yohan, me olhando pelo retrovisor.

Ignorei-o e apontei para Matt, como se fosse a Beyonce.

— Stop standing there, stop acting like you don’t care. — eu cantei. — Essa parte é pra você, Matt!

Ele mandou um olhar mal humorado.

— Você ouviu o Yohan. — ele empurrou minha canela. — Caí fora.

— A música, Matt! — Queen gritou por cima do som do motor e o de Jenny, que continuou a cantar. — Você não pode dizer não à música!

— Quero ver quem vai me obrigar.

Neste momento, Yohan teve que fazer uma curva fechada. Eu caí nas graças da lei da Inércia — literalmente falando: eu perdi o equilíbrio e caí para trás. Ned, que estava em pé ao meu lado, tentou amparar a queda quase que em vão. Bati as costas na lateral do banco do lado esquerdo e depois me joguei no chão, meio que resmungando de dor e meio que rindo da minha desgraça.

Os outros acompanharam-me na risada. Claro, pra que ajudar a Sam a se levantar? Rir é a prioridade.

— Acho que a música disse não para você, Sam. — Matt zombou.

— Vai se ferrar. — eu disse, ainda no chão.

Tomei coragem e levantei meu tronco. Minhas costas latejavam na região onde eu havia batido.

— Você está bem?! — gritou Yohan lá da frente.

Massageei a área atingida.

— Sim! — berrei de volta. — Quase fiquei paraplégica, mas sim!

— Se você subir nos meus bancos de novo, juro que eu termino o trabalho!

Segurei a gargalhada. Eu me sentia novamente no primário levando bronca da professora por ter desenhado no rosto do meu amiguinho enquanto ele dormia. Era errado, mas ainda era engraçado.

Por motivos de força maior, sentei-me quieta no meu lugar. Paramos a cantoria só por causa disso? Claro que não. Depois daquilo, Matt iria me ouvir cantar até seus ouvidos sangrarem.

Matt nem precisou ter os ouvidos ensanguentados para eu parar — sorte dele —, pois o sono foi maior que a vontade de inferniza-lo. Apoiei minha cabeça no ombro de Jenny e simplesmente deixei que o sono viesse.

_____

Em meu sonho, a primeira coisa que eu vi, foi Zack. Imediatamente, quis gritar seu nome e correr até ele, mas eu não tinha consciência nenhuma de meu corpo. Era como se eu nem estivesse fisicamente ali — porém, mental e emocionalmente eu estava, o que já era suficientemente agoniante.

Ele estava sentado em uma cadeira velha, com os pés e mãos amarrados. Um filete de sangue escorria pelo canto de sua boca. Zack olhava para alguém, e seus olhos brilhavam de raiva.

Não demorei muito até descobrir quem era.

Nick estava em frente a Zack; a postura, rígida; os punhos, cerrados. Sua respiração estava pesada e em seu rosto havia uma expressão estressada que poucas vezes eu já vira nele. Ao seu lado, outro garoto encarava Zack.

Estávamos numa sala escura e pequena. No canto, havia uns caixotes de madeira e algumas vassouras e baldes. Parecia ser um tipo de zeladoria abandonada.

— Facilite as coisas para mim, Zack. — Nick disse. — Para você. Responda: o que você falou com elas?

— Nada. — ele respondeu entre os dentes.

O companheiro de Nick deu um soco no rosto de Zack. O baque do violento golpe chegou alto aos meus ouvidos. Ele respirou fundo, cuspiu sangue no chão, e sentou-se ereto na cadeira.

— Quando eles estão partindo, Zack? — Nick perguntou. — O que eles descobriram?

Zack limitou-se a ficar olhando nos olhos de general inimigo.

— Me responde! — Nick berrou. Pude ver a veia lateral de seu pescoço saltar enquanto ele se exaltava.

Zack passou a língua no ferimento da boca e olhou para Nick, irritado.

— Eu não sei. — ele admitiu. — Vocês não me deixaram terminar a ligação.

— Mentira. — interveio o outro rapaz.

— Estou aqui para passar informações. — Zack explicou. — Não recebe-las.

O outro cara chutou o pé da cadeira e a derrubou, fazendo com que Zack batesse violentamente contra o chão. Em seguida, ele começou a lhe dar pisões.

— Quero ver você bancar de espertinho pra cima de mim agora! — ele lhe deu um chute no tórax. — Fala! — outro pisão — Fala!

Zack se encolheu.

— Vão ter... que me... matar antes. — ele disse, meio sem ar.

Senti vontade de chorar. Como Nick poderia permitir isso? Como ele poderia assistir a isso? Como eu pude ficar ao lado de uma pessoa assim por tanto tempo?

Era tão injusto. Enquanto dávamos uma festa no acampamento, cantávamos no ônibus, Zack passava por isso. Passava por isso tudo por nós. E eu não podia fazer nada além de tentar chegar até lá antes de acabarem com ele de vez.

Finalmente, Nick intercedeu.

— Pare. — ele mandou. — Já deu. — por um momento, consegui ver um lampejo de compaixão em seus olhos. — Ele não vai falar.

Ofegante, o outro semideus parou com aquela brutalidade.

— Quero falar com ele a sós. — Nick anunciou. Seu subordinado não pareceu gostar nada disso. — Prepare o porão para ele. Vá. Agora.

Ele obedeceu.

O barulho da porta se fechando ecoou pela sala mal iluminada. Nick encostou-se na parede e abaixou a cabeça. O sangue esfriou e seu rosto perdeu o tom rosado aos poucos. Os sons das respirações pesadas de ambos não se harmonizavam e isso dava um clima estranho ao ambiente.

Nick passou a mão por seu cabelo cheio, deixando-o totalmente arrepiado. De uma hora para outra, ele assumiu uma expressão totalmente cansada. Até mesmo culpada.

Zack estava caído de mal jeito no chão. Sua respiração era inconstante e pesada, alternando algumas vezes com um chiado forte. O sangue que continuava a escorrer por sua boca manchava o chão.

Zack e Nick costumavam a treinar juntos com frequência. Não havia outro filho de Poseidon no acampamento, então Nick acabava fazendo as atividades coletivas com o chalé de Apolo ou com qualquer outro que batesse o horário. Os dois não eram grudados, mas mantinham uma relação de respeito e admiração mútua. Imaginar que isso um dia aconteceria, antigamente, seria inconcebível.

Nick se abaixou ao seu lado.

— Eu não quero isso — sua voz saiu quase como um sussurro. —, mas você não está me deixando outra escolha. Por que simplesmente não para?

Zack deu um sorriso fraco.

— Cada um tem seu sacrifício a fazer aqui, meu amigo.

_____

Acordei porque havia perdido meu travesseiro. Jenny se levantara e estava esticando. Olhei em volta e busquei me orientar direito. Estávamos parados.

— Parada do abastecimento. — ela explicou. — Temos trinta minutos.

A sensação de poder me alongar depois de horas sentadas foi mágica. Enquanto Yohan abastecia o ônibus, fomos ao banheiro. Jenny e eu depois fomos até a lanchonete do posto comprar um engradado de Doctor Pepper para acompanhar nosso almoço. O melhor de estar submetida a uma temperatura de dez graus negativos é que não é preciso geladeira para tomar um refrigerante geladinho.

Yohan não quis compartilhar de nossa tranqueira no ônibus, foi almoçar um hambúrguer dentro da lanchonete. O sonho não saía de minha cabeça e eu mal conseguia engolir a comida por conta disso. Ficava apenas olhando Jenny rir e tirar sarro de tudo e todos e me perguntando qual seria a hora apropriada para acabar com aquela felicidade.

Se é que havia uma hora apropriada para aquelas coisas.

Yohan acabou seu almoço e voltamos à estrada. Não falei muito durante a segunda parte do percurso e todos pareceram notar isso. Quando fui interrogada sobre o fato, dei uma resposta evasiva qualquer. Jenny percebeu isso. Ela me mandou um daqueles olhares que falavam que iríamos ter uma conversa depois. E que a conversa iria ser nada agradável.

A civilização ia desaparecendo ao passo que nos afastávamos ainda mais da capital. A paisagem era uma mescla de borrões de branco, cinza e azul. Vira e mexe eu via algo se mexer por entres as árvores desfolhadas, porém eu nem me dei ao trabalho de distinguir as criaturas normais das do nosso mundo. De qualquer maneira, eu tinha a obrigação de estar preparada para ambos os tipos.

O ônibus parou em um pátio asfaltado circular, que levava a uma série de trilhas para aventureiros. Estava terrivelmente congelante fora do ônibus, mesmo após tendo parado de nevar, e meu corpo começou a tremer assim que eu desci do veículo.

Soube no momento em que uma rajada fria de vento bateu contra meu rosto que nosso maior inimigo nessa semana que iria se suceder seria o inverno do Alasca. Meu corpo se retesou inteiro e eu me abracei. Será que aguentaríamos estar expostos a isso por tanto tempo?

Matt abriu o compartimento lateral do ônibus e começamos a descarregar as coisas. Entre uma bolsa e um caixote, vi aquela rede do avião que agrupava e prendia as bagagens. Será que a trouxemos por engano? Não importava. Minha mente deu um click e arranjei um jeito dela se mostrar útil para nós.

Estiquei a rede no chão e pedi a todos que colocassem nossa tralha em cima dela. Jenny entendeu o que eu estava querendo fazer e começou a agilizar e descarregamento.

— Só aqui vai ter sinal de celular. — Yohan avisou. — Não esperem que faça um dia de sol tão cedo. Arco-íris serão difíceis de fazer.

Isso me fez lembrar que eu tinha que ligar para Clarck. Eu sabia que ele iria querer saber demais sobre nossa viagem, então liguei meu celular e apenas lhe enviei uma mensagem.

Chegamos bem. Indo para a cordilheira agora. Impossibilitados de enviar MI’s. Cuide das coisas aí para mim. Te amo.

Não demorei para desligar o celular. Eu não queria abusar da sorte enquanto estivéssemos naquele lugar.

Terminamos de descer tudo em dez minutos.

— Não se metam em encrenca. — Yohan mandou.

Alex ergueu o canto da boca.

— Nós viemos a procura de encrenca, cara.

Yohan franziu as sobrancelhas.

— Então não morram.

— Incentivador. — Jenny murmurou ao lado. Sorri.

Demos tchau e ele subiu no ônibus. O calor do motor ligado foi junto com ele e fiquei desejando poder correr atrás do ônibus para não me desfazer da fonte de calor. Porém eu tinha outra série de exercícios a fazer.

Virei-me para minha equipe — vendo todos unidos em um círculo daquele jeito, era assim que eu me sentia em relação a eles.

— Ok. Três puxam a rede, dois guardam a dianteira e dois guardam a traseira. Se não encontrarmos nenhum perigo no caminho, podemos começar a revezar.

Eles concordaram.

Olhei para o céu. Ele estava nublado e cinzento, era impossível ver a posição do sol. A noite poderia virar a qualquer momento.

— Sofía.

Com a espada empunhada, assumi a dianteira, juntamente com Thais. Eu conseguia enxergar no escuro, então, na pior das hipóteses, eu estaria apta a nos guiar por outra rota. Thais iria usar seus olhos treinados para encontrar as marcações da trilha.

Jenny pendurou a aljava nas costas e optou por ficar de guarda atrás da gente, assim como Alex. Os machões do grupo — Queen inclusa nisso, claro — foram arrastar nossas coisas.

Thais e eu nos orientávamos pelo mapa de Alex. Tínhamos um bom palpite de onde o acampamento inimigo se encontrava — entre algumas montanhas, a poucos quilômetros de um lago — e estávamos escolhendo para ficar a uma distância segura deles.

Perambulávamos por um mar de pinheiros. O aroma deles me fazia lembrar o Natal e isso me deixava um pouco menos nervosa. Eu quase conseguia me visualizar com cinco anos na cidade onde meu avô paterno morava, correndo por entre os pinheiros, extasiada pela oferta de pegar qualquer um que quisesse que vovô me fizera, gritando “é esse, é esse!”.

Jenny e Alex chutavam a neve enquanto andavam para tentar desfazer o rastro que a bagagem deixava no chão. Torci para que nevasse naquela noite, assim não teríamos que dormir preocupados em sermos achados e seguidos por causa daquilo.

— A gente pode acampar do outro lado do lago. — sugeri.

— Não vamos conseguir chegar até lá hoje. Não até a noite.

— Digo montar o acampamento permanente.

Thais encarou o mapa.

— Sim, pode ser. Depende da...

— Visibilidade deles lá da montanha. — completei. — Sim.

— Não podemos montar o permanente até estudar por onde eles pegam água do lago, se é desse lago que eles pegam água.

Respirei fundo. Iríamos bancar os nômades por um bom tempo.

— Ok. Dormiremos. A primeira coisa que faremos amanhã é separar dois grupos para achar esse acampamento.

— Eu num e você no outro. Quando for meio-dia, voltaremos para o acampamento improvisado.

— Certo.

Fiquei feliz ao ver que Thais e eu seguíamos a mesma linha de pensamento. Escolhe-la para estar conosco nessa missão foi a melhor coisa que eu fizera. Ter Thais como outra opção com quem trabalhar era bem melhor do que só suportar o Matt.

Estávamos conseguir manter uma passada que era quase uma corrida. Meus lábios estavam começando a ficar secos; fumaça saía por minhas narinas.

Voltei-me para trás.

— Quando cansarem, é só pedir que eu vou aí. — me dirigi aos que estavam levando o peso.

— Nem andamos um quilômetro ainda. — Matt retrucou.

— Eu sei, estou só falando.

— E eu aguento carregar os três quilômetros.

— Ok, fortão. Vou lembrar dessa força toda quando me for conveniente.

— Tipo quando eu der uma na sua cara?

Dei-lhe um sorriso e tornei a me focar no caminho. Eu voltava para a quarta série toda vez que falava com Matt.

_____

Achamos que o não teríamos mais do que vinte minutos até tudo ficar completamente escuro, então paramos. Procuramos um local onde os pinheiros eram mais agrupados e tinham a folhagem mais densa. Na primeira noite seríamos mais vulneráveis.

Pegamos três barracas pequenas em nossas coisas e começamos a arma-las. Abrimos as lonas e separamos os bastões por tamanhos.

Decidi tornar aquilo mais dinâmico.

— Jenny. — chamei. — Vamos catar pinhas.

Ela assentiu e deu o bastão de acrílico que estava segurando para Alex, que não pareceu gostar de fazer trabalho a mais. No entanto, precisávamos de uma fogueira. As pinhas eram um perfeito combustível.

— Não vão para longe. — Ned mandou.

— Sim, papai. — Jenny respondeu com o ar entediado.

Rondamos as árvores mais próximas, de olhos no chão. Conseguimos achar só uma ou duas pinhas soterradas, então decidimos ampliar mais um pouco nossa área de buscas.

Jenny estava quieta e eu sabia que isso era sinal de perigo — ela estava preparando terreno para falar algo. Ela esperou até que estivéssemos a uma distância considerável dos outros para desembuchar.

— Sonhei com você.

Engoli seco. Ela não havia dito aquilo com um tom alegre como quando ela conta sobre sonhos em que eu matava um unicórnio ao lado do Pierce Brosnan ou coisa do tipo.

— E acordou feliz? — chutei, com um sorriso de falsas esperanças.

Ela fez que não com a cabeça.

— A gente poderia fugir. Pra bem longe. E então fingiríamos que não temos responsabilidade nenhuma.

— Jenny, o que você viu?

— Seria legal, não seria? Largar tudo e não ter que lidar com isso.

— Jenny. Sua cota de fugidas do mês já esgotou. O sonho.

Ela deu mais alguns passos, muda. Pegou uma pinha no chão e limpou a neve em cima dela. Vi que suas mãos tremiam.

— Sam, eu... — sua voz estava embargada.

Prendi a respiração, nervosa.

Mil coisas passaram por minha cabeça. O que poderia acontecer de tão ruim assim? Será que tudo daria errado? Seríamos submetidas à Nova Era? Será que alguma coisa aconteceria na batalha? Será que iriam nos separar?

Ela olhou para mim e vi que seus olhos estavam cheios de lágrimas.

— Você estava lá... E estava toda ensanguentada... Seu rosto estava branco e... — ela enxugou a primeira lágrima eu escapara dos olhos. — Meus deuses, eu não quero lembrar disso.

Andei até ela e segurei seu pulso. Eu estava com medo do que ia ouvir, mas queria me mostrar emocionalmente estável para ela.

— Fala. — pedi.

Ela piscou várias vezes e olhou para os lados.

— Clarck estava lá. Queen também, e eu estava discutindo com ela. Estávamos tentando parar o sangramento e você não se mexia mais... — ela fungou. — Clarck estava desesperado e implorava para eu fazer alguma coisa. Muitas pessoas corriam de um lado pro outro, gritando instruções, e eu só queria silêncio pra tentar te salvar... Sam, foi uma visão.

Tentei absorver o impacto de suas palavras. Eu não queria acreditar. Mas tomei consciência do que ela me dissera e foi como se tivessem me dado uma rasteira. Depois de tudo que passei até chegar aquele ponto, eu morreria. Eu. Morta.

— Po-pode ser que eu não tenha morrido. — disse mais para mim do que para ela. — Pode ser que eu...

Jenny balançou a cabeça e começou a chorar; e depois largou as pinhas no chão para me abraçar.

— Eu sei que falo isso pouco, mas eu te amo.

Apertei-a bem forte contra meu corpo.

— Eu também te amo. — minha voz saiu falhada. A respiração quente dela aquecia meu pescoço e suas lágrimas umedeciam meu casaco. — Mas a gente pode mudar isso. A gente sempre pode. Você mesma me disse. Lembra?

Jenny meneou a cabeça.

— Foi tão real. Eu senti todo aquele nervoso... o medo também.

Larguei-a e peguei suas mãos.

— Não vai ter que passar por isso. — eu estava começando a ficar decidida. — Não vou deixar.

Ela me soltou e começou a andar.

— Para, Sam! Para! Você sabe que vai fazer qualquer coisa para matar Sócrates. É por isso que está aqui. — ela se virou para mim. — Não é?

Procurei argumentos para debater, mas não os achei de imediato.

— Não estou preparada para fazer isso de verdade. — ela admitiu.

Isso me desabilitou por inteira. Jenny raramente demonstrava afeto sem usar seu bom e velho sarcasmo, mas, quando o fazia, ela me quebrava toda. Vê-la daquele jeito era a pior coisa do mundo; eu sentia a obrigação de fazer com que ela ficasse bem. Em contrapartida, eu não poderia prometer nada a ela. Não iria fazer isso.

— Eu... Eu não...

Jenny passou as mãos pelo rosto.

— Eu só precisava te contar. — ela disse. — Você tinha o direito de saber.

— Vamos fazer alguma coisa. — foi tudo o que consegui falar.

Ela olhou para mim, chateada, como se esperasse outra resposta. Mas o que ela queria que eu dissesse? Eu nem estava pensando muito bem. Não é fácil ficar interpretando os outros quando você descobre que pode estar prestes a morrer. Ou não. E esse “ou não” talvez seja pior que a própria descoberta.

— Vamos pegar logo as pinhas. — ela disse, por fim.

Voltamos ao nosso acampamento quando coletamos um número razoável de pinhas. Eles já haviam montado as barracas e pegaram algumas pedras para ajudar a montar a fogueira.

Peguei latinhas de sopa para esquentarmos e jantarmos. As conversas que se sucederam limitaram-se a reclamações de cansaço e expectativas para o dia seguinte. Nem eu e nem Jenny falamos muita coisa durante a refeição. Eu só conseguia encarar aquela coisa viscosa em minha lata e pensar que essa poderia ser minha última refeição.

Através da fumaça da fogueira, eu via o rosto distorcido de Jenny. Ora ele me encarava, visivelmente preocupada e triste, ora ela fitava o chão, com o olhar vazio. Aquilo era insuportável — era como ver outra pessoa tomar o corpo de minha melhor amiga.

Eu trouxera Jenny comigo para que ela não arriscasse sua vida com babaquices.

Agora a mesa virara. E para meu lado.