Samantha Roberts - Guerra Fria
19 Aurora noturna
Notas iniciais
— Sam! Sam! Sam!
Jenny incorporava minha cheerleader pessoal e gritava para me incentivar. Sentado não muito longe da gente, Matt olhava a cena toda com certo tédio. Já Queen demonstrava mais interesse em seus olhos. Ned me assistia com braços cruzados e um olhar desgostoso.
Fiz um esforço para isolar o resto do mundo e me concentrar somente nas bolsas que eu estava levitando. Era um total de três bolsas no ar. Consegui fazer isso por tempo suficiente para que meu corpo pudesse se acostumar e a tontura fosse embora. Eu estava pronta para o próximo degrau.
Tentei equilibrar a força da manipulação entre as três bolsas que já estavam no ar e a quarta que estava abaixo delas, apenas aguardando. Em movimentos sutis, ela começou a mudar de posição. Respirei fundo e a mochila ficou em posição vertical. Aos poucos ela foi subindo até estar na mesma altura das outras.
A sensação de fraqueza me impediu de continuar com a brincadeira e as bolsas caíram no chão.
Queen bateu palmas.
— Mais alguns treinos e já pode entrar no circo.
A imagem de eu me apresentando, levitando objetos e fazendo eles dançarem no ar, veio-me à mente. Contra todas as expectativas, isso me soava bem. Esbocei um sorriso cansado.
— Você tem ideia do que você pode fazer quando dominar isso? — indagou Matt. — Vai ser uma máquina de guerra.
Sentei-me com tudo sobre a neve fofa. Era gelada de matar, mas eu estava com preguiça demais para me sentar em algum outro lugar. Ao mesmo tempo, Thais e Alex chegaram de sua caçada com alguns guaxinins. Os cavalos teriam comida agora.
Eu sabia que o excesso de poder era, sobretudo, enlouquecedor. Sabia também que eu tinha um enorme potencial a desenvolver. Eu poderia expandir a telecinese a um nível que eu nem ousava imaginar. Essa ideia me assombrava e, ao mesmo tempo, me era animadora. Seria bom usar meu dom em prol do acampamento, porém eu temia o dia em que teria de lutar contra meus próprios desejos desmedidos e egoístas.
— Daqui a pouco Sam não vai precisar fazer esforço pra nada. — comentou Jenny. — Vai poder controlar a tudo e a todos. Bem psico.
Queen baixou os olhos e remexeu a neve com os pés.
— Emma morreu assim. — ela disse baixinho.
Paramos e olhamos para ela. Duvidei de meus próprios ouvidos. Ela não poderia ter citado aquele nome.
— Como? — perguntou Ned.
Queen suspirou. Uma forte nuvem de fumaça saiu de sua boca.
— Emma Belucce. — ela disse, então olhou para mim. — Chalé seis. Foi desse jeito que Emma morreu.
Procurei qualquer sinal de brincadeira no rosto de Queen. Eu simplesmente não podia acreditar naquilo. Sabia, contudo, que ela não era muito adepta desse tipo de brincadeira. Não sobre esse assunto.
— Briana me disse que ela morreu em missão. — minha voz quase não conseguiu sair de minha garganta.
Emma Belucce era um nome conhecido em nosso chalé. Ela havia sido conselheira-chefe por anos e projetara, juntamente com alguns filhos de Hefesto, o nosso covil secreto-não-mais-tão-secreto. Foi a filha de Atena que mais havia saído em missões desde a implantação do Acampamento Meio-Sangue nos Estados Unidos. E, principalmente, tinha sido a mentora de Briana. Ninguém poderia treinar minha irmã exceto Emma.
Queen olhou em meus olhos e eu pude sentir nossos olhares presos um ao outro. Eu sabia o que ela iria contar, mas eu não suportava a ideia de Briana ter mentido para mim sobre algo tão pessoal.
— É uma convenção que o acampamento adotou. — Queen explicou com franqueza notável em sua voz. — Para abafar a história. Depois de anos, todos os veteranos que sabiam de tudo foram embora e essa convenção passou a ser a verdade.
— Eu conheci Emma. — Alex contou. — Mas ela morreu algumas semanas depois que cheguei no acampamento. Ela simplesmente sumiu e depois me disseram que estava em missão. Dias depois queimaram sua mortalha.
Abracei minhas pernas.
Como Quíron poderia concordar com essa coisa toda? Como ele poderia ter mentido para o acampamento inteiro, alegando que Emma estava em missão e já voltava, mesmo ela provavelmente já estando morta?
— Emma era uma semideusa proeminente. — Queen continuou. — Brilhante. As pessoas nem acreditavam que ela pudesse ser real. Emma se destacava em tudo que fazia... Inclusive com os poderes.
Prendi o ar. Eu sei que era besteira, mas uma menção a Emma sempre mexia comigo. Eu nem fazia ideia do porquê.
— Era monstruosamente assustador o que ela podia fazer. E isso acabou subindo a cabeça dela. Um dia Emma tomou o descuido de achar que era invencível, que poderia fazer qualquer coisa. O acampamento sofreu uma tentativa de invasão por cães infernais, Nascidos da Terra... Sei lá, não lembro. Emma quis usar o telefragorium em dezenas de monstros ao mesmo para conter a primeira linha de ataque e seu cérebro simplesmente não suportou.
— Ele explodiu? — perguntou Thais, estupefata.
Queen deu uma risada nasalada.
— Ela ficou louca. De verdade. Apagou no meio da batalha e já não era mais a mesma quando acordou. Um dia, quando ninguém estava tomando conta dela, Emma pegou sua adaga escondida e cortou a própria garganta.
O peso desse fato atingiu a todos.
Digeri as palavras de Queen lentamente. Então algo terrível me ocorreu. A adaga de Emma passou a ser a adaga de Briana. E a adaga de Briana passou a ser...
Retirei rapidamente a adaga do cós de minha calça e segurei o cabo com as duas mãos tremendo. Na lâmina eu pude ver meu próprio reflexo carregado de perplexidade.
Aquilo era inaceitável. Eu não entendia por que Briana, que sempre amou simbologias e metáforas, pudesse usar a arma que representava o suicídio da meia-irmã que mais se importou com ela. Ela levava a adaga para todo lugar, estando em iminência de perigo ou não. Eu não sabia explicar o porquê de Briana levar consigo o fantasma da irmã que tanto amava.
— Emma sempre foi cuidadosa. Na primeira vez que ela não se deu limites, isso aconteceu. Você está se saindo bem, Sam, mas tem que prestar muita atenção para onde você está indo. Sério.
Meu reflexo foi de perplexo a irritado. Limites. Então tudo era sobre isso. Briana carregava a adaga para todo canto como uma lembrança de que tudo tinha que ter um limite. Não era uma homenagem, era um aviso.
Perguntei-me se ela havia dado a adaga a mim antes de morrer na secreta esperança de que entendesse mais um de seus símbolos. De que um dia eu descobrisse a verdadeira história e passasse a tomar cuidado. Era uma piada sem graça. Mesmo depois de morta, Briana conseguia me passar lições.
— Emma morreu muito antes de você entrar no acampamento. — Alex pontuou. — Como soube disso tudo?
Queen tornou a baixar os olhos.
— Nick já era conselheiro-chefe do chalé três na época. Ele participou da decisão do conselho de abafar a história do suicídio. Um dia ele me contou por que evitava tanto a Briana.
Saber disso, sim, era uma facada na garganta.
Briana era minha melhor amiga dentro do chalé e mesmo assim Nick nunca havia tido a dignidade de me contar a verdade. Ele contara o verdadeiro ocorrido para Queen, quem não tinha nada a ver com o assunto, e não para mim que era sua namorada.
A ideia de que minha relação com Nick era baseada num monte de mentiras era como uma segunda apunhalada.
Num ato quase inconsciente, li os pensamentos de Queen. Vi que ela estava parcialmente arrependida pelo que acabara de falar, mas que também achava que eu tinha o direito de saber de certas coisas. Afastei isso de minha mente.
Levantei-me num rompante e saí em direção à floresta.
— Sam? — Jenny me chamou, preocupada.
Limpei com pequenos tapas a neve na panturrilha de minha calça e em meu traseiro.
— Vou dar uma volta. — anunciei. — Sozinha.
Eu queria mostrar que eu não estava tão irritada quanto realmente estava, porém minha própria feição me traía. O assunto não era grande coisa para me chatear, mas o fazia, e eu me sentia extremamente envergonhada por isso.
Mal falei com alguém depois de voltar de minha caminhada. Jenny e Queen tentaram me fazer desabafar, naturalmente, no entanto não receberam muito mais que respostas monossilábicas.
Após o banho — ou o mais perto que podíamos chegar disso nos lavando sem morrer no frio — não hesitei em me convocar para fazer o jantar. Era uma das poucas tarefas do dia que restaram e que eu poderia fazer sozinha. Acendi uma fogueira no centro da clareira e tive que tomar a difícil decisão entre jantar mais uma vez sopa ou jantar mais uma vez macarrão.
Os outros seis não paravam de se movimentar. Matt e Alex levantavam mais algumas barracas enquanto Queen e Jenny esculpiam mais bancos de neve para cercar o acampamento e nos proteger caso houvesse outro ataque. Ned tinha ido até o lago para pegar mais água para nós e Thais estava enfiada na floresta novamente para nos providenciar mais pinhas.
A filha de Afrodite não voltou muito depois de eu ter decidido mandar tudo pro espaço e esquentar mais umas latas de sopas. Ela apareceu com um monte de pinhas aninhadas em seus braços e, antes de se sentar ao meu lado na tora que encontramos no dia anterior, jogou algumas na brasa.
— Noite clara. — ela comentou, os olhos escuros refletindo as labaredas do fogo.
Olhei para cima e assenti levemente. Era, provavelmente, a primeira noite com o céu aberto que presenciávamos no Alasca. Ele estava completamente pontuado por estralas brilhantes, como uma gigantesca lona preta colorida por respingos de tinta branca. O luar somado ao mar de estrelas iluminava o acampamento com uma intensidade maior que o normal, de modo que nem precisávamos acender mais fogueiras.
Não tínhamos um céu desses em Nova York ou Long Island, por isso eu me permiti ficar admirada. Pensei, por um momento, que estivesse encarando o universo inteiro e me dei conta do quanto eu era pequena, tendo poderes maravilhosos ou não. Esse pensamento me fez sorrir.
Senti o olhar de Thais sobre mim. Encontrei-a me estudando com certo divertimento.
— Que foi? — perguntei, incomodada.
— Eu não consigo te entender. — ela disse. — E eu quero tanto tentar fazer isso sem meus... meio alternativos, mas não consigo. Uma hora você fica toda carrancuda, e na outra você sorri para o céu.
— Bem-vinda ao clube. Carteirinha de sócio só depois do exame médico.
Ela ergueu o canto do lábio e fitou o chão.
— É muita coisa ao mesmo tempo. — eu disse. Por algum motivo, falar sobre mim mesma com Thais era sempre mais fácil. As palavras simplesmente fluíam. — Parece que sou tão instável como minha vida.
Pensei que Thais fosse falar alguma coisa típica dela ou dar algum conselho, porém ela não disse mais nada e começou a brincar com uma das pinhas que estavam aos seus pés.
Inclinei-me ligeiramente para frente e remexi as latas de sopa dentro do panelão para que os condimentos não grudassem no fundo. Fui agraciada pelo calor do fogo e pensei que melhor que isso só bebendo um belo chocolate quente para esquentar o peito.
Thais e eu começamos a conversar sobre como era impressionante os cavalos terem ficado conosco apesar de sua natureza selvagem. Xanto parecia ter se afeiçoado por ela, mas Thais não sabia se Lady Artemis iria aceitar animais que não eram de caça no acampamento das Caçadoras.
Avistei Jenny vindo até nós com passos firmes.
— De papinho? — perguntou com um sorriso falso no rosto.
Ela não vinha gostando de como Thais havia grudado comigo nos últimos dias. Jenny não deixava que ficássemos sozinhas por mais que alguns minutos até intervir de algum modo.
Jenny sentou-se na tora entre Thais e eu.
Thais seguiu a linha da interpretação, embora eu duvidasse muito que ela não tivesse pescado o ciúmes que Jenny sentia de nós duas.
— Só jogando conversa fora. — ela disse depois de largar a pinha no chão novamente. — Clima. Sem muito assunto.
— Pena que o tempo aberto não impede de estar fazendo vinte e cinco graus negativos. — Jenny comentou, abraçando o próprio corpo.
— Duvido que qualquer dia seja pior que noite passada. — falei. — Pelo menos nevou tanto que as nuvens se dissiparam.
Um Ned com rosto vermelho e esbaforido saiu do meio da floresta de pinheiros. Ele parou em nossa frente, dobrou-se sobre o corpo e apoiou o braço nos joelhos. Conseguiu falar só depois de duas longas respirações.
— Lago. Agora. Vocês têm que ver isso.
Sem muito explicação, Ned agarrou meu pulso e me começou a me puxar em direção da onde ele havia saído. Olhei para fogueira por cima de meus ombros.
— Mas as sopas...
— Que se dane as sopas! — então ele olhou para Thais e Jenny, que ficaram. — Venham! Venham vocês todos! Deuses, venham!
Vi os outros começando a nos seguir antes de Ned e eu mergulharmos na escuridão da floresta.
Eu tentava acompanhar o ritmo dele com passadas largas e rápidas, tropeçando de vez em quando ao topar em alguns galhos no chão. O barulho de meus pés contra neve era quase que abafado pela quantidade da mesma sobre o solo. Eu corria enquanto imaginava infinitas possibilidades do que aquele garoto maluco havia visto.
Paramos só quando saímos da cobertura dos pinheiros e nos encontramos a céu aberto, o lago a não mais que dez metros da gente. Ned olhou para cima e eu segui seu olhar. Então meu queixo caiu.
— Deuses. — exclamei num sussurro quase sem ar.
Enfeitando o céu havia o maior espetáculo de luzes que eu já vira em toda a minha vida.
Como numa onda sinuosa, as cores verde e rosa delineavam um desenho no céu escuro. As cores pareciam dançar graciosamente uma com a outra, em uma espiral pouco acentuada. A calma e pacata água do lago refletia o panorama acima como uma réplica distorcida. As luzes enchiam de cor e vida a monótona floresta acinzentada.
Aquela era uma imagem que eu nunca, nunca iria esquecer.
O resto chegou atrás de nós. Ouvi um arquejo de espanto e quase tive certeza vinha de Alex. Queen andou até a beira da água, muda, e girava ao olhar o céu com a boca aberta.
— Aurora boreal! — Jenny gritou a alguns metros de mim.
Aurora Boreal. O nome dado ao fenômeno por um filho de Atena, Galileu Galilei, para homenagear a dois deuses: Aurora, deusa romana do amanhecer; e Bóreas, nosso deus grego, o vento do Norte. Naquele momento, achei o nome completamente justo, pois poucas vezes eu presenciara algo tão divino quanto aquilo.
— É tão lindo. — eu disse a Ned.
Ele olhou para mim, sorrindo calorosamente em um frio de mais de vinte graus negativos.
— Eu não podia assistir a isso sozinho.
Retribui seu sorriso com um maior ainda.
Jenny e os outros se aproximaram de Queen, provavelmente para ver a obra-prima que a aurora estava pintando no lago. Todos, até mesmo Matt, pareciam estar sensibilizados com a cena.
— Di Immortales, quero uma câmera! — falou Thais.
— Não! — cortou Jenny. — Coisas assim a gente tem que guardar só na memória.
Eu estava completamente deslumbrada com aquilo tudo. Era tão simples e natural, e mesmo assim conseguia deixar as luzes da Times Square no chinelo. Duvidei que Íris não tivesse domínios no Alasca, pois a Aurora Boreal parecia mais um de seus belos caprichos.
Tornei a voltar-me para Ned e vi que ele continuava a me olhar, os olhos doces e pedintes. A lateral de seu rosto refletia comedidamente a luz rosa, coisa que ressaltava seus traços ao sombrear a parte inferior de seu maxilar e nariz.
Ver seu rosto assim me fez lembrar de Nick e seu rosto iluminado pelas cores dos fogos de artifício no 4 de julho. Como ele sorria ao comemorar com todos o dia da independência, o dia em que começamos a namorar.
Mas aquele não era Nick. Era Ned. O garoto do sorriso mais bonito em todo o mundo, do cabelo rebelde, o garoto que sempre esteve ali, discreto, me observando no acampamento. O garoto que chegou de fininho da minha vida e não parecia ter a menor intenção de sair.
É esse mesmo Ned que inclinou-se sobre mim lentamente, como se esperasse uma autorização. Meu corpo, por um instante, paralisou, e eu não pude fazer nada até sentir seus lábios contra os meus.
O beijo fez jus a toda imagem de príncipe encantado que eu tinha de Ned. Seus lábios encaixaram nos meus lenta e delicadamente. Estavam frios e secos, mas isso não atrapalhou em nada. Ele segurou meu rosto com as duas mãos e me trouxe para mais perto si.
E eu deixei. Eu fechei os olhos e, em um momento repentino de insanidade, retribui.
Pude sentir a surpresa de Ned no milésimo de segundo em que ele ficou estático. Mas ele aproveitou a oportunidade. Uma vez que eu dei a brecha, colocou intensidade no beijo. Era desesperado, como se sua vida dependesse daquilo. Era bom. Seus lábios pressionavam os meus, sugavam-nos, beijavam-nos. Eu gostaria de acreditar na mentira de que meu coração não começou a bater desregulamente.
Então eu percebi o erro que estava cometendo. Coloquei as mãos em seu peito e o empurrei para longe de mim, cortando o beijo.
— Eu não devia...
Deparei-me com os olhos de Ned brilhando para mim e o arrependimento me atingiu com um baque forte.
Notei que Jenny e Thais nos olhavam discretamente e ruborizei. Não podia acreditar que deixei aquilo acontecer tão facilmente. Eu não podia fazer isso com Ned. Dentre todas as pessoas do mundo, ele era a que menos merecia.
Não querendo chamar mais atenção, puxei-o para mais perto das árvores. Ele foi, seu rosto uma mistura de confusão e alegria.
— Não sei se é a coisa certa a se fazer agora, Ned. — comecei.
Ele pegou minhas duas mãos e as envolveu com as suas.
— Sam, não é segredo que sou louco por você. Eu sempre fui.
Suspirei. Como supostamente eu poderia dar um fora em um garoto daqueles?
— Você é um amor, mas não vou conseguir dar continuidade nisso agora. Eu não posso.
— E-eu não entendo. Até dois segundos atrás você parecia que também queria isso. O que impede?
Apenas balancei a cabeça.
— Preciso terminar uma história antes de começar outra.
Ned subitamente fechou a cara.
— Então é sobre ele. — disse com desgosto na voz. — Que idiota. Eu deveria ter adivinhado.
— Não! Não tem nada a ver com ele!
— Então o que é?
Procurei desesperadamente por uma resposta decente. Eu não conseguia pensar direito com seus olhos castanhos me encarando de forma tão acusadora, com a sensação do seu beijo formigando em meus lábios.
— Eu não sei. — foi provavelmente a coisa mais sincera que eu falei o dia inteiro. — Só acho que não estou pronta.
— E se eu te esperar?
— Eu não sei, eu juro que não sei! Talvez. Sei lá. — as montanhas do outro do lado do iluminado lago cativaram meu olhar. — Temos mais no que pensar agora. Podemos deixar essa história para depois?
Ele me olhou como se eu fosse a maior decepção de sua vida. Meu coração se apertou em um nó.
— Por favor. — implorei. — Preciso de prioridades.
Talvez a verdade fosse que, no fundo, eu não queria tomar aquela decisão tão cedo. A decisão de seguir em frente. Queria adia-la até quando pudesse, esperar que todos os males de minha vida se resolvessem para então escolher algo.
Por outro lado, talvez eu não voltasse a pisar fora do Alasca. Talvez eu morresse bem ali, entre aquelas montanhas, e passasse minha eternidade no Submundo me remoendo por ter dito não a Ned.
Obrigada, Jenny.
— Certo. — ele disse.
Soltei o ar que estava prendendo em uma aliviada expiração.
— Obrigada. — sussurrei a ele antes de depositar um longo beijo em sua bochecha.
Não satisfeitos como a conversa se sucedeu, ambos voltamos a apreciar a Aurora Boreal. Não consegui ficar perto de Ned por muito tempo e fui procurar abrigo entre Jenny e Queen. Eu era uma mistura de remorso e ansiedade.
Regressamos ao acampamento e fomos jantar. Thais me lançava olhares significativos, mas fingi não nota-los. Jenny não precisou de olhares. Ela sabia que ia falar sobre o assunto no dia seguinte.
Terminado o jantar, fugi para minha barraca — parte por estar morrendo de frio e parte por não querer ficar papeando sob assuntos aleatórios. Naquela noite, minha mente estava voltada para apenas duas coisas: como eu poderia escapar de minha morte e o que eu faria depois de dar um fim a essa história.
Fale com o autor