Sala 7

2 Capítulo 1 - Sala 7


16 anos depois.

— Eu não vou assistir esse filme de novo, Adam! — Exclamei em voz alta, quase esmagando o celular entre os dedos. Não tinha jeito, ele era muito teimoso.

Eram sete horas da noite e esse infeliz do meu melhor amigo queria assistir um filme pela milésima vez. Juro por Deus que se eu não tivesse de pijama e com as pernas para alto, eu desligaria esse maldito telefone e iria até a casa dele, só para esmurrar a cara de pau desse condenado.

— Lori, é meu filme favorito, pleaase! — Pediu ele com a voz chorosa. — Hoje é o último dia de exibição. — Continuou choramingando. — Garota, você é muito chata. Sério.

— Chata? Adam, eu fui nessa reapresentação do filme no cinema da nossa cidade mais de duas vezes por VOCÊ. — Gritei completamente indignada com o que acabara de ouvir desse ingrato. — Mas ok, bom saber que eu sou chata, você vai precisar de mim muito em breve. — Desta vez o tom era ameaçador. Agradecia a Deus pela minha inteligência ser mais aguçada do que a dele, e estudar em um colégio particular só ferrava mais ainda a vida do menino, enquanto isso minha inteligência era gasta em um colégio de segunda.

— Última vez, Lori, por mim. — Pediu Adam com a voz mais manhosa que conseguiu fazer. — Eu faço o que você quiser. Prometo. Pode pedir qualquer coisa. — Ofereceu não tão manhoso agora.

Adam me conhecia bem o suficiente para saber até a hora de me fazer ofertas generosas. Ele sabia o quanto eu era viciada em livros e sempre que precisava de um favor ele me comprava com um livro novo, principalmente agora que minha mãe só me comprava coisas realmente necessárias, como livros escolares. Desde que Amanda lhe apresentou Jogos Vorazes ele só falava nisso. Bendita seja Suzanne Collins.

— Sussurros? — Perguntei empolgada, sorrindo de orelha a orelha.

— Por quê? — Indagou ele sussurrando. Que lerdo, cara.

— Não, idiota, não mandei você sussurrar. — Murmurei para ele e não pude deixar de soltar uma gargalhada. — Sussurros é o nome de um livro! — Expliquei por entre os risos, quase me engasgando.

— Ah! Devia ter explicado antes. — Disse ele parecendo estar bem constrangido.

— Vai passar aqui que horas, seu mala? — Perguntei, dando-me por vencida.

— Oito horas eu passo aí, chatinha. — Respondeu ele.

— Chatinha é o seu...

Tu, tu, tu...

Revirei os olhos e joguei o celular na cama ao lado, que deu uma cambalhota e caiu no chão com um estrondo horrível, se desmontando inteiro. Soltei um rosnado e levantei dando pisadas fundas no chão até chegar onde estavam espalhados os pedacinhos do Samsung Galaxy J1 Mini. Levei só alguns segundos para montar o celular e ligá-lo novamente, mas a configuração dele estava completamente errada.

“Hora: 00h00min

32/08/2017

Deseja alterar a hora e data do seu celular?”

Semicerrei os olhos e me aproximei mais da tela do celular para ter certeza de que eu não estava maluca, olhei para os lados – não havia ninguém – e acertei a hora e a data. Dessa vez coloquei o celular lentamente, até de um jeito meio teatral, em cima da cômoda de mogno. Ainda parada na frente da cômoda, abri a primeira gaveta e comecei a procurar por uma blusa que eu ainda não havia usado para ir ao shopping das outras vezes com o Adam, não que ele notaria, mas não seria legal. Eu tinha uma dúzia de blusas de lã do mesmo modelo por causa do inverno, ganhara duas semanas atrás da minha mãe, que tentava me dar o que podia com o salário que ganhava, e realmente não era fácil sustentar sozinha uma família inteira, então eu não estava em posição de reclamar. Escolhi a blusa roxa e joguei-a na cama. Abri a segunda gaveta e peguei uma calça jeans gasta e a joguei na cama junto com a blusa. A quarta gaveta era de roupas íntimas, a mais bagunçada de todas, então tentei não me demorar muito ali. Ao lado das sete gavetas ficava uma portinha que servia para mim como um sapateiro, e foi de onde eu tirei meu velho par de All Star mais sujos que o Presidente. Com a roupa separada, segui até o banheiro no fim do corredor a fim de tomar banho rápido, antes que o Adam chegasse, não queria ter que fazê-lo esperar mais meia hora como sempre.

Porta fechada.

— Marceline? — Gritei enquanto dava batidinhas repetitivas na porta.

— Acabei de entrar, Lorena! — Respondeu a irmã mais chata do mundo.

— Eu vou sair com o Adam, caramba. Já estou atrasada. Vai logo, menina! — Gritei impaciente.

— Vai sair com a ordem de quem, Lorena? — Gritou minha mãe do quarto ao lado do meu.

Soltei um muxoxo de desaprovação e comecei a caminhar toda curvada para o quarto dela. Como eu pude me esquecer de pedir para a minha mãe se eu podia ou não sair? Que burra! Adentrei seu quarto com uma expressão de tédio e me joguei preguiçosamente em sua cama. Minha mãe estava sentava na mesma com uma pasta vermelha cheia de papéis. “Contas a pagar” Lia-se na etiqueta colada na pasta. Engoli seco e tentei fazer uma cara melhor, às vezes me esquecia do quão grata eu deveria ser.

Minha mãe sorriu para mim, um sorriso lindo. Ela não tinha mais vinte anos, e mesmo apesar das visíveis olheiras de cansaço embaixo de seus olhos ainda era muito bonita. Seu cabelo castanho pendia em cachos um tanto descuidados até sua cintura e seus olhos eram cor de mel. Tinha algumas sardas no rosto, principalmente no nariz, mas eram bem clarinhas e possível cobrir com pouca maquiagem. Eu nem parecia ser sua filha, não era tão bonita quanto ela, talvez tivesse puxado meu pai, mas não saberia dizer, já que ele era um assunto proibido.

— O que foi? — Indagou ela enquanto me fitava com curiosidade.

— Nada. É que você é bonita. — Respondi. Não, eu não estava puxando o saco dela. Não naquele dia.

— Ok, você pode ir ao cinema com o Adam, Lori. Só não volte muito tarde, querida. — Murmurou ela gentilmente.

Meio estranho esse lance da minha mãe ser gentil. Normalmente ela estava sempre gritando comigo e com os meus irmãos, mas não a culpávamos, pois sabíamos que ela estava sempre sob muita pressão devido às circunstâncias. A vida não tinha sido nada gentil com ela.

— Tudo bem! — Sorrindo, me levantei da cama e dei um beijo em seu rosto.

Sai do quarto da minha mãe e fechei a porta para a gritaria seguinte não a incomodar.

A porta do banheiro ainda estava trancada e eu ainda podia ouvir minha irmã cantarolando um sertanejo meloso. Fechei o punho e bati com força na porta, quem sabe isso a ajudaria a se lembrar de que não era a única habitante do planeta Terra.

— Eu juro que se você não sair daí em um minuto eu vou... — Minha gritaria foi interrompida pela repentina aparição do meu irmão mais novo.

— Vocês estão brigando de novo, Lori? — Indagou o pequeno com a voz rouca e esfregando os olhos com as costas das mãos.

Thomas era a minha paixão. Seus olhos eram iguaizinhos os da minha mãe e seu cabelo era ruivo igual ao do seu pai. Minha mãe casou-se de novo alguns anos depois que eu nasci e meu pai nos abandonou, então eu tratava o Miguel como se fosse meu pai, mas ele faleceu dois anos depois do nascimento do meu irmão, deixando todos nós em luto eterno. Thomas tinha sorte de não se lembrar dele, seria mais fácil assim, pelo menos para mim era com relação ao meu pai.

— Oi, anjinho! Não estamos brigando não, eu só estou um pouco zangada com a Marcinha porque ela está demorando no banho e isso não pode. — Expliquei muito tranquilamente.

Agachei-me para ficar de sua altura e o abracei. Ele era muito pequeno para um menino de seis anos, o que o deixava ainda mais fofo.

A porta do banheiro se abriu e a descarada da Marceline passou correndo para não levar uns tapas e entrou no nosso quarto, batendo a porta atrás dela. Por mais que ela fosse dois anos mais velha eu ainda vencia quando saíamos na porrada.

— Preciso tomar banho, eu vou sair. — Disse ao Thomas. — Já terminou o dever de casa? — Perguntei em tom autoritário, às vezes eu parecia sua mãe.

— Não! — Respondeu ele e abaixou a cabeça.

— Então vai lá terminar, Thom. — Sorri de lado e, com as duas mãos, baguncei seu cabelo e entrei rápido banheiro antes que ele começasse a resmungar.

A roupa não ficou muito legal em mim, principalmente a blusa de lã, mas a blusa de moletom cinza não deixou a outra aparecer, graças a Deus. Eu nunca fora fã de maquiagem e também nunca precisei, eu poderia reclamar que meu cabelo castanho escuro era sem graça, meus olhos castanho-claros, mas não podia reclamar da minha pele, porque era perfeita, ainda mais para uma adolescente, só era um pouco seca, principalmente no inverno violento que fazia em Arvel — uma cidade conhecida pelos bosques exóticos, o que atraia turistas em determinadas épocas do ano, a maioria casais em lua de mel que não tinham uma boa vida financeira. Mas a cidade também possuía o mais requintado licor de malte do estado de São Paulo, pelo menos isso, né.

Já eram quase oito horas e... Ding dong!

Apanhei a pequena mochila jeans que eu carregava por todos os lados e quase voei porta afora. Adam estava com um sorriso gigante no rosto sentado no banco traseiro de uma SUV, o carro de sua mãe, Helena, que acenou para mim. Sorri para ela em resposta ao aceno e pulei para o banco traseiro do carro junto com o Adam, que me olhava como se fosse uma criança indo pela primeira vez para a Disneylândia.

— Hi, Lorena! — Cumprimentou ele. Ignorei.

— Adam, pelo amor de Deus, por que tantas vezes o mesmo filme? Tudo bem que nossa cidade não tem muitas opções, mas o mesmo filme um milhão de vezes? Fala sério. — Arvel poderia oferecer mais alternativas para adolescentes, pois não tinha quase nenhum ponto turístico para nós, a não ser um shopping, e eu sabia de cor e salteado todas as lojas daquele lugar. A cidade era tão no fim do mundo que a maioria de sites, como por exemplo, o Submarino, não conseguia localizar os endereços das pessoas, provavelmente pela quantidade excessiva de plantas confundiam Arvel com uma floresta gigantesca.

— Cinco vezes, só — Respondeu ele — A saga acabou e eu ainda não superei, ok? Eu não assistia o primeiro filme desde o ano de lançamento! — Ele tinha uma expressão séria enquanto falava. — Esse ano faz cinco anos desde que estreou o primeiro filme no cinema, por isso eles resolveram reexibir. Você lembra quando estreou aqui? Meu Deus, eu assisti onze vezes! — A peste não tirava o sorriso de satisfação do rosto. Como era possível alguém tão viciado assim em alguma coisa? Ok, eu não era exatamente uma pessoa normal, pois tinha uma coleção bem extensa de coisas relacionadas a Harry Potter e fora a todas as pré-estreias dos filmes desde que aprendera a ler, mas, mesmo assim, nunca gastei dinheiro para assistir o mesmo filme mais de duas vezes no cinema, eu era paciente o suficiente para esperar sair em DVD e comprar, aí sim assistir mais quinhentas vezes. Mas com o Adam as coisas eram diferentes, ele podia assistir o mesmo filme no cinema quantas vezes quisesse porque a mãe dele pagaria, ele era assim, bem mimado por ser o filho único, apesar de não ser exatamente o filho que a dona Helena e seu Patrício esperavam, pois Adam era o típico garoto mimado e preguiçoso, mas tirando a aversão pelos estudos ele era uma pessoa realmente incrível.

— Eu aposto que você já decorou todas as falas dos personagens. — Afirmei olhando para a sua cara de pau.

— Não! Não! Prim! Eu me voluntario como tributo! — Gritou ele fingindo estar correndo e ofegando com a mão direita sobre o coração teatralmente fitando o nada.

— Você é muito idiota, cara! — Não conseguia parar de rir com a sua atuação de segunda.

Ele jogou o projeto de franja muito lisa para trás e sorriu muito presunçoso.

— Eu sei que sou demais! — Ele voltou a olhar para o nada e continuou sorrindo, então fez uma reverencia para alguém invisível e fingiu pegar algo no ar. — Obrigada a todos os meus fãs, acessem o meu site AdamBernardi.com e recebam as últimas novidades sobre a minha pessoa. Beijos. — Ele continuava a falar para uma plateia invisível.

A dona Helena não parava de rir no banco do motorista enquanto dirigia a caminho do shopping Kingston. A cidade era pequena, então o trajeto até o shopping não era tão longo assim. Se fossemos caminhando para o Kingston levaríamos uns cinco dias, contando as paradas para descansar, comer, ir ao banheiro e dormir durante umas boas dez horas.

— Seria legal se tudo o que nós queremos realmente acontecesse. — Comentei em um tom sonhador enquanto olhava janela afora.

— Vai acontecer, Lori! — Disse o Adam colocando sua mão sobre a minha.

— Sei lá, é que parece tão impossível, sabe? Eu nunca ouvi falar de alguém que mora no interior de algum país que não seja os Estados Unidos conseguir alguma fama. — Suspirei.

— Sempre tem uma primeira vez. — Murmurou.

— Só acho que deveríamos ter outros planos em mente, porque por mais que nós pensamos em fama, por mais que no fundo dos nossos corações queremos mais que tudo ir para Hollywood convenhamos esse é o sonho mais difícil de todos. Isso é se não for impossível. — Expliquei, agora olhando em seus olhos.

— Nada é impossível quando se tem vontade e garra o suficiente para alcançar tal coisa. Nosso sonho não é impossível, só tem algumas falhas no meio, tipo, eu realmente não acho que um dia a Lea Michele vai se perder e vir parar na nossa cidade, aí por acaso ela vai parar no Teatro Marchele, ver a gente em um ensaio, nos achar incríveis e então vai nos enviar diretamente para Hollywood. — Ele balançava a cabeça negativamente com pesar e depois nós rimos. Realmente aquilo não aconteceria.

Dona Helena estacionou o carro um pouco antes de chegar ao shopping, se despediu e foi embora dizendo que viria nos buscar às onze horas da noite. Caminhamos sem demora até a entrada do Kingston, era realmente muito bonito e grande para um shopping de uma cidade pequena, mas acho que o tamanho era para compensar a ausência de mais shoppings e pontos turísticos em Arvel. Passamos pelo estacionamento abarrotado de carros e uma loja de autopeças e passamos pela porta dupla de entrada. Uma loja enorme de doces estava a nossa esquerda e outra de brinquedos a nossa direita assim que entramos. O local era muito gelado, muito mais do que estava lá fora, o que fez eu me encolher ainda mais dentro da minha camada dupla de blusas. Me arrependi de não ter pegado o cachecol vermelho que minha mãe tricotara para mim no seu último tempo livre. Começamos a nos aprofundar dentro do shopping enorme e cheio de pessoas dentro de suas roupas de inverno, o cinema ficava no terceiro andar, o que eu apostava o meu pescoço que era o andar mais cheio. Por toda a parte havia lojas e pessoas de uniforme a caminho da praça de alimentação, simplesmente eufóricas pensando na folga do fim de semana.

Pegamos as escadas rolantes até chegarmos ao terceiro e último andar, e, como previsto, era mesmo o local mais lotado. Boa parte dos adolescentes da cidade se encontrava ali, alguns nas enormes filas para comprar os ingressos, outros babando no pôster gigante de Jogos Vorazes e alguns já entravam para assistir ao filme. Graças a Deus havia várias salas de cinema, então não seria problema achar alguma que estava passando o filme tão amado e desejado por todos, já que praticamente todas exibiriam o mesmo.

— Me sinto nauseada.... Tem muita gente aqui, cara. — Comentei com o Adam, girando nos calcanhares para olhar em volta.

— Ah. Meus. Deus. — Gritou indo de encontro com um grupo de pessoas que vinham em nossa direção.

— Ainda não consigo acreditar que estão reexibindo o filme aqui na nossa cidade depois de tanto tempo que estreou! — Comentou uma menina de cabelos azuis e olhos dourados.

Não podia acreditar no que os meus olhos estavam vendo; no grupo de pessoas bem na minha frente havia tanta gente bizarra que fazia meus olhos arderem. Eles realmente levavam a sério esse lance de Jogos Vorazes. Eu estava começando a sentir que estava presa no próprio filme na parte que aparece a Capital de Panem, só faltava aparecer alguma mutação.

Adam e o resto do pessoal não paravam de tagarelar com muito entusiasmo, e fiquei muito grata por ele não ter me incluído na conversa, eu ia me sentir meio poser só por não ter o mesmo entusiasmo que eles, apesar de ter lido a trilogia.

— A Amanda está na fila comprando os nossos ingressos. — Disse a menina de cabelos azuis.

— Se eu fosse você não demoraria muito a comprar, ouvi uns caras da bilheteria dizendo que os ingressos esgotariam em meia hora. — Alertou um menino moreno e baixinho.

— Não! — Exclamou o Adam quando olhou para as filas enormes das bilheterias. — Vamos indo, Lori, se eu não conseguir os ingressos vou me suicidar. – O Adam estava pirando. Agarrou-me pelo braço e foi me arrastando até a menor fila.

— Acho que nem todo mundo que está aqui vai assistir esse filme, Adam. Relaxa. — Disse a ele a fim de deixá-lo mais calmo.

— Já sei! — Exclamou. Mais uma vez fui puxada pelo braço enquanto ele caminhava passando no meio das pessoas até chegar quase em primeiro lugar da fila. Então cutucou no braço uma menina e quando ela se virou ele sorriu. — Olá! Eu quero comprar o seu lugar na fila. — Disse ele com a maior naturalidade do mundo.

— Como? — Indagou a menina sem entender.

— Vai comprar um batom, sei lá! — Disse ele à loira confusa. Tirou a carteira de couro preto do bolso e sacou uma nota de vinte reais, então entregou a menina.

— Não entendi! — Ela permanecia claramente confusa enquanto encarava o dinheiro.

— Adam está te pagando para você dar lugar para ele na fila! — Expliquei impaciente.

— Ah! — Exclamou ela, finalmente entendendo. — Ok. Tchau! — Disse ela muito animada e saiu dali.

Adam me olhou com um sorriso maroto nos lábios e tomou o lugar onde antes estava a loirinha lesada.

Poucos minutos mais tarde éramos os primeiros da fila. O homem da bilheteria usava uma roupa muito estranha, bem estilosa para um cara que trabalhava na bilheteria do shopping. Seu cabelo era loiro quase branco e todos os seus dentes eram de ouro, assim como as correntes penduradas em seu pescoço. Seu sotaque era um pouco estranho, meio espanhol, com certeza ele era americano, coisa que não era anormal em Arvel, já que a cidade fora fundada por americanos. Não pude deixar de reparar no homem estranho da bilheteria enquanto o Adam comprava nossos ingressos. Realmente parecida que o homem vivia em um mundo diferente.

Peguei os ingressos da mão do Adam para guardá-los no meu bolso antes que ele perdesse, mas antes parei para ler o que estava escrito ali:

“Cinemad – Shopping Kingston

Arvel, SP, Brasil.

Jogos Vorazes

Sessão

05/06/2017

21:00

Sala 7

Ingresso

INTEIRO

R$ 22,00”

Estava escrito o mesmo no outro ingresso, enquanto guardei-os no meu bolso e fui logo para a entrada do cinema. O apressadinho do Adam foi indo na frente enquanto eu lia os ingressos e quase nos perdemos. Paramos para comprar o balde de pipoca e os refrigerantes, por sorte desta vez a fila não estava tão grande, pois a maioria das sessões já havia começado. Na entrada do cinema havia duas placas com setas indicando as salas.

Viramos para a direita e entregamos o bilhete a uma moça que mascava chiclete e olhava fixamente para um celular que parecia ser importado, porque eu nunca ouvira falar dele. Estava começando a achar que eu era a única pessoa que não era rica em Arvel. A mulher recolheu nossos ingressos, fez um rasgo e nos devolveu, então entramos em um corredor com um tapete azul marinho. Havia cinco salas de cada lado, a nossa ficava do lado esquerdo. Outra placa com letreiros de cores muito fortes estava posta na entrada da sala sete e seus dizeres eram bem ridículos:

“Sala 07 – Sua aventura começa aqui!”

Revirei os olhos e bufei, com certeza assistir Jogos Vorazes pela vigésima vez não era nenhuma aventura, a menos que o Josh Hutcherson fosse aparecer em carne e osso do nada no cinema, isso sim seria uma aventura digna de contar para o mundo inteiro.

— É, vamos lá... — Murmurei para mim mesma enquanto entrava na sala me preparando psicologicamente para a nossa “aventura”.