As vozes.

Elas estavam lá, e me fizeram acordar. Uma miríade de vozes que se misturavam e perdiam o sentido entre si. Eram a altas e esbravejavam e não cessavam um só momento. Eu queria saber quem eram seus donos, porém eu não conseguia.

— Fica comigo. — uma delas suplicou nitidamente perto de meu ouvido.

Uma voz suave e aveludada e, de certo modo, melodiosa. Uma legítima mezzosoprano, encorpada e que se destacava entre todas as outras. Ela me atingiu em cheio, enchendo meu peito e resgatando memórias em minha mente.

Era Jenny.

Ela estava chamando por mim.

O olfato foi o seguindo sentido a me reavivar. O cheiro doce de néctar invadiu minhas narinas e trouxe-me conforto. Um antisséptico com o aroma alcoólico também deveria estar perto de mim, seu cheiro sendo embaralhado ligeiramente com um pacote de gaze recém-aberto.

Subitamente, todas as sensações que se misturavam apartaram-se. As vozes tornaram-se frases coesas e eu consegui distinguir de onde elas vinham. E de quem.

Jenny. Clarck. Queen. Nick. ­­Quíron. Zack.

Meus pulmões começaram a clamar por ar. Era uma necessidade devastadora e urgente — eu não poderia suportá-la por tanto tempo. Inconscientemente, abri os olhos juntamente com a boca, que puxou a maior quantidade de oxigênio que conseguia.

Meu coração começou a martelar violentamente contra minha caixa torácica. O movimento era completamente descompassado e intenso. Minha respiração acompanhava o ritmo das batidas de meu coração. Eu precisava de ar. E nada que eu conseguia inalar parecia ser o suficiente.

As pessoas ao meu redor estavam passando de borrões para figuras definidas.

Jenny agarrou rapidamente uma de minhas mãos e começou a chorar.

— Você me enganou!

Sua mão estava quente. Ela entrelaçou seus dedos nos meus e apertou forte.

Um frio absurdo tomou conta de meu corpo. Comecei a estremecer, no entanto meus membros não obedeceram ao meu comando de se encolherem. Eu não conseguia reagir aos xingamentos e aos cumprimentos que os outros estavam me dando. Só conseguia tremer e abrir a boca para puxar mais ar.

Mais pessoas além de meus amigos estavam lá. Elas iam e viam, de um lado para o outro, e eu não consegui forçar minha cabeça e acompanhar os seus passos.

— Sequem a testa dela! — alguém fora de meu campo de visão ordenou.

— Troquem essas gazes ensanguentadas! — mandou outra pessoa.

— Como está a pressão dela?

— Vou checar a temperatura.

Era muita informação para assimilar de vez. A simultaneidade de tudo o que acontecia me confundia, deixando meu cérebro preguiçoso novamente. Manter os olhos abertos estava se tornando um esforço descomunal. Cada segundo me desgastava mais ainda.

— Você vai ficar bem. — prometeu Jenny.

A última coisa que fiz antes de tudo ficar preto novamente foi tentar acreditar em suas palavras.


Fui arrancada de meu sono por um calafrio.

Senti minha boca seca antes mesmo de abrir os olhos. Sede. Deuses, eu estava morrendo de sede. Eu iria morrer se não bebesse algo imediatamente.

Nick estava secando o suor de minha testa com uma pequena toalha de rosto. Seus olhos estavam vermelhos e inchados e circundados por grossas olheiras, mas brilharam ao me ver acordada.

— Água. — pedi.

Ele deu um salto e virou-se para o outro lado, indo vasculhar a barraca.

Abracei-me para me proteger do frio e me arrependi logo em seguida. Senti pontadas de dor em diversos pontos de meu corpo. Meus músculos pareciam ser feitos de carne moída. Eu estava totalmente estragada.

O pior, no entanto, era definitivamente minha dor de cabeça. Eu a sentia latejar com intensidade. Meu cérebro parecia fazer o mesmo movimento, como se estivesse preparando para explodir.

Nick veio até mim com uma garrafa de água. Ele a abriu com seus dedos trêmulos. Atrapalhado, deixou a tampinha cair no chão e resmungou algo. Ele estendeu a garrafa para mim, mas recolheu quando fiz menção de levantar. Parecia mesmo não saber direito o que fazer. Hesitante, ele colocou a gargalo da garrafa em meus lábios.

— Droga, Sam. — ele disse. — Achei que você tivesse morrido.

Sorvi com dificuldade pequenos goles d’água. Dei graças quando senti a refrescância inundar minha boca.

Nick esperou que eu bebesse mais um pouco da água e depois apoiou a garrafa em cima de outra maca portátil. Ele revezava seu olhar entre mim e o zíper da lona, como se tentasse decidir o que faria a seguir.

Então me dei conta que estava em uma barraca-enfermaria.

Então me dei conta do porquê de estar ali.

As lembranças vieram em turbilhão para minha mente, passando na frente de meus olhos em um flash de segundo. A invasão, o reencontro com os gêmeos, a luta, as mortes. Julia, Mia, Sócrates.

Mia.

Minha respiração voltou a se desregular quando as lágrimas vieram. Elas começaram a rolar, quentes, para fora de meus olhos.

— Sam?

Agarrei com força o lençol que cobria a maca.

Eu me recusava a acreditar que eu permiti que aquilo acontecesse. Tive forças para deixar o salão pelos ares, mas não consegui impedir a morte da única pessoa naquele lugar que não tinha nada a ver com toda a situação.

Sete anos. Ela tinha sete anos.

Olhei para Nick, determinada a odiá-lo por isso, embora eu soubesse que não devesse. Mas alguém deveria carregar a culpa por aquilo. Alguém tinha que ser o culpado. E alguém tinha que pagar.

Talvez eu seja a maior culpada, pensei.

Tentei, em vão, engolir meus soluços. Por mais que fosse verdade, eu não queria transparecer que eu estava caindo em um abismo fundo demais para saber a profundidade.

Nick gentilmente pôs sua mão sobre a minha, sem falar nada — eu duvidava que ele soubesse o que dizer. O gesto era uma mistura de insulto e reconforto. Era muita ousadia ele achar que as coisas poderiam voltar a ser as mesmas agora. Que um dia elas pudessem voltar a ser. Em contrapartida, sua mão parecia ser feita para envolver a minha e sua simples presença ali era tão familiar que quebrava meu coração.

— Agora acabou. — ele disse baixinho.

O choro me deixava com falta de ar, mas mesmo assim eu não conseguia parar. Eu estava abalada demais por Mia e também aliviada demais pelo fato de ter conseguido. Eu simplesmente precisava botar tudo isso para fora.

— O-o que aconteceu? — perguntei com a voz trêmula. — Depois que apaguei?

Ele olhou novamente para a abertura da barraca.

— Acho que eu deveria chamar Jenny.

— Nick.

Ele estava nitidamente cansado, até para discutir comigo. Andou até um banquinho e o arrastou para o lado de minha maca. Sentou nele.

— Como está se sentindo?

Eu poderia responder a essa pergunta com diversos adjetivos.

— Com frio. — miei. — Quero levantar.

— Não. Você não pode.

Mandei a ele um olhar revoltado, que foi respondido com um longo suspiro.

— Não sou eu. Mandaram que eu assegurasse que você ficasse deitadinha aí. — ele respirou fundo. — Você perdeu muito sangue, Sam. Entrou em estado de choque. — Nick esfregava seus dedos uns nos outros, nervoso. — Você perdeu o pulso uma hora e... Foi horrível. Mais alguns minutos e você estaria morta.

Isso explicava o fato de eu estar me sentindo um lixo.

Minha cabeça girava conforme eu assimilava a seriedade das palavras que ele falara. No entanto, eu precisava saber mais.

— E antes disso? — insisti.

Nick cruzou os braços e assumiu uma postura defensiva. Ele havia sido instruído a não me contar o que tinha acontecido. Eu podia perceber isso. Ele me olhava e eu não conseguia dizer se ele estava preocupado ou irritado.

— Foi uma confusão só. — ele disse depois de um tempo. — Jenny entrou em desespero quando você perdeu a consciência. Só hoje de manhã fomos descobrir por que.

Meu coração se apertou. Eu nem sabia do que eu seria capaz para poder abraça-la naquele mesmo momento.

— Então tínhamos você apagada, Susana gritando de dor, Jenny tentando fazer você acordar, dez corpos e uma cabeça decepada. Eu nem sabia quem ajudar primeiro. Na real, se Queen não estivesse ali para coordenar tudo, eu nem sei o que poderia ter acontecido.

Nick pousou a mão sobre a maca, ao lado da minha. Afastei discretamente nossos dedos um dos outros.

— Convencer Jenny deixar você aos cuidados de Susana e Julian por alguns minutos foi a parte mais difícil. — ele continuou. — Carreguei você até meu quarto, onde os outros do porão também estavam. Queen pegou a cabeça de Sócrates enquanto eu levava Jenny à força para fora da fortaleza.

— Acionei o toque de recolher. Isso parou muita gente por um momento, mas não foi tão eficaz assim. Peguei a cabeça nojenta de Sócrates e saí desfilando com ela, gritando que aquilo precisava parar. Todo mundo ficou confuso porque não dava pra entender em que lado eu estava. Mas aí Queen e Jenny chegaram ao meu lado e o pessoal começou a sacar.

— Fomos pedir ajuda para Matt. — ele deu uma risada seca e apontou para seu lábio, que só então percebi estar ferido no canto. — O que ganhei foi um belo gancho de direita. Teve uma gritaria danada, mas no final conseguimos reunir as falanges. Trabalhei com os filhos de Quione para manipular a neve e hm... Foi assim por mais vinte minutos. Então conseguimos cercar o resto dos rebeldes. A maioria se rendeu.

— Passei a bola para Matt e Queen e corri de volta para meu quarto. Zack, Julian e eu carregamos você e Cathy para fora imediatamente. Jenny chamou um daqueles cavalos e disse que ele levaria a gente até o acampamento. Juntamos mais dois feridos graves e viemos para cá.

Tentei remontar toda a história em minha cabeça. Atentei-me a cada detalhe que Nick fornecera. Eu precisava visualizar isso, precisava me sentir dentro da ação. A ideia de ter estado deitada enquanto meus irmãos e primos lutavam entre si era insuportável.

— Nick, quem dá gente mo...

— Pare com isso. — ele deu-me um olhar severo.

Retribui seu olhar. Era insultante ele me tratar como uma doente coitada. Eu tinha o direito de saber essas coisas.

— Vai me contar ao menos o que vão fazer com eles?

— Cremar. — ele disse rapidamente. — Explodir todas as dependências do acampamento e depois soterrar tudo com a neve.

Todo mundo junto ardendo no fogo. Eu não podia acreditar que Mia não podia ter ao menos um funeral digno.

O frio passou a ser insuportável, então pedi a Nick que me trouxesse mais um cobertor. Ele pegou o que cobria a maca vazia e me envolveu com ele, tomando cuidado com meus ferimentos.

— Há quanto tempo está aqui? — perguntei assim que ele terminou.

— Não tanto quanto eu gostaria. Estava ocupado. Mas meia hora atrás eu consegui fazer Clarck tirar uma folga.

— Ocupado?

Eu não deveria mais me importar com que ele andava fazendo, mas ainda me importava. E a boa e velha irritação por estar ligando demais para Nick voltou à tona.

— Reuniões. Eles querem banir minha irmã do Acampamento Meio-Sangue, Sam. — ele disse com um pedido de socorro implícito no seu tom.

Obriguei-me a não me amolecer por isso e a encontrar algum pingo de razão no meio de tanta confusão que meu corpo estava sentindo.

— É o certo.

Nick ficou ali parado, olhando desacreditado para mim.

— É a minha irmã.

— Sócrates também era meu irmão e nem por isso hesitei antes de arrancar sua cabeça. — as palavras saíram muito antes de eu pensar direito.

Esperei por alguma resposta, alguma reação negativa, que ele começasse a brigar comigo. E, céus, como eu tinha esperado essa briga — havia tanta coisa que eu precisava gritar na cara dele. Nick, no entanto, não correspondeu às minhas expectativas.

— Foram seis meses difíceis. — ele disse calmamente. — Você está cansada. E acabou de superar um choque. Vai ter tempo para entender tudo.

— Já entendi.

— Não, não entendeu. — ele deu um suspiro. — Vou chamar Jenny e Queen.

E Nick saiu da barraca sem falar mais nada.


Não demorou três minutos até Jenny chegar toda descabelada até a enfermaria, seguida por Clarck e Queen. Provavelmente eles nunca tinham sido tão afetuosos comigo como foram ao ver que eu estava viva. Era até estranho, mas eu gostava disso.

Conversamos até o cansaço me vencer e eu precisar dispensa-los para poder dormir um pouco. Eles me fizeram comer uma barra de cereal e então saíram, me deixando sozinha novamente.

Nick não voltou mais para me ver.

Notas finais
SIM, a Sam conseguiu escapar dessa. Foi uma decisão meio difícil, essa de deixa-la morta ou não. Mas eu ainda acho que ela tem muita coisa para resolver.