Samantha Roberts - Guerra Fria
14 Dormir seria legal
Notas iniciais
Gostaria de falar que levantei assim que o dia raiou, porém eu nem sequer dormi. Cheguei a me voluntariar para fazer a vigília da noite, mas fui barrada logo em seguida por Matt, que disse que eu não iria passar uma noite inteira exposta àquele frio. Contrariada, fiquei deitada na barraca, ao lado de Jenny, encarando a lona azul-marinho.
O clima gelado deixava meu corpo mole ao mesmo tempo que as variáveis do que viria a seguir despertavam minha mente. Calculei a distância do acampamento até as montanhas mais próximas e fiz uma estimativa de tempo que demoraríamos para chegar até lá. Repeti o processo mais duas vezes. Visualizei o mapa da região, todas suas linhas e contornos, e procurei por outras montanhas mais próximas, caso não achássemos nada no dia seguinte.
Permiti-me fantasiar algumas cenas possíveis. Imaginei uma batalha épica e os campistas do Acampamento Meio-Sangue juntando escudos enquanto gritavam. A cena seria emocionante em um filme de ação, mas só o fato de saber que lutaríamos contra nossos próprios irmãos me dava um nó na garganta.
Pensei em como seria meu encontro com Sócrates — a troca polida de insultos, o confronto de espadas e de mentes. Bolei as últimas palavras que dirigiria a ele antes de matá-lo, mas depois vi que isso era idiotice. Além disso, eu poderia morrer ao invés dele.
O que causaria minha morte? Será que eu morreria pelas mãos dele? O que motivaria essa morte — falta de atenção, movimentos impensados, falta de habilidade?
Briana uma vez me dissera que fazer o que era necessário nem sempre era fazer o que era certo. Valeria a pena me sacrificar daquele jeito se a recompensa fosse a morte de Sócrates e o estancamento da rebelião? Os fins justificam os meios?
E, claro, também tinha Nick. Em uma hora ou outra, ficaríamos cara a cara novamente e só de pensar nisso o ar fugia de meus pulmões. Minha barriga começou a doer e eu não conseguia classificar esse nervosismo como bom ou ruim.
Eu não queria nem saber o que eu seria capaz de fazer quando o visse novamente. A vontade era de berrar o que eu entalei em minha garganta no último meio ano, mas eu sabia que não nos encontraríamos em circunstâncias apropriadas para uma DR. Sorte a dele.
Pensei no sonho que tive e em como ele assistiu a toda aquela sessão de tortura. Revolta e mágoa se misturavam e faziam com que meu peito ficasse esquisito. Parte de mim o condenava por essa atitude. A outra parte, silenciosamente, ficava de luto pelo Nick que eu conhecia e que há tanto se perdeu.
O Nick por quem eu me apaixonara.
Espantei esse pensamento. Nosso passado ele destruiu no mesmo dia em que ele acabou com todo o resto. Só havia o agora. E, no momento atual, ele era meu inimigo. Se eu tivesse que matá-lo para chegar até Sócrates, iria.
Engoli seco.
Iria?
Dei graças aos deuses quando Queen, preguiçosamente, esfregou os olhos e resmungou algo. Finalmente estava na hora de voltar ao trabalho. Desejei bom dia a ela, que me fuzilou com os olhos. Ah, claro. Esqueci que Queen não falava de manhã. Ou fazia movimentos bruscos. Ou era feliz.
Ela ergueu o tronco e se espreguiçou. Ouvi os ossos de sua coluna estralarem. Queen olhou para mim, com os olhos semicerrados e remelentos, e disparou:
— Você está com uma cara horrível.
Bom dia, Sam. Como foi a noite? Dormiu bem?
Não muito bem, Queen. Foi uma noite desastrosa. Mas, mesmo assim, obrigada por se importar.
— Você também não está com a melhor das aparências. — retruquei, observando seu cabelo despenteado.
Ela apenas ficou encarando um ponto fixo qualquer.
Jenny remexeu-se em seu lugar e puxou o saco de dormir para cima de sua cabeça.
— Meu santo Febo Apolo, vocês podem calar a boca? Obrigada.
Queen deu ombros e despencou em cima de Jenny, que estava com sono demais para reclamar.
Eu queria me juntar ao montinho da soneca, mas sabia que nosso tempo era precioso, por isso fiz um esforço adicional para me ajoelhar perto delas e cutuca-las.
— Vamos lá, meninas. — eu repetia.
— Mais cinco minutos! — pediu Jenny.
Queen e Jenny se aninharam uma à outra e se recusaram de mover o traseiro gordo.
Bufei.
Birras exageradas pedem medidas exageradas.
Preparei meu psicológico antes de abrir o zíper de barraca. Fui para fora como quem se entra na piscina fria: de uma vez. O choque foi avassalador e me deu vontade de cair no chão em posição fetal e chorar. E eu ainda reclamava do clima de Nova York.
A barra de minha calça começou a umedecer quando afundei na neve até os tornozelos. Praguejei. Eu odiava quando aquilo acontecia.
Uma figurava estava curvava-se sobre o que restara da fogueira da noite anterior. Era Thais, já preparada para o serviço.
Ela deu um pequeno sorriso ao me ver.
— Bom dia, Sam. — desejou.
— Bom dia.
Está vendo, Queen? Ela não morreu.
Fui até nosso amontoado de bolsas e peguei uma calça e uma jaqueta de tecido impermeável. Se eu continuasse a me molhar daquele jeito, poderia pegar uma pneumonia ou algo do tipo.
— Nevou muito ontem a noite. — constatou Thais.
Assenti, colocando um pé dentro da calça. Meu tornozelos já doloridos de frio perceberam isso por mim.
— Mas o clima parece estável agora. — ela complementou.
Olhei para o sul, onde amedrontadoras e corpulentas nuvens cinza-escuro lutavam por espaço, sobrepondo uma a outra. Estava ventando um pouco, mas, com sorte, poderíamos voltar ao acampamento antes que elas viessem.
Percebi que Matt estava amarrando seu tênis (qual a necessidade de tantos nós?) à direita. O acréscimo de volume de roupa fazia com ele parecesse mais forte do que já era. Ele exibia uma expressão carrancuda enquanto puxava e amarrava com força os cadarços. Eu sentiria medo se esbarasse com ele pela rua e me deparasse com aquela cara mal humorada.
Mas, qual é, era o Matt. Inofensivo como uma joaninha.
— Estão prontos? — perguntei.
Thais levantou-se e pegou a aljava que jazia ao seu lado no chão, limpou com a mão a neve na borda do objeto e o pendurou nas costas.
— Podemos ir a qualquer momento.
Meneei a cabeça como um incentivo.
— Mas antes — eu me agachei e peguei um punhado de neve. —, preciso acordar as garotas.
Matt deu um sorriso aprovador.
— Você vai morrer.
— Eu sei.
Talvez levar neve na cara não fosse uma das formas mais agradáveis de acordar do mundo, mas era algo extremamente eficiente. Jenny e Queen que o digam. Após me xingarem de coisas que nem eu sabia que eram xingamentos, as duas se levantaram e mostraram serviço.
Decidimos que Thais iria com Alex investigar o lado Leste de nossas montanhas-alvo; eu iria com Matt na direção oposta.
Não aprovei muito a ideia de ir com Matt. Ter dois filhos de deuses da guerra empenhados na mesma coisa poderia se tornar algo muito conflitante. Matt e eu brigamos até para decidir qual marca de sopa de lata seria melhor para levarmos para a viagem — eu queria que fosse a Heinz, mas nããão. Só Campbell's é sopa de verdade para ele.
Achei que, mesmo com quatro pessoas em campo, nós poderíamos ser ainda mais produtivos.
— Vocês que vão ficar poderiam se revezar para ir pegar água no lago.
Ned olhou na direção do lago.
— Pode ser. E também podemos checar se eles fazem uso dele.
— Ou se tem algum dos deles por lá. — complementou Jenny.
Assenti.
Reforçamos que todos deveríamos estar no acampamento ao meio-dia. Cada grupo tinha um relógio de pulso para controlar o horário. Se alguém não estivesse no local marcado dentro do horário, esperaríamos mais dez minutos e, então, mandaríamos alguém para checar o que houve de errado.
Calcei minha luva sem dedos. Ela era feita de um material de couro bem aderente; eu gostava de manusear minha espada enquanto a vestia.
Fiz o sagrado ritual de verificar se o colar estava em meu pescoço, mesmo sabendo que ele estaria. Uma vez pronta, me ajuntei à Matt e adentrei na floresta com ele.
O barulho de nossos passos contra a neve me preocupava. Eu não queria atrair monstros até nós, ou até mesmo semideuses inimigos que poderiam estar fazendo uma eventual ronda.
Matt andava com a mão sobre o punho de sua espada. Seus olhos estavam atentos a qualquer coisa que se movimentasse ao nosso redor.
— Como vamos proceder se fomos vistos? — perguntei baixinho.
Matt franziu o cenho.
— Capturamos eles.
Mordi o lábio inferior. Eu sabia que Matt e eu conseguiríamos imobilizar e render até um grupo pequeno de pessoas, no entanto a ideia ainda soava desagradável para mim.
— Não sabemos se eles são muitos. — rebati. — Podem sentir falta se capturarmos alguém.
Matt bufou e uma nuvem grande saiu de sua boca. A falta de informação era o que mais atrasava nossa vida.
Ouvimos um estalo alto e paramos. Varri o perímetro com os olhos a procura de qualquer coisa que representasse ameaça. O cenário branco da floresta parecia inalterado.
Matt espremeu os olhos para enxergar melhor, porém não havia nada para ver além dos grandes e imponentes pinheiros de três metros de altura, que, de alguma forma, pareciam estar nos zombando pela excessiva cautela.
Meu companheiro de quarta série cuspiu no chão e voltou a andar.
Torci o nariz e fui atrás dele. Quanta nojeira.
— Odeio esse lugar. — resmungou Matt. — Sou capaz de atacar até um esquilinho se ele fizer um desses barulhos. Meu cérebro fica em vigília constante.
Demoramos uma hora e meia até chegar ao nosso destino. A quinhentos metros, duas gigantescas montanhas se estendiam, uma um pouco a frente da outra. Atrás delas, eu conseguia enxergar o cume de mais duas montanhas. Era um perfeito cercadinho. Logo depois das montanhas, em segundo plano, uma verdadeira cordilheira marcava o relevo da península.
O lago estava a nova direita. Eu conseguia ver onde ele terminava, aos pés da montanha. O azul escuro da água do lago encontrava com o amarelo da areia. Mais acima, pinheiros formavam uma berreira entre a praia e a montanha. Olhei para trás e admirei a extensão das águas. Com certeza, ia muito além de onde montamos acampamento.
Sentei nas raízes de um pinheiro, de costas para as montanhas. Saquei o mapa que estava em meu bolso e comecei a dar uma olhada.
— Lago Tustumena. — eu disse o nome do lago.
— Obrigado. Essa informação mudou minha vida.
Mandei-lhe um olhar zangado e procurei saber a que altura do lago estávamos. Usei as escalas do mapa e fiz as transformações mentalmente. Eu não tinha nenhum instrumento para medir, por isso fui pela minha noção espacial. Presumi o que o resultado teria uma margem de erro de cem metros ou coisa parecida.
— Entre essas duas montanhas da frente... Acho que isso aqui possa ser um desfiladeiro.
Matt ficou em posição de cócoras ao meu lado. Inclinei o mapa em sua direção.
— A entrada. — ele concluiu.
— O equipamento de alpinismo ficou lá. Não vamos poder subir muito na montanha para enxergar algo.
— Está sugerindo que...
— Estou lamentando que o plano mais eficiente em obter informações seja imprudente.
— Chegar no meio do desfiladeiro e é isso mesmo?
— Não estou falando que vamos fazer isso. Ainda quero ir pelas montanhas. Subiremos o máximo que der e chegaremos o mais próximo possível. Se ainda não conseguirmos uma boa visão...
— O que está esperando?
Dobrei o mapa e coloquei-o de volta ao meu bolso.
— Um grande portão, no mínimo. Eles sabiam que viríamos a qualquer momento, então deve ter guardas por lá. Sonhei uma vez com o acampamento... Eles têm uma boa estrutura. Vi umas mesas de pedra e um tipo de arena, um espaço aberto para lutar.
— Viu os limites do acampamento?
Praguejei. Não. Vi apenas Nick se exibindo com Michel.
Neguei com a cabeça.
— Talvez eles tenham algum tipo de muro. Não sei.
Seria muito mais fácil bolar algo tendo mais algumas informações. A localização aproximada do acampamento fora tudo o que conseguimos obter de Zack durante os últimos seis meses. Não queria desmerecer o trabalho e a coragem de Zack, mas saber ao menos há quanto tempo o acampamento estava construído não seria nada mal.
— Vamos por partes. — eu disse. — Precisamos, primeiro, ter certeza de que esse é o local certo.
Matt levantou-se e olhou para as montanhas.
— Vamos nessa.
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