Salve Minha Mente, Proteja Minha Alma.
2 Capítulo Dois.
Notas iniciais
Aquela noite de sábado demasiadamente fria preencheu-se com um silêncio aquecedor. Todos riam dentro da casa, e o silêncio que planava sob os três amigos era diferente dos demais; não era desconfortável, pelo contrário, foi aquela ausência de palavras que impediu Annie de chorar, o mesmo silêncio que controlou as emoções explosivas de Trevor, e que fez James permanecer quieto ao menos uma vez em sua vida. Não fora necessário nenhum “sinto muito”, nenhum abraço, nenhum beijo no rosto, apenas aquele silêncio já era um gesto carinhoso. Eles não eram um grupo comum de amigos.
Os dois homens olhavam fixamente para o chão. Até que James pôs a falar, rasgando o silêncio ao meio e jogando-o numa lata de lixo.
– Quer? – Direcionou a carteira de cigarros para Annie, que pegou um, em seguida, ofereceu para Trevor que nunca recusava. Acenderam juntos todos os três.
– E você sente vontade de fazer algo a respeito? – Novamente o silêncio foi retalhado, desta vez por Trevor que erguia a cabeça e soltava a fumaça em direção às estrelas.
Os três entreolharam-se.
A morena soltou a fumaça para a mesma direção que o amigo, tornando-as numa única fumaça, e então afirmou que sim com a cabeça.
Esperou por anos que alguém lhe fizesse aquela proposta.
[POV’s Trevor Cross]
Um mês qualquer de um ano qualquer, eu nunca dei muita importância para datas mesmo. Lembro-me de chegar à casa de uma amiga, seu nome era Samantha, hoje em dia não nos falamos mais, só que nunca esquecerei seu nome. Lembro-me de um dia chegar a sua casa numa tarde, frequentava muito aquela casa, se alguém estivesse procurando por mim deveria passar lá primeiro, pois certamente teria mais possibilidades de me encontrar lá que em qualquer outro lugar desse planeta, mas isso foi naquela época. “Todos nós temos segredos”, e comigo não é diferente. Annie tinha acabado de me contar um segredo semelhante a um que ouvi no passado, na época de Samantha. Lembro-me de chegar a sua casa e encontra-la chorando inconsolavelmente, pedi que me contasse o que havia acontecido, mas ela negou em prantos, meu coração parecia que iria explodir, meu sangue fervia, o que tinha acontecido com minha amiga? E porque ela não queria me contar? Até que ela finalmente contou, eu não sou capaz de descrever a sensação que foi ouvi-la, a mesma sensação que sinto hoje com Annie. Congelei. Não conseguia comer. Não conseguia dormir. Não lembro bem do que eu fiz nos dias seguintes, mas me lembro de um dia em especial, um que mudou meu mundo; o dia no qual os caras com quem eu andava me chamaram para dizer que tinham pegado o desgraçado, o desgraçado que tinha violado minha doce Samantha. Imediatamente entrei no carro, ele estava lá, amedrontado e confuso, implorava que não fizéssemos nada com ele, e eu só conseguia pensar que talvez Samantha implorou daquela mesma forma, com aquele mesmo olhar, e que aquelas lágrimas que ele derramava pertenciam na verdade a Samantha. Levamos aquele filho da puta para um lugar afastado, durante todo o caminho ele implorava, “eu tenho família, eu tenho família”, é claro que ele tinha, todos têm — todos os desgraçados como ele têm esposas e filhos, são nossos vizinhos, trabalham no mercado, no bar, com nossa mãe ou nosso pai, estão em nossas casas num almoço de domingo, eles estão em cada esquina. Quando a tortura começou, apenas fiquei olhando, assistindo-o sofrer, assistindo-o chorar, até que ele repetiu de novo que tinha família, foda-se a família dele, eu iria mata-lo como ele matou a inocência da Samantha; Peguei a garrafa de cerveja e quebrei no rosto dele, nunca vi tanto sangue em toda minha vida, e desejava nunca mais ter que ver. Ele chorava, e minha raiva aumentava, a única coisa que me lembro em seguida é de apenas segurar a cabeça decapitada do desgraçado e do cheiro de carne queimando. Nunca fui o tipo do cara bonzinho, nem andei nos lugares certos e certamente, nunca andei com as pessoas certas, era e é esse o tipo de pessoa que sou: Errante. Já cometi tantos erros que nem sei se alguma vez na vida cometi algum acerto. E quando Annie me contou a mesma história que Samantha me contou há anos atrás, eu sabia, o maior dos meus erros iria se repetir.
[POV’s End]
A festa continuou até o amanhecer, e os adolescentes que não tinham ido embora durante a noite estavam agora adormecidos nos cômodos da casa; alguns na sala, outros tiveram a sorte de achar um colchão vago no quarto, outros preferiram arriscarem-se de forrar o chão com uma toalha e dormir ali mesmo na cozinha – qualquer lugar é valho quando se está bêbado. Apenas três estavam acordados, e você já pode imagina quem são eles; Annie, Trevor e James passaram a noite em claro, conversando do lado de fora da casa sem se importarem com o frio, contanto que tivessem uma garrafa daquela bebida barata que comparam mais cedo, e todos os três tinha uma ao seu lado.
– Bom pessoal, eu acho que já vou indo, tô acabada. – A garota esforçou-se para levantar da cadeira e, antes de pegar a jaqueta, entregou para James seu último gole.
Fora Trevor quem abriu o portão para Annie.
Ele permaneceu imóvel à medida que ela se afastava, olhando na mesma direção que ela caminhava, porém não a observava. Sua mente repetia várias vezes a voz amedrontada de Annie durante sua história, e lembrava-se em como seus olhos lutavam arduamente para não derramar nenhuma lágrima. Foi então que ele percebeu que Annie Crowley não era quem ele achava que era, não era uma garota feliz que vivia a vida intensamente; ela estava assustada e machucada, e obrigava-se todo dia a vestir por cima das feridas uma armadura, tentando de qualquer maneira viver uma vida, não importando qual fosse, e isso parecia feri-la ainda mais.
E como seu amigo ele tinha o dever de protegê-la, de salvá-la do passado que a sufocava.
Estava decidido que seria ele quem atenderia o seu pedido de socorro.
[POV’s James Volker]
Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas, haha, sempre quis dizer isso. Mas agora falando sério mesmo, eu acho que essa é a melhor frase para descrever o que foi hoje. Depois do que Annie nos contou e, do que eu sei sobre Trevor, temo o que pode acontecer com nossas vidas a partir de hoje. Conheço Trevor muito bem para saber o que ele quis dizer com “fazer algo a respeito”, isso me assusta, não quero meu amigo sacrificando sua alma dessa forma, afinal, sei que o que ele fez no passado levou parte dele para o inferno, mas também não quero assistir sentado a alma da Annie se corroendo lentamente, levando junto sua sanidade mental. Lembro-me bem de quando ela ficou internada naquele hospital horrível devido ao colapso que teve, na época eu não entendi, foi tudo tão rápido, numa noite estávamos nos divertindo e no dia seguinte ela estava internada num hospital psiquiátrico por tentativa de suicídio, agora eu sei, e sei também que a cada segundo que esse cara tá ai fora vivendo sua vida, uma parte da Annie morre, e eu não sei até quando a mente dela vai aguentar até desistir de tudo de uma vez por todas. Eu temo por ambos. A única coisa que quero fazer agora: é salvar meus dois amigos, nem que isso custe minha própria vida. Não importa qual a decisão deles, eu irei até o fim disso.
[POV’s End]
De repente um estrondo veio do portão, James levantou-se rapidamente da cadeira e correu até onde Trevor estava; ele tinha quebrado uma garrafa de vidro e estava discutindo com um dos vizinhos – aquilo não era surpreendente, a agressividade era a maior característica do amigo.
Depois de alguns minutos de conversa, e também alguns xingamentos que vinham da parte de Trevor, James conseguiu resolver a situação, e levou o amigo de volta para dentro.
– Cara, que porra foi essa? – Perguntou James assim que fechou o portão, encostando-se a parede e ascendendo o último cigarro da carteira.
– Sei lá, acho que voltei para o planeta terra. Depois daquela conversa com a Annie, foi como se eu tivesse saído do meu próprio corpo, mas agora eu voltei, e voltei furioso James.
– E o que pretende fazer?
– Você sabe.
Sem perguntas. Sem maiores detalhes. Eles estariam juntos, mesmo que tivessem que fazer sacrifícios.
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No caminho de volta para casa, Annie encolheu-se num canto do assento do metrô, abaixou a cabeça e permitiu que os fios longos e negros escondessem as lágrimas que percorriam sua tez. Mas aquele choro não era por si mesma.
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