Samantha Roberts - Guerra Fria
25 Tudo por água abaixo
Notas iniciais
Eu conseguia sentir meu sangue pulsando ardentemente em todas as principais veias de meu corpo. Nojo e repulsa subiam à minha garganta, tornando praticamente impossível o ato de permanecer parada e encara-lo.
Sócrates estava sentado em seu trono com pernas cruzadas. Ele apoiava seu cotovelo no braço do móvel e sustentava seu rosto com o punho. Havia um brilho sádico em seus olhos e eu não duvidei que ele estava escolhendo a melhor maneira de me matar.
Quase li seus pensamentos.
Quase.
— Uma ronda de patrulha a encontrou vagando pelo acampamento. — Nicholas informou. — Pretendia invadir aqui.
— Estava acompanhada? — o louco quis saber.
— Sim, senhor. Por duas garotas. Jennifer McGuire, filha de Apolo. Queen Boulevard, a filha de Hades. Estão devidamente presas no porão. Fico à espera de ordens para saber o que fazer com elas, senhor.
Sócrates se endireitou no trono. O jeito como ele estava à vontade me deixava a beira de uma explosão de raiva.
— Qual é a localização da tenente?
Nicholas demorou alguns segundos para responder.
— Creio que ainda está na sala de reuniões, senhor.
— Mas ela saiu de lá comigo. — Sócrates rebateu.
— Então desconheço sua localização. Fui resolver este... problema.
Sócrates fechou o cenho.
— Desarme-a. — ordenou.
Nicholas me puxou pelo braço com força e me levantou. Ele estava começando a achar o feixe de meu colar quando Sócrates o interrompeu:
— Você, não. — ele disse. — Eu quero os dois. Está dispensado, general. Para seus aposentos.
Nicholas vacilou sua postura.
— Mas, senhor...
— Algum problema com isso? — indagou Sócrates.
Nicholas tentou permanecer em seu papel.
— Não. Uma boa noite.
Ele deu uma última olhada para mim e deu as costas. Estava dando passos lentos em direção à porta.
Dabria e Pedro vieram me desarmar, e pareciam vir em câmera lenta. A ansiedade estava me consumindo, fazendo cada segundo desperdiçado parecer um ano.
A garota colocou meu rabo de cavalo de lado e segurou a correntinha. Prendi o ar enquanto ela abria o feixe. Não senti mais o peso da corrente, então eu soube que estava feito. Dabria entregou o colar nas mãos de Sócrates.
Não muito longe dali, escondido pela imensidão das montanhas, Austin recebia meu sinal e agitava os campistas para o campo de batalha.
Pedro parou em frente a mim e começou a descer o zíper de meu casaco.
— Adoraria te despir em um local mais... privado.
Tive que segurar para não socar a cara dele, ou simplesmente vomitar. O sorriso malicioso estampado em sua boca me deixou tonta. Quase fiquei acanhada com seus olhos querendo me devorar.
Nick parou em frente a porta, de punhos cerrados.
— O que você disse?
Dabria e Sócrates ficaram estáticos e assistiram à cena. Pedro franziu as sobrancelhas e olhou para Nick, confuso.
Nick se virou com uma feição transtornada.
— O que você disse?
Pedro colocou a mão sobre o punho de sua espada e estufou o peito, com ar desafiador.
— Que eu adoraria fazer coisas feias com essa daqui.
Nick inclinou levemente a cabeça para o lado.
— Garota errada.
Era a hora.
Separei minhas mãos com força suficiente para arrebentar o lacre. Antes que Pedro tivesse alguma reação, abri o resto do zíper de meu casaco e joguei a peça em sua cara. Adivinhei onde seu nariz estaria e desferi dois socos merecidos ali, eficientes o bastante para fazer os nós de meus dedos explodirem de dor.
Pedro tirou o casaco de seu rosto, enfurecido. Dei-lhe mais um soco potente e depois uma joelhada na altura da boca de seu estômago. Mantendo o mesmo ritmo, juntei as mãos e dei uma batida forte em sua nuca, fazendo com que Pedro desse passos trôpegos para frente.
Dabria levou as mãos às costas e desembainhou suas harpes assustadoras. Assim que ela adiantou-se e pôs uma harpe na frente, no entanto, um tridente mergulhou no ar e arrancou a espada de sua mão.
— Mas que desaforo! — Sócrates gritou ao socar o braço do trono. Porém, para a minha surpresa, não havia revolta em sua voz. Aquilo era... divertimento?
Nicholas veio correndo e pulou em cima de Pedro, levando-o para o chão. A vantagem não durou mais que dois segundos. Nick logo levou um belo soco no queixo e caiu de costas no chão, colocando Pedro no controle.
Apressada e desengonçada, tirei meu tênis e peguei minha correntinha. Sem saber muito bem o que faria com ele, atirei aquele pé na cara de Dabria, que apertava o corte no pulso que o tridente fizera. Pisei no calcanhar do outro pé e tirei o tênis que faltava.
Lutar descalça. Quanta classe.
— Sofía. — eu disse com o colar em minha mão fechada.
Antes que eu pudesse me dar conta, a espada estava ganhando forma e volume em minha mão. A rapidez veio a calhar, pois uma furiosa Dabria vinha para cima de mim brandindo sua harpe.
Segurei firme no punho de minha espada e rebati a primeira investida da garota. Tentei achar algum espaço para me aproximar do corpo dela, mas Dabria não me permitia. Ela entrou em um ritmo rapidíssimo de sequência de golpes e ia me empurrando para cada vez mais longe.
Em um momento de distração, temi por Nick. Seu tridente estava largado no chão, jazendo ao lado de um dos brinquedinhos de Dabria. Ele estava somente armado com minha adaga e tinha a desvantagem de Pedro possuir uma espada e o dobro de seu tamanho. Eu conseguia ouvir os barulhos dos socos e chutes da luta deles que estava acontecendo atrás de mim.
Uma sirene alta começou a soar.
Eles chegaram.
— Que foi isso? — Sócrates perguntou em meio a uma risada, ainda sentado em seu trono.
Travei a harpe da Dabria com minha espada e dei um chute em seu abdômen, a empurrando para trás.
— Surpresinha. — eu disse.
— Ah, Samantha, me poupe! Por favor! Vai me matar de tanto rir! — ele se levantou. — Cansei de brincar de lutinha com você. Quer saber? Parem! PAREM!
Ele estava usando do poder para nos influenciar. Eu podia sentir isso e, mesmo sendo difícil, resistir a isso. Mas não funcionou com os outros três que jogaram suas armas ao chão.
Sócrates olhou para mim.
— Venha cá. — ele ordenou.
Era extremamente tentador deixa-lo entrar em minha mente. Lutei contra a sedutora ordem; finquei meus pés no chão e cerrei o maxilar. Não podia ceder na primeira tentativa.
Ele andou até a mim, bufando irritado.
Chegou uma hora que eu simplesmente não consegui aguentar. Senti ele invadir minha mente, escorregar por entre meus pensamentos. Eu deveria tirá-lo dali, porém ele já havia me desarmado.
Sócrates brincou comigo como se eu não representasse dificuldade alguma a ele. Confundiu meus sentimentos, alterou minhas emoções. Em um momento eu estava tão feliz que era capaz de abraça-lo, e no outro, com uma mudança avassaladora, senti vontade de cair no chão e chorar.
Eu não conseguia combate-lo e me mover ao mesmo tempo. Algo que eu não consegui identificar me impedia. Vendo essa brecha, Sócrates agarrou meu pescoço e apertou com uma força desproporcional a um homem de sua idade. Larguei minha espada no chão e levei involuntariamente as mãos até meu pescoço.
— Acha que eu não conheço seus truquezinhos? — ele sibilou, cuspindo ao falar. — Tente qualquer um, e eu já o fiz cinquenta, cem vezes antes!
Ele apertou mais forte, me fazendo engasgar.
— Sam! — Nicholas gritou atrás de mim.
Sócrates olhou para ele e sorriu.
— Seu namoradinho está preocupado. Como se sente sabendo que ele te deixou na primeira oportunidade? Que trabalhou para mim? Sabe quantas pessoas ele matou nesse meio tempo, Samantha? Você quer saber?
Arregalei os olhos e forcei meus pulmões a buscarem ar.
Ele estava brincando comigo. Só podia estar. Queria me abalar, distrair minha cabeça com outras ideias. Eu podia estar desentendida com Nick, mas eu precisava de acreditar que sua índole permanecera intacta.
Mas o jeito que ele consentiu a tortura de Zack...
— Não. — tentei dizer, mas o que saiu foi guinchado rouco.
Os olhos do filósofo faiscaram.
— Como ainda consegue confiar nele?
Com a visão periférica, vi Nicholas voando e sendo arremessado violentamente contra a parede, e imediatamente soube que era Sócrates usando de sua telecinese. Meus pulmões já ardiam pela falta de ar e meu corpo estava amolecendo. Decidi aproveitar do momento de distração de Sócrates para entrar sorrateiramente em sua cabeça. Para meu azar, ele percebeu isso.
Então recorri ao velho jeito nova-iorquino de defesa pessoal: dei uma joelhada em seu saco.
Com um arquejo dolorido, Sócrates afrouxou sua mão ao redor de meu pescoço. Abri a boca e sequestrei todo ar que eu podia. Mal tive tempo de recuperar o fôlego antes de receber um tapa hostil em meu rosto.
Senti-me um trapo. Eu entrara com tanta confiança por aquela porta, e agora estava sendo estapeada por um cara milhares de anos mais velho que eu. Todas as minhas expectativas estavam sendo estilhaçadas bem a minha frente. E eu não conseguia fazer nada. Apesar de tudo, ele conseguia assumir o controle. De sua mente a da minha.
— Você se superestima, irmãzinha.
Eu odiava quando ele me chamava assim.
Comecei a chorar. Não consegui evitar — ele me forçou a isso. Escavou minhas memórias mais profundas, procurou por aquilo que eu tentava esquecer. Todas as brigas, os momentos de fraquezas, as humilhações. Até mesmo coisas que não importavam mais, como Gregorian Butera roubar meu lanche na terceira série, voltaram à tona trazendo consigo um sentimento horrível.
Reviver a morte de Briana foi a pior parte. Senti novamente toda a confusão de sentimentos de quando Nick me deixou para trás enquanto a vida de minha irmã se esvaía por meus dedos. A sensação excruciante da impotência. A dor da perda.
— Essa garota, sim, foi um desafio. — Sócrates comentou. — Qual era mesmo o nome dela? — ele perguntou ao vasculhar minhas memórias. — Briana.
Tentei criar algum bloqueio, uma parede entre mim e ele. Minhas memórias com Briana eram algo muito íntimo, muito puro, bom demais para ele poder acessar liberadamente.
Olhei discretamente para minha espada aos meus pés. Sócrates estava desprotegido, armado somente com seus poderes. Se ao menos eu pudesse...
Qualquer tentativa de reação foi frustrada pela porta que se abriu. Jenny, Queen e Susana transpassaram a porta sendo empurradas pelos guardas por quem passamos e por mais um par deles.
Uma quantidade preocupante de sangue escorria pelas narinas de Susana. Já Jenny estava com o supercílio aberto e com um corte horrendo no antebraço. Queen parecia estar mais inteira, contudo estava visivelmente cansada. Seu rosto estava mais pálido que o normal e brilhava com o suor.
Certo, eu não havia planejado isso.
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