Samantha Roberts - Guerra Fria
21 Despedidas incertas
Notas iniciais
Não eram oito da manhã quando os conselheiros-chefes se reuniram ao redor dos vestígios da fogueira da noite anterior.
Acordei com a sensação de ter cochilado por apenas alguns instantes. Senti meu corpo entorpecido enquanto lutava para manter os olhos abertos. Céus, que noite horrível. Não consegui dormir e, quando me dava conta do horário, mais desperta e ansiosa ficava.
No entanto o dever me chamava. Tínhamos que realizar os últimos preparativos antes de partir para a batalha.
Jenny e Queen até acordaram com mais facilidade que o normal. Eu não tive que apelar para a neve na cara, ao menos. Levantaram-se ao primeiro cutucão que dei. Após fazermos um malabarismo para conseguir trocar de roupa dentro da barraca, saímos para a manhã congelante, deixando Mia desfrutar do seu sétimo sono de forma adorável.
Aos poucos, os dezenove conselheiros chegaram. Sentei-me com as duas e fiquei observando os rostos sonolentos se acostumarem com a ideia de estarem acordados.
Quíron chegou em sua forma de alazão e iniciou formalmente a reunião que já começara previamente com alguns pequenos argumentos.
— Precisamos decidir como proceder.
Levantei-me da tora onde estava sentada.
— O acampamento é um grande retângulo. — eu disse, me encaminhando à bolsa jogada ao lado de uma barraca, onde eu sabia que um grande esboço que fora desenhado por Matt e eu estaria.
Peguei o papel enrolado e o abri, meio atrapalhada, o tato limitado pela grossa luva que envolvia minha mão. Mostrei o desenho a todos, girando meu tronco em cento e oitenta graus.
— Há um desfiladeiro bem aqui. — eu disse, apontando para onde eu havia trombado, literalmente, com os cavalos. — No final do desfiladeiro a gente vai encontrar uma face da muralha e um enorme portão. É um lugar fácil de ficar encurralado, mas também a única entrada por terra.
Pus o dedo em cima de uma pequena fileira de quadrados.
— Os dormitórios. Onde há bastante movimentação nos horários de descanso, que é quando vamos atacar. Tenho quase certeza que o outro lado serve para treino e essas coisas. Faz sentido as armas ficarem por ali.
Alguns assentiram, porém não disseram nada.
— Entre essas duas áreas, o refeitório. Bem na direção do portão, mais acima. A intenção é manter os rebeldes do refeitório ao dormitório. Prensa-los contra este lado do acampamento.
“Vamos entrar, nos fragmentar em três falanges, ocupar essa região de treino e marchar em direção aos dormitórios. Enquanto isso, os arqueiros se apossam dos marulhas. Podemos usar os cavalos para conter quem sair e se espalhar. Selecionar alguns para adentrar nesses quadrados aqui... Seja lá o que foram. Vai ser mais resistência do que estratégia. De qualquer forma, temos eles nas mãos.”
— Esperamos. — murmurou Matt. — Vou liderar uma falange. Mais dois voluntários?
— Eu vou. — disse Austin, meu amigo dos salsichões mágicos.
— Ótimo. — se animou Matt. — Sam?
Suspirei, reunindo coragem para compartilhar meus planos individuais.
— Eu estava querendo fazer outra coisa. — admiti. Coloquei o dedo sobre um grande retângulo ao fundo do acampamento. — Tive um sonho e sei que Sócrates está aqui. Assim como as figuras mais importantes da rebelião. E eles não vão sair para a luta. Vão se resguardar.
— Está sugerindo uma invasão? — indagou Quíron.
— Sim. — confirmei. — Pensei nisso há algum tempo. Pedi a Austin que fizesse uma réplica de meu colar. — puxei o pingente para fora da gola de meu casaco. — Nessa brincadeira, criamos um dispositivo. Na verdade, Austin fez quase tudo sozinho. Quando o feixe do colar-réplica é aberto, emite um sinal. Austin recebe esse sinal em seu relógio, que apita.
Austin arregaçou a manga e mostrou o tal relógio, sorrindo.
— Vou fazer uma cena.
— Nós vamos. — corrigiu Queen.
— Sim. Jenny, Queen e eu. Vamos invadir o acampamento no meio da noite — fiz sinal de aspas com o dedo ao falar a palavra invadir. — e eles, por uma infelicidade da vida, nos pegarão. Sócrates vai querer nos ver. Nós vamos entrar.
— E como vão sair? — perguntou Gabriel.
— Damos um jeito. — Jenny disse. — Acho que Zack está lá dentro também. Também andei tento meus sonhos e quando Sam e eu encaixamos os nossos... — ela deu uma pausa. — Preciso libertá-lo.
A imagem dos olhos angustiados de Jenny quando contei-lhe no começo da madrugada sobre a tortura que Zack estava suportando voltou a minha mente.
— Vamos tomar a casa de Sócrates por dentro. — Queen assegurou. — Confie na gente. Sabemos o que fazer.
Assenti, confiante.
— Quando eu for desarmada, assim como elas, Austin receberá o sinal. Você vão poder saber que estamos lá dentro e invadir. O alto escalão vai estar ocupado demais com a gente para administrar todos os rebeldes na hora da batalha.
— Alguma objeção? — perguntou Queen, os olhos ameaçando de morte qualquer pessoa que abrisse a boca. — Ótimo.
— E como vão simplesmente invadir o acampamento? — perguntou Ally.
— Que bom que bateu nesse ponto. — eu disse. — Pensei em algo mais ou menos assim.
O dia se seguiu com diversas instruções e muitos lanches reforçados.
E a noite caiu. Estava lá. Nossa hora havia chegado.
Por cima de todas camadas de roupa e vestimentas térmicas, coloquei o casaco que me foi dado por minha mãe. Subi o zíper até o talo, deixando meu pescoço bem protegido. Vesti minhas luvas favoritas de manusear lâminas e apertei com força.
Os campistas começavam a se trajar com a armadura. Tentávamos fazer o máximo de silêncio possível, conversando aos cochichos e evitando o som de choques entre metais. Qualquer erro naquele momento representava a derrota.
Juntei tudo o que precisaríamos em uma mochila. Troquei meu colar verdadeiro pela réplica, e o escondi dentro de meu sapato. Coloquei o cinto para embainhar a adaga de Briana — ou a adaga de Emma, tanto faz. Se tudo ocorresse bem, eu tinha planos especiais para ela naquela noite.
Clarck apareceu para me ajudar com a mala.
— Não quero que você vá sozinha. — ele disse.
— Não irei sozinha.
Ele bufou.
— Você entendeu.
Dei-lhe um beijo na bochecha.
— Vou ficar bem. — cada palavra parecia cortar minha garganta como uma navalha afiada. — Não se preocupe. E toma cuidado você também. Ah, e a Mia vai...
— Vai ficar aqui. — completou ele. — Eu sei. Vou pedir para Quíron cuidar dela.
— Ótimo. — coloquei a mochila em meu ombro. — Vou lá.
— Boa sorte.
Parei para olhar para ele por um instante. Queria levar aquela imagem comigo — as bochechas rosadas, os olhos negros com um brilho terno, as mãos enfiadas casualmente nos bolsos da calça.
— Para você também. — foi tudo o que consegui responder.
Mas o pior estava por vir.
Dirigindo-me para longe do acampamento, para o local de espera combinado, fui barrada por Jenny. Ela já levava nas costas sua velha aljava cheia de flechas e vestia suas roupas para combate, porém sem armadura. Uma outra adaga pendia embainhada sob o cinto.
Qualquer um diria que ela estava disposta para entrar na luta naquele mesmo instante se não fosse pela expressão em seu rosto. Sombria, tétrica. Até mesmo cansada.
— Então é isso. — ela disse com a voz falhando.
Olhei por cima dos ombros, verificando se alguém estava prestando atenção em nós, e então voltei-me novamente para Jenny, seus olhos começando a ficar marejados.
Respirei fundo.
— Independentemente do que aconteça hoje, Jennifer McGuire, obrigada por fazer uma confusão na minha vida.
Eu não consegui lutar com as lágrimas quando elas vieram. Tampouco Jenny. Ela abriu os braços, já rompendo em soluços, e me apertou forte. Não consegui fazer nada além de retribuir seu abraço com mais força ainda.
— Eu vou lutar. — eu disse, minha voz senda abafada por seu ombro. — Não vou deixar tão fácil assim.
— É lógico que você vai. Eu te mataria de novo se você me deixasse aqui sozinha.
Eu sentia como se algo estivesse fazendo um rombo em meu peito por dentro, dilacerando tudo o que encontrasse pelo caminho. Uma parte de mim estava sendo consumida.
Era dor demais. Ninguém neste mundo merecia dar um último adeus a sua melhor amiga. Ninguém merecia saber que aquele poderia ser o último adeus. Mas lá estava eu, abraçando a primeira pessoa que amei de verdade sem ser meu pai.
Eu sentia os espasmos de seu peito contra meu corpo e o calor de sua respiração pesada em meu rosto.
— Você tem Queen. — eu disse com a voz embargada. — E Victor. E sua mãe e...
— Cala a boca. Por favor. Só me abraça.
Ficamos assim até conseguirmos nos acalmar. Por sorte, a noite nos protegia bem e ninguém parecia ter notado nada demais. Tínhamos que dar um passo adiante.
Soltei Jenny e sequei uma última e grossa lágrima que escorria por sua bochecha. Ela sorriu amarelo e tentou recuperar o fôlego, pensando que ter visões só podia ser um castigo de Apolo. Meu coração se apertou mais ainda, porém eu não podia ajuda-la nesse quesito, embora eu quisesse fazer qualquer coisa por ela naquele momento.
Queen chegou e olhou para nós, confusa.
— Perdi algo aqui? — perguntou ela.
Jenny abriu a boca, mas não conseguiu falar.
— Te contamos depois. — eu disse. — Mas, agora, vamos. Vai ser mais uma noite das garotas.
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