Salve Minha Mente, Proteja Minha Alma.
1 Capítulo Um.
Sábado à noite, era só mais uma social de adolescentes; todos já estavam bêbados, e como você sabe, bêbados tem mania de contar tudo:
– Você vai contar isso pra ele? – Perguntou James, aflito, ao mesmo tempo em que achava que seria uma boa ideia, acreditava ser a pior de todas.
– Eu conto? – Perguntou-lhe com a mesma sensação, entretanto, James apenas lançou-lhe um olhar como resposta. “Você quem sabe.”
Ambos foram para fora da casa, onde Trevor fumava e conversava com os outros do grupo. Quando olhou para aqueles dois, pôde ver em suas feições que eles tinham algo a dizer, algo que ninguém mais poderia ouvir.
Os três foram para um canto isolado que fedia a urina — era uma festa cheia de bêbados, ninguém poderia esperar um cenário melhor que aquele.
– Trevor, eu... Eu preciso te contar uma coisa, não sei como contar, ou por onde começar... – Ela cessava algumas vezes, engolindo o líquido com auto teor de álcool que preenchia seu copo descartável, ele tinha uma cor amarronzada, era difícil distinguir, Annie nunca fora boa com cores, mas sabia que era uma bebida vagabunda só pela forma que chegava ao estômago. Tremendo-se de frio e vergonha, olhava para James durante as pausas, como se pedisse que ele contasse no seu lugar, mas ele não poderia, apenas puxou uma cadeira e sentou-se em frente aos amigos, lançando novamente aquele olhar reconfortante. “Pode contar.”
– Tudo bem. – Trevor assentiu preocupado e curioso, também olhava para James, tentando capitar as mensagens que ele e Annie enviavam um para o outro.
Era a hora, o dia mais temido por Annie durante oito anos, mesmo receosa, estava decidida que eles deveriam saber da sua história:
[POV’s Annie Crowley]
2005 de um mês qualquer, eu ainda não tinha completado doze anos, minha mãe estava de namorado novo e tinha acabado de se mudar para a casa dele, e eu fui morar junto com eles, o restante da família morava e ainda mora na mesma vizinhança, menos meu pai, ele já faleceu. Mas não é sobre isso que eu quero falar, até porque isso envolve vários outros tópicos desnecessários, ou talvez necessários, já que na verdade tudo que eu vivi até agora se tornou uma bola de neve que me fez ser o que sou hoje. Eu estaria mentido se dissesse algo do tipo “a garota que está diante de vocês” – porque, eu não sou quem a pessoas veem, não que eu seja uma mentirosa, apenas omito uma parte de quem sou para as pessoas que eu sei que não são capazes de compreender a verdade por detrás do meu sorriso. Isso é natural, todas as pessoas fazem isso, todos carregam cicatrizes. Algumas físicas, outras emocionais e outras psicológicas, no meu caso, eu carrego todas as três. Todas interligadas, causadas pela mesma pessoa. Vocês não tem noção de como a mente humana é frágil, e de como uma coisa que deveria ser uma brincadeira entre pré- adolescentes estúpidos, acabou se tornando, anos mais tarde, um pesadelo. Na época eu era inocente de mais, tola de mais, e às vezes me pego pensando que foi a inocência infantil que me condenou, mas aquela inocência não existe mais, ela morreu, e levou junto aquela frágil garotinha de onze anos. Por anos me senti suja, uma pequenina vagabunda como costumavam dizer, nunca assimilei uma coisa com a outra, nunca processei os fatos, hoje sei que não fiz isso na época porque não queria me tornar a vitima, quis fugir da cruel realidade onde ser vista como uma puta era mais fácil, todos me apontavam assim, então um mundo onde aquilo era verdade foi criado, e eu vivi nele durante muito tempo. Quando você assume a si mesma o que aconteceu, e aceita que foi vitima de estupro, o ato torna-se real, e você torna-se para sempre uma vitima.
[POV’s End]
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