Sala 7
1 Prólogo
Arvel, fevereiro de 2001
Soltei um suspiro profundo que segurava assim que fechei a porta do banheiro da casa nova. O chão estava sujo e a tinta das paredes descascando. Havíamos comprado nossa primeira casa por um bom preço, mas precisaríamos reformar. Me inclinei sobre a pia e joguei água no rosto e na nuca, agradecida a David por ter ligado a água antes de chegarmos. Eu me sentia uma idosa de 26 anos com todo aquele cansaço, apesar de estar feliz com a casa nova e o novo bebê a caminho. Um pequeno espelho pendia da parede a minha frente, um pouco torto para a direita. Meu reflexo estava tremido devido a poeira, manchas e uma rachadura no canto, mas eu sorria. Mudar para essa nova cidade tinha sido a melhor decisão tomada por nós, eu poderia ver meu marido com mais frequência, pois seu trabalho ficava há apenas alguns minutos de distância. Ouvi as risadas de Marceline e seus passos ecoando pela casa ainda sem mobília, David corria atrás dela ameaçando sujar seu vestido novo com tinta. As vezes era difícil colocar de lado todos os segredos que cercavam nossa família, toda a preocupação que tinha com minha filha, agora com dois anos, de que quando fosse mais velha teria que carregar um fardo que talvez fosse pesado demais para aguentar. Coloquei as mãos sobre a barriga, agora enorme com quase nove meses de gestação, eu teria outra menina. O máximo que podia fazer era rezar e torcer para que o gene pulasse uma geração, rezar para que minhas filhas não tivessem que arriscar suas vidas.
Uma batida irregular na porta me tirou de meus devaneios.
— Mamãe? Mamãe, eu quero ver o bosque! — Disse Marceline.
Era verão, normalmente uma epóca do ano muito quente num país tropical como o nosso, mas Arvel era cercada por bosques e jardins exóticos, que traziam frescor e cheiro de flores ao ar, além de alguns insetos e animais indesejados, mas eu estava tentando ignorar essa última parte. No fim da rua havia um bosque, o antigo dono da casa disse que haviam pequenas fadas lá, Marceline pirou e desde então não nos deixava em paz sobre isso, mesmo após eu ter explicado que eram só vagalumes.
Abri a porta e encontrei a menina com o rosto sujo de tinta branca e azul escura. Seu cabelo era muito escuro e liso, olhos azuis travessos, iguais os do pai. Ela me olhava com desconfiança enquanto segurava um pincel pingando tinta branca no chão de azulejo.
— O que vai fazer com isso, Marcy? — Perguntei, apontando para o pincel.
— Vou pintar as coisas do papai, ele arruinoiou minha cara! — Ela tinha um vocabulário extenso para uma criatura tão pequena, mas ainda me divertia com os erros de criança. Não pude deixar de rir.
— Não precisa, querida, vem aqui. — Peguei na sua mão livre e a guiei para dentro do banheiro. — Vamos lavar o rosto com água igual a mamãe, o meu ainda está molhado, viu? — Molhei as mãos com água e esfreguei seu rosto com a ponta dos dedos gentilmente até sair a tinta. Minhas costas protestaram quando me curvei.
— O que minhas meninas estão fazendo?
Levantei a cabeça e vi David parado na soleira da porta, seu sorriso era branco ofuscante, deixava as profundas covinhas a mostra. Os olhos com uma expressão brincalhona já possuiam algumas rugas. Ele era vários anos mais velho do que eu e a diferença era notável, mas eu nunca me importei e mesmo após cinco anos juntos e eu ainda perdia a fala toda vez que o via.
— Estamos planejando uma vingança contra você, papai. Eu vou jogar tinta na sua mala e comer bolacha na sua cama. — Sua expressão séria só deixava a situação mais engraçada.
— Poxa, então não vou poder te levar no bosque, já que vou estar limpando minha mala e minha cama... — Ele fez um biquinho e virou as costas, mas antes de dar o primeiro passo foi atacado pela pequena que agarrou sua perna.
— Não!!! — Choramingou. — Não vai sem eu!
Ele abaixou a acariciou suas tranças — agora quase desfeitas.
— Eu não vou a lugar nenhum sem você, tampinha!
Eu estava quase chorando enquanto assistia as duas pessoas que eu mais amava no mundo, provavelmente culpa dos hormônios, mas eu sentia que meu coração explodiria com tanto amor. Mal sabia eu que aquela cena ficaria guardada na minha memória durante dezesseis anos, tão nítida quanto no dia em que aconteceu.
Pedi uma pizza assim que eles saíram no fim da tarde, Marcy levou uma espada de madeira, caso precisasse “defender” o pai de algum animal. A casa já estava quase toda mobiliada, faltava a sala, mas os móveis viriam assim que terminássemos de pintar. Tudo ocorreu mais rápido do que o esperado com a ajuda de alguns vizinhos, que estavam ansiosos por terem mais um casal de amigos na vizinhança, eles tinham uma filha de um ano chamada Luella, que não desgrudara dos bonecos Ken da Marcy. Andei de um lado para o outro com uma sensação estranha, me sentia inquieta. Quando a pizza chegou a levei para dentro e comi metade. Teria comido mais se meus dois aventureiros não tivessem voltado.
— E ai, como foi? Quantas fadas você viu? — Perguntei a Marcy.
— Eu sei que eram gavalumes, não precisam me enganar mais! — Ela respondeu, indo direto na caixa de pizza.
Nós rimos.
— São VAGAlumes, Marcy. — Corrigiu o pai. — E antes de comer vá lavar as mãos, mocinha. — Disse David.
Marceline fez um bico, com os ombros curvados seguiu para o banheiro dramaticamente.
Escutei tudo sobre a aventura deles no bosque, como era grande e alguém tinha até amarrado um balanço de pneu em uma árvore com galhos fortes. David levantou-se do lençol esticado no chão e se espreguiçou, eu sabia que ele teria que ir trabalhar no shopping em uma hora e me senti miserável, era horrível passar as noites sozinha. Sentindo meu desapontamento, ele ajoelhou e me beijou levemente nos lábios.
— Ewwww! — Gritou Marceline, levantando-se e correndo para o seu quarto.
Ela odiava demonstrações de afeto. Nós rimos.
David pousou as mãos sobre minha barriga e acariciou, me deu um beijo na testa e foi tomar banho.
Cada vez que ele saia de perto de mim levava um pedaço meu consigo, eu sabia que algo poderia dar errado nessa loucura toda que era nossa vida, sabia que o que ele era poderia nos colocar em grande perigo e mesmo assim aceitei de bom grado passar a vida ao seu lado, afinal, quando a vida lhe dá de presente um grande amor, como poderia recusar? No começo não quis acreditar nas coisas que ele me contara, no dever que tinha de guardar um portal que poderia arruinar o mundo, caso não existissem pessoas como ele. Apesar de ainda ser humano, seu sangue era especial e vinha de uma linhagem muito antiga de Guardiões, que tinham habilidades especiais para lidar com os poderes e responsabilidades trazidos pelos portais, mas exigia constante treinamento. Já ocorrera casos em que o gene de Guardião pulou uma ou até duas gerações, normalmente não mais que um dos filhos tinha o gene, quase sempre o mais velho. Eu temia pela minha Marceline.
O silêncio da casa me deixou em alerta, criança em silêncio era sinônimo de problema. Entrei no quarto da pequena para ver o que estava aprontando só para encontrá-la deitada na cama na horizontal, os pés pendurados para fora numa posição desajeitada e mesmo assim ela dormia profundamente. Ela estava suja de terra, os pés encardidos e a boca suja de molho de tomate estava ligeiramente aberta. Era a oportunidade perfeita para uma foto. Sai do quarto na ponta dos pés e caminhei até o quarto ao lado, em cima da cama estava uma velha câmera fotográfica junto com outras bagunças. Tirei fotos de vários ângulos, tentando conter a risada. Era coisa mais fofa do mundo.
Senti duas mãos me abrançando pela cintura e inclinei a cabeça para trás, apoiando a cabeça em seu ombro. Ele cheirava a sabonete e perfume masculino.
— Mal posso esperar para exibir essas fotos na formatura dela, de prefêrencia em uma televisão enorme! — Ele disse, rindo.
— Não se eu chegar primeiro e distribuir cópias para todos os amigos dela. — Respondi.
— Somos pais horríveis, não somos? — Ele disse em um tom brincalhão.
Gargalhamos.
Marceline se mexeu na cama, coçou a bochecha rosada e voltou a dormir.
— Eu preciso ir!
Meu coração se apertou. Assenti.
— Voltarei para você, amor.
Ele me virou de frente, olhando nos meus olhos por alguns segundos antes de beijar a ponta do meu nariz, depois minha barriga.
Sempre que ele saia para “trabalhar” me dizia aquelas palavras, e apesar de eu saber que ele não tinha controle do que acontecia, aquilo sempre parecia me tranquilizar. Deixei minha filha dormindo, ela poderia tomar banho pela manhã, parecia estar exausta e eu não teria coragem de acordá-la.
Peguei no sono assim que sai do chuveiro, o banho quente me relaxou e deixei o cansaço me vencer.
Acordei com um estrondo vindo da sala, meu coração a mil por hora, as cortinas afastadas da janela do quarto deixava a luz pálida da lua entrar e me ajudou a ir silenciosamente até o quarto de Marceline sem tropeçar em algo. Ela dormia na posição que eu a deixara depois de arrumá-la na cama do jeito certo, mas tinha chutado o cobertor para longe. A luz do corredor se acendeu e vi David vindo em minha direção, com olhos vidrados e passos largos. Ele se assustou ao me ver parada ali, pude notar que não esperava que eu estivesse acordada. Senti meu peito se apertar em angustia.
— Voltou mais cedo? — Perguntei, a voz falhando. Eu sabia que tinha algo errado.
Sua expressão se contorcia entre dor e determinação, como se estivesse enfrentando uma batalha interna. Ele mordia o lábio inferior com força quando passou por mim sem dizer uma palavra. O segui até o quarto e sentei na cama, muito chocada para dizer algo. Ele pegou uma mala preta desenhada com um brasão do fundo do guarda-roupa e rapidamente virou-se para sair pela porta, mas parou de costas para mim.
— As meninas não precisam saber que eu existi, vai ser mais fácil assim. Marceline logo se esquecerá de mim. — Sua voz era quase um sussurro. Os punhos fechados firmemente na alça da mala.
Você já sentiu alguma vez como se assistisse a uma cena do alto? Algo que estava acontecendo com você, mas não poderia estar acontecendo porque era irreal demais? Era como se, com um choque, minha alma tivesse deixado meu corpo e eu assistisse aquela cena de longe, sem acreditar. Levantei da cama e corri para porta da frente o mais rápido que minha barriga enorme deixou, mas já não tinha ninguém lá. Ele se fora, deixou o rastro de seu cheiro e não disse as quatro palavras.
Fale com o autor