Sake – Nossa história oficial
3 Capítulo 3
Sebastian Davies encarou as próprias pupilas através do espelho. Se tivesse que listar tudo que aprendera sobre si mesmo durante seus quase vinte e três anos, o primeiro tópico seria que era bonito. Mais do que muita gente enxergava e menos do que alguns o achavam, mas bonito. Colocou as mãos sobre os olhos avermelhados e escorregou os dedos até que as pontas sobrepusessem as bolsas que carregava debaixo dos cílios inferiores. Estava mais elegante do que havia se preocupado em estar nos últimos meses e, justo naquela tarde, resolvera acordar com as maiores olheiras que já exibira.
Não era para menos.
A noite anterior fora o maior desastre de todos os tempos. Não contente com apenas insinuar que era um frouxo, o ex-namorado também o tinha chamado de vendável. A última mensagem que recebera no quarto do irmão de Melanie não tinha passado perto de ser o fim. Dali para frente, o discurso havia se tornado ciumento e desrespeitoso em um nível que Sebastian nunca imaginara que pudesse partir do ex. Tudo bem. Não era a primeira vez que ele o decepcionava.
Agora sabia que estivera enganado sobre absolutamente tudo. Nem sequer o conhecia. Afinal das contas, ele havia sido apenas um garoto que conhecera em um bar, batalhara por seguidos finais de semanas até conseguir atenção, namorara por míseros vinte dias e demorara três meses para superar. Se é que podia chamar o estado atual de superação. O homem havia voltado por uma noite, com argumentos fracos e especialmente montados para machucá-lo, e conseguira o que queria. Até onde seu vocabulário se estendia, aquilo não era superar.
No entanto, Sebastian tinha a perfeita consciência de que era por isso que estava ali, agora. Porque o ex o desafiara a se mostrar melhor do que nunca, após acordar no início da tarde com a cabeça dolorida da noite mal dormida e os olhos ainda ardentes do choro. Sabia que aquele era o motivo de ter acabado com o cabelo arrepiado em um formato diferente e mais comportado do que o normal, depois de passar mais tempo do que costumava em seu preparo. Por isso estava dentro de jeans escuros e da jaqueta mais bonita que possuía, preta e com duas fileiras de botões grandes, fechada por cima de um cachecol cinza. Porque mostraria a si mesmo que era melhor do que aquele homem.
Saiu do banheiro e atravessou o corredor até o pequeno quarto, onde as caixas com o violão e o microfone já aguardavam em um canto. Colocou a carteira e o celular nos bolsos exteriores do agasalho de moletom grosso, então saiu com o equipamento nas mãos. Baixou os olhos ao receber um sorriso do outro lado da sala e não conseguiu evitar que a resposta viesse no mesmo formato: os dentes pontudos aparecendo levemente em um curto espaço entre os lábios, afundados nos cantos.
— Bonitão! Pensei que fosse chorar o dia inteiro, e aí você aparece assim? — A testa do garoto negro, deitado quase que de ponta-cabeça no apertado sofá de dois lugares, criou um vinco curioso. O adolescente, aspirante a jogador de basquete, ajeitou o corpo devidamente contra o encosto do sofá e apoiou os pés no chão, antes de continuar. — Já posso parar de ensaiar como vou perguntar se tá tudo bem?
— Não precisa se preocupar. — Sebastian entortou os lábios, ainda discretamente sorridentes, e desviou os olhos para o teto. — Esse apartamento podia ter paredes mais grossas. Especialmente por causa de você, não de mim.
Aaron Taylor se demorou com a boca entreaberta. Chacoalhou devagar a cabeça para os lados e murmurou lentamente a única resposta em que conseguia pensar para aquela insinuação suja, depois de ter se mostrado tão cuidadoso com o novato da república:
— Que absurdo.
O que começou como uma risadinha virou uma gargalhada maldosa na boca de Sebastian. Ele andou até o garoto sentado e se inclinou para dar um beijo em sua testa.
— Eu vou tocar em um restaurante, não devo voltar tarde. É um pouco caro, então também não vou te convidar. Talvez numa próxima?
Em um pulo apressado, Aaron tombou novamente o corpo, até que a cabeça se encostasse no braço do sofá.
— Você disse caro? Não fiquei sabendo de nada. Numa próxima, com certeza.
O músico olhou novamente para o teto ao soltar uma risada forte e ritmada pelo nariz, apenas sem som. Logo estava andando para o térreo. Esperou alguns minutos escondido do frio, até que o carro conhecido estacionasse na frente do prédio. Abriu os dois portões, o primeiro com um botão ainda do lado de dentro, o segundo com chave, e enrolou-se até o motorista alcançá-lo para ajudá-lo a guardar os instrumentos no porta-malas do sedã preto.
Sebastian deu a volta no carro, seguindo sua indicação, e olhou para ter a certeza de que não seria atropelado. Andou poucos passos pela rua até encontrar a porta traseira do lado direito, mas precisou se afastar quando ela foi empurrada na sua direção. Sorriu para si mesmo e terminou de abri-la, antes de se colocar dentro do carro e esfregar as mãos geladas.
— Que frio!
Melanie escorregava de volta para o outro lado do assento, enquanto mantinha o rosto virado em sua direção. Ele esperou por qualquer coisa, um “olá” que fosse, mas não tardou a entender que o máximo que conseguiria seria aquele olhar verde. Não por estar enjoado, mas por ser o tom mais bonito daquela cor que já vira em qualquer outro lugar. Ou talvez estivesse mesmo enjoado, porque logo soube que a falta de resposta era uma reação nervosa da companheira ao que estava prestes a acontecer.
Em uma tentativa de lhe passar segurança, esticou a mão esquerda na direção dela, com a palma virada para cima. Em retribuição, seus lábios pintados de batom rosado esboçaram um sorriso levemente mais confiante, e os dedos longos não tardaram a se colocar entre os seus. O silêncio durou até a entrada do bistrô de esquina, em um bairro mais próximo à casa dos Ritter do que à república de Sebastian, mas ela havia insistido em buscá-lo.
Sebastian ergueu os olhos para a calçada, na rua de mão única, e os fixou no restaurante ao lado da amiga. Estivera ali cerca de um mês antes, logo quando chegara na cidade, e perguntara como poderia fazer para ser o responsável pela música ao vivo e de gosto refinado por uma noite. O ambiente de luzes fracas, mesas de madeira escura e cadeiras estofadas roubara sua atenção desde o primeiro instante.
Aquele era o lugar mais charmoso que já havia visto, embora acreditasse que o adjetivo não devesse ser usado dessa forma, para falar sobre coisas sem vida. Mas a verdade era que ele parecia ter uma alma, a ponto de fazê-lo querer possuir dinheiro suficiente para dizer que era seu restaurante preferido em todo o mundo. Era difícil poder fazer isso quando não tinha condições de entrar ali como cliente ao menos uma vez.
Lembrou-se de descer quando ouviu a porta do outro lado do carro se abrir. Logo estava novamente com o nariz no vento frio do fim de janeiro, embora dizer isso para alguém como ele, nascido em Nova York, fosse quase uma afronta. Sabia que, se estivesse do outro lado do país, na casa dos pais, estaria debaixo de bolos de neve. Essa era uma das coisas das quais não sentia saudades por lá. Naquela altura, enquanto andava para retirar os instrumentos do porta-malas, prestes a tocá-los pelas próximas quatro horas, já sonhando com a recém-conhecida voz de Melanie, provavelmente não sentia saudades de nada.
Ela parou ao seu lado e deixou que o motorista cuidasse de seus equipamentos. Enquanto isso, erguia o celular na frente dos olhos e batia as unhas compridas na tela com uma velocidade que fazia Sebastian questionar se ela realmente conseguia acertar os botões desejados.
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