Notas iniciais
FELIZ NATAL, GALERINHA! P

Eu não reclamaria de morar lá se não fosse pelo fato de ter que dividir a casa com meu meio-irmão. Aquele lugar me parecia uma mansão dos Hamptons de tão enorme que era.

O palacete tinha apenas dois andares — térreo e primeiro. As paredes da fechada eram feitas de pedras escuras do tipo madeira. Quatros degraus nos lavavam à enorme varanda, onde duas colunas lisas — não menos elegantes por causa disso — se erguiam para sustentar a sacada do primeiro andar. A porta de entrada era duas ou três vezes meu tamanho, tanto na vertical quanto na horizontal. Era de madeira imbuia e havia detalhes entalhados em sua superfície, além de aldrabas de ferro.

O telhado era triangular no meio, bem na direção do quarto da sacada, que deveria ser o principal, e depois estendia em linha reta pelo restante do palacete. As grandes janelas, que estavam distribuídas em distância padrão pelas paredes, em nada me favoreciam ver o que me esperava lá dentro, pois cortinas de cor creme tapavam toda e qualquer visão.

Olhei para o lado e notei que minhas amigas também admiravam o imenso palacete. Silenciosamente, perguntei-me quanto tempo Sócrates empregara para construir aquilo tudo — não só o palacete, mas o acampamento inteiro. Há quanto tempo exatamente ele estava se preparando?

Estatura Mediana #1 me empurrou mais uma vez, me acordando do transe. Subi os quatro degraus e parei diante da grande porta. Meu amigo rechonchudo se adiantou e agarrou uma das aldrabas cobreadas e a sacudiu, levando-a ao encontro da porta três vezes rapidamente e, em seguida, mais duas vezes lentamente.

Alguns segundos depois, a porta abriu-se ao meio, cada metade indo para um lado. Dois guardas foram empregados para esse serviço. Estes aparentavam ser mais velhos que eu — deveriam estar na casa dos vinte, porém não tinham mais que vinte e cinco anos. Vestiam armadura completa por cima de suas roupas de frio. Cada um portava uma espada e escudo de bronze celestial.

Fomos empurradas para dentro de um gigante corredor. Um majestoso tapete com gravuras figuras mitológicas cobria o piso de madeira. Quadros enfeitavam as paredes. Reconheci neles representações de grandes heróis da Grécia Antigas e seus feitos — Héracles matando a Hidra de Lerna; Perseu trajando os presentes de Hermes, Hades e minha mãe, Atena, em sua luta com Medusa, da qual saiu vitorioso; Minos sendo coroado; vários outros. Uma lembrança do poder dos semideuses e do eles eram capazes de realizar.

O corredor era cortado por mais dois corredores transversais e terminava numa grande sala com mobília antiga. No meio da sala havia uma escada que, depois do primeiro lance, dividia-se em duas e subia para um lugar ainda desconhecido por mim.

Agradeci aos deuses quando a porta se fechou atrás de nós, barrando todo o vento congelante de fora. Agora eu poderia me deliciar com o ar morno que o interior do palacete oferecia.

— A tenente? — inquiriu Estatura Mediana #1.

Um dos guardas da porta inclinou a cabeça na direção da escada.

— Lá em cima, na sala de reuniões. — respondeu ele. — Os oficiais estão em reunião há quase duas horas. Sugiro que não os atrapalhe.

Estatura Mediana #1 segurou meu queixo.

— Não reconhece essa belezura? — ele indagou. Tirei meu queixo de suas mãos com um movimento violento. — O mestre ficará muito contente em ser atrapalhado por ela.

— É melhor deixa-las no porão, por enquanto. — aconselhou o outro guarda. — Junto com os outros. Aí, se eles demorarem mais, pode interromper. Melhor esperar mais meia hora.

Estatura Mediana #1 assentiu, descontente.

— Mas acho muito bom meu nome ser lembrado por esta captura.

— Tá, tá, tá. Não enche o saco. Nós vamos falar com eles depois.

Fomos, então, direcionadas para a sala onde ficava a escada. A sala parecia o lugar perfeito para tomar chá, comer biscoitos de polvilho ou deixar sua visita demasiadamente confortável para melhor persuadi-la a passar para o lado negro da força. Viramos num corredor — quantos corredores tinha aquele lugar? — que se iniciava no lado direito da sala.

Passamos por uma cozinha, que supus só ser utilizada pela elite, e por várias outras portas. No final do corredor, havia uma portinhola velha. Ela tinha quatro trancas e uma trava de madeira. Um molho de chaves estava pendurado em um prego próximo a portinhola. Uma semideusa que acompanhava Queen pegou o molho de chaves e começou a destravar a porta. Assim que ela se abriu, pude ver uma escada de madeira velha que dava ao andar inferior.

— Vamos! — ordenou Estatura Mediana #1, me cutucando. — Vai, vai!

Dei o primeiro passo em direção à escada. O degrau rangeu sob meus pés. A primeira impressão era de que o lugar parecia insalubre: cheirava a mofo e suor. Era bem mais frio que a temperatura do palacete, o que me fez supor que eles tinham um sistema de aquecedores.

Chegamos ao porão.

A única iluminação era provinda de uma lâmpada incandescente no meio do teto, que estava meio solta, então balançava. As paredes estavam descascando, e o teto nunca vira uma pintura na vida.

Mas o que realmente me espantou é o que eu vi no chão. Quatro semideuses estavam largados. Eles tinham manchas de sangue em suas vestes imundas. Suas peles estavam marcadas por escoriações. Atentei a um detalhe: todos estavam amarrados por um lacre de acrílico.

Não olhei muito para dos demais prisioneiros porque minha atenção foi voltada para um par de olhos mel muito conhecido por mim. E era a única parte do corpo que dava para reconhecer, apesar do cansaço expressado por eles.

O garoto sentado com as costas na parede e olhar perdido não aparentava mais como meu grande amigo. Perdera seu bronzeado e estava mais magro que da última vez que eu o vi. O cabelo cor de areia havia crescido e estava quase chegando aos olhos. Um deles estava terrivelmente roxo e inchado. Sua boca, uma linha comprimida de inexpressão, fora aberta por algo — talvez um soco — e também apresentava inchaço em seu canto. Havia cortes em seu supercílio, bochecha e queixo. Sua blusa de manga comprida azul claro estava respingada de sangue.

— Zack? — Jenny perguntou, receosa. — Meus deuses! Zack! Zack! — ela tentou ir ao seu encontro, mas foi segurada pelo Estatura Mediana #2 e outro garoto que fazia nossa escolta. — O que vocês fizeram com ele? O que vocês fizeram com meu irmão? Olha só pra ele! — ela tentava inutilmente escapar das mãos do guarda. — Zack!

O rapaz mal teve reação. Semicerrou os olhos e ficou olhando em volta lentamente, como se a voz de Jenny viesse do além.

Vê-lo assim, tão fora de si, fez meus olhos arderem. Zack, meu amigo, todo machucado. E a culpa era minha. O plano era meu. Ele estava sofrendo, mas quem merecia aquele tratamento era eu. Mordi minha língua para evitar que eu também me desestabilizasse na frente dos guardas.

— Quietinha aí! — Estatura Mediana #2 mandou e jogou Jenny contra a parede. Ela bateu com força e caiu no chão, ao lado de Zack.

— Jenny! — gritei.

Estatura Mediana #2 sacou um lacre em uma caixa repleta deles e prendeu os tornozelos de minha melhor amiga. Jenny nem pareceu ligar. Chegou mais perto de seu irmão que o rechonchudo permitiu.

— Zack, olha pra mim. — pediu ela. —Zack.

O pedido foi atendido. Zack virou a cabeça em sua direção e ficou a encarando. Demorou algum tempo para ele a reconhecer.

— Jenny? — perguntou ele. — É você?

Estatura Mediana #1 cuspiu no chão.

— Nem adianta tentar falar com ele. Está cheio de relaxante muscular na veia. Deu muito trabalho para a gente nessa tarde.

Enquanto isso, Queen estava sendo levada ao seu canto, ao lado de uma menina deitada no chão que mal se mexia. Ela sentou-se sozinha, sem ajuda ou empurrões, e ficou quieta enquanto a garota que abriu a porta a prendia. Permaneceu taciturna, observando desacreditada Zack responder lentamente aos estímulos de Jenny.

Eu assistia àquela deprimente cena enquanto meus olhos se embotelhavam. O sentimento de impotência caiu sobre mim como um balde de água fria. Eu não podia fazer nada para aliviar o sofrimento de meus amigos. Não por enquanto. Eu só podia sentar e esperar. Era esse o plano.

Prenderam-me com mais daqueles lacres e me jogaram ao lado de Queen sob a ameaça que se eu aprontasse algo iriam me encher de tarjas pretas, assim como fizeram com Zack.

O sorriso idiota e cheio de si do Estatura Mediana #1 me encheu de ódio. Eu poderia mata-lo ali, naquele momento. Só precisava de concentração, motivo e um esforço mental. Um telefragorium e ele cairia no chão. Respirei fundo e coloquei em mente que não conseguiria atacar todos os guardas de uma vez. E, se eu o fizesse, notariam sua falta. Fazer algo naquele momento representava mais prejuízo para nós do que para eles.

Assisti quieta aos guardas deixarem o porão.

Assim que eles saíram, tentei reconhecer as outras pessoas. Eram duas meninas e um menino. A que estava ao lado de Queen aparentava ser um pouco mais velha que eu. Devia ter dezenove anos. A garota estava obviamente doente. O cabelo negro caía sobre o rosto suado e desprovido de cor. Tinha um hematoma na maçã esquerda do rosto que estava começando a adquirir um tom esverdeado. Deitava encolhida, se abraçando, estremecendo de vez em quando.

O outro garoto estava aprisionado na parede oposta à minha. Estava magérrimo, e me parecia fraco e pálido. Seu cabelo castanho liso estava bagunçado. Não consegui enxergar nenhum ferimento grave em seu corpo. Era o que parecia estar mais orientado dos antigos prisioneiros. Ele pousava seus olhos ora em mim, ora em Queen e ora em Jenny. Estava fazendo um reconhecimento assim como eu.

A outra garota era ridiculamente nova demais para estar ali. Não passava de dez anos. Seu cabelo castanho cacheado e sua cara de arteira me lembravam vagamente de Mia. Ela se demonstrava amedrontada por causa da chegada dos guardas. Trazia seus joelhos ao peito, os abraçava e apoiava seu queixo lá. Seus olhos varriam o porão inteiro, como se esperasse a chegada dos guardas novamente a qualquer momento.

Perguntei-me por que uma garota tão nova estaria naquele acampamento. Ela não acreditava que ela pudesse ter aderido à causa da revolução. Ela só podia estar ali acompanhando alguém. E perguntei-me por cima por que raios ela estaria em um porão frio, junto com outros que abandonaram a causa.

— Esse lugar cheira a morte. — Queen disse em tom quase inaudível.

Assenti.

— O que vocês estão fazendo aqui? — Zack perguntou com a voz rouca e preocupada.

Quase suspirei de alívio ao ver Zack começar a vencer o entorpecimento de todos os remédios que deram a ele. Ele estava machucado, mas estava vivo. Eu poderia cumprir minha promessa a Jenny.

— Viemos salvar você. A todos. — ela respondeu. — E destruir Sócrates. Esse acampamento. Essa rebelião.

— Posso saber como vocês pretendem fazer isso? — o garoto magricela perguntou.

Ajeitei-me em uma posição mais confortável.

— Temos uma ajudinha escondida nas montanhas que só está esperando nosso sinal. Confiem na gente. A propósito, eu sou a Sam.

— Julian. — ele se apresentou.

— Queen. — Queen disse seu nome.

— Jenny.

O silêncio imperou a partir daí, violado algumas vezes pela garota doente que começou a tossir. Zack sentou-se ereto e esfregou seu rosto machucado com as costas da mão. Ele piscava muito e dava para perceber que ele fazia esforço para tentar permanecer acordado.

— Eles fizeram muita coisa com você? — Jenny quebrou o silêncio, se dirigindo a Zack.

— Tentaram me fazer falar três vezes — ele disse lenta e pausadamente. — Na terceira vez, eu revidei. Eles já sabiam quem eu era mesmo.

— Zack, isso é loucura. — Queen disse.

Ele apenas assentiu devagar, com o olhar longe.

Senti meus olhos grudados em seus ferimentos do rosto.

— Me perdoa. — eu pedi, por fim.

— Droga, Sam. — Zack reclamou. — Não foi culpa sua!

Balancei a cabeça negativamente. Encontrava-me em um estado de remorso tão melancólico que nenhuma palavra poderia me consolar.

Eu deveria ter matado Sócrates quando tive chance, pensei.

Eu deveria, eu deveria, eu deveria, eu deveria...

A garota de cabelos negros teve mais um ataque de tosse.

— Há quanto tempo ela está assim? — Jenny quis saber.

— Acho que há uma semana. — a garotinha se sentiu à vontade para responder.

Zack abaixou o olhar.

— Eu tentei curá-la, mas eu estava tão fraco... — ele admitiu, envergonhado.

Jenny encarou a enferma garota. Seus olhos estavam sérios sob o cenho franzido — uma expressão que vinha se tornando muito típica de Jenny.

— Eu poderia tentar algo, mas acho que me custaria muita energia. Qual o nome dela?

— Cathy.

Eles começaram a entrar numa conversa que decidi não acompanhar. Era o momento deles, e eu não queria me intrometer. Troquei alguns olhares com Queen, que permaneceu muda. Ela oscilava entre o olhar de “Vai ficar tudo bem” e o de “Não acredito que você trouxe a gente pra cá”.

Julian também parecia querer mostrar-se empático através da troca de olhar. Dei um sorriso, agradecendo. Ele retribuiu com o mesmo gesto.

Eu conseguia imagina-lo no Acampamento Meio-Sangue, saudável, correndo e rindo. Conseguia vê-lo cantando na fogueira e fugindo dos filhos de Ares. Conseguia imagina-lo como minha família. E eu gostava disso.

Encostei minha cabeça na parede e fechei os olhos, prometendo acabar logo com isso para que aqueles quatro pudessem voltar para casa.

Notas finais
Espero que vcs tenham tido um ótimo Natal : )