Samantha Roberts - Guerra Fria
5 Mia, a garota-bomba
Notas iniciais
As pontas de meus dedos dos pés tocavam a cristalina água do lado de canoagem de levinho.
Fiquei ponderando sobre o meu sonho. Zack estava sendo torturado para contar tudo. Era por minha causa, esse plano maluco de manda-lo para esse acampamento inimigo era meu. Admirava-me era a resistência dele, sua força e a determinação em nos defender. Não, não era isso. Seu amor pela gente. Coloquei-me no lugar dele e percebi que eu, com certeza, faria a mesma coisa por ele, ou até mais. Nossa amizade cresceu forte desde que ele me ajudara em minha primeira missão.
E agora iriam mata-lo. Sentia-me tão impotente, não podia fazer nada em relação a isso. Só me cabia esperar e esperar a hora certa de agir. Isso tudo estava sendo um grande teste de paciência para mim. E, como uma filha de Atena, eu não reprovo em testes.
Algo me incomodava. Do jeito que Michel perguntou a Nick se ele queria continuar com isso, não parecia que ele estava falando sobre a causa. Pela entonação dele, parecia que Nick tinha um plano só dele, uma arma secreta. Não gostei nada disso. O que será que eles estavam querendo dizer?
A corneta de concha de caranguejo soou. Já era a hora de acordar no acampamento. Lembrei-me, desesperada, que hoje era dia de inspeção do chalé. Eu tinha que acordar meus irmãos e colocar o que estava fora do lugar correndo.
Levantei-me e fui em direção ao meu chalé.
Algumas pessoas já tinham acordado. Sátiros já jogavam sua partida matinal de vôlei na quadra. Campistas conversavam enquanto esperam os inspetores, outros limpavam loucamente seus chalés. Alex estava correndo com uma carteira na mão, logo após dela Letícia, filha de Quione — a deusa da neve -, vinha correndo querendo sua carteira de volta. O pior erro de alguém no Acampamento Meio-Sangue é deixar sua carteira amostra perto de um filho de Hermes.
Na minha opinião, o chalé 23, os dos filho de Quione, era um dos mais bonitos. Era todo branco, os pilares de cristal eram bem detalhados. Mesmo no sol escaldante do verão, sempre havia uma camada de neve em cima do telhado. Assim que eu passei em frente ao chalé 23, senti o frio que emanava de dentro do chalé. Eles tinham que ter um ar-condicionado, não é possível. Bem, era um chalé com grande infraestrutura e com excelentes semideuses dormindo nele. Mas eu contava, principalmente, com Letícia. Entraríamos em seu território, o território mais frio dos EUA, ela seria muito mais poderosa do que já é aqui.
Entrei em meu chalé. Dois de meus irmãos – Heitor e Clarck – já estavam acordados arrumando suas camas. Dei um suspiro de alívio quando vi que o chalé estava todo em ordem, fora algumas folhas de projetos e de algumas lições que eu passei fora do lugar.
Se eu fosse convencional, acordaria um a um de levinho para eles acordarem calmas. Bom, mas eu não era. Aprendi com a Jenny o melhor método de se acordar alguém, de modo que ele fique pilhado, assustado e com vontade de te matar. Peguei uma buzina de gás de dentro de meu baú. Um sorriso ficou estampado na cara de Heitor e Clarck, já que eles estavam acordados e não iriam se assustar tanto assim. Eles tamparam os ouvidos quando eu apertei o botão da buzina.
Fiiiiiiiiiiiiiiiih. Todos meus irmãos preguiçosos acordaram no pulo. Ah, como eu amo isso.
— Inspeção de chalé! – anunciei. – Levantem-se e se vistam. Vamos colocar o chalé em ordem.
Com todos trabalhando em grupo, arrumamos tudo em cinco minutos, um segundo antes dos inspetores chegarem. Dessa vez eram Gabriel e Victor, que apesar de meninos eram meticulosamente caprichosos.
— E aí, cunhada. – Victor me cumprimentou e deu uma piscada.
Dei uma risadinha. Ele me chamava assim mesmo antes de Jenny e eu sermos pré-irmãs-bastardas.
— Tudo bom, cunhado?
Ele assentiu.
Os dois andaram um pouco pelo chalé e viram se estava tudo em ordem. As notas eram dadas de zero a cinco e o chalé que ficava com a pior nota cuidava de limpar a cozinha. Sempre fico tranquila. Por mais que nossa nota não seja sempre a maior, sempre temos o chalé de Ares ou de Hermes para nos salvar da cozinha.
Os dois se entreolharam e Gabriel anotou algo em sua prancheta.
— Nota cinco. – ele anunciou.
Todo mundo ficou animado com a situação. Sentei em cima de meu baú e respirei um pouco. Mesmo estando tranquila, a hora da nota é sempre uma tensão. Não sei por que. Acho que é coisa minha, odeio tirar notas ruins.
— Tudo ok. – disse Gabriel. – Nos vemos a noite.
Por fora eu estava ok, por dentro eu estava Aaaah, de noite. Havia esquecido que havíamos treinado a semana inteira para a caça a bandeira. Afinal, que melhor treino para a guerra que isso? Treinamos o raciocínio rápido, nossa habilidade de luta, poderes, e pensamos na melhor estratégia para o combate. Era como uma prova de fogo para a gente.
Assim que os dois saíram do chalé, corri para a Casa Grande para ter o direito de escolher os adversários primeiro. Eles começavam a inspecionar os chalés em ordem decrescente, de modo que o chalé de Ares, nosso adversário na caça a bandeira, seja o próximo a ser inspecionado e que Matt fique preso lá, não podendo escolher um aliado melhor.
Seriam dois jogos diferentes, com cinco chalés em cada time. Como não havia moradores no chalé de Hera, Poseidon, Ártemis e Héstia, só haveria dezenove chalés para o combate. Obrigatoriamente, o time que ficava com quatro chalés nele teria que ter o chalé de Hermes no time, já que sempre foi o chalé mais populoso do acampamento.
Cheguei na Casa Grande. Eu tinha certeza de meus três primeiros aliados – Apolo, Hefesto e Hades, ou seja, a Queen -, mas eu não conseguia ter certeza de meu outro chalé. Por fim, escolhi Quione.
— Tem certeza? – Quíron perguntou. – Você geralmente não escolhe os chalés dos deuses menores.
— Absoluta. Eles são muitos poderosos.
— Certo. Espero que você tenha treinado muito bem seu chalé essa semana. Gosto de seus jogos. São no mínimo empolgantes. Estou ansioso para ver o que você vai aprontar dessa vez.
— Sinceramente, ainda não sei no que posso inovar. Vou improvisar na inovação na hora.
— Estou aguardando.
Dei um sorrido agradecido para ele. Desde que eu comecei a tomar conta das estratégias dos jogos de caça a bandeira, eu tentava inventar algo especial para deixar tudo mais legal. Uma estratégia totalmente controvérsia, alguns tipo de evento engraçado, algo que ninguém esperava.
Despedi-me de Quíron com um gesto da cabeça e sai da Casa Grande, para que ele pudesse concluir seus afazeres. O sol brilhava forte lá fora, o que deixava tudo mais alegre. Juntei todos meus irmãos em fila para que pudéssemos desfrutar de um belo café da manhã.
Depois teríamos aula de armamento alternativo. Fomos todos para o arsenal escolher alguma arma que não usássemos. Fui eu que inventei essa aula para a gente. Numa batalha, podemos ser facilmente desarmados e temos que nos virar com a primeira coisa que nos aparecer pela frente. Um excelente guerreiro deve tentar desenvolver habilidades com os mais variados tipos de armas. Lógico que quase ninguém gostava dessa aula. E, por isso, eles me obrigavam a usar o arco e flecha – minha maior desgraça — toda vez que tínhamos a aula de armamento alternativo.
Ficamos numa área aberta para treinar, mais para o lado do lago de canoagem. Foi um treino cansativo, com algumas murmurações, mas muito produtivo. Eu consegui até acertar uma flecha na mosca! Bem, eu errei todas as outras cinquenta e sete. Mas acertei uma bem no centro!
— Muito bom, gente. – eu falei. – Vocês estão de parabéns. E, ah, lembrei. Está vendo aquilo ali lá no centro do alvo, Dylan? É uma flecha, eu acertei. Você perdeu. Então, gente, que tal refrescarem Dylan lá no lago?
Ele arregalou os olhos.
— Di Immortales! Não!
Dylan saiu correndo e todos os outros foram atrás para empurra-lo para dentro do lago. Aposta é aposta. Sempre fazemos questão de que os outros cumpram com sua parte depois.
Tudo estava legal, o dia estava sendo bem divertido. Mas eu estava sentindo falta de uma pessoa. Olhei em volta. Onde será que está Mia? Estava estranhando já o silêncio da aula, sem as suas risadinhas fofas quando alguém errava alguma coisa ou quando ela gritava de felicidade quando destroçava um boneco-alvo inteiro com a sua adaga.
Um barulho enorme ecoou atrás de mim. Meu coração deu um pulo.
— Sofía!
Assim que minha espada surgiu em minha mão, disparei em direção aquele barulho. Eu espera qualquer coisa. Poderia ser ataque de monstros, brigas entre os campistas, alguém desengonçado deixando todas as armas da prateleira do Arsenal cair, tudo.
No meio do caminho, me deparei com Mia sentada numa toalha de piquenique, em cima da grama. Tinha certeza que o barulho vinha de onde ela estava. Olhei nas coisas que ela estava mexendo. Mia manipulava, como se fosse um de seus brinquedos, fogo grego e pólvora.
— Amélia! – gritei, fazendo com que ela soltasse tudo. – Por um acaso, você quer explodir o acampamento inteiro!? Por que não estava com a gente? Na próxima vez vou deixar você no chalé!
— Des-desculpa...
— Sabe o quanto perigoso são essas coisas? Você poderia ter morrido! Como eu iria ficar, hein?
— Eu só queria te ajudar. – ela choramingou. – A gente aprendeu montar bombas para elas fazerem Boom. Você poderia fazer Boom com a gente má que vamos lutar.
Suspirei. Mesmo fazendo besteira, ela era bonitinha.
Sentei-me ao seu lado e a abracei com um braço. Olhei para o que ela estava fazendo direito. E não é que ela fez tudo certo? Dei uma mexida na bomba. O fogo grego em sim era muito poderoso, a pólvora dava uma potencia enorme àquela bomba. Com a quantidade certa, poderíamos, sim, explodir o acampamento.
Ou o do inimigo...
Arregalei os olhos.
— Mia, venha comigo. Vamos falar com o pessoal do chalé de Hefesto.
— Por quê?
— Vamos fazer mais bombas destas e ver do que elas são capazes hoje à noite. Tenho uma boa ideia de como podemos usa-las mais tarde.
O dia havia passado rápido. A concentração do acampamento em dias de jogos assim é bem forte. Nós procurávamos sempre estar com o nosso time ou, se ficarmos com alguém de outro time, procurávamos falar absolutamente nada sobre a estratégia do jogo.
A noite de lua cheia estava fresca. O vento vindo do nordeste carregava um leve aroma da água salgada da Praia dos Fogos. Eu já estava adequadamente vestida. Usava a parte de cima da armadura – o peitoral -, luvas sem dedo que vinham até o final do antebraço para proteger de cortes e ter mais firmeza de manipular a espada, meus velhos jeans rabiscados e tênis para esporte.
Austin e eu estávamos andando em direção à floresta, para armar todas as armadilhas e bombas que havíamos programado. Ele era um perito nessas artimanhas, não há no acampamento igual a ele.
Austin era um cara grande e muitíssimo forte. Ele poderia ganhar facilmente uma luta corpo a corpo, se é que alguém tivesse coragem de encara-lo. Acho que nem de ponta de pés eu consigo ficar da mesma altura que ele. Depois de anos trabalhando com ferragens aqui no acampamento, seus músculos do braço ficaram altamente definidos.
Apesar de assustadoramente enorme, ele era muito gentil. Covinhas formavam em seu rosto quando ele sorria. Os olhos eram do castanho escuro mais adorável, da mesma cor que seu cabelo.
Andamos um pouco pela floresta. Havíamos escolhido a parte sul da floresta dessa vez, achei que essa parte tinha mais lugares para se escolher nossa bandeira. Só que nosso foco era a parte norte no momento. Iriamos armar nossas bombas no território inimigo.
Tecnicamente, não estaríamos burlando as regras. O regulamente diz que temos que estar em nosso território no início do jogo, não que nossas armas não podem estar no território deles. Mary que me disse isso. Ela era ótima em achar uma brecha no contrato, um dia seria uma grande advogada, como ela sempre disse que queria ser. Além do mais, não iriamos estar quebrando as regras de não matar ou mutilar, nem incendiar as florestas para não machucar as ninfas. Diminuímos as potências das bombas. Elas seriam uma distração.
Assim que o jogo começasse, o grupo selecionado para entrar no território inimigo iria atacar pelo leste. As bombas iriam explodir ao extremo oeste da floresta e, em sequência, iriam explodir até ao noroeste da floresta. Isso iria chamar a atenção dos defensores, que iriam ver o que era. E com os outros defensores correndo atrás do nosso time para o leste, o centro da floresta ficaria muito desprotegido. E os três pontos mais prováveis para eles esconderem a bandeira ficavam mais ao meio da floresta: o Punho de Zeus, perto do riacho e a parte da floresta que é mais densa e fechada.
Austin tirou sua sacola de cima do ombro e a abriu. De lá ele tirou uma das bombas que preparamos juntos. Colocamos cronômetros nelas para que elas explodissem uma atrás da outra em sincronia. Assim que ele apertasse um botão em seu relógio de pulso, a primeira bomba explodiria, a segunda cinco segundos depois, a terceira cinco segundos depois da segunda, e assim sucessivamente.
— Acha que devemos cavar buracos e cobri-los hoje? – Austin perguntou enquanto operava a bomba.
— Não sei se vai dar tempo. Temos o que? Três horas até começar a caça a bandeira? Só se chamarmos mais gente. Cavamos um pouco mais além da linha da fronteira, para que aqueles que passaram pelo pessoal da frente caiam no buraco.
— Certo.
Andamos até ao próximo ponto que marcamos para instalar a bomba. Ele fazia isso com tamanha facilidade que me espantava. Seus dedos não paravam um segundo se quer. Eles mexiam nos fios rapidamente, sincronizavam a bomba com o relógio, montavam tudo em seu devido lugar.
— E aí? Qual é seu plano com o chalé 23, Sam?
— Quero mudar o terreno da luta. Eles conseguem criar neve do nada, mesmo as nuvens não passando para o território do acampamento. Nem é tanto para a vitória, quero preparar o corpo da gente para depois. Vamos praticamente congelar tudo em volta a bandeira, deixar o lugar escorregadio, com visão debilitada e com um frio glacial. E deixamos o calor dos filhos de Apolo para cima. Hoje quero colocar os arqueiros em cima das árvores, escondidos. Os filhos de Apolo que são guerreiros avançam com meu grupo para achar a bandeira. Meu chalé cuida da defesa hoje, os treinei para isso, estão mais resistentes. Ah, me faz um favor?
— Sim, claro.
— Mia quer mais que tudo participar hoje. Quero que você fique com ela guardando e bandeira. Acho que não irá ter muitas pessoas avançando a esse ponto hoje. Não quero expô-la a tanta luta.
— Ela vai com a gente pro Alasca?
— Claro que não. Vou pedir para que Quíron cuide dela aqui. Mia é nova demais para estar numa guerra, eu não poderia fazer isso com ela.
— Acho que você estar certa. Bem, pode deixar que eu cuido dela hoje.
— Obrigada.
Deixei-o armando as bombas e fui chamar algumas pessoas do nosso time para ajudar a cavar buracos. Em duas horas, a parte sul da floresta era um completo campo minado. Dependendo de onde você pisava, ou caia em um buraco, ou pisava numa corda que fazia a máquina que disparava flechas ligar, ou pisava em um galho seco, que eu e Queen selecionamos e jogamos ao redor de nosso campo, e fazia barulho para denunciar sua posição.
Nosso jogo estava pronto. Quando deram dez horas da noite, todos nos reunimos para começar a caça a bandeira.
O clima era descontraído agora, todos gostavam de jogar a caça a bandeira. Todos usavam suas armaduras menos Mia, por que ainda não arranjamos uma armadura para seu tamanho. Eu tenho que me lembrar de pedir para forjaram uma armadura com um tamanho menor para ela. O pessoal estava comentando de como iria lutar, outros estavam mostrando novos golpes que aprenderam a pretendiam aplicar de noite, ou só fofocando mesmo.
Enquanto Quíron repassava as regras, eu rodava meu cinto em meu corpo para que a parte em que a adaga estava embainhada ficasse no buraco da lateral da armadura, facilitando para eu a pegar em alguma emergência na floresta. Pus meu elmo do time azul na cabeça.
— O primeiro jogo será chalé de Atena contra o chalé Ares. – Quíron anunciou. – Os aliados de Ares serão: o chalé de Zeus, Éolo, Nêmesis e Hipnos. Os de Atena serão: o chalé de Apolo, Hefesto, Hades e Quione O segundo jogo será o chalé de Hécate contra o chalé de Dionísio. Eu serei o juiz, então tratem de não desrespeitar as regras. Boa sorte, semideuses. E divirtam-se!
Fomos aos nossos postos.
A cara de susto do time do chalé de Ares ao ver o inverno que estava na nossa parte da floresta enquanto eles iam para o território deles foi impagável. Foi tipo ferrou. Dei um sorriso malicioso para eles, que retribuíram com uma cara jurando morte para mim. Coitados.
A neve cobria nosso território inteiro e avançava um pouco para o território inimigo também. O clima era frio, porém ao mesmo tempo quente com nossa excitação.
Fiquei girando minha espada na mão enquanto eu andava para a minha posição. Embaixo da fina camada de neve, os galhos secos se quebravam aos meus pés. Quando eu expirava, fumaça saia de minha boca. Austin apareceu no meu lado e fez um gesto com a cabeça, indicando que tudo estava arrumado.
A corneta soou, a caça a bandeira começou.
Com gritos de guerra, as tropas avançaram. O barulho do encontro das lâminas das espadas se espalhou pela floresta inteira. Minha hiperatividade estava a mil. Meus instintos estavam querendo me levar para a batalha logo, estava ficando impossível ficar ali parada. Mas eu tinha que esperar minha vez de avançar com meu grupo.
Os campistas da linha da fronteira avançaram para o leste, chamando os combatentes do time adversário. Eu podia ver algumas lutar. Estávamos avançando muito bem. Os que conseguiam passar pelos nossos guerreiros, ainda tinham a linha de defesa para passar. A defesa estava tentando conter.
— Espere. – eu disse para Austin, encarando toda a cena.
Alguns campistas de chalé de Ares passaram como ogros por cima de meus irmãos na defesa e avançaram.
— Espere. – repeti. Apertei com mais força o punho de minha espada.
Austin já olhava desesperado para mim. Ele tinha que aprender a vencer nossos instintos e usar o cérebro. Os guerreiros vinham correndo gritando para nossa direção. Levantei minha espada na direção deles.
— Já!
Austin sorriu e apertou o botão de seu relógio. Ao lado oeste, as bombas explodiram, uma por uma, levantando terra e neve. O barulho era enorme, apesar de todos ficaram calados e parados para entender o que estava acontecendo.
Os arqueiros, camuflados aos topos das arvores, romperam o silêncio com os zunidos de suas flechas cortando o ar em direção aos guerreiros do time de Ares que já haviam furado a defesa. As campistas do time vermelho atingidos pelas flechas pararam no chão para arrancar as flechas de seus corpos.
Os defensores do time vermelho correram para o lado oeste para ver o que ocasionou aquelas explosões. Agora tudo estava ocorrendo bem, o plano tinha dado certo. O meio da floresta estava desprotegido, podíamos avançar facilmente por ali.
Virei-me para Austin.
— Vá proteger a bandeira com os filhos de Quione. Cuidado com as armadilhas até lá.
— Certo, capitã. – ele riu.
— Não me chama de capitã. Agora, vai lá.
Juntei alguns filhos de Apolo guerreiros, que optaram por usar a espada ou a lança, e também Queen para avançarem junto comigo. Passamos por nossas defesas, já recuperadas dos ataques. Tive que sustentar o peso da armadura molhada assim que cruzamos o riacho, o limite dos dois territórios nos jogos.
Avançamos sem parar, apenas batíamos nos campistas do time vermelho com a parte plana da espada, o suficiente para desestabiliza-los um pouco, possibilitando nossa passagem sem se quer lutar.
Tínhamos que ser rápidos mesmo. Logo, logo as defesas iriam descobrir que as bombas não passavam de distrações e iriam voltar para o combate, irados por terem sido enganados. Por uma fração de segundo, temi os filhos de Nêmesis. Eles adoravam dar o troco.
Matt estava começando a pensar cada vez melhor para as batalha, não só agir por impulso como sempre fazia. É totalmente previsível que eu tente engana-los com um de meus truques. A escolha dos filhos de Nêmesis como aliados havia sido muito boa. Movidos pela raiva de serem feitos de idiotas, eles se tornavam máquinas de luta sanguinárias.
São do tipo daquele seu amigo chato que, quando você faz um risco na folha do caderno dele, ele te risca o caderno inteiro. Ou quando você dá um peteleco no pé de sua orelha, ele devolve com um tapa na cara. Eles não se vingam, eles se vingam pior.
Ned apareceu correndo ao meu lado.
— Ache a bandeira. – disse ele. – Nós cuidamos de contê-los aqui.
Ele estava radiante dentro de sua armadura, tão dourada e brilhante quanto o sol. Admito que meu coração deu uma leve acelerada quando ele deu um sorriso calorosa de incentivo para mim.
Ned era um dos caras mais disputados do acampamento. Filhas de Afrodite super gatas já o chamaram para sair várias e várias vezes e ele sempre recusava. Quando eu perguntava para Jenny a razão disso ela simplesmente riu da minha cara e disse que eu sabia a resposta. Era verdade, eu sabia. Só queria que alguém me dissesse ao contrário.
Ok, eu não sei como ainda não morri em batalha sendo distraída desse jeito que sou.
Assenti para ele e me foquei na caça a bandeira novamente.
As defesas estavam se reconstituindo, mas todos nossos guerreiros da linha de frente já estavam no outro território. Tentei esquecer todo o peso da armadura e botei mais forças em minhas pernas para acelerar minha velocidade.
Estrondosos trovões fizeram barulho logo atrás de mim. Quando pensei no que poderia causar esses trovões, era tarde de mais. Um raio rasgou o céu e atingiu com força assustadora o chão ao meu lado. Eu literalmente voei do chão e cai de costas a metros de onde eu me encontrava. Um gosto estranho de metal veio a minha boca.
Praguejei em grego. Com alguns gemidos de dor, rolei para o lado, de modo com que eu ficasse com meu peito para o chão. Apoiei-me em meus braços para me erguer do chão, só que um pé pôs pressão em minhas costas.
— Fiquei aí, Roberts. – mandou Hailey. – Se renda agora e seja minha prisioneira.
Avistei minha espada bem a minha frente. O rosto sério e solene de Hailey estava refletido na lâmina.
— Não sem lutar. – grasnei.
Com um movimento ligeiro do braço, consegui agarrar o punho de minha espada. Girei meu corpo com força e Hailey se desequilibrou, já que ela estava apoiada em mim. Ainda no chão, dei uma rasteira nela. Hailey caiu de lado no chão, contudo se levantou rapidamente. Mas eu só queria tempo para me levantar mesmo.
Uma feição de surpresa estava estampada no rosto dela. Hailey era uma dos mais poderosos semideuses que já habitaram nesse acampamento. Em poucos segundos, seus olhos passaram de preocupados para vorazes. Ela ergueu sua espada em minha direção e me convidou para a batalha com seus olhos.
Corri em sua direção. Ao encontro de nossas lâminas, mais estrondos de trovões balançaram os galhos das enormes árvores da floresta. Ela era forte na luta. Seus golpes eram rápidos e firmes. Só que eu era uma das melhores esgrimistas do acampamento. Pelo menos nisso ela não era párea para mim. O problema era que Haley tinha o céu inteiro a seu favor.
Ela ergueu sua espada para cima. Não sei como ela conseguiu, mas nuvens de tempestade cinzentas se formaram no céu acima de nós. Uma rajada forte de vento levava as folhas das árvores e levantava um pouco de terra. Esse mesmo vento que fez as nuvens girarem com grande velocidade. Raios saindo das nuvens iluminavam todo o céu escuro por alguns segundos.
Ferrou, foi a única foi que eu pensei.
Ela abaixou a espada num ângulo de noventa graus, apontando ela para mim. Se eu hesitasse mais um segundo para pular para o lado, seria acertada em cheio por um raio. Eu estava coberta de metais, se fosse acertada por algum raio era muito capaz de eu virar Sam à Milanesa.
Eu não via motivos para acabar com a briga ali só com um telefragorium. E, confesso, a preguiça de usar minhas forças para isso me venceu. Tantos deuses legais para me abençoar, e logo Hipnos tinha que me escolher. Mas isso não vem ao caso agora.
Levantei-me rápido. Hailey apenas ria de mim. Ela desviou os olhos para o céu. Era como se aquilo deixasse-a feliz. De algum modo, aquilo a fazia bem. É como o Nick ficava quando chegava perto do mar. Ou a Jenny quando tomava sol, ou a Queen quando visitava um cemitério, ou os filhos de Deméter num campo, os filhos de Hefestos nas forjas. E os filhos de Atena na.... biblioteca?
Nota mental: conversar com minha mãe sobre nossos poderes, se eu a visse de novo.
Ela iria fazer com que outro raio caísse. Eu não podia ficar nesse joguinho de ficar me jogando no chão. De tanto que os raios tocaram o chão, algumas folhas secas estavam pegando fogo no chão. As ninfas não iriam gostar disso.
Pisei em umas das folhas para apagar o fogo. Tinha que pensar em algo rápido para acabar com aquilo. Qualquer coisa, qualquer poder. Eu só vi pessoalmente mamãe uma vez, tinha me dito um dia Briana. Conversamos sobre várias coisas, ela me deu vários conselhos. Mamãe disse que nossos poderes são os mais diversos. Temos infinidade de coisas para brincar com cérebros. Acho que você pode usar isso a seu favor, sendo a que melhor lida com poderes aqui.
Brincar com cérebros, essa era uma de minhas habilidades mais divertidas. Você descobre muitas coisas vendo o que se passa nas cabeças das pessoas. Coisas que você queria saber e coisas que seria melhor você não ficar sabendo. Não custa nada tentar, pensei.
Concentrei-me no cérebro de Hailey. É muito difícil descrever o que eu vejo nessa hora. Na verdade, não vejo. Só sinto a pessoa que estou invadindo a mente. Procurei tudo. Só precisava de uma coisa rápida antes que eu fosse acertada por um raio. Agarrei-me a primeira possibilidade. Na verdade, eu nunca tinha feito isso. Seria um teste esse novo poder.
Eu só queria fazer com que ela parasse de lutar. Eu meio que dei uma de filha de Hipnos. Vejamos bem. A região do epitálamo do cérebro é responsável pelo sono. Eu simplesmente quis... que ela dormisse. Não sei direito como ativei essa região, mas eu o fiz.
Hailey cambaleou para trás, bocejando. Ela largou a espada no chão e caiu de costas no chão. Em poucos segundos eles já estava no sétimo sono e roncando alto. Aproximei-me dela para me certificar de que não iria se levantar tão cedo.
— Boa noite.
Sorri e continuei a subir a floresta. De longe pude avistar a bandeira vermelha, cravada nas rochas do Punho de Zeus. Fui fazendo fileiras com as pessoas que tentavam me parar no caminho. Simplesmente é impossível me parar em luta quando eu consigo localizar meu alvo. Quando olhei para trás, havia um monte de campistas do time vermelho no chão de queixando de dor.
Subi as rochas que formavam o Punho de Zeus. Deparei-me com Matt guardando a bandeira, só esperando para ver quem era o primeiro a ousar a confronta-lo. Embainhada em seu cinto estava sua espada para emergências. A que ele gostava de usar estava pendurada as suas costas, uma harpe – um tipo de espada com a lâmina curva, tipo uma khopesh, só que grega.
Com um rápido movimento e único movimento, Matt tirou a espada de suas costas e a levou até a minha cabeça. Com um movimento meio matrix eu consegui desviar da espada. Ele tentou me dar uma rasteira e eu pulei, caindo novamente na pedra com os joelhos flexionados.
Olhei no fundo de seus olhos e esforcei-me para entrar em sua mente. Vi tanta coisa. Seus traumas, suas dificuldades e medos, eram tantos. Procurei me concentrar somente nele.
— Você irá me deixar pegar essa bandeira. – eu disse com a voz firme, esperando que eu controlasse suas vontades. – Você irá descer daqui e irá me deixar pegar a bandeira.
Ele riu de mim.
— Eu nunca... – Matt parou de falar. Ele estava numa guerra contra si mesmo, resistindo ao impulso de me obedecer. – É... eu não... Claro, Sam.
Sua cara demonstrava desconfiança, mas ele desceu do Punho de Zeus.
Suspirei, já sentindo a exaustão do jogo. Segurei firme na haste da bandeira e a ergui, observando com ar de vitória aquele pano vermelho. Mas ainda não tinha terminado.
Ouvi um grito agudo desesperado por ajuda que vinha do outro lado da floresta.
— Sam!
Era a Mia. Definitivamente, era a Mia. Isso queria dizer que conseguiram achar a bandeira em meio à tempestade de neve que criamos. Também queria dizer que imobilizaram Austin e que estavam com Mia, e corriam com a bandeira de volta para o seu território.
Pulei do topo da rocha para chão. Corri como nunca e sem parar para frente. Senti um ou dois cortes feitos em mim por pessoas que eu passava, porém não liguei muito. Meus olhos estavam somente focados em frente, onde meu amigo Jack corria com a nossa bandeira do time azul, almejando ultrapassar o riacho antes de mim.
Fortes correntes de vento se formaram conta minha direção. Jack estava usando seus truques também. Meu passo diminuiu muito, no entanto não me esforcei menos um segundo sequer. Os ventos praticamente formavam um grande paredão em minha frente, estava se tornando impossível eu dar um passo para frente. Jack continuava a correr em seu ritmo constante.
Olhei para a árvore mais próxima do riacho, eu sabia que Jenny estava em seu topo, eu a colocara lá de propósito. Ela era a arqueira mais rápida, estava lá para acertar em cheio o combatente do time adversário que viria correndo com a nossa bandeira. Levei meus dedo indicador e polegar à boca para fazer um assovio que Jenny reconheceria como um chamado para antecipar sua flechada mortal. Dentro das sombras das folhas das árvores, duas flechas rasgaram o ar, uma seguida da outra. A primeira acertou Jack em sua panturrilha. A segunda pegou em sua mão que carregava a bandeira. Ele gritou de dor e largou a bandeira. Também caiu de joelhos por causa de flecha em sua panturrilha, e a arrancou de lá.
Com isso, a paredão de vento se desfez. Consegui correr e, por muito pouco, ultrapassar o riacho antes de Jack.
— O jogo está encerrado! – anunciou Quíron. – Vitória do time azul!
Soltei as correias de minha armadura e tirei aquele peso todo de mim. Todo o nosso time se reuniu para comemorar. Quando dei conta, os filhos de Hefesto já estavam me erguendo no ar e gritando de felicidade. Não pude deixar de dar uma gargalhada. Ganhar um caça a bandeira é bom, ganhar do chalé 5 numa caça a bandeira é delicioso.
Eles só me soltaram quando chegamos ao centro da área dos chalés e sentamos nas toras da fogueira. Quíron nos deu congratulações e disse que iria voltar para arbitrar a segunda rodada de jogos.
Rico, um dos filhos dos filhos de Hefesto dominadores de fogo, acendeu a fogueira e começamos a festejar do nosso melhor e mais gostoso jeito: cantando e tocando em volta da fogueira, e entre amigos.
Jenny chegou com seu violão dentro de capa e se sentou do meu lado.
— Vi você avançando. – ela comentou. – Você foi simplesmente demais hoje.
— Eu? Você viu suas últimas flechas? Você conseguiu acertar a mão do Jack a sei lá quantos metros de distância. Incrível!
— Um dia você ainda será magistral com o arco como eu. – Jenny jogou seu cabelo para trás.
— Não sei se quero ser assim como você. – eu ri.
Fiquei olhando para o fogo, onde eu conseguia ver os olhos de Héstia em meio a ele. Sorri para ela, era uma das deusas que eu mais gostava. Ela sempre habitava o acampamento em momentos assim, momentos tão família e alegres. Era bom ver que, em momentos de crises, ainda conseguimos manter isso. Héstia conseguiu acender uma chama em mim, só que uma chama diferente: a esperança.
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