Samantha Roberts - Guerra Fria
6 Por que estou lutando?
Os preparativos para a festa estavam quase prontos. Em meus intervalos entre os treinos eu dava um pulinho no Anfiteatro para ver como estava a decoração. Também encarreguei alguns campistas de manterem Quíron bem distante do Anfiteatro sempre. Mia era a melhor nisso. Ela ficava perguntando coisas sobre o acampamento e os deuses para Quíron o dia inteiro e, como o lado professor do Quíron sempre fala mais alto, ele responde a cada uma delas.
A decoração estava ficando muito bonita. Era bem simples, para podermos nos livrar de tudo rápido. Mas era bonitíssima. Mandei Jenny fazer com seus irmãos uma playlist bem agitada e para todo mundo dançar. Os filhos de Hermes roubaram alguns morangos dos campos para podermos fazer alguns doces também.
Eu estava no covil de meu chalé. Abri em cima de mesa o mapa dos Montes Kenai. Ele era um objeto mágico. Era um tipo de mapa em 3D que nos mostrava o local que gostaríamos de ver. Eu estava conjecturando sobre entre que montanhas da cordilheira o acampamento poderia estar.
Como eles ficavam em segurança? Supostamente não era para ocorrer avalanches com o barulho no acampamento? Espadas se colidindo, pessoas falando alto, gritos de batalha. Impossível. Tinha que haver algo – algum encantamento. Nessas horas fazia total falta um infiltrado. Engoli seco. Zack. Ele provavelmente nem vivo deveria estar. A dúvida e a culpa estavam me consumindo.
Sócrates já havia conseguido forçar Íris a trabalhar para ele para ele poder controlar minhas M.I’s. Será que ele conseguiria forçar a própria Hécate a fazer algum encantamento? Eu precisava conversar com Julia. Talvez, ela poderia saber algum jeito de quebrar encantamentos. Juntos, ela e seus meios-irmãos são muito poderosos. Sabia que eles conseguiriam fazer tal feito.
O plano era usar as montanhas contra o próprio Sócrates. O que o protegeria, iria ser a sua própria ruína. Se ao menos conseguisse tirar esse encanto das montanhas... Poderíamos gritar, pular perto da montanha do leste. Iriamos causar uma avalanche. Invadiríamos. Lutaríamos. Tínhamos que leva-los mais para o noroeste possível. Eu ia conseguir dar um jeito de entrar na fortaleza de Sócrates. Enquanto a batalha rolava, os filhos de Hefesto e os melhores escaladores subiriam as montanhas e estalariam as bombas que Mia desenvolveu nas montanhas do norte e oeste. Eles tinham que se render ou ser enterrados pelas neves dessas duas montanhas também.
Não.
Tinha lago errado. Estava fácil demais para alguém como um irmão meu. Ele estava me convidando pra guerra? Será que ele sabia que Zack era nosso infiltrado e espalhou informações erradas? Ou será que ele cancelou essa viajem de parte de tropa deles pra recrutamento? Ele devia ter alguma coisa embaixo da manga. Mas, o que?
– Avaliando estratégias? – algum falou por trás de mim.
Levei a mão sobre o coração e dei um pulo. Virei para trás. Queen.
– Sempre. – sorri e me voltei para o mapa novamente.
– Sabe, para alguém que quer que todo o acampamento relaxe e se divirta um pouco, ficar aqui enfurnada não é muito legal.
– Não posso admitir erros. Não posso levar vocês para um matadouro.
Ela me empurrou para o lado e fechou o mapa, depois deu com ele em mim no ombro também.
– Relaxe!
Esfreguei o ombro e soltei um palavrão em grego. Ela sorriu com o canto da boca. Queen pôs suas mãos sobre a mesa e pegou impulso para se sentar em cima dela, e derrubou meu porta-lápis inteiro. Rolei os olhos e me apoiei pelos cotovelos na mesa.
– Você vai se sair bem. – ela disse. – Vamos salvar o Olimpo.
Dei uma risada sem humor.
– O que foi? – ela perguntou.
– Que frase feita! Vamos salvar o Olimpo. – eu imitei sua voz. – Quer mesmo que eu acredite que você está nessa guerra por causa de salvar o Olimpo? Está nesse porque os semideuses não devem reinar?
– Aonde quer chegar?
Fiquei com o olhar fixo no nada tentando formular a melhor frase.
– Por que está lutando? Por que você realmente está lutando?
Ela olhou para onde eu estava para ver se conseguia chegar aos mesmos pensamentos que os meus. Ah, sim. Eu sei disso porque li os pensamentos dela também. Ela abriu a boca uma ou duas vezes, mas fechou. Hesitante, ela respondeu depois:
– Por Susana. Foi ela quem me trouxe para o acampamento, era minha melhor amiga... E morreu. Tipo, como assim ela voltou dos mortos? Eu como filha de Hades não deveria saber disso? E ela voltou tão diferente. O jeito que ela lutou na última batalha, como ela olhava para a gente... Se voltar dos Elíseos não a mudou, seu irmão o fez. E ele pagará por isso.
Nunca me ocorrera que Jenny e Queen também deviam morrer de saudades de Susana. Não era um assunto que elas gostavam de comentar comigo. Elas não gostavam de comentar com ninguém.
– E você, geek, por que está lutando? – ela perguntou.
Eu quero dar lição de moral e no final eu que me ferro com minha pergunta.
Olhei para o lado e vi que Queen ainda mantinha aquele sorriso no canto da boca no rosto. Parei alguns segundos para pensar. Era uma coisa que eu tinha que ser totalmente sincera.
– Vingança. – disse secamente. – Eu jurei que ia vingar minha irmã. Vingar aqueles que morreram pelo exército dele. Quero me vingar porque ele acabou com a paz que a gente tinha. E... – engoli seco. — E por... Tem o...
– Nick?
Assenti.
– Sinto raiva. Quero vingança. Sócrates não só mudou Nick e Susana. Está vendo como estou? Cansei disso. Cansei dele. Vou acabar com isso de uma vez, o mantando com minhas próprias mãos.
Ela pôs a mão no meu ombro.
– Ei, já disse pra relaxar. Bom, me mandaram pra cá pra tirar você desse lugar e cuidar dos últimos preparativos. Os petiscos estão quase prontos, a banda já está ensaiando algumas músicas e a playist de músicas eletrônicas está pronta.
– Eu odeio música eletrônica. – comentei com uma careta.
– Eu também. Mas a decoração não está finalizada. – ela continuou. — Parece que o chalé de Afrodite e o chalé de Deméter tiveram algumas... divergências no final.
– Nunca vi povo que tanto gosta de brigar. – esfreguei os olhos. – Certo, eu já vou indo pra...
Fui interrompida por barulho de passos descendo as escadas. Jenny apareceu correndo.
– Ei, sabia que esse covil, na teoria, é um lugar exclusivo para os filhos de Atena? – perguntei, percebendo que as duas entraram lá sem meu convite.
– Não sigo teorias. – Jenny disse, ofegante. – Socorro! Quíron está indo para o Anfiteatro agorinha. Ele acordou Lucas, filho de Hipnos, que estava dormindo em cima da mesa do refeitório e perguntou por um irmão dele, coisa assim. Como ele estava sonolento, respondeu que ele estava ajudando nos preparativos da festa e voltou a dormir.
Dei um tapa na testa. Eu ainda ia mata-lo por isso. Eu não tinha como chegar no Anfiteatro antes de Quíron, ele já devia estar chegando. Pense. Pense. Pense.
Entrelacei meus dedos atrás de minhas costas e fiquei andando de um lado para o outro. Clarck! Ele estava treinando tiro com arco! Era bem perto do Anfiteatro! Fechei os meus olhos e tentei imaginar sua localização e entrar em sua mente. Eu havia treinado me comunicar na mente dos outros com uma maior distância.
Clarck!, falei na mente dele.
Ai!, ele gritou.
Desculpa. Eu te assustei?, perguntei a ele.
Mais ou menos. Só que eu acertei o traseiro de um sátiro com uma flecha. Seja breve., ele disse, parecendo estar correndo do sátiro pelo jeito que ele falou.
Quíron está indo para o Anfiteatro agora. Ele suspeita da festa. Dê um jeito e o tire daí. Fale que alguém se machucou feio, sei lá! Mata algum parente de sua família e desabafa com ele. Vai, vai!
– Resolveu? – Jenny perguntou.
– Acho que sim. Isso se o sátiro não matar o Clarck antes.
– Hãn?
– Deixa. Tenho que resolver os últimos problemas da festa. Está na hora do Acampamento Meio-Sangue a voltar ser o lugar mais divertido de todos.
Eram onze horas da noite. Uma hora já se passara depois do toque de recolher, Sr. D. e Quíron deviam estar dormindo já. A noite estava estrelada. Não havia vento, o ar estava calmo e morno. Eu havia conseguido resolver as últimas coisas para a festa. Consegui comprar o silêncio das harpias por alguns dracmas que ainda tínhamos.
Dei um pulo no Anfiteatro para ver como tudo estava. Não pretendia ficar para a festa. Ia montar guarda perto da Casa Grande caso alguém acordassem. Claro que Jenny ficou me socando até eu não sentir mais o ombro. Mas eu nunca fui uma garota festeira, na verdade.
Quando eu entrei lá minha visão ficou ofuscada por luzes brancas, azuis e rosas. A banda já estava posicionada no palco. Todo mundo estava dançando e com um sorriso no rosto. Por um momento, o alívio tomou conta de mim. No outro lado do Anfiteatro avistei Julia, que fazia sinal positivo para mim. Isso quer dizer que ela havia feito o encantamento e que o som não vazava para fora do Anfiteatro. Ótimo, tudo perfeito.
Assim que Jenny me avistou, veio correndo para minha direção. Antes que ela me prendesse para eu ficar na festa, saí do Anfiteatro.
Saí da barulhenta festa para o silêncio da noite – exceto pelo cricrilar dos grilos. Preferia ouvir o barulho da grama sob meus pés a ouvir música eletrônica. Já falei que odeio música eletrônica? Pois é. Odeio música eletrônica.
Fui para a quadra de vôlei, de lá eu tinha visão da lateral da Casa Grande, onde eu podia ver a janela do Sr. D e a de Quíron. Encostei minhas costas no poste em que a rede é amarrada e deslizei até sentar no chão. Olhei para o céu estralado mais uma vez e fiquei tentando identificar as mais diversas constelações. Essa sempre fora minha atividade favorita no acampamento.
Ouvi passos atrás de mim. Ferrou. Sr. D. estava vindo me matar por causa da festa. Olhei para trás. Ned andava até mim sorrindo, com um violão pendurado nas costas com um alça.
– Já que você não quer vir pra festa, eu vou trazer a festa até você. – ele disse e se sentou ao meu lado.
Sorri para ele.
– Não sabia que tocava violão.
– Não toco. Toco piano. – Ai. Meus. Deuses. Um garoto que toca piano! – Mas Jenny me ensinou algumas músicas. E arrastar um piano pra cá não seria nada discreto, eu acho.
– Não precisa perder a festa pra ficar aqui. Estou aqui porque quero.
– Eu também. – ele olhou para cima para observar as estrelas também. – Uau. São lindas. – ele se admirou.
Um momento de silêncio constrangedor se estabeleceu. Eu não sabia muito bem o que falar. Deixei-me simplesmente levar pelo momento e comecei a olhar o céu com ele. Expliquei para ele também as histórias por trás das constelações, de Andrômeda até Vulpecula.
– Você podia tocar algo, não? – sugeri.
– Claro. – disse ele tirando o violão das costas.
Ele começou a dedilhar uma introdução de música que eu já sabia de cor. Era She Will Be Loved, do Maroon 5. De jeito que ele tocava, era altamente duvidoso que ele mal pegasse em um violão. E cantava bem demais. A música me deixava feliz por dentro – algo que raramente acontecia, só às vezes quando Jenny cantava. Deve ser coisa de família.
– Amo essa música. – comentei assim que ele acabou.
– Gosto da letra dela.
Outro tempo de silêncio mortal.
– Como vai os preparativos para a guerra? – ele perguntou, puxando assunto. – Quer que eu ajude em algo?
– Não quero falar sobre isso. – meu tom soou um pouco mais grosso do que eu queria. Ele ficou sem graça.
– Do que quer falar, então? – ele perguntou.
– Como você foi reclamado?
Ele pôs violão de lado e se deitou no chão. Fiz o mesmo. Respirei fundo. Fazia bastante tempo que eu não me sentia tão relaxada quanto estava.
– Eu tinha treze anos. Estava numa praia de Santa Cruz, onde moro. – ele começou a falar sem tirar os olhos do céu. – Era um dia legal com meus amigos. Sol, praia, música alta no celular, surfe e risadas. Quando estávamos voltando para o carro da mãe de um amigo, vimos outro carro capotar bem na nossa frente. Bem, foi isso que meus amigos viram, eu acho. Eu vi um cara enorme de um olho só pegar o carro e o lançar a metros de distância. Não sei o que os mortais viram por causa da névoa quando o ciclope se aproximou, só sei que meus amigos gritaram que nem garotas e saíram correndo. Eu, o gênio, fiquei parado olhando.
Dei uma risada imaginando a cena.
– O ciclope olhou pra mim e disse: ‘’Ele tem cheiro de deus. Filhote de deuses são gostosos.’’ Eu estava tentando entender a frase quando um garoto saiu do carro capotado. Ele estava sangrando bastante na testa, mas parecia estar tudo bem. Hm, você deve o conhecer como Clarck Marchesano.
– Clarck comentou que já esteve numa missão de resgate. – lembrei.
– Foi ele que me trouxe para o acampamento, eu era a missão dele. Para meu choque, ele desembainhou uma espada e a cravou na panturrilha do ciclope. Bom, resumindo: eles lutaram, em algum momento da luta o ciclope bateu em mim, eu voei e cai no chão de cabeça. Acordei no Acampamento Meio-Sangue. Eles avisaram minha mãe e tal. Duas semanas se passaram. Era noite de Caça a Bandeira. Eu havia sido capturado e colocado na prisão. Uma garota do chalé de Ares... Ela morreu em uma missão faz dois anos... – ele disse isso com certa emoção na voz, o que me fez acreditar que eram grandes amigos. – Ela estava com um grande ferimento no braço, que ninguém tinha dado atenção. Convenci aos guardas da prisão escoltarem ela e a mim até a enfermaria para eu cuidar de seus ferimentos. Eu tinha visto de ferimentos daquele no Discovery Home & Health, não seria tão difícil cuidar. Enquanto eu enfaixava seu braço, um holograma dourado de uma libra apareceu sobre minha cabeça. Pronto! Eu era oficialmente um filho de Apolo.
– Nossa, que legal! – me admirei.
Ele tirou o colar de contas de seu pescoço e me mostrou. Havia quatro contas.
– Essa aqui – ele apontou para a primeira conta. Ela era conta azul com um tridente verde e um raio amarelo se chocando. – foi no meu primeiro ano. Susana e Hailey estavam na TPM na mesma época. – ele riu. – Elas tiveram uma luta e tanto na floresta. Quase queimaram metade dela. É por isso que as ninfas e os sátiros não gostam muito da Hailey. Nesse ano tivemos que plantar árvores todos juntos pra reconstruir a floresta. As ninfas fizeram elas crescerem mais rápido para podermos usar a floresta para nossas atividades de novo. Até que foi legal.
Eu dei uma risada.
– Queria saber se restaria floresta se Queen entrasse na briga.
– As garotas dos Três Grandes são bipolares! – ele disse. – Bom, a segunda – ela apontou para uma conta preta com um travesseiro desenhado. – Foi quando os filhos de Hipnos quiseram se vingar dos filhos de Ares por implicarem com eles. Eles iriam colocar o chalé deles pra dormir por um tempo de alguns dias. O encanto deu errado. Todo acampamento dormiu por uma semana. Bom, isso não foi de todo mal.
– Perderam uma semana de treinamento! – quase gritei. – Isso é muito mal.
Ele se virou de lado e olhou para mim. Virei meu corpo de lado e apoiei minha cabeça no meu punho.
– Para de ser nerd. – ele sorriu. – E a terceira e quarta conta você tem também.
Levantei meu outro braço para mostrar meu colar de contas — que eu havia transformada em uma pulseira por causa de eu já usar meu colarespada. A primeira conta era a de meu primeiro ano no acampamento. A conta era prata com um livro dourado no meio. A segunda conta era de duas espadas cruzadas com o símbolo de uma coruja no punho. Ela representava A Batalha Da Floresta, o jeito que nomeamos a última batalha.
Ouvi dois passos atrás de mim.
– Ei, Samara, você pode me dizer por que está tendo uma festa no Anfiteatro?
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