Samantha Roberts - Guerra Fria

20 Reencontros e intrusões


Notas iniciais
Uma vez a cada quinze dias, duas vezes a cada sete dias... Esqueçam um padrão. Não vai rolar haha.

— E você o beijou de volta? — Jenny perguntou.

Levantei a lâmina de minha espada e mirei bem antes de desce-la em direção ao talho do pequeno pinheiro a minha frente. Emiti um fraco grunhido devido ao esforço, mas a verdade é que eu estava afim de gritar.

É claro que ela queria saber cada detalhe do ocorrido. Eu que não tinha certeza se queria ficar relembrando a cena várias e várias vezes.

Retirei a espada cravada na madeira e dei espaço para Jenny dar seu golpe.

— Sim.

Jenny deu com sua espada com força no talho que abrimos.

— E gostou? — ela retirou a espada. — Que pergunta. Claro que você gostou. Estava quase engolindo meu irmão! Faria de novo?

— Não. — disse apressadamente. — Sim. Talvez. — bati novamente na madeira, deixei a espada lá e cobri meu rosto com as mãos. — Deuses, o que estou fazendo com minha vida?

Jenny encostou-se no pinheiro e expirou, fazendo com que o espaço em frente a seu nariz ficasse enevoado. Seu rosto estava avermelhado e eu seria capaz de dizer que ela estaria suando se não fosse pelo frio excruciante.

— Não acho que você está tão confusa quanto você acredita estar. — ela disparou.

Olhei para ela com um ponto de interrogação na cara.

— Ah, qual é? — Jenny disse. — Eu te conheço muito bem. Você se conhece bem. Não sei por que fica jogando isso pra depois. Meu irmãozinho tem o coração mole demais para você ficar fazendo isso.

— Deuses, não estou fazendo isso para...

— Eu sei. Sabe do que você precisa? Uma tarde comigo, um pacote de pipoca amanteigada e um filme com a Rachel McAdams. Assim você poderia esvaziar a mente e ver a confusão que você mesma cria.

— Que saudades da Rachel. — eu confessei, mordiscando o lábio inferior.

Eu estava a ponto de explodir ou chorar. Perguntei-me se não haveria hora mais apropriada para entrar na TPM. Nunca nos relatos antigos já se leu “e, antes de ingressar na batalha, nossa heroína comeu montes de chocolate e chorou no colo de sua melhor amiga, pois estava quase naqueles dias.”

— Aliás, por que estamos fazendo isso? — indagou Jenny. — Isso é trabalho do Matt.

Agarrei o punho de minha espada e tirei-a da árvore só para depois ferir a madeira novamente.

— Porque quero esmurrar alguma coisa. — respondi, sem mais nem menos.

— Samantha Roberts, você é um perigo.

Conseguimos derrubar o pinheiro somente alguns minutos depois. Cortamos os galhos e ramos e depois transportamos a tora com certa dificuldade até o acampamento, onde a usaríamos como banco.

Acho que naquela manhã aceleramos os preparativos porque, de algum modo, todos sabíamos que o resto estava a caminho. Não demorou meia hora após termos acabado de almoçar para ouvirmos um coro de passos em algum lugar não muito longe da gente.

Meu coração disparou. Eu havia esperado aquele momento por sete longos dias. Queria mostrar a Quíron nosso trabalho, queria ver todo mundo junto novamente, queria também dar um abraço apertado em meus irmãos. Mas, principalmente, queria partir logo para a luta e acabar logo com tudo aquilo.

Quase me derreti quando vi Clarck despontar no meio das árvores ao lado de Quíron. Ele estava tão encasacado que mal parecia ter pescoço. As maçãs de seu rosto adquiriram um tom roseado sob as lentes quadradas de seus óculos.

Não resisti e corri até ele para um abraço. Clarck me acolheu e me envolveu firmemente com seus braços. Gargalhei de felicidade.

— E não é que você não botou fogo não acampamento inteiro? — ele alfinetou.

Apertei suas bochechas, coisa que sabia que ele odiava, e me virei para Quíron, ainda sorrindo.

— Que bom que nos encontraram.

— As Caçadoras são ótimas rastreadoras. — disse o bom e velho centauro. — Não tivemos grandes dificuldade.

Vários rostos familiares vinham atrás deles e eu estava muito bem feliz fazendo um reconhecimento de cada um deles até avistar Mary. Claro que eu ficaria estupidamente alegre por rever minha meia-irmã mais nova — o problema era quem estava ao seu lado.

De mãos dadas com Mary, uma saltitante Mia vinha ao meu encontro. Meu sorriso murchou e a raiva tomou conta de mim. Olhei furiosa para Clarck, que encolheu os ombros e levou Quíron até Matt e os outros.

Agachei-me para receber o abraço de Mia e a ergui em meu colo.

— Ei, pequena. O que você faz aqui? — perguntei a ela, mas olhando para Mary.

Não foi minha culpa, Mary disse em minha mente.

— Eu fugi! — Mia respondeu, convencida. — Fui escondida com eles!

— É. — Mary concordou, o estresse visível em sua voz. — Essa pestezinha.

Tentei convencer a mim mesma que aquilo não era grande coisa, que ela não iria pro campo de batalha de qualquer jeito. Infelizmente, eu não era tão boa em convencer a mim como eu era em convencer aos outros. A simples presença de Mia naquele ambiente me deixava tensa e preocupada. Eu não queria que ela tivesse que se submeter a tais condições.

Mia abraçou meu pescoço com seus braços fininhos.

— Eu quero ficar com você!

Olhei para Mary a procura de ajuda, mas ela apenas ergueu a palma das mãos para cima como quem diz “O que posso fazer?”. Apertei Mia contra meu corpo e a ajustei no meu colo. Ela não era tão levinha quanto parecia.

O restante dos campistas passava por nós — alguns animados, outros cansados pela viagem. Victor veio entre alguns irmãos e parou ao me ver.

— Cunhada! — ele me cumprimentou ao sorrir.

Pelo menos ele ainda não me odeia, pensei. Com sorte, Victor talvez tivesse superado a discussão com Jenny e visto que eu não estava a encaminhando para o lado negro da força.

Ou aquele cretino estava sendo completamente falso comigo.

Torci para que fosse a primeira opção.

— Cunhado. — eu cumprimentei de volta. — E aí?

— Bem. Bem cansado e bem aliviado por estar aqui. Por acaso, você sabe onde está a...?

Victor foi um interrompido por um vulto de cabelos castanhos que voou em cima dele para um abraço apertado.

— Que saudades, que saudades, que saudades! — Jenny recitou repetidamente enquanto Victor a apertava pela cintura e a rodopiava.

Os dois só pararam para um beijo, o que supus ser um selamento oficial de pazes. Mary arqueou as sobrancelhas para mim com um ar de divertimento. Esses jovens, eu disse em sua mente.

— Eca. — Mia fez careta.

Soltei uma pequena risada.

— Vamos, Mia. — eu disse, me virando para o outro lado. — Vamos deixar esses dois namorando aí.

Jenny sorriu para mim, o rosto colado contra a bochecha de Victor.

— Isso é nojento. — Mia disse.

— É mesmo. — concordei.


Demorou algum tempo até todos escolherem suas respectivas barracas. Algumas comportavam quatro; outras, seis. E ainda havia algumas barracas encantadas pertencentes à Caçada que tinham um interior mais amplo que do aparentavam ter por fora, estas que podiam acomodar dez pessoas ligeiramente apertadas.

Ao escurecer, por volta de quatro e meia da tarde, acendemos uma grande fogueira e nos reunimos no centro da clareira. Alguns filhos de Hefesto domadores de fogo tiveram o cuidado de controlar a fumaça da brasa, para proteger nossa localização sigilosa.

O medo me abateu quando notei nosso modesto número de combatentes. Só em meu pequeno vislumbre do acampamento inimigo vi mais pessoas do que tínhamos reunidas ali. Cruzei os dedos para que o elemento surpresa do ataque realmente nos colocasse numa posição muito vantajosa.

Quíron abriu espaço para que nós, os sete, descrevêssemos nossas descobertas para todo o resto e começássemos a tracejar nossa estratégia.

Matt falou da proteção e das torres de vigia. Thais comentou sobre os canos no lago e sobre como isso indicava que a estadia deles ali era longa e que eles estavam comungados com a polícia ambiental. Alex falou sobre os Indomáveis e de como eles nos poderiam ser úteis.

Eu assistia a tudo aquilo entre Clarck e Mary, com Mia sentada em meu colo. Eu sabia que iria ter que falar alguma coisa, naturalmente, mas não sabia sobre o que especificamente abordar.

Alex me deu a vez.

— Er... Eles vivem enclausurados entre quatro montanhas. — comecei. — O acampamento mantém um ritmo de treinamento intenso. Choques, colisões, gritos. Duvido que todo esse barulho não teria causado uma avalanche em circunstâncias normais. Se querem saber, acho que eles têm algum tipo de barreira de som.

— Isso é possível? — Quíron perguntou a Julia Parker, conselheira-chefe do chalé de Hécate.

Julia deu ombros.

— Nada é, tecnicamente, impossível. — respondeu ela. — Não duvido que possa ter um encantamento para isso. E, se tem um encantamento, tem um meio de desfazê-lo. Mas não é algo que se possa fazer sozinho, não com as proporções do acampamento que eles deram. Tipo, iria precisar de muita força mesmo.

Assenti.

— Se quebrássemos essa barreira... — joguei essa ideia no ar gelado por uns instantes. — Em último caso, poderíamos soterra-los com a neve.

— Por que em último caso? — perguntou Tim, um filho de Hermes magricelo. — Seria muito mais fácil se só fizéssemos isso.

— Porque vidas podem ser salvas. — eu respondi logo em cima, olhando para Quíron em seguida. Ele meneou a cabeça, como que aprovando minha linha de raciocínio. — Podemos rendê-los, tomar o acampamento, matar Sócrates e destruir tudo. Não viemos até aqui para uma carnificina.

— Vai arriscar a nossa vida para salvar a deles? — rebateu alguém da segunda fileira de toras que não consegui distinguir.

— Não sei se vocês lembram, mas estamos indo lutar contra nossa família. — pontuou Ally, que estava sentada próxima ao fogo. Mandei-lhe um olhar agradecido pelo apoio.

— Nossos irmãos. — especifiquei. — Primos, amigos! Se tiverem a coragem e falta de humanidade de matar alguém a não ser que seja em legítima defesa, façam. Sério, vão lá. Deem a eles o castigo que merecem. Eu não vou participar disso. O conselho só autorizou a cabeça de uma pessoa.

Recebi olhares furiosos e ressentidos e procurei afastar a sensação de estar errada. Eu sabia que era a coisa certa a se fazer.

— Projetei algumas bombas com Austin. — prossegui. — Vamos implantá-las amanhã e ter esse plano B se tudo der errado. Mas, para amanhã, sugiro a falange. Um só corpo empurrando o resto para o outro canto do acampamento deles, longe do arsenal. Precisamos combinar como formar a unidade sem perder muito tempo.

— A clássica? — perguntou Matt.

Assenti.

— Lanças e escudos na frente, espadas e escudos atrás. Os arqueiros devem tomar as muralhas e proteger a falange. O problema é que não é um campo aberto para a batalha... Vamos ter que dividir essa falange em três menores.

— Perigoso. — Matt opinou.

Franzi o cenho.

— Sim, eu sei. Mas estamos em menor número. É o único jeito de impor força. Se optarmos pelo corpo a corpo... Vai ser um caos. Derrota na certa. O importante é não desfazer a formação. — disse as últimas quatro palavras devagar e articuladamente.

Mia estremeceu de frio e eu abracei-a com mais força. Praguejei. Uma garotinha de sete anos não tinha que ficar ouvindo esse tipo de conversa.

— Os detalhes mais importantes discutiremos ao amanhecer. — finalizou Quíron. — Vocês precisam descansar.

Descansar? Faltavam apenas algumas horas para a batalha que me sentenciaria a morte. Como alguém poderia descansar nesse estado?

Um jantar vitaminado nos foi servido.

Mal consegui mordiscar aquelas barrinhas secas que me ofereceram. Eu estava compenetrada demais em procurar o que poderia dar errado: a falange de desfragmentar mais ainda, as bombas não explodirem, eles conseguirem se recompor e nos cercar, não conseguir invadir a fortaleza de Sócrates. Até ser pisoteada por Deino poderia ser uma opção cabível.

Eu havia acabado de me decidir que aquilo não era saudável e que eu deveria me deitar quando Mary reapareceu com Mia.

— Ela quer te fazer uma pergunta. — Mary anunciou.

Mia veio até mim, tímida, e puxou a barra de minha jaqueta para que eu me abaixasse um pouco.

— Posso dormir com você? — ela cochichou.

Dei um leve sorriso.

— Pode. — respondi no mesmo tom de voz. Então me endireitei. — Pode deixar ela comigo. — eu disse a Mary, que estava cansada demais para insistir que deveria cuidar de Mia.

Clarck veio para uma rápida conversa de cinco minutos antes de nos deitarmos. Ele falou sobre a viagem e explicou como a pestinha havia se escondido no último banco da van antes de todos se embarcarem. Quando deram conta dela, já estavam para embarcar no aeroporto.

Mia ouvia a tudo dando risinhos. Ela era a única que achava essa fuga engraçada.

Clarck deu um beijo de boa noite em nós duas e foi para a barraca que lhe fora designada. Avistei Ned ao fundo, meio sem graça por ter sigo pego me olhando. Desenhei um boa noite com os lábios para ele, que respondeu com o mesmo gesto.

A neve começou a cair e eu coloquei a Mia para dentro da barraca na qual eu vinha dormindo a semana inteira.

Queen estava lá dentro, já deitada. Ela lia um livro — Um conto de duas cidades — e parecia entretida demais para levantar o olhar até nós. Foi só quando Mia emitiu um pequeno gemido ao tirar sua luva apertada que Queen fez um reconhecimento da visitante.

— O que ela está fazendo aqui? — perguntou, levemente ríspida. Queen nunca fora uma grande fã de crianças.

— Mia vai dormir aqui.

Queen olhou para mim, suplicante, e tudo o que eu fiz foi dirigir-lhe um olhar severo. Não cabia a ela ser mais infantil que uma garotinha.

Eu ia fichar o zíper da barraca quando Jenny entrou, o cabelo salpicado por finos flocos de neve. Ela adentrou na barraca, fechou a porta e se jogou num canto, encolhendo-se de frio.

— Ei. — ela disse. — Temos uma intrusa!

— Eu vim dormir... com a Sam. — Mia explicou ao tentar arrancar a outra luva da mão.

— Não. — Jenny disse e depois puxou Mia para perto de si. — Você vai dormir comigo. Porque eu sou mais legal e mais bonita.

Jenny cochichou algo no ouvido de Mia que a fez soltar uma risadinha e balançar a cabeça negativamente.

— Isso é verdade, Mia? — inquiri. — Ela é mais bonita que eu?

— Não! — a baixinha respondeu ao engatinhar até mim sobre o emaranhado de cobertores. — Você é mais bonita!

Queen abaixou o livro e se permitiu gargalhar.

— Receba! — ela disse a Jenny, que respondeu-lhe mostrando a língua.

Conversamos bastante até ficarmos tentadas a ceder ao sono. Eu não ousei ver que horas eram — sabia que isso iria me acarretar uma tremenda crise de ansiedade. Meu corpo, contudo, sabia que já estava na hora de dormir.

Mia logo adormeceu, a cabeça pousada sobre minha coxa esquerda. Comecei a passar a mão entre seus cachos escuros, enrolando-os em meus dedos e soltando-os com a mesma sutilidade.

— Ela nem parece sua irmã. — Jenny disse em meio a um bocejo — Ela é tão fofinha. E você é tão... Você.

Revirei os olhos.

— Estou tocada.

Queen fechou o livro em um ato teatral.

— Dickens, seu grande filho de uma égua! — ela lançou o livro contra a lona da barraca. — Como eu vou dormir agora?

— Final ruim? — perguntou Jenny.

Queen olhou para ela como se Jenny fosse a maior aberração de todas e como se a pergunta fosse um ultraje sem precedentes.

— Ruim? Ruim? É estupidamente maravilhoso.

— Como você consegue ler? — perguntei. — Estamos a horas de nos preparar para batalhar.

Queen deitou-se e fechou os olhos.

— Ler me ajuda a não pensar no resto. — ela respondeu depois de algum tempo. — Vocês deveriam tentar também. Ou melhor, vocês duas veriam dormir. Não sabemos quando vamos dormir de novo.

Não sei nem se vou acordar de novo.

— Temos um acampamento para tomar. — ela encerrou.

Ajeitei Mia no colchão com cuidado para que ela não acordasse. Esperei até que todas se deitassem para desligar o lampião elétrico que iluminava nossa pequena barraca.

Deitei-me com a engraçada ideia de há apenas um ano e meio eu era uma garota normal, cuja vida era vivida apenas por honras acadêmicas, premiações de competições estudantis e agradar ao pai. Um pouco mais que um ano e meio foi o suficiente para me mudar da cabeça aos pés.

Deuses, parecia um éon.

Mia ajustou sua cabeça em meu ombro e deu um leve suspiro. Passei esse mesmo braço por seu corpo e a abracei. Eu queria que ela se sentisse segura, mesmo dormindo. Queria que ela soubesse que eu não iria deixar nada acontecer com ela.

Pensei nas muitas atrocidades que poderiam acontecer no dia seguinte. O amanhã era uma incógnita e eu odiava completamente não poder trabalhar com nada concreto.

Mas de algo eu tinha certeza.

— Na verdade — rompi o silêncio da noite. —, eu tenho outro plano para nós três. Vocês vêm comigo?

Apesar da escuridão que dominava a barraca, pude visualizar Jenny sorrindo ao meu lado.

— Achei que não iria perguntar.

Notas finais
Este é o último cap antes da abre aspas Grande Batalha fecha aspas. Depois de 3 anos, Samantha Roberts está acabando (ai, que dor). Gostaria de um feedback de vocês. Sinceramente. O que tem achado?