Samantha Roberts - Guerra Fria
27 De dentro para fora
Notas iniciais
Meus joelhos se curvaram bruscamente e eu caí no chão encarpetado, junto com todas minhas defesas. Apertei os braços contra minha barriga e entreguei-me a um choro descontrolado, que nem eu mesma sabia que era capaz de produzir. Inclinei-me sobre o pequeno e frágil corpo de Mia e senti a dor de sua perda.
Ela iria ser criança para sempre. Mia, a pequena encrenqueira e espertinha, nunca iria crescer, ter experiências, lutas, missões ou paixões. Ela havia sido privada disso. Arrancaram-lhe a vida. Eu arranquei-lhe a vida. Provoquei Sócrates e não fiz nada para salvá-la. E agora não havia mais nada a ser fazer.
A inexorabilidade disso pesava sobre meus ombros, impedindo-me de levantar do chão. Mia estava ali, com seu imóvel peito ensanguentado. E nunca mais voltaria a movimentá-lo. Estava morta.
— Me perdoa. — eu disse com a voz rouca em meio ao meu pranto. — Eu te amo. Eu não queria... Me perdoa, me perdoa, me perdoa...
Eu estava arrasada e indefesa. Ter uma criança assassinada para me atingir já era a própria morte e nada que fosse vier a seguir poderia ser pior que aquilo. Eu estava nas mãos de Sócrates. Ele, por sua vez, não fez nada a não ser aproveitar minha dor. Poderia pensar que estava vendo uma cena de fraqueza, porém, na verdade, não via absolutamente nada. Estava cego por seu sadismo.
Talvez, realmente, nós não fôssemos tão diferentes. Afinal, cometemos o mesmo erro: ambos não nos matamos quando tivemos chance.
No entanto, algo me fez voltar para a realidade. Meu choro foi sufocado por um novo sentimento, forte a avassalador. Era fúria. Ela consumia meu corpo feito fogo, substituindo a dor e me afastando do meu próprio eu. Fez-me sentir que aquilo não poderia ficar assim. Eu não tinha chegado até aquele ponto para deixar Sócrates ganhar.
Comecei a tremer. A sensação era forte demais e seguia um curso: de dentro para fora. Ela precisava sair.
A fúria conseguiu escapar em forma de um berro potente. Juntamente com ela, era como se uma onde invisível também tivesse escapado. Esta, ao atingir a todos da sala, derrubou-os no chão. Em contraste, eu me levantei. Meus dedos formigavam, clamando para entrar em ação. Eu não sabia de onde havia arranjado forças, mas pouco me importava. Tudo o que eu precisava era coloca-la em ação.
Os atingidos seguraram suas cabeças entre as mãos e começaram a gritar sem parar. Somente Sócrates pareceu resistir, mesmo que estivesse evidentemente sofrendo com o golpe. Ele estava procurando um meio de reverter essa situação, virar a mesa para ele. Porém, se Sócrates havia criado uma parede entre nossas mentes, eu havia criado uma muralha. Nada iria me parar agora.
Exceto meus amigos também gritando de dor.
Deparei-me com eles sob o efeito de meu poder. Eu não havia notado que eu também estava fazendo isso com eles, mas estavam logo ali ao meu lado, contorcendo-se de dor. Susana estava pior — encontrava-se em um estágio quase convulsionário, espumando pela boca.
Parei imediatamente.
Era como se eu tivesse pegado uma assadeira quente — o mesmo susto, a mesma dor, a mesma expressão de surpresa, para, então, deixar a assadeira cair no chão. Foi semelhante a como parei de usar o telefragorium, como se eu o sustentasse no ar e o deixasse cair.
Eu não podia perder tempo. Não sabia o quanto iria durar aquela repentina explosão de força. Com um movimento de braço para me ajudar a visualizar o movimento, usei minha telecinese e joguei os guardas em cima de Sócrates.
Cerrei os punhos e encarei o amontoado de pessoas à minha frente. Meus olhos ardiam. Minha cabeça estava explodindo, mas eu não sabia se era por causa do choro ou por causa de tudo que eu estava exigindo dela.
Minha mente deu um click.
Não tenho mais nada a perder.
Olhei para minha espada no chão à minha esquerda e depois paras as armas de Queen, Jenny e Susana jogadas num canto à minha direita.
As armas delas passaram voando pela minha frente e caíram aos seus pés. As duas estavam ajudando Susana, estirada no chão e completamente desorientada, a se levantar. Ao mesmo tempo em que isso acontecia, minha espada cortava o ar em direção à Dabria e só parou quando encontrou a lateral do corpo dela.
Faltam oito.
Abri a mão e minha espada voou rapidamente até ela. Tentei ignorar o barulho agudo que estava em minha cabeça, algo que parecia uma microfonia. Os inimigos à minha frente tentavam sair um de cima do outro. Eu consegui ver apenas a cabeça de Sócrates por baixo de tanta gente.
Olhei para as estantes ao fundo do cômodo. Tomara que ele tenha muitos livros em capa dura, consegui pensar. Fechei meus olhos e, de alguma forma, pude sentir aqueles livros todos. Puxei-os até mim.
Para meu espanto, deu certo. Certo até demais. As estantes inteiras vibraram e mexeram alguns centímetros para frente, até levitarem e virem voando até mim. Assustada com a velocidade do deslocamento, suspendi o comando em minha cabeça. As primeiras estantes caíram no chão e se estraçalharam. Uma atingiu o grupo inimigo, já quase todo em pé.
Segurei minha espada com mais firmeza, a fim de atacar Sócrates, invulnerável e preso com a perna embaixo da estante, mas uma vertigem forte me pegou de surpresa. Cambaleei para trás, subitamente fraca, tropecei nos meus pés e caí no chão.
Com a visão turva e que desfocava algumas vezes, vi Jenny atirar uma flecha no pescoço do primeiro guarda que conseguiu sair debaixo da estante.
Faltam sete.
Tentei arranjar forças para me erguer, mas elas me faltaram. Olhei para o corpo de Mia estirado no chão. Não podia ficar assim. Eu tinha de fazer algo. Algo por ela.
Nick veio até mim rapidamente e me ajudou a levantar. Ele me dizia algo, mas eu não conseguia entender. Pisquei algumas vezes e tentei prestar mais atenção. Entretanto, tudo o que eu conseguia ouvir era o barulho agudo em minha cabeça.
Ele me soltou e virou-se, com o rosto transformado pela raiva, para o amontoado de gente que estava conseguindo sair debaixo da estante. Pedro conseguiu jogar a estante para o lado. Nicholas foi atacar.
Meus ouvidos pareciam ter sido tampados. Tudo o que eu ouvia era aquele insuportável som agudo e as batidas em ritmo acelerado de meu coração. Queen passou voando por mim e também foi à luta. Eu olhava para os lados piscando, confusa. Eu havia perdido a compreensão do que estava acontecendo a minha frente. O mundo girava e eu não conseguia acompanhar o movimento.
Um guarda, o mais velho da porta de entrada, se desvencilhou do confuso amontoado de pessoas. Ele tinha cortes no rosto e no braço, o seu sangue pingava no chão. Em sua mão, quase toda vermelha de sangue, ele segurava uma adaga — a adaga de Briana. O guarda vinha correndo... em minha direção?
Eu voltei para a vida como se eu estivesse emergindo de um profundo mergulho. Tudo parecia estar tornando a ficar próximo, voltar a ser real. Quando eu caí em mim, já era tarde demais. O guarda com o nome desconhecido levou a lâmina da adaga à parte superior de meu tórax, abrindo ali um talho. Escapei de sua segunda investida, tendo sucesso por um triz.
Felizmente, não tive que por minha habilidade de luta à prova. Jenny cobriu-me e acertou uma flecha em sua cabeça. Virei o rosto para o lado quando o sangue respingado atingiu minha bochecha. O cara caiu morto aos meus pés.
Faltam seis.
— O que você está fazendo? — Jenny gritou.
Olhei para ela tentando me desculpar. Se ao menos ela soubesse o que acontecera comigo nos últimos segundos.
Avistei Sócrates de pé, me encarando com ódio. Bloqueei minha mente para a dele no segundo em que nossos olhos se encontraram, quase que como um instinto natural de defesa. Pude ver um sorriso de divertimento em seus lábios antes dele se virar para desviar de um golpe de Queen.
Eu não iria deixar meus amigos acabarem com Sócrates por mim. Eu me sentia na obrigação de acabar com tudo aquilo.
Segurei, novamente, firme no punho de minha espada e, dessa vez, consegui correr em direção à ele. Era a hora.
Pedro foi o primeiro a me dar boas-vindas à rodinha da luta. Ergueu sua espada e a levou em minha direção num movimento firme e decidido. Rebati o golpe com a lâmina de minha espada e dei um chute frontal em sua barriga, que o fez perder o equilíbrio.
Não pude dar sequência ao meu ataque, pois captei com minha visão periférica outra espada me esperando com uma estocada em movimento à minha direita. Desviei do golpe, dando um ligeiro passo para o lado. A espada passou rente ao meu corpo.
O guarda que aplicou este golpe em mim recuou a mão com a espada, a fim de meu atacar novamente, mas eu estraguei seus planos. Invadi suas funções motoras e fiz com que ele jogasse sua espada contra outro guarda. A arma voou, desequilibrada devido à desproporção do peço, e atingiu de raspão a parte de trás da cabeça do outro guarda. Este se encurvou para trás, gritando de dor. O ferimento não o mataria, mas Nick, que estava lutando com ele, sim. Aproveitando o momento de desconcentração do adversário, Nick encravou seu tridente em sua barriga. Os dentes atravessaram sua armadura e perfuraram seu corpo.
Faltam cinco.
Rapidamente, peguei a minha adaga e cortei a garganta do guarda que havia lançado sua espada em seu companheiro.
Agora, quatro.
Fiz uma recontagem mental. Até o momento, quatro guardas e Dabria haviam partido dessa para a melhor. Faltavam, então, um par de guardas, Pedro e Sócrates. Queen estava com um dos guardas, Jenny mantinha distância disparando flechas, Susana estava voltando à luta, Nick estava retirando os dentes de seu tridente do recém cadáver.
E eu? Eu recebi uma paulada da parte chata de uma lâmina de espada que eu nem vi de onde aquilo veio.
Caí de costas no chão. O dor dilacerante de meu ferimento veio à tona, roubando-me todo o ar de meus pulmões. Pontinhos pretos apareceram em minha visão. Eu não pude nem me dar ao luxo de contá-los, porque uma espada estava descendo para ser cravada em meu peito.
Rolei para o lado, assustada. A lâmina rasgou o carpete ao meu lado. Vi outra espada tentando acabar com minha vida, a espada de Pedro, mas, então, Nick voou por cima de mim e caiu em cima de Pedro.
Enquanto Sócrates tirava com dificuldade a espada cravada no chão, usei a telecinese para levar minha adaga até seu peito. Ele percebeu o movimento e lutou contra ele. Iniciou-se uma batalha de mentes. De um lado, eu, deitada no chão e com minha espada na ponta de meus dedos; do outro lado, Sócrates, de pé e com sua espada em punhos, embora cravada no chão. A desvantagem era óbvia.
Eu já iria começar meu discurso de auto piedade, alegando ser infinitamente mais fraca que ele, mas eu me censurei. Éramos filhos da mesma mãe. Metade de nosso sangue era igual, era divino. Se ele conseguia usufruir plenamente de seu deus interior, eu também conseguiria.
Concentrei-me e repeti para mim diversas vezes que eu tinha a capacidade e o poder de fazer aquilo. E, então, foi como se uma mão imaginária segurasse a adaga e forçasse-a ir contra o corpo de meu meio-irmão. Seria mais fácil se ele não estivesse fazendo o mesmo.
Em determinado momento, as forças opostas eram tão intensas e tão fortes que e adaga não conseguiu ceder a nenhuma delas. Ela escapou de nossos domínios e foi subiu em direção ao teto, fincando-se lá.
Um empate justo.
Aproveitei-me do momento em que Sócrates olhava rapidamente para a adaga no teto e tentei me levantar. O velho filósofo não me deu folga, descreveu um arco horizontal de meia altura com sua espada. Agachei-me mais e, depois do movimento dele ter sido finalizado, levantei de vez.
A minha esquerda, Queen derrotara mais um dos guardas. Sangue pingava da ponta de sua espada.
Faltam três.
Em algum lugar atrás de mim ouvi Jenny emitir um grito abafado de dor. Resisti com todas minhas forças à mortífera vontade de olhar para ela e ver se o ferimento tinha sido grave. Meu foco estava bem a minha frente, com um fio de sangue escapando pelo talho em sua testa. No entanto, por cima dos ombros de Sócrates, vi que Nick agiu por mim. Xingando de raiva, ele agarrou o tridente e foi ajuda-la.
Na mesma fração de segundo, Sócrates começou outra sessão de golpes. Você é mais nova, pensei, tomando o devido cuidado para que ele não invadisse esse meu pequeno momento de privacidade. Canse-o.
Mas talvez essa tática não fosse uma das melhores. O sangue que fluía de meus cortes parecia estar carregando para fora de meu corpo todo resquício de energia que eu ainda tinha. O cansaço mental estava prestes a me levar à loucura. Tentei, no entanto, ignorar todos os empecilhos. Desviei de mais uma estocada e troquei minha base, propondo mais um jogo de pés para meu adversário.
— Já está ficando sem truques? — provocou ele.
Sorri ligeiramente.
— Já está ficando sem o que falar?
Ele retribuiu com uma risada curta e um novo ataque. Pus minha espada para frente, me protegendo, e a lâmina de Sócrates deslizou pela minha. O barulho metálico me causou um frio na espinha.
Percebi um movimento à minha esquerda e regozijei-me ao ver que eu havia conseguido reforços. Susana vinha em passos rápidos e furiosos, e não parou até rasgar a panturrilha de Sócrates, este que só havia percebido sua chegada um pouco tarde demais.
Ele virou-se na direção da filha de Poseidon, que começou a ataca-lo impiedosamente. Rapidamente varri o salão com meus olhos. Onde estaria Pedro? Susana viera da direção da sacada. As portas estavam escancaradas. Será que...?
Deixei a ideia de lado e avancei em Sócrates. Susana e eu não possuímos qualquer entrosamento, coisa que atrapalhava o trabalho em equipe. De qualquer jeito eram dois contra um. Tínhamos nossa vantagem.
Uma flecha passou raspando pela orelha de Sócrates. Ela quase pegou Susana. Os três pararam de lutar por um instante.
— Mais um movimento e eu juro que a próxima será no meio do seu olho. — Jenny grasnou a Sócrates.
Ela estava com uma flecha preparada no arco. Sua postura era perfeita; a tensão em seus braços era facilmente percebível. O sangue manchava toda sua roupa na região do antebraço. A pele de seu rosto estava bem avermelhada ao redor dos olhos e na têmpora. Conclui que ela recebera alguns socos. Senti meu sangue ferver de raiva e procurei pelo guarda que fez isso. Porém eu não tinha nada a fazer. O guarda jazia aos pés de Jenny, perto de Nick.
Só falta um.
Prendi a respiração e dei dois curtos e discretos passos para trás com Susana.
— Você perdeu. — eu disse para ele em um sussurro desacreditado.
Sócrates lançou-me um olhar duro e ergueu lentamente seus braços, rendido.
Minha espada parecia estar pesando cinco vezes mais. Respirei fundo e tentei me recompor um pouco. Meus braços e pernas latejavam. Uma forte ânsia de vômito começou e fez com que minha respiração ficasse descompassada.
— Mesmo que me matem, não vão matar a causa. Guardem isso. — ele disse devagar e depois deu uma pausa. — E isso!
Fui jogada com força brutal a vários metros de distância. Caí no meio de uma confusão estrondos metálicos e barulhos de madeira batendo no chão. O mundo começou a girar. A dor era entorpecente. Ao meu lado, Nick, Jenny e Queen também tentavam se levantar.
Sócrates segurava Susana pelo pescoço com o braço, bem a nossa frente; a espada dela estava largada no chão. A garota se debatia, mas ele era forte. O filósofo suava e estava vermelho, mas nem isso fazia com que ele a soltasse.
— Vocês não façam nada ou eu vou estraçalha-la. Quebrarei osso por osso e, então, ela voltará para onde nunca deveria ter fugido.
— Nem você! — Nick gritou de volta.
Minha visão oscilava entre escurecida e normal. Eu ia vomitar a qualquer momento, sabia disso. Jenny tentou resgatar seu arco rapidamente, mas Sócrates agarrou Susana com mais força.
— Vou começar pela costela. — ele avisou.
Queen olhou para mim, desesperada. Olhei para eles de volta, procurando rápidas soluções. Nada. Nick estava prestes a se levantar para avançar. Ele tentava se mostrar forte, mas seu mundo estava desabando. Eu não precisava ler sua mente para saber o que ele estava pensando: Não posso perder minha irmã de novo. Antes mesmo que eu pudesse alerta-lo com um olhar, ele fez menção a atacar Sócrates.
Imediatamente Susana urrou de dor. Ela arregalou os olhos, que estavam começando a se encher de lágrimas que ela tentava conter, e começou a tremer.
Vi que Sócrates vacilou um pouco. Entendi o que aconteceu: Sócrates usou a telecinese para quebrar uma costela de Susana. Ele estava usando todo o resto de suas forças. O idiota quer morrer?
— Quem vocês acham que são? — ele vociferou. — Quem vocês acham que são?! Acharam que era só entrar aqui e salvar o mundo? — ele cuspia enquanto falava. A veia lateral em seu pescoço parecia estar quase explodindo de tão saltada. Seu rosto agora era completamente vermelho. — Isso é maior que vocês, seus imbecis! É maior do que eu! A Nova Ordem Mundial está chegando e vocês não vão para-la! Agora, mais um movimento e a próxima costela vai perfurar o pulmão dela. Estão me ouvindo!?
Avistei algo em seus olhos. Era aquele brilho de insanidade familiar. Mas estão, avistei outro brilho. Não em seus olhos, mas vindo de outro lugar. O causador deste estava acima de Sócrates e Susana, cravado no teto. Minha adaga refletindo alguma fonte de luz.
Era isso. A cartada final.
Tentei me recompor e fechei meus olhos. Senti meu corpo leve, como se minha consciência estivesse me deixando. Mandei-a se pôr no devido lugar e me concentrei.
Aquela explosão havia deixado meu corpo há tempo. Eu me sentia fraca e meu alcance não parecia chegar até o teto. O sangue saindo de meus cortes fazia-se presente e lembrava da dor e ardência que eu estava sentindo. Eu estava com medo e desesperada. Precisava, no entanto, sobrepujar a tudo isso.
Pensei em Briana e em nas aulas de aprofundamento que ela professava particularmente a mim. Primeiro domine sua mente. Só depois ela poderá dominar todo o resto.
Este momento não era sobre Sócrates e eu; era sobre ela, sobre todos os campistas que lutaram e ainda lutavam para salvar nosso mundo. Eu precisava compreender isso, esclarecer esse fato. Clarear minha mente, dominá-la. Afugentar tudo ao meu redor.
Senti a adaga sob meu domínio. Era deliciosamente palpável, como se eu pudesse fechar meus dedos ao redor de seu cabo mesmo ela estando a metros acima de mim. A adaga se desprendeu do teto bem a tempo de eu abrir os olhos para vê-la voar com destino certo para a cabeça de Sócrates.
Ele arregalou os olhos e cambaleou para trás. Quando caiu, levou Susana consigo.
Então, o mundo mergulhou num silêncio absoluto. Susana se contorcia de dor, mas eu não consegui ouvir os gritos que ela parecia emitir. Apalpei o chão ao meu redor procurando pela minha espada. Quando a achei, levantei-me lentamente.
Andei, em transe, pela trilha de cadáveres que me levava ao de Sócrates. Parei ao lado de Mia. Meu peito encheu-se de uma dor insuportável, pior que todas que eu estava sentido, e eu poderia me ajoelhar ao seu lado novamente e desabar de vez no choro. Quase o fiz, mas lembrei-me que eu tinha uma tarefa a terminar.
Cheguei até Sócrates. Eu mal conseguia absorver a imagem dele paralisado, morto. Agachei-me ao seu lado e tirei com dificuldade a adaga de Briana de sua cabeça.
— Pela sua lâmina ela morreu, e pela dela você também. — eu disse. Então comecei a chorar. — Eu a vingaria. Eu prometi... E isso não muda nada, não é?
Briana continuaria morta. E agora, Mia também. Eu não poderia fazer nada para mudar essa situação. Jamais eu tive uma consciência tão forte disso como quando eu estava sacando minha espada. Com os braços tremendo, ergui a lâmina o máximo que pude. Desci-a.
Estava feito. A cabeça de Sócrates fora arrancada de seu corpo.
Larguei a espada ali mesmo. Olhei para o lado e vi que meus amigos se levantaram e vinham em minha direção. Os sons estavam voltando aos poucos. Os gritos evidenciavam que a batalha ainda acontecia lá embaixo.
Nick parou na frente de Sócrates, aparentemente decidindo qual de nós duas ia socorrer primeiro. Queen foi direto para mim e me deu amparo. Ela falou alguma coisa que eu não entendi. Tentei apontar para trás, a fim de dizê-la que ainda tínhamos que parar aquela batalha. Não consegui.
As forças iam se esvaindo do meu corpo enquanto todo o resto parecia ficar distante. Soltei um arquejo sôfrego. Caí no colo de Queen e pousei lentamente minha cabeça em seu peito.
Lembrei-me da visão de Jenny e soube que não teria jeito. Aconcheguei-me em Queen, mesmo com ela me chacoalhando, pois eu estava cansada e precisava descansar. Desejei, por um pequeno segundo, que meus amigos não estivessem comigo nesse momento. Eles não tinham que assistir a isso. Mas estavam ao meu lado e não iriam sair. Ficariam comigo até o fim. E isso me fez bem.
Apegada a este último sentimento, fechei os olhos. Então perdi a consciência.
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