Samantha Roberts - Guerra Fria
24 E mais reencontros ainda
Notas iniciais
Não sei se havia passado a meia hora que Estatura Mediana #1 havia prometido aguardar. Na verdade, parecia muito mais tempo. A adrenalina em meu sangue caiu junto com a temperatura. Meu nariz doía, assim como a ponta de meus dedos. A roupa térmica que eu estava usando por baixo não estava dando jeito.
A cada expiração, ar que eu soltava condensava-se em uma nuvem. O frio estava embalando meu metabolismo em um ritmo lento. Eu lutava para manter meus olhos abertos, porque eu sabia que, se eu os fechasse por mais se cinco segundos, começaria a dormir.
Eu estava caindo no truque de meu subconsciente — “vou fechar meus olhos mais um pouquinho, não vai acontecer nada” — quando Queen me cutucou com seu pé.
— Escuta aqui — ela disse — Meu braço está queimando de tanta dor. Eu não posso mais deixar meu corpo frio, entendeu? Hora do plano B.
Eu estava quase falando a tão repetida frase “Espera só mais um pouco” quando ouvimos o barulho da tranca da porta. Todos os prisioneiros, menos Cathy, se enrijeceram no seu lugar, tensos e amuados.
Ouvi passos apressados na escada. Soavam como se fossem de duas pessoas.
Meu coração parou de bater.
Então ele irrompeu no meio do porão. Carregava nos braços a aljava e arco de Jenny, e o chicote de Queen. Usava apenas o peitoral de sua armadura, mas seu anel estava em seu dedo — estava armado. Os cabelos pretos estavam desgrenhados, o que supus que fosse por causa da corrida. Respirava ofegante.
Seus olhos percorreram todas as pessoas no porão. Seus lábios se repuxaram em um sorriso fraco ao reconhecer alguns. Mas seus olhos verdes só pararam ao encontrar os meus.
— Nick. — eu disse, com a voz vacilando.
Ele deixou cair as armas no chão.
— Ei! — Jenny se queixou por seu arco
Eu nem soube ao certo o que sentir. Parte de mim ficou inevitavelmente contente por vê-lo daquele jeito, tão parecido como o Nick de antes. Eu esperava um rapaz com postura militar e um olhar de superioridade. Ele estava, no entanto, como o Nick que sempre foi — os ombros pendendo no corpo, o olhar irrequieto.
Eu não sabia direito se queria gritar com ele ou pedir socorro, dar-lhe um abraço apertado ou esmurra-lo até ele suplicar por perdão.
Não me permiti ser levada pela emoção do reencontro. Fiz questão de lembrar dos meses sem notícia. Da sensação horrível que senti ao descobrir que tinha sido tão facilmente enganada. De como ele me deu as costas quando eu estava com minha irmã morrendo bem na minha frente.
Susana também apareceu carregando a espada de Queen e minha adaga. Também carregava o molho de chaves. Ela não falou nada — correu direto para Julian e começou a cortar o lacre com minha adaga. Depois foi fazendo isso com os demais.
— O que diabos vocês estão fazendo!? — Queen perguntou depois de um tempo, chocada.
— Salvando o dia. — Susana respondeu enquanto libertava Jenny, que rapidamente se levantou.
Nick continuou olhando para mim. Ele abriu a boca para dizer algo, mas não soube o que dizer. E, quando tentou novamente dizer algo, Jenny pulou em seu pescoço.
— Ah, Nick! Eu sabia, eu sabia! — ela disse animada, quase cantarolando. — Sabia que nunca faria isso com a gente!
Nick deu uma risada deliciosa e a abraçou, girando-a no ar.
— Que saudades!
Susana soltou Queen, que levantou ainda em estado de choque.
— E-eu... Não entendo. — ela balbuciou. — Eu realmente achei que...
— O Acampamento Meio-Sangue é nossa casa. — Susana a interrompeu. — Nunca faríamos nada que pudesse acabar com ele.
Nick ajudou Zack a se levantar enquanto Susana se dirigiu à minha pessoa. Ela abaixou-se ao meu lado rasgou o lacre com minha adaga. Permiti-me ficar aliviada quando minha circulação sanguínea começou a fluir com mais facilidade por meus pulsos e tornozelo.
Susana levantou-se e ofereceu a mão para eu me levantar também. Eu encarei sua mão e então dirigi-lhe um olhar ressentido — se eu era um dos motivos para isso tudo estar acontecendo, ela era mais ainda. Recusei sua mão e levantei sozinha.
— Sam! — Nick abriu um sorriso forçado e os braços ao falar meu nome, provavelmente torcendo por uma reação positiva, e me convidando para chegar mais perto
E foi o que eu fiz. Mas não correspondi às suas expectativas. Quando cheguei perto o suficiente, ergui a mão e esbofeteei seu rosto com tanta força que nem eu acreditei. Ele levou a mão a sua bochecha, estarrecido
— Sam, eu pensei que... — ele começou a falar, mas eu o interrompi:
— Eu odeio você! Você tem noção do que eu passei? Você tem algum pingo de sensibilidade? Eu achei mesmo que você tinha indo embora, seu cretino! — eu estava lutando para não me descontrolar e voltar a chorar. — Me senti horrível por ter acreditado em você! Me senti horrível porque você não estava ao meu lado na hora que eu mais queria que estivesse! Me senti horrível por querer você ao meu lado!
Nick balançou a cabeça. A marca de minha mão estava ficando cada vez mais vermelha em sua bochecha.
— Não, não, não, Sam. Me escute. Tudo o que eu fiz foi...
— Eu sei o que você fez, Nicholas! Cacete! Mas você não me avisou! Nem na época, nem depois. — tentei me recompor e manter a linha, mas estava sendo impossível. — Você simplesmente me deixou.
Notei o desespero impregnando seu rosto. Seu lábio inferior tremia e eu vi que ele procurava algo decente para falar. E ele conseguiu.
— Sam, eu te amo. Eu nunca te deixaria.
Ao ouvir essas palavras, lágrimas insistentes rolaram para fora de meus olhos. Virei o rosto.
— Eu tinha que voltar para minha irmã. — ele continuou. — E tinha que arrumar um jeito de vencermos. Não te contei antes porque Sócrates poderia ler sua mente na hora da batalha. Não me olhe assim, você sabe que sim. Daí, quando eu mudei de acampamento, não consegui ligar porque eles ficavam na minha cola!
— É verdade. — confirmou Susana, que já havia concluído seu trabalho e estava junto de Queen e Jenny, sendo abraçada pelas duas.
— E não te contei depois porque... Você tem noção de como me olhou quando cheguei aqui? Eu não suportaria...
— Então você realmente acha que me evitar e fingir que minha mágoa não existe vai fazer com que minha mágoa desapareça de verdade?
Ele não respondeu.
Sequei as lágrimas em meu rosto com as costas das mãos. Tentei manter a compostura. Não podia ser tão egoísta e desperdiçar meu tempo para tirar satisfações com Nicholas. Havia mais gente envolvida nisso — dois acampamentos inteiros.
— Seus rebeldes? — perguntei para ninguém específico. Tanto Nicholas quanto Susana poderiam responder.
— Estávamos falando com eles. — Susana informou. — Por isso demoramos tanto. Eles já estão fazendo suas obrigações.
Assenti. Estava pensando nos passos que daria adiante.
— O que você quis dizer com “seus rebeldes”? — perguntou Queen.
— Nem todos nesse acampamento acataram as ideias de Sócrates. — Nicholas respondeu, o olhar perdido não sei onde — Certo, muitos vieram por isso. Muitos mesmos. Mas notei que alguns pareciam meio em cima do muro. Susana também. Então convencemos eles a ajudar o Acampamento Meio-Sangue. Não como infiltrados diretos do acampamento. Estão mais como... vira-casaca. Na hora da batalha, lutarão com a gente.
— Alguns estão escondendo algumas armas do arsenal nesse momento. — contou Susana. — Outros estão trancando as portas dos quartos. Tudo para dificultar uma pronta-reação de nossa parte. Pensei também em cortar a energia do acampamento, mas tanto nós quanto vocês não veriam grandes coisas.
Minha mente trabalhava mais a cada informação que Susana me concedia.
— Quantos estão montando guarda? — perguntei a ela. — Você sabe?
Susana assentiu.
— Oito torres de vigia com dois guardas em cada torre. Duas rondas de patrulha andando pelo acampamento com cinco semideuses em cada uma. Mas Nathan foi gravemente ferido durante a patrulha de hoje.
— Dezesseis mais nove, vinte e cinco. — contei. — Não será muito trabalhoso. Os demais que acordamos já voltaram pra cama?
— Não fui lá fora ainda. Mas, se estão trancando os quartos, acho que sim.
Andei de um lado para o outro, pensando.
Na verdade, essa era uma mentira que eu contava a mim mesma. O que eu estava fazendo de verdade era tomar coragem para pôr o plano para frente.
— Certo. Certo. Nós vamos conseguir. — disse mais para mim do que para os outros. — Escutem, vocês dois. Estou com um colar falso. Não é minha espada, mas ainda assim é um dispositivo. Nicholas me levará rendida para Sócrates, e ele irá me desarmar. Vai pedir que tirem meu colar. Quando o feixe do colar se abrir, Austin receberá um sinal. Ele vai entrar no acampamento. Estão escondidos atrás das montanhas agora, aguardando. Susana?
— Oi.
— Devolva as armas de Queen e Jenny. Quero que vocês façam um tour por aqui. Desarme e renda todos os guardas daqui de dentro que puderem... E joguem aqui no porão.
— Sim, senhora. — ela disse. Senti um leve tom de deboche em sua voz e avaliei se deveria responder a isso ou não.
— Me prendam novamente. — mandei.
— Tem mais naquela caixa perto de Cathy — Julian disse. Todos olharam pra garota com a testa brilhando de suor. Ainda dormia, nem parecia ter noção do que estava acontecendo a sua volta. — Gente, o que vamos fazer com ela?
— Deixe-a no meu quarto. — Nick falou. — Segundo andar. Vire a direita, quarta porta. — ele se virou para mim. — O que pretende fazer?
— O que eu devia ter feito há muito tempo: arrancar a cabeça de Sócrates. Não lacre até o fim. Eu desato ele discretamente e pego minha espada. — levantei meu pé, indicando sua localização. — E você me ajuda.
— Sempre.
Olhei para Nicholas, não com repreensão ou desprezo, mas implorando que ele parasse com aquilo.
Olhei também para minhas amigas, também olhavam para mim com ansiedade. Só queria que estivéssemos nó chalé de Queen, assistindo um filme na TV que Alex nos arranjou por uma quantidade abusiva de dracmas.
Agora nos separaríamos. E qualquer coisa poderia acontecer.
Deuses, eu queria dar com o pé atrás.
— Gente, olha, eu queria dizer que...
— Ah, nananinanão. Sem essa. — Jenny me interrompeu. — Sem discursos de “Se isso acontecer”. Você vai chutar o traseiro caído daquele velho e nós vamos desfilar em cima daqueles traidores. E depois, quando ganharmos, nós vamos sair e você vai me pagar um chocolate quente e waffles deliciosos. Com geleia de cereja, claro.
— Você é incrível. — admiti. — E você não vai ouvir isso de mim novamente.
Quase ri da ironia naquela frase.
— Tenho certeza que sim.
Eu apenas sorri e fiquei olhando para ela mais um pouco.
— Nicholas. — eu disse, por fim, e pus minhas mãos atrás de meu corpo. — O lacre.
Ele assentiu e foi até o lado de Cathy, onde estava a bendita caixa. Foi até mim e começou a me amarrar cuidadosamente.
Estávamos tão próximos. Eu conseguia sentir sua respiração quente em meu pescoço. Suas mãos encostaram algumas vezes em meu pulso, onde nem minhas luvas nem a manga do casaco conseguiam cobrir. O toque fazia com que eu tivesse plena consciência de sua presença — me deixava nervosa. Tantas vezes eu fantasiara aquele encontro, e estava acontecendo tudo diferente. O pior: estava acontecendo. E a ficha não havia caído.
— Nicholas, quantos guardas você acha que temos que passar até o corredor de seu quarto? — perguntei.
Ele demorou a responder.
— Acho que só dois no andar de cima, no corredor da frente. — a voz dele perto do meu ouvido. Deuses. — Também tem os da entrada. Eles têm visão da escada.
Ele terminou de apertar o lacre. Mexi meus pulsos. Estava bem frouxo. Olhei para Julian.
— Dê algum tempo desde nossa saída e depois nos siga com Cathy. — disse. — Consegue carrega-la?
A dúvida ficou estampada no rosto de Julian. Ele foi até Cathy e colocou um braço por baixo de seus joelhos e outro por baixo de suas costas. Com um gemido, ele conseguiu levanta-la.
— O que? — perguntou Cathy, desorientada. — Julian?
— Shhh. Vamos tirar você daqui. — ele prometeu e, então, olhou para mim. — Não vou aguentar muito tempo.
— Vamos, então. Eu confio em vocês, pessoal. — dei minhas últimas palavras de apoio. Olhei para a garotinha encolhida no canto e depois para Julian. — Leve-a com você.
Ele assentiu em anuência.
Susana entregou minha adaga para Nicholas. Eles trocaram um olhar de cumplicidade, quase como se estivessem conversando telepaticamente. E, acredite, eu entendia disso.
Julian começou a tremer os braços que carregavam Cathy. Ao perceber que ele não conseguiria aguentar segura-la enquanto nos esperava, Queen e Jenny também puseram suas mãos por baixo da garota, para aliviar o fardo de Julian. Ele respondeu com um olhar agradecido e acanhado.
Nicholas pôs uma das mãos nas minhas costas e começou a me guiar para a escada que rangia. Cheguei a seus pés e encarei a porta que me aguardava lá em cima. Engoli seco.
Quanta enrolação.
Apenas subi a maldita escada.
Quando Nicholas abriu a portinhola para mim, o ar morno me abraçou. Senti meus músculos ficaram menos tensos, cedendo ao convidativo calor. Comecei a subir o corredor com meu ex-namorado.
Andamos em direção à sala que tinha a escada. Olhei para minha esquerda e vi que os dois guardas ainda de prostravam em frente a grande por de entrada
— Ei! — Nicholas gritou. — O que vocês estão fazendo aí? A tenente quer falar com vocês agora.
— Mas... Nós não fomos comunicados! — se defendeu o guarda que havia sugerido que ficássemos no porão.
— Ela está na biblioteca. Vão, vão! A tenente tem outro compromisso daqui a pouco!
Os guardas deram ombro e obedeceram ao seu oficial, virando no próximo corredor a minha esquerda. Olhei para trás e vi que Julian havia acabado de sair do porão carregando Cathy. Nicholas me guiou para a escada.
Ao chegar no segundo andar, me deparei com mais dois corredores que formavam um T invertido. No corredor-corpo do T, montavam a guarda dois rebeldes. Mais a frente no corredor, bem em seu final, havia uma grande porta. Meu coração disparou. De algum modo, eu sabia que Sócrates me aguardava ali. Eu o sentia.
Nicholas cumprimentou os guardas com um boa noite e passou reto. Eu estava começando a tentar entender qual era a dele. Afinal, Julian devia estar carregando Cathy no pé da escada que estava atrás de mim. Estava pensando em qual dica sutil eu poderia dar de que ele ainda deveria se livrar daqueles guardas, mas ele me surpreendeu, parando.
— Ah! Quase me esqueci! — ele exclamou. — Carla pediu para vocês irem ajuda-la no escritório. Ela precisava mudar umas mesas do lugar... Coisa assim. Estão ocupados?
— Estamos parados. — disse o guarda que da direita, que deveria ter dezessete anos.
— Ótimo. — Nicholas disse. — Podem dar uma mãozinha para ela? A coitada merece dormir também.
O guarda que falou com Nicholas assentiu, ajustou sua armadura e foi para o lado esquerdo do corredor. O outro guarda que montava guarda apenas o acompanhou.
Quase havia me esquecido de que Nicholas era um ótimo ator.
Seguimos em frente.
A cada passo que eu dava em direção àquela grande porta meu coração acelerava mais. A ansiedade se misturava com o nervosismo, que, por sua vez, se misturava com a vontade de ver meu irmão mais velho outra vez.
— Escute bem. — Nicholas disse baixinho. — Provavelmente Sócrates estará acompanhado. Lá dentro também deve estar Pedro, nosso coronel. Ele é conhecido por sua frieza. Sócrates pede alguma coisa para ele e ele faz. Não importa o que seja ou o que ele tenha que destruir para cumprir essa ordem. Entendeu?
Eu montei um Pedro em minha mente. Ele era enorme, alto e muito forte. Um verdadeiro brutamonte. Pedro gritava enquanto brandia a espada em minha direção, com os olhos vermelhos. O grito imaginário arrepiou os pelos de minha nuca e braços.
— E Dabria. — Nicholas continuou. — Ela é perita em harpes. Carrega duas. Eu acho que é melhor ficar longe das lâminas delas.
Estávamos apenas a alguns metros da porta e eu seria capaz de jurar que Nicholas conseguia ouvir meus batimentos cardíacos.
— Sam.
— Sim?
— Assim que eu entrar por aquela porta, eu não serei mais eu, está bem? — ele me avisou. — Voltarei a ser o general. Desconsidere tudo o que eu falar. Você sabe em que lado estou lutando. — paramos em frente a porta, e meu coração parou junto conosco. Nicholas me virou para ele. — Eu amo você. Não importa o que aconteça lá dentro.
Baixei meu olhar.
— Por que você fica fazendo isso comigo?
Nicholas soltou um suspiro cansado.
— Vamos resolver tudo depois. — ele depositou um beijo rápido em minha testa. —Prometo.
Ouvi um grito abafado que veio de longe. Outros barulhos e ruídos se sucederam, porém eu não consegui identificar nenhum deles. A única coisa que eu podia ter certeza era: Susana havia começado seu trabalho lá embaixo.
Balancei minha cabeça na direção na porta, indicando que ele deveria abri-la. O momento era aquele.
Nicholas respirou fundo e fechou os olhos. Endireitou a coluna e levantou o rosto. Quando abriu os olhos, notei que eles estavam sérios, opacos. Ela parecia um verdadeiro militar de alta patente.
Com uma das mãos, Nicholas agarrou meu rabo de cavalo; com a outra, ele abriu a porta. Ele me empurrou pela cabeça e dei dois passos atrapalhados para a frente.
As três figuras que estavam dentro da sala pararam sua conversa calorosa imediatamente. Uma das figuras era um adolescente muito bem preparado, e supus que ele era Pedro. Ele era alto, musculoso. Parecia um zagueiro de futebol americano. Seu cabelo preto estava cortado curto, bem rente à cabeça. Vestia armadura completa e uma espada de bronze celestial descansava em sua bainha.
Dabria não parecia tão assustadora, mas não me deixei enganar. Também exibia a armadura em sua completa composição. Com o cabelo castanho preso, seu rosto ficava amostra, analisando-me com certo divertimento no olhar. Atrás de seus ombros havia dois punhos de espada cruzados. Deduzi que seriam suas harpes. Estava de pé ao lado de Pedro, de frente para o trono de seu superior.
Sócrates foi, certamente, quem mais me irritou. Vestia uma calça jeans, sapatênis e um suéter preto por cima de uma camisa polo branca. O cabelo cheio e grisalho estava perfeitamente penteado. Totalmente casual, do tipo vou me sentar e relaxar enquanto meus escravos se preparam para lutar. Mas era óbvio que ele não iria entrar na luta. Aquele covarde. Só arquitetou toda a revolução e depois jogou nas mãos dos outros semideuses, para que eles façam o trabalho sujo.
Como Ned havia descrito, as paredes eram de madeira, cor que combinava com os móveis. O trono — Sério? Qual é a necessidade de um trono? — no qual Sócrates estava sentado era de madeira escura e muito bem detalhado e trabalhado. Do ângulo em que eu me encontrava, eu pude ver pouco de seu acolchoamento. O trono ficava de perfil para mim, de frente para a varanda à minha esquerda, em cima de uma pequena escada de dois degraus. Como se fossem dois tablados sobrepostos.
À minha esquerda, um pouco antes de chegar as portas da sacada, uma lareira estava com o fogo aceso. Acima da lareira, havia um grande quadro de dois homens usando trajes da Grécia Antiga. Estavam discutindo sobre algo. Um era inegavelmente Sócrates. O outro jovem adulto eu não sabia quem era — Platão, talvez. Dois sofás estavam localizados próximos à lareira. Entre eles, uma mesinha de centro. Parecia um local bom para repousar.
Mais adiante, depois da entrada da sacada, havia um ambiente que se assemelhava a uma biblioteca. Estantes altas estavam que lotadas de livros cobriam grande parte daquela parede. Uma mesa em L acompanhava grande parte das estantes, dando a impressão de fechar o ambiente. A mesa estava coberta por papéis e caneta e havia um computador em cima dela. Por algum motivo idiota, me perguntei qual seria a senha do wi-fi de Sócrates.
Em cada lado do trono de meu irmão mais velho, havia uma bandeira da revolução. E estava lá de novo aquela coruja prateada com duas espadas cruzadas, em cima do pano negro.
Sócrates abriu um sorriso maníaco ao olhar para minha situação.
Nicholas foi me empurrando e dando puxões no meu cabelo até eu chegar onde as três pessoas se encontravam. Jurei que ele me pagaria por isso depois. Pedro e Dabria abriram caminho e Nicholas me fez ajoelhar em frente ao trono de Sócrates. Encarei o carpete cor creme.
— Sentiu minha falta, irmãzinha? — perguntou Sócrates com aquele sotaque grego irritante.
Sua voz despertou em mim todo o ódio que eu havia criado naqueles últimos meses. Minhas mãos formigavam e estavam implorando para voar no pescoço dele. Eu tremia — não de medo, mas de raiva.
Levantei minha cabeça e encarei aquele velho.
— Acho que esqueci de te falar algumas coisinhas em nosso último encontro.
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